quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Artigo - Democracia do Brasil é empurrada para o abismo

O ex-presidente Lula pode ser impedido de disputar a eleição presidencial deste ano


Por: Mark Weisbrot*
Tradutor: George El Khouri Andolfato


O Estado de Direito e a independência do Judiciário são conquistas frágeis em muitos países, além de suscetíveis a reversões repentinas.

O Brasil, o último país no Ocidente a abolir a escravidão, é uma democracia relativamente jovem, tendo saído da ditadura há apenas três décadas. Nos últimos dois anos, o que poderia ter sido um avanço histórico (o governo do Partido dos Trabalhadores conceder autonomia ao Judiciário para investigar e processar a corrupção oficial) se transformou no oposto. Como resultado, a democracia do Brasil agora está mais fraca do que desde o fim do governo militar.

Nesta semana, essa democracia pode sofrer uma erosão ainda maior quando os três desembargadores de segunda instância decidirem se a figura política mais popular do país, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, será impedido de disputar a eleição presidencial de 2018 ou até mesmo se será preso.

Não há muito fingimento de que o tribunal será imparcial. O presidente do tribunal já elogiou a decisãatilde;o do juiz de primeira instância de condenar Lula por corrupção como "tecnicamente irrepreensível" e sua chefe de gabinete postou em sua página no Facebook um abaixo-assinado pedindo a prisão de Lula.

O juiz da primeira instância, Sérgio Moro, já demonstrou seu próprio partidarismo em várias ocasiões. Ele teve que pedir desculpas ao Supremo Tribunal Federal em 2016 pela divulgação das conversas grampeadas entre Lula e a presidente Dilma Rousseff, o advogado dele, sua esposa e filhos. O juiz Moro promoveu um espetáculo para a imprensa no qual a polícia compareceu à casa de Lula e o levou para interrogatório, apesar de Lula ter dito que se apresentaria voluntariamente.

As evidências contra Lula estão bem abaixo dos padrões que seriam levados a sério, por exemplo, na Justiça dos Estados Unidos.

Ele é acusado de ter aceito propina de uma grande construtora, chamada OAS, que foi processada no esquema de corrupção chamado de "Lava Jato" no Brasil. Esse escândalo multibilionário envolveu empresas pagando propinas elevadas para as autoridades ligadas à empresa estatal de petróleo Petrobras visando a obtenção de contratos a preços altamente superfaturados.

A propina supostamente recebida por Lula é um apartamento de propriedade da OAS. Mas não há evidência documental de que Lula ou sua mulher tenham recebido a escritura, tenha alugado ou até mesmo ficado no apartamento, nem que tenha tentado aceitar o presente.

A evidência contra Lula se baseia no depoimento de um executivo condenado da OAS, José Aldemário Pinheiro Filho, que teve sua pena de prisão reduzida em troca da entrega de evidência. Segundo reportagem do proeminente jornal brasileiro "Folha de S.Paulo", Pinheiro teve sua delação anulada quando originalmente contou a mesma história que Lula sobre o apartamento. Ele também passou seis meses em detenção pré-julgamento. (Essa evidência é discutida no documento de sentença de 238 páginas.)

Mas essa parca evidência não foi suficiente para o juiz Moro. No que os americanos poderiam considerar um tribunal de faz-de-conta, ele sentenciou Lula a nove anos e meio de prisão.

O Estado de Direito democrático do Brasil já tinha sofrido um golpe devastador em 2016, quando a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, que foi eleita em 2010 e reeleita em 2014, sofreu impeachment e foi removida do cargo. Grande parte do mundo (e possivelmente do Brasil) pode acreditar que ela foi afastada por corrupção. Na verdade, ela foi acusada por uma manobra contábil que fez o déficit federal temporariamente parecer menor do que era de fato. Foi algo que outros presidentes e governadores já fizeram sem consequências. E o próprio procurador-geral do governo concluiu que não tinha sido um crime.

Apesar do envolvimento em corrupção de políticos de partidos de todo o espectro político, incluindo do Partido dos Trabalhadores, não houve acusações de corrupção contra Rousseff no processo de impeachment.

Lula permanece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto da eleição de outubro por causa do sucesso dele e do partido na reversão de um longo declínio econômico. De 1980 a 2003, o crescimento da economia brasileira foi mínimo, de cerca de 0,2% por ano per capita. Lula assumiu em 2003 e Rousseff em 2011. O salário mínimo cresceu 76%, os salários reais em geral subiram 35%, o desemprego atingiu baixas recordes e a infame desigualdade do Brasil finalmente diminuiu.

Mas em 2014, uma profunda recessão teve início e a direita brasileira tirou proveito da situação para promover o que muitos brasileiros consideram um golpe parlamentar.

Se Lula for impedido de disputar a eleição presidencial, o resultado poderia ter pouca legitimidade, assim como a eleição hondurenha em novembro foi amplamente vista como roubada. Uma pesquisa realizada no ano passado apontou que 42,7% dos brasileiros acredita que Lula está sendo processado pela mídia de notícias e pelo Judiciário. Uma eleição sem credibilidade poderia ser politicamente desestabilizadora.

Talvez mais importante, o Brasil se reconstituirá como uma forma muito mais limitada de democracia eleitoral, na qual um Judiciário politizado pode excluir um líder político popular da disputa de um cargo. Isso seria uma calamidade para os brasileiros, para a região e para o mundo.


* Mark Weisbrot, codiretor do Centro para Pesquisa Econômica e de Políticas, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy, é autor de "Failed: What the 'Experts' Got Wrong About the Global Economy", ou "Fracasso: o que os 'especialistas' entenderam errado a respeito da economia global", em tradução livre, não lançado no Brasil.


Fonte: Jornal The New York Times (EUA) / Portal UOL Notícias

A luta do Judiciário brasileiro contra a esquerda

Foto: Wesley Santos (AP)
Manifestantes durante protesto a favor de Lula em Porto Alegre


Em 24 de janeiro de 2018, quer dizer, nesta quarta-feira, o TRF-4 de Porto Alegre deverá decidir sobre o recurso do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva contra a condenação imposta pela 13ª Vara Criminal da Justiça Federal de Curitiba. Conduzido pelo juiz federal Sérgio Moro, a corte de primeira instância, em 12 de julho de 2017, sentenciou o ex-presidente a uma pena de nove anos e meio pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A decisão do TRF-4 será importante sob vários aspectos: em primeiro lugar, por estar em discussão a correição da sentença do juízo de primeira instância e a qualidade dessa sentença segundo os padrões do Estado de Direito.

Em segundo lugar, depende da decisão do TRF-4 em Porto Alegre se Lula poderá ou não ser candidato do PT nas próximas eleições presidenciais no Brasil. É justamente isso que os donos do poder no Brasil atual pretendem evitar por todos os meios, em associação com o conglomerado midiático Globo, que pauta a opinião pública. Entrementes, a popularidade de Lula cresce diariamente, ao passo que a credibilidade — não apenas das instituições políticas, mas também dos tribunais brasileiros — diminui cada vez mais em virtude de acusações de corrupção e de decisões políticas contra a população pobre do Brasil.

Muitos cidadãos brasileiros temem que o TRF-4 confirme a sentença da corte de primeira instância. Para fundamentar esse temor, lembram o fogo cerrado contra Lula — e também contra Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores desde 2013 — que vem sendo alimentado com crescente vigor também por altos representantes do Poder Judiciário. Lula e seu partido são difamados quase que diariamente como “canalhas“ corruptos e “organização criminosa“. A confirmação da sentença de primeira instância poderia resultar na ordem de execução imediata da pena, quer dizer, na prisão de Lula. Por outro lado, Lula ainda dispõe de outras possibilidades recursais na mesma instância, bem como no Supremo Tribunal Federal (STF).

As causas desse combate à pessoa de Lula e à política de esquerda são, entre outras, as políticas de nacionalização e distribuição da renda, iniciadas por Lula e por sua sucessora, Dilma Rousseff, com o objetivo de reduzir as desigualdades sociais. Ambas foram claramente na contramão dos interesses políticos e econômicos da rica camada dominante do Brasil e da sua ligação com grupos empresariais internacionais.

O retrocesso nas políticas social e econômica já iniciou há muito tempo. De acordo com conhecedores da América Latina, o próprio impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, em 31 de agosto de 2016, segue o figurino da nova “forma de golpe de Estado” (Aníbal Pérez Liñan). De resto, esse impeachment, em que pesem as patentes deficiências da sua fundamentação constitucional e sua impugnação junto ao STF — a corte com competência constitucionalmente definida para avalia-lo — simplesmente foi posto de lado pela corte suprema, não tendo sido sequer discutido e muito menos anulado. Não é descabida a suspeita de que o STF somente colocará em pauta a reclamação de Dilma Rousseff depois do transcurso do período de governo do atual presidente Michel Temer, inquestionavelmente corrupto, para então arquivá-la por perda de objeto.

Sérgio Moro, juiz de primeiro grau em Curitiba responsável pelos casos de corrupção na empresa paraestatal Petrobras, há muito tempo também já dá margem às suspeitas de que ele seja parte dessa campanha política. Manifestou-se publicamente contra Lula em várias ocasiões, o que em um Estado de Direito deveria, sem dúvidas, acarretar na declaração de sua suspeição. Mas não é o que ocorre no Brasil, onde ele foi sempre respaldado e jamais recebeu qualquer penalidade por suas condutas. Isso tampouco causa admiração, uma vez que até juízes de instâncias superiores aderiram à campanha política antipetista, externando publicamente e com frequência condenações antecipadas de Lula.

Seriam tais práticas compatíveis com os procedimentos usuais na justiça penal do Brasil? Será que elas não vêm há muito violando o que seria tolerável em um Estado de Direito? Um crescente número de indícios reforça o temor de que uma parcela considerável do Judiciário brasileiro se compreende como um braço da elite nacional do poder e do dinheiro, sacrificando com isso, mediante invocação abusiva da independência do juiz, os princípios do Estado de Direito, ancorados também na Constituição Federal.

Apesar da petição do ex-presidente Lula encaminhada ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e da clara condenação, por parte desse órgão, das práticas do Judiciário brasileiro, contrárias ao Estado de Direito e aos Direitos Humanos, a comunidade internacional e também a sociedade europeia — e mormente a alemã — vem dando atenção insuficiente às lastimáveis mudanças da política brasileira nos últimos tempos.

Em parte, isso talvez se deva à afirmação do Judiciário brasileiro (e à campanha midiática por trás dela) de que, no processo contra Lula, estaria em jogo apenas o combate justificado à corrupção. Fosse isso verdadeiro, o Judiciário brasileiro mereceria todo o apoio imaginável no seu empenho, em consonância com os princípios do Estado de Direito, uma vez que o combate eficaz da corrupção é hoje mais necessário do que nunca. Conforme mostram os relatórios da Transparência Internacional, a corrupção há muito tempo é endêmica no Brasil e constitui um problema gigantesco para o Estado, o setor privado e a sociedade. Além disso, ela solapa cada dia mais a confiança da população nas decisões do poder público.

Por isso, o combate à corrupção em todas as suas formas exige leis eficazes, bem como instrumentos e procedimentos repressivos e preventivos. A descoberta e comprovação da corrupção podem ser difíceis, justamente quando se trata da influência em decisões políticas ou da prova do recebimento de uma vantagem. Isso vale para o combate à corrupção em qualquer lugar do mundo, e também no Brasil. Por isso, é digno de nota que durante o Governo de Lula não só as leis contra a corrupção foram tornadas mais rigorosas, mas as instituições de combate à corrupção também foram fortalecidas. Seriam, então, as ações penais por corrupção movidas contra Lula resultantes apenas da aplicação dessas leis mais rigorosas — talvez no quadro caracterizado por muitos juristas como “demência normal do Brasil” — resultante de uma ingerência do Judiciário na política, inimaginável em nossas latitudes?

Como já foi aludido, dúvidas são mais do que justificadas aqui. Em primeiro lugar, por causa da considerável tendenciosidade politicamente motivada do combate à corrupção: a corrupção patente, e.g., do atual presidente Michel Temer, bem como de grandes parcelas dos seus sequazes conservadores na Câmara dos Deputados e no Senado, não parecem perturbar os tribunais e a elite política do Brasil. Mas essa unilateralidade — politicamente escandalosa e contrária à credibilidade do Judiciário brasileiro — por si só é insuficiente para uma crítica do Judiciário. A referência ao Judiciário zarolho não exculpa a corrupção em outras áreas nem serve como exigência justificada de impunidade nelas.

Porém, é escandalosa a atuação do Judiciário nas ações movidas contra o ex-presidente. Aqui, os princípios irrenunciáveis do Estado de Direito — e.g. da imparcialidade e ausência de prevenção por parte de juízes, mas também do devido processo legal — têm sido violados ininterruptamente; violações graves de regras processuais na instrução e no julgamento têm sido tão frequentes, e essas têm sido contestadas tão prontamente pelos tribunais de instâncias superiores, que a acusação do abuso de procedimentos judiciais para fins políticos não pode ser afastada.

Tudo isso os advogados do ex-presidente resumiram na sua petição apresentada ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, na qual criticaram tanto o arbítrio na condução coercitiva de Lula ordenada por Sérgio Moro (feita sem intimação prévia, em desacordo com a lei brasileira) quanto a violação dos princípios da presunção da inocência, do devido processo legal e dos direitos à privacidade, especialmente no tocante a gravações de telefonemas e a operação de busca e apreensão no domicílio do ex-presidente. Aqui entra também a gravação de telefonemas dos seus advogados de defesa. Todas essas acusações são confirmadas na sentença do juízo de primeira instância. No entanto, o juiz Moro justifica-as expressamente em cada caso: e não apenas com o argumento da gravidade dos atos imputados a Lula ou com acusações penais à defesa, mas também com a alegação de que Lula teria querido destruir provas, influenciar testemunhas e intimidar o tribunal.

Por conseguinte, a crítica à atuação do Judiciário brasileiro contra Lula não se baseia apenas na “zarolhice” do Judiciário; ou na alimentação constante da campanha midiática por parte de órgãos públicos envolvidos no processo; ou na parcialidade do juiz Moro; mas também na permanente violação de princípios irrenunciáveis do Estado de Direito. É em virtude disso que juristas brasileiros já há muito tempo falam em lawfare, ou seja, do fato dos tribunais ocultarem sob o pretexto do combate à corrupção — e mediante o abuso dos seus instrumentos — o combate político da elite do poder no Brasil contra a tão odiada esquerda.

A decisão do TRF-4 deverá tomar tudo isso em conta no dia 24 de janeiro de 2018. Prolatada em 12 de julho de 2017, a sentença de primeira instância do juiz Moro chama a atenção por ser extraordinariamente longa e verborrágica: nos 961 parágrafos distribuídos pelas 186 páginas da versão em inglês, o juiz não discute apenas as acusações. Muito pelo contrário: ele busca criar uma atmosfera propícia à condenação, usando para isso constantes desqualificações de Lula, um sem-número de afirmações vagas e o indeferimento verdadeiramente monótono e não-fundamentado dos requerimentos da defesa.

Fica evidente a intenção subjacente: o encobrimento da saliente falta de provas. A estratégia dá com os burros n’água. Remanesce um excesso de hipóteses, presunções, insinuações e afirmações não documentadas nem documentáveis, baseadas no diz-que-diz ou transmitidas por delatores premiados presos, aos quais a Procuradoria da República ofereceu — sempre com anuência do juízo — vantagens obscuras. Com muita frequência, o conteúdo dessas “barganhas” não é transparente ou comprovável no processo judicial. A credibilidade das alegações dos delatores premiados remanesce também problemática precisamente por não terem sido observadas nem as garantias mínimas exigidas na aplicação desse instituto na Alemanha.

Destarte, a acusação do recebimento de vantagens por Lula com vistas ao dinheiro, mas também com vistas à propriedade, posse ou outras vantagens em conexão com um apartamento sempre aduzido (que Lula teria recebido como contrapartida de empresas favorecidas pelas suas decisões) permanece mais do que vaga. A própria acusação penal — de que Lula teria sido responsável, enquanto presidente da República, pela corrupção na Petrobras — deve soar extravagante para ouvidos acostumados à linguagem do Estado de Direito, quando não acompanhada da prova da sua intervenção e influência pessoais, ou do auferimento de vantagens pessoais: afinal de contas, nem os delatores conseguiram confirmar no processo mais do que o fato conhecido de que o presidente da República tivera influência para a nomeação dos diretores da estatal.

As hipóteses de Moro adquirem um gosto especialmente picante com a sua estranha inferência de que a conhecida doutrina do “domínio do fato” poderia justificar a acusação de punibilidade pessoal do ex-presidente da República mesmo sem nenhuma prova da sua intervenção ou da obtenção de uma vantagem.

Há ainda outros indícios: a condução do processo pelo juiz Moro, conforme se depreende até dos excertos das atas por ele incluídos na redação da fundamentação da sentença, refletem liminarmente a sua parcialidade. Bastem aqui alguns exemplos: Moro chama várias vezes Lula de integrante de um sistema criminoso e interpreta os pedidos da defesa — não apenas o de constatação da suspeição do juiz, mas também as petições apresentadas ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos — como sendo ilícitas, como tentativa de intimidação deplorável do tribunal, da Procuradoria da República e das testemunhas. Manifestações de Lula, nas quais este se defende em público contra a atuação do Judiciário, ele também qualifica como ameaça e difamação, ao passo que justifica posicionamentos públicos de juízes contra Lula.

A atitude preconcebida de Moro diante de Lula, tanto em termos pessoais quanto em termos políticos, manifesta-se com maior clareza no parágrafo 948 da sentença. Ele é tão digno de leitura quanto a sua observação comparativamente memorável no parágrafo 961, no qual Moro afirma que “a presente condenação não traz a este julgador qualquer satisfação pessoal, pelo contrário. É de todo lamentável [...]”.

A sentença revela também as contradições no comportamento de Moro: se apenas algumas das suas acusações de supressão de provas e influência de testemunhas fossem comprováveis, conforme pressupõe a elevada pena prisional de nove anos e meio, a decisão ulterior de Moro, de permitir a Lula apelar da sentença em liberdade até a decisão da corte de apelação, seria praticamente indefensável.

Em duas palavras: O TRF-4 de Porto Alegre deve cassar a sentença de Moro, mesmo se ele com isso admitir que essa ação contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto matéria política, há muito tempo já se transformou no “Caso Moro”.

Mas é mais do que duvidoso que o TRF-4 decida nesse sentido, uma vez que tudo indica que desembargadores desse tribunal também estão demasiado enredados nos conflitos e nas campanhas políticas em curso no Brasil.

Em suma, a confirmação da sentença não prejudicaria apenas a credibilidade e eficácia do combate à corrupção, mas ao mesmo tempo revelaria a inexistência do Estado de Direito no Brasil.


Fonte: Jornal El País (Espanha)

Artigo - A culpa não é sua



Por: Jessie Esquel


As notas máximas no Enem 2017 foram 788,8 em Linguagens, 868,3 em Humanas, 885,6 em Natureza. Somente 53 pessoas (de 7 milhões!!!) tiraram 1000 na redação. 300 mil redações foram zeradas. Quando eu falei que a culpa não é do aluno, mas é do sistema, me massacraram, disseram que o meu discurso é vitimista.

Mas 7 milhões de pessoas irem mal em uma prova que testa a QUALIDADE DE ENSINO DE UM PAÍS é o atestado, a confirmação máxima, de que o governo desse país não investe na qualidade do seu ensino, e que a culpa é dele. Tão somente dele. O QUE ESPERAR DE UM PAÍS QUE NÃO CONSEGUE FAZER 1, ENTRE 7 MILHÕES DE ALUNOS, TIRAR MAIS DO QUE UMA NOTA 8 em sua prova mais importante a nível nacional?

Segundo um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, intitulado “Um olhar sobre a Educação” o Brasil investe 60% a menos na educação básica que a Suíça, e está apenas duas posições antes da Indonésia, que é a pior colocada no Ranking.
A Coreia do Sul, sempre citada como exemplo de qualidade, gasta, por aluno, três vezes mais que o Brasil; a Finlândia, quatro vezes mais.

A culpa não é sua.

O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), considerado a avaliação educacional mais importante do mundo, uma espécie de Enem dos países, divulgou que o Brasil está entre os últimos colocados de seu Ranking também. Em Ciências é o 63° de 65 países, em Leitura (texto/linguagem) é o 59°, em Matemática é o último colocado, 65° de 65 países!! O que esperar de um país que não investe em educação, mesmo que até a comunidade internacional lhe diga isso?

A culpa não é sua.

Infelizmente as licenciaturas também não ajudam. Os alunos que adentram na Universidade, para se tornarem professores, encontram excessivas matérias de fundamentos da Educação e nada de prática, saem de lá despreparados para enfrentar a sala de aula e ainda ganham pouco. O que esperar de um país que não valoriza o professor?

A culpa não é sua.

O que esperar de um modelo de escola que ensina um exercício e pede ao aluno que faça 40 exercícios iguais? Que não ensina a raciocinar, aplicar conceitos, não exige interpretação e relacionamento de dados. O que esperar de um país que não revê a maneira que as disciplinas são ensinadas?

E o que falar de uma prova de dois dias, com um bilhão de questões, fórmulas de física e exercícios quilométricos de matemática onde X+Y elevado a 8° potência é 0, e uma redação que dá vontade de decepar a própria cabeça com uma guilhotina afiada, para medir a qualidade de um ensino que ensina que 2 + 2 = 6. É um expoente da grande piada que nós chamamos de Ensino Brasileiro.

Além do mais, a maior nota do Enem em São Paulo, um tempo atrás, foi do colégio Objetivo Integrado, que não é dos mais caros da rede privada (tem outros mais caros ainda). A mensalidade era de R$ 1.800. No mesmo ano, o valor repassado pelo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) para as escolas públicas de ensino básico foi inferior a R$ 240 mensal por aluno. Existe um abismo de R$ 1.560 que separa o aluno da escola pública e particular, em média. Mais do que um salário mínimo nacional. Aliás, estamos em um país onde ainda existem pessoas que estudam em escolas sem chão, sem porta nos banheiros, sem infraestrutura nenhuma.

ENTÃO ME EXPLICA COMO DINHEIRO NÃO FAZ DIFERENÇA?

Ter ido mal no Enem não faz do aluno um “vitimista”. Faz dele uma vítima do sistema educacional mais falho do mundo. Eu vou continuar defendendo isso enquanto a educação for de péssima qualidade, sim. Não é possível que 7 milhões de pessoas estejam sendo “vitimistas” ao mesmo tempo. A culpa, definitivamente, não é sua. É deles.

Edit: eu estou na 2° graduação, então não venha me dizer que se eu tivesse estudado eu passava. Eu já passei.


Fonte: Facebook

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

ONU apoia campanha #CarnavalSemAssédio

Campanha #CarnavalSemAssédio mobiliza foliões pelo fim da violência contra as mulheres


Em 2017, vieram à tona histórias de assédio sexual do passado e também atuais, sobre mulheres famosas, mas também desconhecidas. Em todo o mundo, mulheres resolveram falar abertamente sobre abusos vividos, conscientes de que o silenciamento só fortalece a cultura do estupro e os homens que exercem o poder por meio da violência.

No Brasil, o assédio no Carnaval tem sido abordado pela população do sexo feminino, pela sociedade civil e pelos órgãos públicos. Na imprensa, os veículos já denunciam casos de abuso, questionam posicionamentos e divulgam estatísticas de violência no período da folia. A vontade da mulher, enfim, ganhou algum destaque.

Paquerar, beijar e se divertir fazem parte do Carnaval, mas há uma condição inegociável: é preciso respeitar o outro. É preciso que haja consentimento.

Em defesa dessa ideia, a ONU Mulheres se uniu à campanha #CarnavalSemAssédio, do Catraca Livre. Em 2018, a iniciativa chega à sua terceira edição com uma proposta diferente: mostrar os locais de grandes cidades em que as mulheres são mais vulneráveis a abusos. Outra frente da mobilização é a cobrança de providências do poder público. Em 2017, só no Rio de Janeiro, uma mulher era agredida no Carnaval a cada 4 minutos.

Com o apoio da rede Nossas, da qual fazem parte as instituições parceiras da campanha Minha Sampa e Meu Recife, o Catraca Livre criará um mapa com relatos de assédios, tabulando os dados coletados e encaminhando-os às autoridades competentes. O objetivo é pensar conjuntamente a criação de políticas públicas que possam combater o problema.

Qualquer pessoa pode contribuir com a campanha. Se souber de algum caso de assédio que tenha ocorrido neste e em outros Carnavais, entre na plataforma www.aconteceunocarnaval.org e conte sua história. O Catraca Livre e a ONU Mulheres lembram ainda que o canal oficial para atendimento de vítimas de violência contra as mulheres é o Ligue 180, em que profissionais treinadas dão orientações de forma gratuita, 24 horas por dia.

O Catraca Livre também ampliou seu grupo de parceiros para que a campanha ganhe as ruas. Em 2018, o #CarnavalSemAssédio tem o apoio da organização não governamental Plan International, dos coletivos Nós, Mulheres da Periferia, Vamos Juntas? e Não é Não, além dos blocos Mulheres Rodadas e Maria Vem com as Outras.

A participação do público é fundamental para ampliar o alcance da iniciativa. Para participar, é fácil: compartilhe fotos nas redes sociais com a hashtag #CarnavalSemAssédio. Você também pode baixar as imagens com as frases da campanha — saiba como clicando aqui.


Fonte: Portal da ONU

Para bióloga, surto de febre amarela pode ter relação com tragédia de Mariana

Foto: Gabriela Bilo (Estadão)
Lama no Rio Doce. Desastre cria clima propício a doenças


O aumento de casos suspeitos de febre amarela em Minas pode estar relacionado à tragédia de Mariana, em 2015, segundo a bióloga da Fiocruz Márcia Chame. A hipótese tem como ponto de partida a localização das cidades mineiras que identificaram até o momento casos de pacientes com sintomas da doença. Grande parte está na região próxima do Rio Doce, afetado pelo rompimento da Barragem de Fundão, em novembro de 2015.

“Mudanças bruscas no ambiente provocam impacto na saúde dos animais, incluindo macacos. Com o estresse de desastres, com a falta de alimentos, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, incluindo a febre amarela”, afirmou a bióloga, que também coordena a Plataforma Institucional de Biodiversidade e Saúde Silvestre na Fiocruz. “Isso pode ser um dos motivos que contribuíram para os casos. Não o único”, completa. Márcia observa que essa região do Estado já apresentava um impacto ambiental importante, provocado pela mineração. “É um conjunto de coisas que vão se acumulando”, disse.

Além dos casos em Minas, foram notificadas também mortes de macacos na região próxima da cidade capixaba de Colatina, também afetada pelos reflexos do acidente de Mariana. Não há ainda comprovação de que os macacos dessa área morreram por febre amarela. Técnicos estão no local para investigar as causas dos óbitos. O Espírito Santo integra atualmente o grupo de 8 Estados que são considerados livres de risco para a febre amarela.

Márcia afirma que os episódios deste ano se assemelham aos que foram registrados em 2009, quando um surto de febre amarela foi identificado no Rio Grande do Sul, área que por mais de 50 anos foi considerada livre da doença. “Ambientes naturais estão sendo destruídos. No passado, o ciclo de febre amarela era mantido na floresta. Com a degradação do meio ambiente, animais acabam também ficando mais próximos do homem, aumentando os riscos de contaminação.”

Na floresta, o vetor da febre amarela é o inseto Haemagogus. Ao picar um macaco contaminado, o mosquito recebe o vírus e, por sua vez, passa a transmiti-lo nas próximas picadas. Quando um homem sem estar vacinado entra nesse ambiente, ele também pode fazer parte do ciclo: transmitir ou ser infectado pela picada do mosquito. Essa corrente aumenta quando animais, por desequilíbrios ambientais, deixam seus ambientes e passam a viver em áreas mais próximas de povoados ou cidades. “Com o desmatamento, animais também se deslocam, aumentando o risco de transmissão.”

Para a coordenadora da Fiocruz, a curto prazo a medida a ser adotada é reforçar a vacinação nas áreas de risco. O imunizante, embora seguro, deve ser aplicado de acordo com as recomendações de autoridades sanitárias e, em caso de pacientes com doenças que afetam o sistema imunológico, de acordo com a orientação do médico. A médio prazo, completa a bióloga, é essencial a manutenção de unidades de conservação. “Os animais têm de ter espaço para viver, evitando assim a migração para áreas próximas de centros urbanos”, disse. “Animais agem como filtros de doenças.”

Samarco. A Fundação Renova, criada pela Samarco para coordenar ações de reparação na área atingida pelo desastre de Mariana, não se manifestou sobre as declarações da bióloga da Fiocruz. Por meio de nota, informou estar em curso um diagnóstico sobre a biodiversidade na região. “Todas as informações que tenham aderência às ações em andamento serão incorporadas pela Fundação.”


Fonte: Jornal O Estado de São Paulo (Estadão)

Artigo - O que fazer com a arte de homens monstruosos?

Cena do filme Manhattan, de Woody Allen


Por: Claire Dederer*


Roman Polanski, Woody Allen, Bill Cosby, William Burroughs, Richard Wagner, Sid Vicious, V. S. Naipaul, John Galliano, Norman Mailer, Ezra Pound, Caravaggio, Floyd Mayweather... e, se começarmos a enumerar os atletas, não acabaremos nunca. E o que dizer das mulheres? A lista logo se torna muito mais difícil e incerta: Anne Sexton? Joan Crawford? Sylvia Plath? Autoflagelação conta? Ok, suponho então que é melhor voltar aos homens: Pablo Picasso, Max Ernst, Lead Belly, Miles Davis, Phil Spector.

Todos eles fizeram ou disseram algo horrível, mas criaram algo maravilhoso. O horrível afeta o maravilhoso; não podemos ver, ouvir ou ler a grande obra de arte sem recordar o horror. Assoberbados com o que sabemos da monstruosidade do criador, nos distanciamos, cheios de repugnância. Ou talvez não. Continuamos olhando, tentando separar o artista da obra de arte. Em qualquer caso, é perturbador. São gênios e são monstros, e não sei o que fazer com eles.

