segunda-feira, 16 de abril de 2012

Integrante da UBM discute culpa e responsabilidade atribuídas às mulheres sobre o aborto

O corpo de um recém-nascido foi achado dentro de um lixo de um hospital particular da cidade de Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá (MT), na última segunda-feira (9).  A mãe, uma jovem de 19 anos, chegou ao local com dores renais e tomava medicação. Ela foi até o banheiro onde teria feito o aborto. Foi outra paciente que achou a criança, uma menina com um pouco mais de 2kg.

Janete Carvalho, da União Brasileira de Mulheres, fala, nesta entrevista, sobre aborto e a condição de subalternidade que a sociedade masculina insiste em manter a mulher. Ela critica a igreja conservadora que considera a mulher a “personificação do mal”. E abomina a ideia de que os homens têm direito de agredir e até estuprar, quando não há consenso no jogo do prazer.

Por que só a mulher é responsabilizada nesses casos?
Há o peso da questão cultural. Primeiro, porque nós mulheres fomos feitas para procriar, como se fosse a nossa primeira tarefa. A sociedade tem essa esfera que acredita que a mulher tem que ter, instintivamente, uma estrutura psicológica prévia, como se fosse um instinto materno. Nós deixamos de avaliar o contexto social em que esses casos acontecem, a condição em que essa mulher é colocada e tem uma contradição da sociedade em esperar que isso seja um instinto materno. Os que ficam escandalizados com casos como o dessa menina, tem essa posição a partir da estrutura em que estão inseridos, da formação que tiveram e das condições de vida material que tem. Então a mulher acaba carregando esse fardo. A responsabilidade de ter ou não o filho, sempre acaba sendo das mulheres.

Não há nada na legislação que responsabilize o pai dessa criança?
Hoje é possível ver que a legislação mudou até no que diz respeito ao reconhecimento de paternidade. Quantos filhos eram registrados com pais desconhecidos? Hoje as coisas estão mudando e os homens estão começando a fazer o reconhecimento de seus filhos.

Não sei afirmar categoricamente se há uma lei que assegure isso, mas o que nós esperamos, enquanto movimento, é que essa questão comece a ser colocada juridicamente, que nós comecemos a normatizar e dar mais amparo a essas mulheres que ficam sozinhas nessa situação.

A menina está sendo responsabilizada sozinha nesse caso, apareceu na mídia com o rosto tampado, como uma criminosa. Mas e o pai?

Até onde foi o medo dessa mulher em assumir essa gravidez? Ela nem mesmo contou para a família que esperava um filho, ou seja, há um histórico de muito sofrimento nisso tudo.

Em que pé está a discussão sobre aborto dentro do movimento de mulheres?
Essa é uma questão polêmica. São discussões que estão sendo travadas no Congresso Nacional, a descriminalização do aborto. É um assunto complicado porque o Estado não é laico de fato, pois é carregado de inclinações religiosas, os próprios congressistas se manifestam contrários. Nós que nos manifestamos abertamente, sofremos retaliações, porque é como se nós estivéssemos concordando com a atitude de uma mulher de ter relações sexuais de qualquer forma e abortarem em seguida. Na verdade, o que nós dizemos é que a mulher tem o direito de escolher se quer ser mãe ou não. Então, se ela tem uma gravidez indesejada, é muito pior que ocorra um fato como esse da menina que jogou o filho no lixo, trazendo estragos psicológicos e físicos, que não são amparados pelo Estado. Nós acompanhamos casos no Brasil, como um no nordeste, há dois anos, de uma menina de 12 anos, que foi estuprada, e que não tinha nenhuma estrutura para seguir com a gravidez. Feito o aborto, os padres quiseram excomungar o médico, católico. Teve também o caso de um deputado que apresentou um projeto de lei que dava o que nós apelidamos de “bolsa estupro”: um pagamento para as mulheres que seriam vítimas de estupro, para que elas criassem os filhos gerados a partir da violência sexual. É como se fosse legalizada a prática de violência contra a mulher.

Em todas essas discussões, em todos esses casos, o que se vê é que o senso comum é colocar a culpa da mulher. Culpa tanto pela gestação indesejada, ocasionada pela falta de prevenção (que nesse contexto, também é responsabilidade apenas da mulher), quanto pela decisão de abortar ou não. Você concorda com isso?
Recentemente, um padre declarou na internet que a mulher é a personificação do mal. Então a visão é de que a mulher está sempre provocando os homens. Já tive conhecimento de que um avô disse ter violentado sua neta de 8 anos, porque a menina sentou no seu colo. Quer dizer, “a mulher provoca com a roupa, com atos”… Tudo isso pra tirar a responsabilidade do homem, como se somente a mulher tivesse a obrigação de conter seus desejos sexuais e o homem não. O que significa que se não há o consenso sexual entre homem e mulher, eles tem o direito de violentá-las?



Fonte: 24HorasNews

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes