quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Um dia na vida de… uma pessoa negra


(Conheça série de quadrinhos da SUPER: “Um dia na vida de…”. Conversamos com mulheres, negros, gays e pessoas com deficiência para entender que situações desconfortáveis fazem parte de seu dia a dia – e depois desenhamos os casos para todo mundo entender)

Agradecemos a Ana Julia Gennari, Lívia Martins, Sophia de Mattos e Matheus Moreira, pela coautoria deste post.


Em 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, a “Redentora” não acabou com o racismo. Há mais de 20 anos, quando quase 3 milhões de sul-africanos votaram “sim” ao pacote de reformas propostas pelo governo de Frederik De Klerk que colocariam fim ao regime do apartheid, eles não acabaram com o racismo. Em 2003, quando o aniversário de morte de Zumbi dos Palmares virou feriado para o país refletir sobre a condição das pessoas negras, o racismo não acabou. Nem ali, nem lá atrás, nem agora – e o preconceito persiste porque deixamos que persista.

Para colocar fim ao apartheid social não institucionalizado que insistimos em ignorar, é fundamental lembrar que racismo não é sutileza – é crime. E que não é curioso que em um país em que 109,8 milhões (53,6% da população, de acordo com o IBGE) se declarem negras, essas mesmas pessoas sejam minorias em rankings de riqueza, educação e expectativa de vida – é patológico. Melanina só determina as nossas cores. Nada mais.

Os quadrinhos a seguir foram inspirados em situações reais pelas quais pessoas negras passam diariamente.




Um dia na vida de uma pessoa negra

Com quadrinhos de Helô D’Angelo



#SuperAcessível: Quadrinho 1: um velhinho branco está andando na rua. Atrás dele, vem um rapaz negro, de moletom e fones de ouvido. O velhinho percebe a presença do rapaz, com expressão preocupada, pensa: “Ai meu deus… Esse cara vai me assaltar!” Quadrinho 2: o velhinho diz, assustado, para o rapaz: “Leva aqui meu celular e minha carteira, não tenho mais nada!”. O rapaz, irritado, responde: “Eu não quero te assaltar! Só ia perguntar as horas!” Nosso conselho nesse caso: a cor da pele não determina a conduta de ninguém. É muito ofensivo assumir que uma pessoa vai te assaltar só porque ela é negra.




#SuperAcessível: Quadro 1: um rapaz negro, de cabelo raspado e camisa, está conversando com um senhor branco. O senhor dá uma cutucada no rapaz com o cotovelo e diz: “Você é um negro bonito. Seu nariz não é tão largo, você nem é tão escuro e seu cabelo até que é bom…” Quadro 2: foco no rosto do rapaz: ele está dando um “facepalm” e pensando “Então eu só sou bonito porque pareço branco?!” Nosso conselho nesse caso: se você diz que uma pessoa é bonita “apesar” dessas características, está dizendo que só existe um padrão de beleza: o branco. Isso não é elogio – é racismo.




#SuperAcessível: Quadro 1: uma mulher negra está sentada no banco de um bar, sendo agarrada por um cara branco, sentado ao lado dela. Ela está obviamente incomodada com a investida, e diz: “Já falei que não tô afim de ficar com você!”. O cara responde: “Para com isso! Eu sei que mulata é sempre assanhada…” Quadro 2: Foco no rosto da mulher. Ela está muito brava. Ela grita: “Além de machista é racista! Sai daqui!” Nosso conselho nesse caso: A cor da pele não justifica abuso sexual – nada justifica. Achar que uma mulher está ali para servir é ignorar toda a vontade dela e transformá-la em um objeto.




#SuperAcessível: Quadro 1: uma senhora negra está andando no shopping. Uma outra mulher, branca e com ar de madame, chega perto e diz: “Escuta aqui, o banheiro desse shopping tá uma porcaria! Melhor você ir limpar agora!” Quadro 2: a mulher muda a expressão: ela está com muita raiva. Ela fala: Eu sou advogada, não faxineira”. A madame fica constrangida. Nosso conselho nesse caso: assumir que alguém está ali para servir é voltar direto para a época da escravidão. Que tal não ter esse preconceito simplesmente porque a outra pessoa é negra?




#SuperAcessível: Quadro 1: um rapaz branco e loiro, de barba, dreads e roupa rasgada, está passando na rua. Atrás dele, duas mulheres brancas conversam. Uma das mulheres, que tem cabelos escuros e está usando saia, diz: “Nossa! Que gato”. A outra, de cabelos mais claros e calça comprida, responde, sorrindo: “Bem estilo hippie, né?” Quadro 2: um rapaz negro passa na frente das mesmas mulheres brancas. O cara está com o visual idêntico ao loiro do quadro anterior: dreads, roupa rasgada e barba comprida. A moça de cabelos escuros faz uma cara de horror e diz: “Que cara mais sujo”. A outra, de cabelos claros, responde (com cara de nojo): “Acho que ele está bêbado! Não chega perto”. Nosso conselho nesse caso: Admirar signos da cultura negra apenas em pessoas brancas é sinal de racismo. Afinal, fazer isso é se esquecer que o uso de dreads – assim como o de turbantes e tranças – faz parte da cultura africana e tem significados importantes para pessoas negras. A apropriação cultural destes signos ser vista como algo estiloso, enquanto seu uso por pessoas negras ser visto com preconceito é, além de racista, hipócrita.




#SuperAcessível: Quadro 1: um rapaz negro, de terno e gravata, chega na recepção de um escritório. A recepcionista é branca. O rapaz diz: “Oi, eu vim para a entrevista de emprego”. A recepcionista interrompe: “Ah, é pra vaga de segurança, né? Pode sentar ali” Quadro 2: O rapaz fica muito bravo e responde: “não, é pra vaga de analista de sistemas”. A recepcionista fica com vergonha. Nosso conselho nesse caso: Profissões não deveriam ter cara ou cor. Pensar que uma pessoa negra não é qualificada profissionalmente é sinal de racismo. É pensar que negros não são tão capazes quanto pessoas brancas – o que não é verdade.




#SuperAcessível: Quadro 1: uma moça negra está saindo de uma loja ao mesmo tempo que uma branca, as duas com sacolas. O alarme apita. As duas ficam meio constrangidas. Um segurança branco se aproxima da moça negra e diz: “Moça, vou precisar ver sua bolsa”. Quadro 2: A moça negra, com raiva, mostra a nota fiscal para o segurança. Ao fundo, a moça branca está indo embora. A moça negra pensa: “Não vi ele desconfiando da branca!” Nosso conselho nesse caso: desconfiar sempre que uma pessoa negra vá cometer algum crime só por causa da cor da pele é corroborar para o estereótipo racista que relaciona negros a criminosos. E isso inclui perseguir pessoas negras em corredores de lojas, pedir para revistar apenas pessoas negras e por aí vai.




#SuperAcessível: Quadro 1: uma moça negra, com um black power, está na fila do supermercado. Ela percebe que uma senhora está mexendo no cabelo dela. A senhora diz: “Seu cabelo é tão exótico! Como você lava isso?!” Quadro 2: a moça fica irritada e pensa: “Quem deixou ela mexer em mim?” Nosso conselho nesse caso: O corpo de outras pessoas deve ser respeitado – e isso inclui o cabelo. Tocar nos outros sem permissão é dar status de objeto àquela pessoa. E ninguém é objeto de ninguém, né?


Fonte: Revista SuperInteressante

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