Na era de Trump, todos temos pensado em monstros. No meu caso, comecei há vários anos. Estava pesquisando sobre Roman Polanski para um livro que escrevia, e fiquei impressionada com suas atrocidades. Era algo monumental, como o Grand Canyon do Colorado. E, no entanto... Quando via seus filmes, eles tinham uma beleza que era outro tipo de monumento, imune a tudo o que sabia de sua maldade. Havia lido muitíssimo sobre quando ele estuprou a menina Samantha Gailey, de 13 anos; tenho certeza de que não me falta saber nenhum detalhe. Mas, apesar disso, continuava sendo capaz de ver seus filmes. Desejando vê-los, inclusive. Quanto mais pesquisava sobre Polanski, mais compelida eu me sentia a ver seu cinema, e via de novo, sobretudo os grandes títulos: Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary, Chinatown. Como todas as obras-primas, estas convidam a repetidas sessões. Eu as devorava. Transformaram-se em parte de mim, como acontece quando amamos algo.

Eu não deveria ter gostado desses filmes, nem desse diretor. Polanski é alvo de boicotes, processos e indignação. Para as pessoas, o homem e sua obra parecem ser a mesma coisa. Mas são? Devemos tentar separar a arte do artista, o criador de sua obra? Não nos perdemos num esquecimento voluntário quando queremos escutar, por exemplo, O Anel do Nibelungo, de Wagner? (Esquecer é mais fácil para algumas pessoas que para outras; as peças de Wagner foram representadas bem poucas vezes em Israel). Ou pensamos que o gênio merece uma dispensa especial, uma permissão para se comportar mal?

E como nossa resposta varia em função das situações? A impressão é que algumas obras de arte são já impossíveis de desfrutar pelas transgressões de seu criador. Como podemos ver o Cosby Show depois das acusações contra Bill Cosby? Claro que podemos fazer isso, mas estaremos realmente vendo a série? Ou, mais propriamente, o espetáculo de nossa inocência perdida?

E essa é apenas uma questão pragmática? Retiramos nosso apoio à pessoa se está viva, para que não obtenha benefícios econômicos de nosso consumo de sua obra? Expressamos uma opinião com nossas ações? Nesse caso, seria correto baixar grátis da Internet um filme de Roman Polanski, por exemplo? Podemos vê-lo na casa de um amigo?

Um momento: quem é esse “nós” que aparece sempre nos ensaios críticos? Nósé uma escapatória. Nós é barato. Nós é uma forma de nos desfazermos da responsabilidade pessoal e, ao mesmo tempo, assumir o manto da autoridade fácil. É a voz do crítico masculino tradicional, o que acha sinceramente que sabe o que todo mundo deve pensar. Nós é corrupto. Nós é artificial. A pergunta que se deve fazer é: eu posso amar a arte mas odiar o artista? Você pode? Quando digo nós, me refiro a mim. Me refiro a você.

Sei que Polanski é pior — seja lá o que isso signifique — mas para mim o ultramonstro é Woody Allen.

Os homens querem saber por que Woody Allen nos indigna tanto. Woody Allen deitou-se com Soon-Yi Previn, filha de sua companheira Mia Farrow. Na primeira vez que foram para a cama, Soon-Yi era uma adolescente que estava sob os seus cuidados, e ele era o diretor de cinema mais famoso do mundo.

A relação sexual com Soon-Yi me afetou como uma traição pessoal. Quando era jovem, eu me sentia como Woody Allen. Intuía ou achava que ele me representava na tela. Era eu. Esse é um dos aspectos peculiares de seu talento, sua capacidade de suplantar espectador. A identificação era ainda mais intensa por sua mensagem habitual: magro como um menino, baixinho como um menino, confuso ante um mundo frio e incompreensível (como antes Chaplin). Eu me sentia mais próxima a ele do que é razoável para o que uma menina sente por um cineasta adulto. De uma maneira um tanto absurda, eu sentia que ele me pertencia. Sempre o havia considerado um de nós, os indefesos. A partir de Soon-Yi, me pareceu um predador. Minha reação não era lógica; era emocional.

Numa tarde chuvosa da primavera de 2017, deixei-me cair no sofá da sala de estar e cometi um ato transgressor. Não o que vocês estão pensando. O que fiz foi escolher Noivo Neurótico, Noiva Nervosa no serviço de pay-per-view. Foi fácil. Bastou eu clicar no botão OK, com enorme poder de mando, e depois me dediquei a catar biscoitos num pacote enquanto os créditos apareciam na tela. Como ato transgressor, foi bastante modesto.

Eu tinha visto o filme pelo menos uma dúzia de vezes, mas ele voltou a me cativar. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é uma comédia engenhosa, como um puro passo de dança de Fred Astaire, um balão cheio de hélio que tensiona a corda que o segura. É uma história de amor para as pessoas que não acreditam no amor: Annie e Alvy se unem, se distanciam, voltam a se unir e se separam definitivamente. Sua relação não teve sentido em nenhum momento e, ao mesmo tempo, valeu a pena. O bordão de Annie, “la la la”, é o princípio que rege a aventura, a coleção de sílabas sem sentido que imprimem uma feliz expressão ao existencialismo de Allen. “La la la” significa “Não importa nada”. Significa “Vamos nos divertir enquanto colidimos”. Significa “Nossos corações vão se partir”. Não é uma farra?

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é o melhor filme de comédia do século XX — melhor que Levada da Breca, melhor até que Clube dos Pilantras — porque reconhece o irrefreável niilismo que espreita dentro de toda comédia. Além disso, é muito divertido. Ver Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é sentir, por um instante, que você pertence à humanidade. Sentir-se quase assaltada por essa sensação de pertencimento, essa conexão inventada que pode ser ainda mais bela que o amor. E isso é o que chamamos de verdadeira arte. Caso não saibam.

Veja, eu não saio por aí me conectando com a humanidade. É um raro prazer. E tenho que abrir mão dele só porque Woody Allen se comportou mal? Não me parece justo.

Quando contei à minha amiga Sara que estava escrevendo sobre Woody Allen, ela me disse que havia visto em seu bairro uma Little Free Library [um tipo de biblioteca compartilhada de rua] que estava abarrotada de livros escritos por ele e sobre ele. Rimos imaginando algum fã furioso, certamente uma mulher, que havia decidido que não podia suportar o fato de continuar tendo esses livros em casa e que os levara todos à biblioteca.

E então Sara disse em tom nostálgico: “Não sei onde colocar tudo o que sinto sobre Woody Allen.” Exato.

Também contei que estava escrevendo sobre Allen a outra amiga muito inteligente. “Tenho muitas opiniões sobre Woody Allen”, exclamou, entusiasmada. Estávamos tomando uma taça de vinho no alpendre de sua casa, e a luz da tarde iluminava seu rosto. “Estou furiosa com ele. Já estava nervosa com ele pelo que fez com Soon-Yi, então veio o episódio de... como se chama? Dylan? Chegaram as acusações de Dylan, e a reação tão desdenhosa que ele teve. E detesto como fala sobre Soon-Yi, sempre dizendo que é graças a ele que ela tem uma vida mais plena.”

Acredito que isso é o que acontece com muitos de nós quando pensamos na obra de gênios monstruosos: dizemos que temos pensamentos éticos, quando na verdade o que temos são sentimentos morais. Colocamos palavras ao redor desses sentimentos e os chamamos de opiniões. “O que Woody Allen fez foi muito ruim”. E os sentimentos nascem de um lugar mais elementar que os pensamentos. O fato era que eu me sentia nervosa com a história de Woody e Soon-Yi. Não estava pensando; estava sentindo. Me sentia pessoalmente ofendida.

Se querem emoções complicadas, vejam Manhattan.

Como muitas pessoas — muitas quem? Muitas mulheres? Muitas mães? Muitas que foram meninas? Muitas pessoas com sentimentos morais? —, passei anos sem poder ver Manhattan. Há alguns meses, quando comecei a pensar em Woody Allen como monstro, vi praticamente todos os demais filmes que ele dirigiu antes de enfrentar o fato de que em algum momento eu teria que ver Manhattan.

E esse dia chegou. Sentei-me no bonito sofá da minha confortável sala de estar enquanto julgavam Bill Cosby. Era junho de 2017. Meu marido, que tem um dom para o dramatismo discreto, me sugeriu que alternasse entre o julgamento e o filme para construir uma espécie de metarrelato da monstruosidade. Mas seu austero senso norte-europeu de espetáculo não serviu para nada, pois não transmitiram o julgamento de Cosby. Ainda assim, o julgamento estava sendo realizado.

Naquele verão, o clima era de um enorme mal-estar. Havia um sentimento generalizado de que algo estava errado. As pessoas, e ao dizer pessoas me refiro às mulheres, estavam agitadas e insatisfeitas. Se encontravam nas ruas, se olhavam, negavam com a cabeça e se distanciavam em silêncio. As mulheres estavam fartas. Organizaram um protesto gigantesco para expressar essa saturação. Começaram a se comunicar pelo Facebook e o Twitter, a fazer longas marchas indignadas, a dar dinheiro para organizações de direitos civis, a se perguntar por que seus companheiros e filhos não lavavam mais os pratos. Começaram a perceber que o paradigma dos pratos era odioso. Começaram a se radicalizar, embora não tivessem tempo para serem radicais. Arlie Hochschild publicou The Second Shift (A dupla jornada) em 1989, e em 2017 as mulheres começaram a descobrir que essa merda era mais verdade do que nunca. Alguns meses depois, surgiram as acusações contra Harvey Weinstein e, com elas, a força da campanha #MeToo.

Como escrevi quando era adolescente em meu diário: “Neste momento, não tenho uma grande opinião sobre os homens.” No verão de 2017, continuava sem ter, e muitas outras mulheres também não tinham. Muitos homens tampouco se sentiam muito bem sobre outros homens. Até os patriarcas estavam fartos do patriarcado.

