quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Artigo - A culpa não é sua



Por: Jessie Esquel


As notas máximas no Enem 2017 foram 788,8 em Linguagens, 868,3 em Humanas, 885,6 em Natureza. Somente 53 pessoas (de 7 milhões!!!) tiraram 1000 na redação. 300 mil redações foram zeradas. Quando eu falei que a culpa não é do aluno, mas é do sistema, me massacraram, disseram que o meu discurso é vitimista.

Mas 7 milhões de pessoas irem mal em uma prova que testa a QUALIDADE DE ENSINO DE UM PAÍS é o atestado, a confirmação máxima, de que o governo desse país não investe na qualidade do seu ensino, e que a culpa é dele. Tão somente dele. O QUE ESPERAR DE UM PAÍS QUE NÃO CONSEGUE FAZER 1, ENTRE 7 MILHÕES DE ALUNOS, TIRAR MAIS DO QUE UMA NOTA 8 em sua prova mais importante a nível nacional?

Segundo um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, intitulado “Um olhar sobre a Educação” o Brasil investe 60% a menos na educação básica que a Suíça, e está apenas duas posições antes da Indonésia, que é a pior colocada no Ranking.
A Coreia do Sul, sempre citada como exemplo de qualidade, gasta, por aluno, três vezes mais que o Brasil; a Finlândia, quatro vezes mais.

A culpa não é sua.

O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), considerado a avaliação educacional mais importante do mundo, uma espécie de Enem dos países, divulgou que o Brasil está entre os últimos colocados de seu Ranking também. Em Ciências é o 63° de 65 países, em Leitura (texto/linguagem) é o 59°, em Matemática é o último colocado, 65° de 65 países!! O que esperar de um país que não investe em educação, mesmo que até a comunidade internacional lhe diga isso?

A culpa não é sua.

Infelizmente as licenciaturas também não ajudam. Os alunos que adentram na Universidade, para se tornarem professores, encontram excessivas matérias de fundamentos da Educação e nada de prática, saem de lá despreparados para enfrentar a sala de aula e ainda ganham pouco. O que esperar de um país que não valoriza o professor?

A culpa não é sua.

O que esperar de um modelo de escola que ensina um exercício e pede ao aluno que faça 40 exercícios iguais? Que não ensina a raciocinar, aplicar conceitos, não exige interpretação e relacionamento de dados. O que esperar de um país que não revê a maneira que as disciplinas são ensinadas?

E o que falar de uma prova de dois dias, com um bilhão de questões, fórmulas de física e exercícios quilométricos de matemática onde X+Y elevado a 8° potência é 0, e uma redação que dá vontade de decepar a própria cabeça com uma guilhotina afiada, para medir a qualidade de um ensino que ensina que 2 + 2 = 6. É um expoente da grande piada que nós chamamos de Ensino Brasileiro.

Além do mais, a maior nota do Enem em São Paulo, um tempo atrás, foi do colégio Objetivo Integrado, que não é dos mais caros da rede privada (tem outros mais caros ainda). A mensalidade era de R$ 1.800. No mesmo ano, o valor repassado pelo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) para as escolas públicas de ensino básico foi inferior a R$ 240 mensal por aluno. Existe um abismo de R$ 1.560 que separa o aluno da escola pública e particular, em média. Mais do que um salário mínimo nacional. Aliás, estamos em um país onde ainda existem pessoas que estudam em escolas sem chão, sem porta nos banheiros, sem infraestrutura nenhuma.

ENTÃO ME EXPLICA COMO DINHEIRO NÃO FAZ DIFERENÇA?

Ter ido mal no Enem não faz do aluno um “vitimista”. Faz dele uma vítima do sistema educacional mais falho do mundo. Eu vou continuar defendendo isso enquanto a educação for de péssima qualidade, sim. Não é possível que 7 milhões de pessoas estejam sendo “vitimistas” ao mesmo tempo. A culpa, definitivamente, não é sua. É deles.

Edit: eu estou na 2° graduação, então não venha me dizer que se eu tivesse estudado eu passava. Eu já passei.


Fonte: Facebook

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