quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Artigo - O prolongamento da adolescência e a economia nos tempos atuais



Por: Natalia Seixas


Nunca fiz textão no FB, mas dessa vez tive que fazer porque estou extremamente incomodada com um artigo que minha mãe me marcou por ter achado hilário. O título da matéria da qual estou falando é “Adolescência agora vai até os 24 anos de idade, e não só até os 19, defendem cientistas”, só para estarem cientes de que estou falando.

Eu não irei discutir a parte biológica, pois não cabe a mim como uma cientista social debater uma área que não sei absolutamente nada. Contudo, irei falar sobre um trecho que me deixou furiosa. Eis aqui a parte entre colchetes:

["Apesar de muitos privilégios legais da vida adulta começarem aos 18 anos, a adoção das responsabilidades e do papel de adulto geralmente acontece mais tarde".

Ela diz que postergar o casamento, o momento de ter filhos e a independência financeira significa "semidependência", o que caracteriza que a adolescência foi estendida.

No Brasil, a permanência por cada vez mais tempo dos jovens na casa dos pais é uma marca da chamada "geração canguru", nome dado pelo IBGE em 2013 ao fenômeno que engloba pessoas de 25 a 34 anos e que vem crescendo no país.]

Eu não pude acreditar que aos meus 27 anos de idade fui obrigada a ler essas frases. Tem tanta coisa errada e como reduzem um problema de larga escala, colocando a culpa na minha geração - a famosa geração Millennial. E pelo amor de Deus, Millennials não são os adolescentes de hoje em dia não, okay? São a galera que nasceu entre 1982 e, dependendo do cientista social, 1995/1997. Turminha que nasceu em 98 pra cima, não faz mais parte da minha geração - só pra explicar já que geral tá sendo erroneamente rotulado em todo lugar que vejo.

A questão é: não estamos adotando o papel e a responsabilidade de adulto mais tarde porque queremos. Porque somos imaturos. Estamos adotando a vida de adulto mais tarde porque a geração da minha mãe destruiu a economia, logo afetando todas as bases da sociedade. Simples assim.

Eu cresci escutando que se eu estudasse bastante, entrasse numa faculdade pública, me formasse, já sairia de lá com emprego garantido porque eu sou uma pessoa qualificada. Gente, quantas e quantas vezes ouvi que estudo era única forma de pobres e classe média baixa (que eu sou) melhorarem de vida? Literalmente a minha vida inteira. E foi exatamente o que eu fiz.

Passei quinze anos da minha vida estudando que nem uma filha da puta, sacrificando minha saúde mental para garantir uma vida estável quando terminasse a faculdade. Sabe o que tenho hoje? Depressão e ansiedade. Foi o que eu consegui acreditando na famosa meritocracia que eu cresci ouvindo tanto. Não tenho absolutamente mais nada. O que é extremamente frustrante para mim, pois cresci ouvindo como teria uma vida melhor por ter me formado numa das universidades top do Brasil. E eu sei que essa realidade não é só a minha, como também tenho noção que estou falando de um lugar de privilégio porque minha mãe teve condições de pagar colégio particular pra mim pra que eu tivesse base pra passar pra UFRJ. A maior parte da população jovem brasileira não tem essa sorte. Se já tá ruim para mim, que posso ser considerada uma profissional qualificada por uma das instituições de ensino mais prestigiosas da América Latina, imagine aqueles que tem que escolher entre estudar e passar fome ou trabalhar para poder comer e desistir de estudar. Porque essa é a realidade.

MERITOCRACIA NÃO EXISTE, SOU PROVA VIVA DISSO.

Agora pensa na minha situação: sacrifiquei absolutamente tudo pelo meu diploma universitário para ter uma vida melhor que a da minha mãe e da minha avó. Exceto, que não há emprego e quando consegue um, ganha no máximo R$ 2,500 reais (o que nunca aconteceu comigo, o máximo que ganhei foi 980 reais). Sabe o que você pode fazer com R$ 2,500 reais no RJ? Pagar aluguel, água, luz e é isso aí. Estou falando na minha situação de formada pela UFRJ, okay? Aqueles que só recebem um salário mínimo é impossível viver de maneira digna. Digna que eu falo é ter teto, água, comida, luz, internet (porque olha só pobre merece se divertir também, tá? Não é só privilégio dos ricos, não! Difícil entender o conceito que pobre é gente, eu sei. Imagino uma porção de mentes explodindo quando eu falo que pobre merece se divertir e não trabalhar que nem um escravo pra receber 950 reais no fim do mês. Mas essa é a verdade!).

Agora, se eu não consigo me sustentar sozinha com R$ 2,500 reais de forma digna, como posso adotar a responsabilidade da vida adulta, ou seja, casar e ter filhos? Impossível nesse quadro! Muito fácil apontar e dizer que estamos adiando tomar a responsabilidade de adultos por imaturidade, do que falar da falta de emprego, de como o salário mínimo não dá pra sustentar um individuo, quem dirá uma família inteira.

Gente, a única forma de você sair de casa hoje em dia e ser auto suficiente para a maior parte da galera da minha geração, é se você dividir casa e gastos com amigos e/ou parceirxs românticxs. Os únicos que saem de casa e conseguem viver sozinhos vem de uma situação privilegiada: herdou a residência de pais/parentes ou a família é abastada e conseguiu um emprego estável para o filho/filha dentro de seja lá o que for - e isso não é a realidade da maioria. Essa não é minha realidade tampouco.

A única coisa que eu concordo é que não nos sentimos adultos. Porém, também não nos sentimos adolescentes. Estamos, na verdade, presos nesse limbo infernal, em que temos noção que já deveríamos ter conquistado nossa independência por conta da nossa idade. E esse “dever” de alcançar a independência nos nossos 20s é resultado direto da criação que tivemos dos nossos pais. Afinal, eles cresceram num mundo em que bastava ter um diploma universitário de uma universidade como UFRJ e o emprego está garantido e vida estável pra sempre. Que não é a realidade mais. Isso acabou. Nada é garantido para aqueles que não tem mamãe e papai que, com salário combinado, tem uma renda maior de R$15 mil por mês.

Agora que desentalei isso da minha garganta, vou voltar pra minha cama e enxugar as lágrimas com meu diploma da UFRJ, porque é literalmente a única coisa que me serve.

Adendo: outra razão para que jovens não estão casando tão cedo em comparação às gerações passadas está na relação de não quererem se acomodar com o primeiro parceirx que tem como acontecia no passado - quando não era casamento arranjado. Não é vergonhoso esperar por uma boa pessoa para construir uma vida. Vergonhoso é se manter num relacionamento por décadas sendo abusadx emocionalmente, fisicamente e em que não há respeito mútuo. Honestamente, muito daqueles casamentos duradouros que ouvimos falar deveriam ter acabado no instante que o primeiro abuso ocorreu.

NÃO É MOTIVO DE ORGULHO PRA NINGUÉM SUSTENTAR UMA RELAÇÃO BASEADA EM VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.

E é isso aí galera!


Fonte: Facebook

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