Apesar de toda essa profusão de opiniões, sentimentos e raiva, eu tinha a determinação de pelo menos tentar me aproximar de Manhattan com a mente aberta. Afinal, muita gente pensa que é a obra-prima de Allen, e eu estava disposta a me deixar conquistar. E ele me conquistou com os créditos, em branco e preto; com os saltos temporais editados à perfeição, quase de maneira cômica, para coincidir com os acordes triunfais de Rhapsody in Blue. Momentos depois, cortamos para um plano de Isaac (o personagem de Allen), jantando com seus amigos Yale (está brincando comigo? Yale?) e sua mulher, Emily. Com eles está a acompanhante de Allen, uma estudante de 17 anos chamada Tracy, interpretada por Mariel Hemingway.

O mais espantoso dessa cena é a indiferença dele. Claro, ele sabe que a relação não vai durar, mas as implicações morais que isso tem parecem só perturbá-lo ligeiramente. Allen é fascinado pelas sombras morais, salvo nesse tema específico, o dos homens de meia idade que vão para a cama com adolescentes. Frente a esse assunto em particular, um dos grandes observadores da ética contemporânea — alguém cujas obras já maduras são quase dignas de Flaubert — torna-se um idiota de repente.

“No colégio, até as meninas mais feias são bonitas”. Um professor uma vez me disse essa frase.

O rosto de Tracy, que é o de Mariel, é feito de planos abertos que lembram os pioneiros, os campos ensolarados de trigo (é uma menina de Idaho, afinal). Para Allen, Tracy tem uma bondade e uma pureza que as mulheres adultas do filme não podem ter jamais. Tracy é sábia, tal como Allen a roteirizou, mas, ao contrário dos adultos, é milagrosamente livre de qualquer neurose.

Heidegger utilizava os conceitos de Dasein e Vorhandensein. Dasein significa a presença consciente, uma entidade consciente de sua mortalidade; por exemplo, os personagens de todos os filmes de Woody Allen salvo Tracy. Vorhandensein, ao contrário, é um ser que existe em si mesmo, simplesmente é, como um objeto ou um animal. Ou Tracy. A jovem é gloriosa sem precisar fazer nada: inerte, como um objeto, Vorhandensein. Como as grandes estrelas do cinema clássico, é um rosto, e Isaac deixa isso claro em sua litania de motivos para viver: “Groucho Marx e Willie Mays, as incríveis peras e maçãs de Cézanne, os caranguejos de Sam Wo’s e, ah, sim, o rosto de Tracy. (Ao ver o filme pela primeira vez em décadas, fiquei impressionada com o quanto a lista de Isaac parece um post do Facebook).

Allen/Isaac pode se aproximar mais desse mundo ideal, um mundo que se esqueceu de seu conhecimento da morte, transando com Tracy. Como é Woody Allen — um grande cineasta —, deixa Tracy falar, e ela não é nenhuma boba. “Suas preocupações são minhas preocupações”, diz. “Temos um sexo maravilhoso”. Para Isaac, isso é muito conveniente: ele consegue absorver sua simplicidade encerrada num corpo tão belo, ficando assim isento de culpa. As mulheres do filme não têm essa vantagem.

As mulheres adultas de Manhattan são frágeis e muito conscientes da morte; sabem de tudo. Uma mulher que pensa está presa, afastada do corpo, da beleza, da própria vida.

Na minha opinião, o momento mais significativo do filme é uma frase dita por uma mulher muito elegante em tom de queixa durante um coquetel. “Finalmente, tive um orgasmo e meu médico me disse que foi dos ruins.” A (divertida) resposta de Isaac: “Foi dos ruins? Nunca tive um dos ruins, nunca. O meu pior foi bem na mosca”.

Todas as mulheres que assistem ao filme sabem que o estúpido é o médico, não a mulher. Mas Woody/Isaac não vê dessa forma.

Se uma mulher é capaz de pensar, não pode ter orgasmo; se pode ter um orgasmo, não é capaz de pensar.

Assim como Manhattan nunca examina de forma plena e genuína as complexidades de um sujeito de idade dormindo com uma adolescente, o próprio Allen — um indivíduo extremamente eloquente — se torna estranhamente pouco articulado quando fala de Soon-Yi. Numa entrevista que concedeu a Walter Isaacson para a revista Time, Allen soltou uma frase que ficou famosa por seu fátuo desprezo acerca de suas deficiências morais: “O coração quer o que quer”.

Foi uma dessas respostas que você nunca esquece depois de ouvir. Todos a memorizamos de imediato, gostássemos ou não. Seu atroz desdém por tudo o que não seja ele mesmo, sua orgulhosa irracionalidade. E Allen prosseguia: “Essas coisas não seguem nenhuma lógica. Você conhece alguém, se apaixona, e é isso.”

I move on her like a bitch [“Mandei ver como se ela fosse uma cadela”, frase dita por Donald Trump]

Custei a terminar de ver Manhattan. Demorei algumas sessões. Mencionei nas redes sociais essa dificuldade de assistir ao filme nesse momento Trump (eu achava ferventemente que fosse um momento). “Manhattan é um trabalho de gênio! Cansei de você, Claire!”, respondeu um escritor que não conheço pessoalmente. Esse escritor tinha suportado vários pronunciamentos escandalosos meus, incluindo alguns sobre meu desejo de executar e cortar em pedaços a metade masculina da humanidade, ao estilo de Valerie Solanas. No entanto, quando confessei que me sentia mal vendo Manhattan — acho que disse que o filme havia me provocado “um pouco de náusea” —, ele me disse, furioso, que me removia [da rede social] e não pensava em dialogar comigo nunca mais.

Eu falhara no que ele considerava que era meu dever: na capacidade de superar meus próprios sermões e minhas bobagens — minhas emoções — e de fazer o trabalho de apreciação do gênio. Mas quem se mostrou mais emocional nessa situação? Foi ele que saiu furioso do chat. Nos meses seguintes, repeti essa conversa com muitos homens, inteligentes e tolos. “Você tem que julgar Manhattan por sua estética”, diziam todos.

Outro escritor e eu discutimos isso numa noite enquanto jantávamos. Foi como uma peça de teatro:

Escritora: “Hum, isso não se sustenta.”

Escritor, bruscamente: “O que você quer dizer?”

Ela: “Bem, parece tudo um pouco displicente. Isaac não se preocupa com o fato de que ela seja uma colegial.”

Ele: “Não, não, não, se preocupa muito”

Ela: “Ele faz piada sobre isso, mas não se preocupa tanto”

Ele: “Você está pensando em Soon-Yi e deixando que isso influa na hora de ver o filme. Achei que você fosse mais séria.”

Ela: “Me pareceu assustador por mérito próprio, mesmo que não soubesse nada de Soon-Yi.”

Ele: “Deixe isso de lado. Você tem que julgá-lo por seus valores estéticos.”

Ela: “E o que lhe dá essa qualidade estética, objetivamente?”

O escritor diz algo sobre “equilíbrio e elegância” que soa muito inteligente.

Eu gostaria que a escritora tivesse sido capaz de dar o golpe de misericórdia aqui, mas não foi assim. Não estava segura de si mesma.

Qual de nós está vendo de forma mais clara? Aquele que teve a capacidade — alguns diriam o privilégio — de permanecer inalterado ante as atitudes do cineasta com relação às mulheres e seus antecedentes com as meninas? Aquele que pôde contemplar a arte sem cair em falácias biográficas? Ou quem não pôde evitar ver as antipatias e os impulsos que parecem dar vida ao projeto?

Pergunto sinceramente.

Esses espectadores orgulhosos de sua objetividade estavam sendo tão objetivos quanto pensam? A genialidade habitual de Woody Allen é sua capacidade de culpar a si mesmo, e aqui está um filme em que essa capacidade falha e no qual ele também transa com uma adolescente. E esse é o filme considerado uma obra-prima? O que exatamente esses caras defendem? É o filme? Ou é outra coisa?

Acredito que Manhattan e sua história pró-menina e antimulher seriam inquietantes mesmo que o furacão Soon-Yi nunca tivesse tocado solo. Mas não podemos saber, e aí está a chave do assunto. O filme de Louis C. K. I Love You, Daddy — o relato de um pai que tenta evitar que sua filha adolescente se envolva com um homem mais velho — terá um destino similar. Será impossível vê-lo como algo alheio ao comportamento indevido de Louis C. K., se é que chegará a ser visto. Até agora, a distribuição foi suspensa e o filme não vai estrear. Uma grande obra de arte nos provoca sentimentos. E, no entanto, quando digo que Manhattan me provoca náusea, um homem me responde: “Não, esse sentimento não. Você está tendo o sentimento errado.” E fala com autoridade: “Manhattan é uma obra-prima”. Mas quem diz isso? A voz autorizada diz que a obra não deve ser afetada pela vida. Que a biografia é uma falácia. Que a obra existe num mundo ideal (a-histórico, alpino, nevado, puro). Isso fica para os vencedores da história (os homens) (até agora).

O ponto é: não digo que eu tenho razão. Mas sou o público. E a única coisa que faço é ser consciente da realidade dessa situação: o filme Manhattan é visto de outra maneira pelo que sabemos sobre Soon-Yi, mas também é ligeiramente repugnante por si mesmo e, por outro lado, tem um monte de coisas que são maravilhosas. E tudo isso pode ser verdade ao mesmo tempo. A história de Allen não perde importância só porque os homens te dizem que ela não conta.

E o que eu faço com esse monstro? Tenho alguma responsabilidade? Devo me afastar ou superar meu desagrado biográfico e ver, ler, escutar?

E por que o monstro nos deixa — me deixa — tão furiosos?

O público quer algo para ver, ler ou escutar. Isso é o que o transforma em público. Neste momento histórico concreto, em que estamos estupefatos por amargas revelações, o público fica indignado novamente com a aparição de novos monstros todo dia, repetidas vezes. O público se entusiasma com o drama das denúncias contra os monstros. Dá meia volta e jura que nunca mais verá um filme de Kevin Spacey.

Talvez os sentimentos do público sejam puros, justos e sinceros. Mas também pode estar acontecendo outra coisa.

Quando você tem um sentimento moral, fica satisfeito com você mesma. Coloca suas emoções num leito de linguagem ética e se admira por fazer isso. Somos governados pelas emoções, emoções que rodeamos de linguagem. A transmissão de nossos sentimentos virtuosos nos parece muito importante e estranhamento apaixonante.

