terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Artigo - Padrões sociais, especialistas e automatismos ao lidar com pessoas



Por: Josiane Gadonski


Eu não trago textão, eu trago uma história. A minha.
Pouco mais que 5 minutos de leitura.
É um exercício muito triste contar coisas assim e abrir sua vida pros outros, mas penso que pode ser útil pra vocês, de alguma forma.

Aos 12 anos, quando minha família estava completamente horrorizada com meu sobrepeso de 7 kg (pois é), minha mãe decidiu me levar a uma endocrinologista, que prescreveu Levotiroxina sem sequer ter feito um exame laboratorial. A dose? Não lembro.
Mas paralelamente fomos também para outro médico, naturopata conceituadíssimo em Curitiba nos anos 90, que prescreveu iodo. Consulta cara, medicamento horrível. Se não me engano era um similar mais potente do famosinho Lugol, vendido em farmácias.
Mas aí que começou a porra toda.

Sei que foi 1 ano de tratamento sem resposta. Josinha continuava engordando e dos 13 pra 14 estava decidido: vai tomar fórmula! Fórmula, para vocês XOVENS que talvez desconheçam, é um termo genérico e popular usado para uma bomba de substâncias emagrecedoras. Nessa bomba caríssima, o médico colocava fitoterápicos, diuréticos e ANFETAMINAS. AHAM.
Aos 13 anos eu já sabia o que era ficar estrequinada.

Essa primeira fórmula tinha Femproporex e minha família aceitou de bom grado, por exemplo, eu andar 5 horas seguidas de bicicleta. Mas não entendia os episódios de crises de riso durante o dia e a depressão profunda durante a noite. Estava mais magra e completamente esculhambada no início da adolescência.

O tempo passou, eu engordei novamente, cheguei aos 14 com uma depressão tão lascada que larguei a escola. Foi o ano que mais me pressionaram pra emagrecer e o ano que eu tentei me matar. Quantos kg eu estava? 67.
“Seu peso ideal, para seu tamanho, seria em torno de 49 ou 50 kg.”
1998 era esse ano, e eu passei ele inteirinho dentro da minha casa e nem penteava mais os cabelos.

Mas no ano seguinte voltei pra escola, estava um pouco mais disposta. AÍ ADIVINHA, engordei mais um pouco.
“Vamos voltar pro Dr., ela precisa tomar de novo uma fórmula. Como ela vai conseguir namorado, amigo, desse jeito? A gente pede uma mais suave dessa vez”.
Tomei Anfepramona e em 2 meses perdi 20 kg.
“Ai que linda, meu deus!”
“Ai, ela conseguiu, que bom!”
“Hum, agora vai, hein!”

Em 2001 o pesadelinho voltou, a tireoide resolveu não funcionar e eu já tinha recuperado todo o peso perdido.
TSH e T4 alterado, colesterol alto por conta da disfunção da glândula: Toma Levotiroxina e Sinvastatina.
“Mas a menina toma Diane 35 porque tem SOPC (ovário policístico), não interfere?”
“Fica tranquila, não interfere”
“Tem que fazer dieta”
“Tem que fazer exercício”
Faz dieta, faz exercício. Em 2003 muda o anticoncepcional e de brinde ganha 10 kg.
“Tem que fechar a boca”
“Tem que se mexer”

Fecha a boca, se mexe. Estabiliza.
PUXA, QUE ALÍVIO, ACHO QUE ACABOU.

Não, era só um intervalo.
2008 casei.
2009 a mãe morreu.
2013 separei.
E aí, amados, já estava com mais que 100 kg. Depois disso até perdi uns 25 kg, que estão voltando aos poucos.

Continuo tomando Levotiroxina, que em 2016 chegou a dosagem absurda de 300 mcg, diminuída progressivamente até chegar aos atuais 125 mcg (dosagem ainda alta).
O medicamento não surte mais efeito, mas mesmo assim não posso parar com ele. Ainda continuo com a SOPC e não posso tratar de maneira convencional por conta da tendência familiar a trombose. Como a tireoide não cumpre mais suas funções a hipertensão se instalou, então tenho que tomar Losartana e Hidroclorotiazida. A combinação desses medicamentos me causou gastrite, então tomo Omeprazol. Omeprazol interfere na absorção de Levotiroxina, mas mesmo assim ela já não produzia efeito antes dessa gastrite.