Lembrete: não “você”, não “nós”, e sim “eu”. É preciso reconhecer as coisas. Eusou o público. E percebo que há algo completamente inaceitável à espreita dentro de mim. Inclusive no meio de minhas explosões de justa indignação por Woody e Soon-Yi, sei que, em certo sentido, não sou a única cidadã completamente nobre. Me dou bem com meus filhos e cuido de meus amigos; tenho uma casa acolhedora, escuto meu marido e sou razoavelmente boa com meus pais. No que faço e penso diariamente, sou um ser humano mais ou menos decente. Mas também sou algo mais, algo que se parece vagamente com, bem, um monstro. Os vitorianos compreendiam esse sentimento; por isso não legaram as enormes dicotomias de Dorian Gray, de Jekyll e Hyde. Suponho que essa é a condição humana, essa leve suspeita de nossa própria maldade. Algo em nós — em mim — vibra com esse horror, o reconhece, se espanta ao reconhecê-lo e logo se entusiasma com o espetáculo de denunciar publicamente o monstro em questão.

O teatro psicológico da condenação pública dos monstros pode ser considerado uma espécie de distração elaborada: não olhem para mim, não há nada para ver. Não sou nenhum monstro. Em vez de mim, olhem para esse sujeito aí. Sou um monstro? Nunca matei ninguém. Sou um monstro? Nunca defendi o fascismo. Sou um monstro? Nuca cometi abuso contra uma criança. Sou um monstro? Nunca fui acusado por dezenas de mulheres de tê-las drogado e estuprado. Sou um monstro? Não bato nos meus filhos (ainda). Sou um monstro? Não sou antissemita. Sou um monstro? Nunca liderei uma seita sexual que captura mulheres numa mansão dourada de Atlanta. Sou um monstro? Não estuprei, analmente, alguém de 13 anos.

Com todas as coisas horríveis que não fiz, talvez eu não seja um monstro. Mas há uma coisa que de fato fiz: escrever um livro. E escrever mais um livro. Ensaios, artigos e resenhas. Ou talvez isso me transforme num monstro, mas num sentido muito específico.

O crítico Walter Benjamin falava da “barbárie que está na base de toda grande obra de arte”. Minhas obras não são exatamente grandes, mas me pergunto: existe um pouco de barbárie na base de toda pequena obra de arte? Uma pontinha?

Para ser escritor ou artista, uma pessoa deve ter muitas qualidades. Talento, inteligência, tenacidade. É bom contar com pais ricos. É decididamente conveniente. Mas o ingrediente mais necessário é o egoísmo. Um livro é feito de pequenos egoísmos. O egoísmo de fechar a porta à família. O egoísmo de ignorar o carrinho de bebê que aguarda no corredor [em alusão à frase do crítico literário Cyril Connolly, de que “não há inimigo mais sombrio da boa arte do que um carrinho de bebê no corredor”]. O egoísmo de se esquecer do mundo real para criar outro diferente. O egoísmo de roubar histórias de pessoas de carne e osso. O egoísmo de reservar o melhor de si para esse amante anônimo e sem rosto, o leitor. O egoísmo de dizer o que você tem que dizer.

Me pergunto se sou suficientemente monstruosa. Sou consciente de minhas falhas como escritora — conheço a lista em detalhes, e o pior são as falhas que sei que não conheço —, mas uma pequena parte de mim tem que perguntar: se fosse mais egoísta, meu trabalho seria melhor? Deveria almejar ser mais egoísta?

Todas as escritoras e mães que conheço se fizeram essa pergunta. Nenhuma diz isso em voz alta, mas posso ouvir como pensam; é quase ensurdecedor. Por acaso uma identidade interrompe fatalmente a outra? Meu trabalho me faz ser uma mãe pior? Isso é o que você se pergunta o tempo todo. E também: a maternidade me faz ser pior escritora? Essa pergunta é um pouco mais incômoda.

Jenny Offill aborda essa ideia num fragmento de seu romance Dept. of Speculation, uma passagem muito comentada pelas escritoras e artistas que conheço: “Meu plano era nunca me casar. Em vez disso, seria um monstro da arte. As mulheres quase nunca chegam a ser monstros da arte, porque os monstros da arte só se dedicam a essa arte, nunca às coisas cotidianas. Nabakov nem sequer fechava seu guarda-chuva. E Vera umedecia os selos para ele.”

Eu detesto lamber os selos. Um monstro da arte, pensei quando li esse fragmento. Isso é o que quero ser. Minhas amigas pensaram a mesma coisa. Victoria, que é pintora, saiu por aí gritando “monstro da arte” durante vários dias.

As escritoras que conheço sonham em ser mais monstruosas. Dizem meio que brincando: “Quem me dera ter uma esposa.” O que isso quer dizer? Quer dizer que sonham em abandonar os cuidados cotidianos para praticar os sacramentos egoístas que a arte exige.

E se não sou monstruosa o suficiente?

De certo modo, há anos pergunto isso a alguns amigos escritores que considero magníficos. Envio-lhes e-mails cheios de simpatia, mas nos quais, na verdade, sempre tento saber: quanto você tem de egoísta? Ou, em outras palavras: quão egoísta preciso ser para ser tão boa artista quanto você?

Muito egoísta, segundo descobri observando esses homens de longe. Egoísta de fechar a porta e não dar bola para o seu filho enquanto trabalha. Egoísta de trabalhar todo dia, inclusive nas festas, inclusive no Natal. Egoísta de viajar semanas seguidas promovendo o livro. Egoísta a ponto de dormir com outras mulheres em congressos. Tão egoísta para fazer o que for preciso.

Numa noite recente, eu estava na sala caótica cheia de livros de uma jovem escritora e seu marido, também escritor. Seus filhos já estavam na cama, no andar de cima; de vez em quando, ouvia-se um choro.

Com os três filhos no colégio e o marido trabalhando o dia todo, minha amiga tentava forjar uma carreira fazendo frilas e escrevendo livros. Uma nuvem de intensa ambição literária cobria a casa, como um microclima tormentoso. Era dia de semana; todos deveríamos ter ido dormir, mas lá estávamos, tomando vinho e falando de trabalho. O marido me pareceu encantador, o que significa que ele ria de todas as minhas piadas. Estava muito tenso e alerta, talvez porque, como escritor, não estava tendo muito sucesso. Já a mulher tinha, e muito.

Ela mencionou um relato breve que acabava de escrever e publicar.

“Ah, você se refere à última desculpa para abandonar as crianças e a mim?”, perguntou o inteligente e encantador marido.

A mulher havia se transformado num monstro capaz de terminar sua obra. O marido, não.

Essa é a monstruosidade feminina: abandonar os filhos. Sempre. O monstro feminino é Doris Lessing deixando seus filhos para se entregar a uma vida literária em Londres. O monstro feminino é Sylvia Plath, que, como se seu suicídio fosse pouco, ainda se preocupou em fechar o quarto dos filhos. E em deixar pão e leite para eles, uma espécie de poema terrível em si mesmo. Ela sonhava em devorar homens como o ar, mas era monstruosa porque deixou os filhos sem mãe.

Talvez, como uma mulher escritora, você não se mate nem abandone seus filhos. Mas você abandona alguma coisa, alguma parte vital de si mesma. Quando você acaba um livro, o que aparece espalhado no chão são pequenas coisas quebradas: encontros cancelados, promessas não cumpridas, compromissos desfeitos. E outros esquecimentos e falhas mais importantes: os deveres dos filhos sem ter sido revisados, as chamadas não realizadas aos pais, o sexo conjugal esquecido. Todas essas coisas têm que se romper para que um livro seja escrito.

Claro que possuo a monstruosidade corrente de uma pessoa normal, as profundezas insondáveis, o Hyde reprimido. Mas também tenho outra monstruosidade mais visível e quantificável, a da artista que termina seu trabalho. Os artistas que terminam suas obras sempre são monstros. Woody Allen não só tenta rodar um filme por ano; tenta estrear um filme por ano.

No meu caso, a monstruosidade de terminar meu trabalho sempre se pareceu muito com a solidão: me afastar da família, ficar fechada numa casa de campo emprestada ou num quarto de hotel. Se não posso me distanciar fisicamente, me escondo em meu frio escritório, com echarpes e luvas sem dedo, com um gorro de pele na cabeça, isolada do mundo, tentando terminar.

Porque terminar é o que faz o artista. O artista deve ser monstruoso o bastante para não só começar, mas também terminar uma obra. E cometer todas as barbaridades que salpicam o caminho entre o princípio e o fim.

Minha amiga e eu não havíamos feito nada mais monstruoso do que esperar que alguém se encarregasse de nossos filhos enquanto terminávamos nossa obra. Não é algo tão ruim quanto o estupro nem, por exemplo, quanto obrigar alguém a te olhar enquanto você se masturba perto de um vaso de planta. Pode parecer que estou misturando as coisas — os homens predadores e as mulheres artistas — de um jeito preocupante. É possível. Porque, quando nós, mulheres, fazemos o que deve ser feito para escrever ou criar arte, às vezes nos sentimos monstruosas. E outros se apressam em nos qualificar como tais.

A escritora Martha Gellhorn, namorada de Hemingway, não pensava que o artista tivesse que ser um monstro; pensava que o monstro precisava se transformar em artista. “Um homem deve ser um grande gênio para compensar o fato de ser uma pessoa tão abominável” (suponho que ela sabia do que falava). O que diz ela é que, se você é realmente horrível, se sente compelido a ser um gênio para compensar o mundo por todas as coisas espantosas que vai fazer a ele. De certo modo, é uma revisão feminista de toda a história da arte; uma história que ela, com uma única frase ácida e brilhante, transforma numa alegoria moral de compensação.

Em qualquer caso, restam perguntas para responder. O que fazemos com os monstros? Podemos e devemos amar suas obras? Todos os artistas ambiciosos são monstros? E, em voz muito baixa: sou um monstro?


* Claire Dederer é autora das memórias Love and Trouble. Está escrevendo um livro sobre a relação entre o mau comportamento e a arte de qualidade. Este artigo foi publicado em inglês no The Paris Review Daily.


Fonte: Jornal El País (Espanha)

12 notícias que deixam claro como funciona a cultura do estupro


1. "Ninguém é estuprada dentro de casa lavando louça"



2. "Com essa roupa, tava pedindo"


Leia a história aqui na Reuters.


3. "Se estivesse na escola em vez de estar por aí, isso não teria acontecido"


História aqui, do Estadão.


4. "Se fosse uma moça trabalhadora, isso não teria acontecido"


Notícia do G1.


5. "Se ela escolhesse melhor as companhias, talvez isso não tivesse acontecido"


História aqui.


6. "Se ela fosse uma menina mais família, isso não teria acontecido"


Via Marina Ferreira. História aqui.


7. "Ela não sabia que tipo de coisa acontece nesses lugares?"


Leia a história aqui.


8. "Se ela não saísse por aí galinhando, isso não teria acontecido"


Via Marina Ferreira. Leia a história aqui.


9. "Ela não parece ter sido agredida"


Leia o depoimento para a Marie Claire aqui.


10. "Muitas meninas é que se colocam nessa situação de exposição"


Leia aqui.


11. "Ela não sabia das intenções deles?"


Veja aqui.


12. "Ela não sabia onde estava se metendo?"


Leia aqui.


Fonte: Portal BuzzFeed / Portal Não Me Kahlo

Artigo - Padrões sociais, especialistas e automatismos ao lidar com pessoas



Por: Josiane Gadonski


Eu não trago textão, eu trago uma história. A minha.
Pouco mais que 5 minutos de leitura.
É um exercício muito triste contar coisas assim e abrir sua vida pros outros, mas penso que pode ser útil pra vocês, de alguma forma.

Aos 12 anos, quando minha família estava completamente horrorizada com meu sobrepeso de 7 kg (pois é), minha mãe decidiu me levar a uma endocrinologista, que prescreveu Levotiroxina sem sequer ter feito um exame laboratorial. A dose? Não lembro.
Mas paralelamente fomos também para outro médico, naturopata conceituadíssimo em Curitiba nos anos 90, que prescreveu iodo. Consulta cara, medicamento horrível. Se não me engano era um similar mais potente do famosinho Lugol, vendido em farmácias.
Mas aí que começou a porra toda.

Sei que foi 1 ano de tratamento sem resposta. Josinha continuava engordando e dos 13 pra 14 estava decidido: vai tomar fórmula! Fórmula, para vocês XOVENS que talvez desconheçam, é um termo genérico e popular usado para uma bomba de substâncias emagrecedoras. Nessa bomba caríssima, o médico colocava fitoterápicos, diuréticos e ANFETAMINAS. AHAM.
Aos 13 anos eu já sabia o que era ficar estrequinada.

Essa primeira fórmula tinha Femproporex e minha família aceitou de bom grado, por exemplo, eu andar 5 horas seguidas de bicicleta. Mas não entendia os episódios de crises de riso durante o dia e a depressão profunda durante a noite. Estava mais magra e completamente esculhambada no início da adolescência.

O tempo passou, eu engordei novamente, cheguei aos 14 com uma depressão tão lascada que larguei a escola. Foi o ano que mais me pressionaram pra emagrecer e o ano que eu tentei me matar. Quantos kg eu estava? 67.
“Seu peso ideal, para seu tamanho, seria em torno de 49 ou 50 kg.”
1998 era esse ano, e eu passei ele inteirinho dentro da minha casa e nem penteava mais os cabelos.

Mas no ano seguinte voltei pra escola, estava um pouco mais disposta. AÍ ADIVINHA, engordei mais um pouco.
“Vamos voltar pro Dr., ela precisa tomar de novo uma fórmula. Como ela vai conseguir namorado, amigo, desse jeito? A gente pede uma mais suave dessa vez”.
Tomei Anfepramona e em 2 meses perdi 20 kg.
“Ai que linda, meu deus!”
“Ai, ela conseguiu, que bom!”
“Hum, agora vai, hein!”

Em 2001 o pesadelinho voltou, a tireoide resolveu não funcionar e eu já tinha recuperado todo o peso perdido.
TSH e T4 alterado, colesterol alto por conta da disfunção da glândula: Toma Levotiroxina e Sinvastatina.
“Mas a menina toma Diane 35 porque tem SOPC (ovário policístico), não interfere?”
“Fica tranquila, não interfere”
“Tem que fazer dieta”
“Tem que fazer exercício”
Faz dieta, faz exercício. Em 2003 muda o anticoncepcional e de brinde ganha 10 kg.
“Tem que fechar a boca”
“Tem que se mexer”

Fecha a boca, se mexe. Estabiliza.
PUXA, QUE ALÍVIO, ACHO QUE ACABOU.

Não, era só um intervalo.
2008 casei.
2009 a mãe morreu.
2013 separei.
E aí, amados, já estava com mais que 100 kg. Depois disso até perdi uns 25 kg, que estão voltando aos poucos.

Continuo tomando Levotiroxina, que em 2016 chegou a dosagem absurda de 300 mcg, diminuída progressivamente até chegar aos atuais 125 mcg (dosagem ainda alta).
O medicamento não surte mais efeito, mas mesmo assim não posso parar com ele. Ainda continuo com a SOPC e não posso tratar de maneira convencional por conta da tendência familiar a trombose. Como a tireoide não cumpre mais suas funções a hipertensão se instalou, então tenho que tomar Losartana e Hidroclorotiazida. A combinação desses medicamentos me causou gastrite, então tomo Omeprazol. Omeprazol interfere na absorção de Levotiroxina, mas mesmo assim ela já não produzia efeito antes dessa gastrite.

MEU DEUS.
Aí você vai em 1,2, 3...NOVE endocrinologistas, que te pedem sempre os mesmos exames. E você diz a eles toda essa história, fala a respeito das pesquisas que fez por conta própria, levanta possibilidades... Enquanto eles ficam lendo o calhamaço de exames anteriores que você levou ao consultório, sem olhar nos seus olhos direito.
“Senta aqui, vou ver tua pressão. Ah, tá tudo bem. Você quer um atestado, né? ”
“Porque você quer encaminhamento pra outro especialista, o tratamento aqui não basta?”
“É mesmo? Puxa. Bom, vamos aumentar a dose”
“Eu acho tão ridículo ter que explicar pra paciente como funciona o corpo dele”

MEU DEUS.
Aí vem os “especialistas” da família, das redes sociais, dos círculos de amizade.
“tem que fechar a boca e fazer exercício, não tem segredo”
“mas sabe, minha amiga tomou um negócio que foi muito bom”
“porque você não faz academia?”
“porque você não faz a dieta low carb?”

MEU DEUS.
Sério. Existem mais de 7 bilhões de pessoas nessa porra desse planeta e a cura, a resolução definitiva se limita somente a essas possibilidades? Cada indivíduo tem uma história diferente, que pode apresentar diagnósticos e possibilidades diferentes e vocês vem sempre com a mesma?

Até quando eu vou ter que procurar um(a) endocrinologista que ME OUÇA, que se interesse pelo meu histórico pra gente chegar num consenso, num tratamento definitivo?
Até quando eu vou ter que contar toda essa história pras pessoas entenderem que nem tudo se resolve “fechando a boca e fazendo exercício”.
Até quando eu vou ter que contar pras pessoas que por conta da opressão estética FODERAM com a minha saúde aos 12 anos. PELO AMOR DE DEUS, quem em sã consciência prescreve anfetamina pra uma criança, por mero motivo estético?
Tem que ser muito mau caráter pra se aproveitar da leiguice dos pacientes e entupir eles de estimulantes. Pacientes tão jovens...

MEU DEUS.
Parem de ser tão ignorantes.
Parem de ser tão surdos pros problemas dos outros.
Parem de pressionar meninas e meninos a seguirem os padrões que vocês criaram. Não me venham com esse papinho mole de que vocês “se preocupam com a saúde das pessoas”. Tem criança que só tá uns 5 kg acima do “peso ideal” e vocês já crucificam. Essa opressão se torna uma bola de neve, que vira uma avalanche, a ponto dessa criança se tornar uma pessoa doente de verdade quando adulta, POR CULPA DISSO TUDO, COMO É O MEU CASO.
Se há algum problema de saúde, tratem da maneira mais humana possível, pelo amor de deus.

Eu não culpo mais ninguém a essa altura da minha vida (tirando o médico desgraçado).
Mas não vou ficar quieta quando começarem a pressionar crianças, que estão visivelmente saudáveis, pra perderem peso.
Não vou mais ficar quieta quando a pauta do jantar for só dieta e métodos de emagrecimento.
Não vou mais ficar quieta quando uma pessoa visivelmente magra tá se autoproclamando obesa.
Não vou.

Eu estou aqui, vivendo e trabalhando de maneira limitante como resultado da ganância, irresponsabilidade, falta de empatia e ignorância de especialistas e cidadãos comuns.
NÃO FERREM A VIDA DE SUAS CRIANÇAS, NÃO FERREM A VIDA DO SEU PRÓXIMO.
ABRAM OS OLHOS, OS OUVIDOS, ABRAM A MENTE.
E antes de falar qualquer imbecilidade, lembrem-se e utilizem o próprio conceito de vocês: “é só fechar a boca”.


Fonte: Facebook

Sair da ‘zona de conforto’ e outras bobagens do mundo corporativo

Foto: David Maurice Smith (The New York Times)
Funcionário da empresa australiana Xero


Adrián era amarelo: ao ser contratado por uma pequena empresa de marketing digital, aplicaram-lhe um teste de personalidade. Vermelhos são os líderes; amarelos, os criativos; verdes, os criadores de um clima bom; e azuis, os dóceis. Ao chegar ao trabalho, todas as manhãs, ele tinha de escolher um emoticon que expressasse o seu estado de ânimo do momento, assim como ao sair, depois da jornada de trabalho (embora ele nem sempre fosse sincero e costumasse abrandar suas emoções, para não transmitir uma impressão ruim aos seus superiores). Em certos dias havia aulas de yoga, em outros mindfulness ou dinâmicas para ele se abrir com os demais e vencer a timidez; em alguns finais de semana, práticas de team building.

Adrian era guiado por um mentor, que definiu o seu número dentro da teoria psicológica do eneagrama da personalidade. Era o três. E todas essas informações eram compartilhadas com a direção da empresa. “Tudo tinha um ar de pensamento positivo, de modernidade tipo Vale do Silício”, lembra Adrián, que prefere não revelar sua identidade, “mas eu tinha a sensação de que estavam invadindo a minha intimidade, de que manipulavam a minha mente. Eu preferia fazer os meus trabalhos de caráter psicológico por conta própria”. Por razões como essas, Adrián acabou deixando o emprego.