MEU DEUS.
Aí você vai em 1,2, 3...NOVE endocrinologistas, que te pedem sempre os mesmos exames. E você diz a eles toda essa história, fala a respeito das pesquisas que fez por conta própria, levanta possibilidades... Enquanto eles ficam lendo o calhamaço de exames anteriores que você levou ao consultório, sem olhar nos seus olhos direito.
“Senta aqui, vou ver tua pressão. Ah, tá tudo bem. Você quer um atestado, né? ”
“Porque você quer encaminhamento pra outro especialista, o tratamento aqui não basta?”
“É mesmo? Puxa. Bom, vamos aumentar a dose”
“Eu acho tão ridículo ter que explicar pra paciente como funciona o corpo dele”

MEU DEUS.
Aí vem os “especialistas” da família, das redes sociais, dos círculos de amizade.
“tem que fechar a boca e fazer exercício, não tem segredo”
“mas sabe, minha amiga tomou um negócio que foi muito bom”
“porque você não faz academia?”
“porque você não faz a dieta low carb?”

MEU DEUS.
Sério. Existem mais de 7 bilhões de pessoas nessa porra desse planeta e a cura, a resolução definitiva se limita somente a essas possibilidades? Cada indivíduo tem uma história diferente, que pode apresentar diagnósticos e possibilidades diferentes e vocês vem sempre com a mesma?

Até quando eu vou ter que procurar um(a) endocrinologista que ME OUÇA, que se interesse pelo meu histórico pra gente chegar num consenso, num tratamento definitivo?
Até quando eu vou ter que contar toda essa história pras pessoas entenderem que nem tudo se resolve “fechando a boca e fazendo exercício”.
Até quando eu vou ter que contar pras pessoas que por conta da opressão estética FODERAM com a minha saúde aos 12 anos. PELO AMOR DE DEUS, quem em sã consciência prescreve anfetamina pra uma criança, por mero motivo estético?
Tem que ser muito mau caráter pra se aproveitar da leiguice dos pacientes e entupir eles de estimulantes. Pacientes tão jovens...

MEU DEUS.
Parem de ser tão ignorantes.
Parem de ser tão surdos pros problemas dos outros.
Parem de pressionar meninas e meninos a seguirem os padrões que vocês criaram. Não me venham com esse papinho mole de que vocês “se preocupam com a saúde das pessoas”. Tem criança que só tá uns 5 kg acima do “peso ideal” e vocês já crucificam. Essa opressão se torna uma bola de neve, que vira uma avalanche, a ponto dessa criança se tornar uma pessoa doente de verdade quando adulta, POR CULPA DISSO TUDO, COMO É O MEU CASO.
Se há algum problema de saúde, tratem da maneira mais humana possível, pelo amor de deus.

Eu não culpo mais ninguém a essa altura da minha vida (tirando o médico desgraçado).
Mas não vou ficar quieta quando começarem a pressionar crianças, que estão visivelmente saudáveis, pra perderem peso.
Não vou mais ficar quieta quando a pauta do jantar for só dieta e métodos de emagrecimento.
Não vou mais ficar quieta quando uma pessoa visivelmente magra tá se autoproclamando obesa.
Não vou.

Eu estou aqui, vivendo e trabalhando de maneira limitante como resultado da ganância, irresponsabilidade, falta de empatia e ignorância de especialistas e cidadãos comuns.
NÃO FERREM A VIDA DE SUAS CRIANÇAS, NÃO FERREM A VIDA DO SEU PRÓXIMO.
ABRAM OS OLHOS, OS OUVIDOS, ABRAM A MENTE.
E antes de falar qualquer imbecilidade, lembrem-se e utilizem o próprio conceito de vocês: “é só fechar a boca”.


Fonte: Facebook

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