Práticas e discursos desse tipo (embora nem sempre com a mesma intensidade descrita nesse caso) proliferam cada vez mais nas empresas, em especial no setor da chamada nova economia: consultoria, marketing, tecnologia etc. E vem, sobretudo, do mundo anglo-saxão e nórdico, onde são mais comuns. Elas são justificadas como algo que faz bem à empresa e ao funcionário, como uma forma de inovação e aproximação, formas mais humanas, mais friendlies. Para muitas pessoas, porém, elas são vistas como invasivas, assemelhando-se, mais, a um método de controle.

“Essas culturas empresariais novas buscam obter do trabalhador um compromisso diferente daquele que se pedia tradicionalmente”, explica Carlos Jesús Fernández, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Autônoma de Madrid (UAM). “Antes era preciso saber fazer um trabalho e desempenhar uma função durante oito horas por dia. Agora se procuram características pessoais, competências ligadas à personalidade”. Daí as palestras motivacionais que estimulam palavras mágicas como liderança, empreendimento, risco ou o mantra tão difundido do “é preciso sair da zona de conforto”. Daí, também, a proliferação de livros de autoajuda ligados ao mundo corporativo. O problema, segundo Fernández, é que “existe um vazio de regulamentação no controle dessas práticas”, o que faz com que elas, muitas vezes, cheguem longe demais.

“O que essas técnicas visam é, principalmente, que os funcionários se identifiquem com a empresa”, afirma Óscar Pérez Zapata, professor de Organização de Empresas no ICADE e na Universidade Carlos III de Madri e diretor de pesquisas do think tankDubitare. “O que se pretende é criar uma cultura corporativa forte em que os elementos emocionais e íntimos, como os apelos à paixão, são cada vez mais importantes”, acrescenta. O que, a rigor, não é algo novo, pois há décadas que os trabalhadores se identificam com suas empresas, sobretudo no caso de companhias grandes e poderosas. Mas antes, cabe dizer, os contratos de trabalho eram de uma vida inteira.

Tudo é coberto por um verniz de sorrisos, desse pensamento positivo tão em voga e criticada por livros como Sorria ou Morra, de Barbara Ehrenreich, ou A Indústria da Felicidade, de William Davies. “Trata-se de uma mentalidade que se encaixa muito bem com o objetivo pretendido”, avalia Pérez Zapata. “O pensamento positivo elimina qualquer possibilidade de crítica e desloca a culpa e a dúvida para o indivíduo e não para a estrutura onde ele atua. Liga-se, assim, à concepção fantasiosa do eu empreendedor, da iniciativa pessoal do herói que tudo pode com a autogestão e que, no limite, é o único responsável pelos êxitos ou pelos fracassos”.

Esses problemas são analisados pelos chamados critical management studies(CMS), um conjunto de disciplinas surgidas nos anos noventa e que estudam o funcionamento das empresas de forma crítica a partir das obras de pensadores como Michel Foucault (sobretudo seus estudos sobre a sociedade disciplinadora), a teoria crítica da Escola de Frankfurt ou a teoria do processo de trabalho, entre outras fontes teóricas. Elas foram criadas por professores de escolas de negócios e faculdades de administração de empresas, como Mats Alvesson ou Hugh Willmott, que propunham uma visão crítica e procuravam trazer à luz as relações de poder no seio das organizações empresariais. “Embora a palavra crítica pareça muito beligerante, pode se tratar de uma crítica construtiva para a empresa”, afirma Pérez Zapata. “No que se refere a essas técnicas, o veneno está na dosagem”.

O panorama descrito é típico da era pós-fordista, em que proliferam a ausência de proteção, a mobilidade e a flexibilidade no trabalho, a dissolução das classes sociais bem definidas e a atomização das relações trabalhistas. A conexão permanente via Internet, além disso, torna fluidos os limites dos horários e das jornadas de trabalho. Tudo que se refira ao trabalho se torna líquido também. “Rompem-se, dessa maneira, os limites e as regulamentações de quase tudo: onde se trabalha, quanto se trabalha, com quem, como etc, hoje em dia muito da responsabilidade recai sobre o trabalhador”, diz Pérez Zapata. “Normalmente há uma sobrecarga para o trabalhador, a quem se pede que ultrapasse seus limites e ao mesmo tempo saiba impô-los a si mesmo”.

“Há uma individualização e uma psicologização crescentes”, observa Luis Enrique Alonso, catedrático de Sociologia da UAM e coordenador do grupo de pesquisas de Estudos sobre trabalho e cidadania. “O que se busca é uma adesão psicológica integral e que não exista nada intermediário entre o funcionário e a empresa, que não exista nenhum tipo de ação ou identidade coletiva”, afirma. Esse ar de criatividade individualista e de modernidade hipster poderia ser visto como uma herança da contracultura dos anos sessenta assimilada pelo capitalismo contemporâneo: a rebeldia individualista antissistema transformada em ambição individualista empresarial, como observam Chiapello e Boltanski em O novo espírito do capitalismo. O pebolim no escritório. “O fato é que falar hoje em dia em organização e direitos coletivos soa como algo muito velho”, conclui o professor, “o que nos leva a uma espécie de darwinismo social estimulado pela precariedade existente. Mascara-se, assim, a disputa encarniçada pelos poucos postos disponíveis: salve-se quem puder”.

“Estamos agindo de forma ética nas empresas?”, questiona Fernández. “Os discursos sobre inovação aumentam, mas se trabalha cada vez mais, com mais disciplina e com um consumo cada vez maior de calmantes para suportar tudo isso”, conclui.


Fonte: Jornal El País (Espanha)

Lei no Rio prevê campanha para inibir assédio sexual no transporte público


Está em vigor no estado do Rio de Janeiro a Lei 7.856, que cria o Programa de Prevenção ao Assédio nos Transportes Coletivos Públicos e Privados. Sancionada pelo governador Luiz Fernando Pezão no início desta semana, a lei de autoria da deputada estadual Marcia Jeovani (DEM) contém recomendações às concessionárias para coibir esse tipo de abuso.

O texto obriga empresas de transporte a colar, no interior dos veículos, em estações e terminais, cartazes que incentivem a denúncia e orientem passageiras sobre como identificar o agressor, reunindo informações sobre as caraterísticas físicas do abusador e o local do ocorrido. Os adesivos devem exibir ainda os telefones da Polícia Militar (190) e da Central de Atendimento à Mulher (180), por exemplo. As vítimas devem guardar informações como horário, linha, roupa do agressor e características físicas dele.

Em 2015, o instituto de pesquisa Datafolha revelou que uma em cada três passageiras contou ter sido vítima de alguma forma de violência sexual em ônibus, trens e metrôs. A deputada Marcia Jeovani lembra que muitas vítimas têm vergonha de registrar a ocorrência e, com a campanha, a expectativa é encorajá-las. “Sabemos que, no fundo, muitas das mulheres se sentem culpadas, ficam com vergonha da maneira como as pessoas vão receber essa denúncia e acabam se calando, deixando passar.”

A lei estadual replica texto semelhante aprovado no município de Niterói, na região metropolitana, pela Câmara de Vereadores, em setembro de 2017. A lei contou com apoio das empresas de ônibus locais, que já discutem com a equipe da vereadora Talíria Petrone (PSOL), autora do projeto original, o tom adequado da campanha que será exibida nos veículos.

É importante que os cartazes nos meios de transporte não reforcem estereótipos e sejam elaborados em parceria com organizações de mulheres ou especialistas, defende a coordenadora da organização não governamental Criola, Lúcia Xavier. A entidade, cujo objetivo é a defesa e promoção dos direitos das mulheres negras, ganhou quatro prêmios no Cannes Lion, festival publicitário mais importante do mundo, por uma campanha contra o racismo no Brasil.

A Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), em comunicado por e-mail, disse que é a favor de campanhas nos ônibus e de outros mecanismos contra a violência. A entidade não informou, no entanto, quando implementará a medida nem o orçamento destinado à afixação dos cartazes, assim como ao layout das peças e à capacitação de rodoviários.

Mesmo que a lei não deixe clara as formas de implementação do programa de prevenção ao assédio, Lúcia Xavier destaca que a iniciativa é importante, por ter sido pensada para proteger as mulheres, as maiores vítimas do abuso. Ela disse que a mudança de cultura para acabar com o assédio e abusos leva tempo. A lei do Rio, completou Lúcia, estimula a sociedade a discutir o tema. “Medidas como essa criam um impacto. Todo mundo sabe do que se trata, mas a oportunidade de colocar o problema e encontrar políticas públicas para enfrentá-lo não estava na ordem do dia, mas na alçada das mulheres, como se elas fossem responsáveis pela violência contra si”, frisou.

Segundo ela, as campanhas tendem a inibir abordagens ofensivas. Muitas vítimas acham que não vale a pena enfrentar o processo de denúncia porque é difícil identificar e punir o agressor. “A não ser no caso de haver um sinal da agressão como a ejaculação”, frisou.

De acordo com o governo do Rio, os órgãos de fiscalização vão “atuar sempre que demandados” para fiscalizar a lei, assim como as forças de segurança, para atender às denúncias.

Antes, como forma de proteger dos abusos, o estado criou, nos trens e metrôs, um vagão exclusivo para mulheres, durante o horário de pico. Apesar de a medida ser controversa, por partir do princípio de que “todas as mulheres são vítimas e todos os homens são agressores”, era uma solução imediata para dar segurança e conforto às mulheres, disse Lúcia Xavier.

Este ano, para enfrentar a cultura que incentiva ou permite hostilidades contra as mulheres, o governo do estado também aprovou lei prevendo multas a empresas que divulgarem campanhas publicitárias consideradas misóginas, sexistas ou que estimulem a violência. Uma comissão será responsável pela análise e pode aplicar multas, além de tirar a propaganda do ar.

De acordo com a pesquisa do Datafolha, depois do transporte público, as mulheres são mais assediadas ou sofrem abusos nas ruas (33 %), na balada (19 %) e no trabalho (10%).


Fonte: Revista IstoÉ

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