quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Artigo - O que significa quando as mulheres dizem "eu também"



Por: Kirsten King


Aos 10 anos, fui dormir na casa de uma amiga. O pai dela estava na sala enquanto assistíamos a "Duelo de Titãs". Lá pela metade do filme, ele nos disse que podíamos sentar no colo dele enquanto víamos o resto. Meu estômago embrulhou só de pensar. Decidi que a melhor maneira de dar o fora era fingir que estava passando mal e pedir para minha mãe vir me pegar. No carro, de volta para casa, minha mãe perguntou se estava tudo bem comigo. Eu disse a ela que devia ter bebido refrigerante demais.

Aos 14 anos, comprei um short branco. Ele era curtinho e tinha lantejoulas azuis bordadas nos bolsos, como todas as melhores roupas do início dos anos 2000. Eu fiquei tão feliz com a minha compra que decidi usar o short fora da loja. Depois, parei para comprar um pretzel. Enquanto esperava pelo meu pretzel, inclinada para a frente me apoiando no balcão, notei um velho olhando para minhas pernas de cima a baixo. Olhei para ele confusa, e ele me deu um sorrisinho. Decidi não usar mais o short na rua depois disso.

Aos 15 anos, um professor chamado Sr. Rosenthale substituiu minha professora. Ele pegava no pé de todas as garotas da sala, nos fazendo perguntas sobre coisas que ainda não havíamos estudado. Quando inevitavelmente não sabíamos as respostas, ele dizia que iria nos levar para o andar de cima para nos dar algumas palmadas por não termos feito a lição de casa. Os meninos da sala riam com ele.

Aos 16 anos, consegui meu primeiro emprego em uma loja de minigolfe, servindo sorvetes e entregando tacos de golfe. Um dia, meu chefe (que tinha uns cinquenta e poucos anos) me pediu para reabastecer a geladeira dos sorvetes. Enquanto eu carregava as embalagens de sorvete do congelador do andar de baixo até o congelador do andar de cima, ele sentou-se em uma cadeira ao pé da escada, me assistindo subir e descer de saia. Eu só usei calça jeans para trabalhar pelas duas semanas seguintes.

Aos 16 anos, fui à minha primeira festa. Os jovens bebiam misturas alcoólicas feitas com o que haviam roubado do armário dos pais e escondido em garrafas de água. Uma hora, os rapazes da festa sentaram-se em um canto e começaram a fazer um ranking das garotas pelo tamanho dos seus seios. Cruzei meus braços sobre meu peito e fiquei contando os minutos até a irmã mais velha de uma amiga vir nos buscar.

Aos 17, um rapaz me convidou para irmos nadar. Entramos na piscina da casa dele e ele imediatamente tentou arrancar a parte de cima do meu biquíni. Botei as mãos na frente dos meus seios, furiosa e envergonhada, enquanto ele dava risada. Saí da piscina, coloquei minha calça jeans por cima do biquíni molhado e fui para casa aos prantos.
Quando acordei, um amigo estava tentando tirar minha blusa. Quando o questionei, ele explicou que era "brincadeira".

Aos 18 anos, na faculdade, o amigo do meu namorado botou a mão na minha coxa enquanto eu estava apagada. Acordei com ele massageando minha perna exposta. No dia seguinte, fiquei me perguntando se havia traído meu namorado.

Aos 19, fui a um bar com uma identidade falsa pela primeira vez [a compra e o consumo de bebidas alcoólicas nos EUA só são autorizadas para maiores de 21 anos]. No bar mal iluminado, um homem pegou na minha bunda enquanto eu ia ao banheiro.

Aos 19, me vi sozinha em um vagão de trem com um homem. Ele então botou o pênis para fora e começou a se masturbar na minha frente. Desci na parada seguinte e passei para um vagão com outros passageiros dentro.

Aos 20 anos, viajei para esquiar com um grupo de amigos. Bebi demais e apaguei em um quarto sozinha. Quando acordei, um amigo estava tentando tirar a minha blusa. Quando o questionei, ele explicou que era "brincadeira".

Aos 20 anos, meu celular ficou sem bateria enquanto eu procurava a casa de uma amiga à noite. Parei em um posto de gasolina para pedir informações. O funcionário do posto pegou papel e caneta para desenhar um mapa de onde eu tinha que ir. Fiquei olhando para o mapa confusa, até que percebi que ele estava desenhando um mapa para a casa dele. Voltei para o carro e dirigi até finalmente encontrar a casa da minha amiga sozinha.

Aos 21 anos, viajei de férias com as minhas amigas. Durante as férias, conheci um cara. Na mesma noite, ele pediu para entrar no meu quarto. Eu disse "não". Na manhã seguinte, ele ligou para o meu quarto no hotel e pediu para tomar café comigo. Concordei. Pedi às minhas amigas no quarto ao lado que batessem na porta depois de 20 minutos, "só para garantir". Quando ele entrou no meu quarto, começou imediatamente a me beijar. Beijei-o de volta no início. E aí ele tirou a calça. Parei-o e disse que não queria ir além disso. Ele botou o pau para fora, apontou para ele e disse "então, o que você vai fazer com isso?". Comecei a chorar até que ele ficou frustrado e foi embora. Sentei na cama por mais 15 minutos até que as minhas amigas bateram na porta.

Aos 21 anos, fui a um bar com uma das primeiras mulheres com quem fiquei. Minutos após ela me beijar no rosto, um grupo de homens nos abordou e nos perguntou se poderíamos nos beijar para eles assistirem.

Aos 22 anos, saí com um cara que conheci no Tinder. Depois do encontro, ele perguntou se poderia entrar para beber um copo d'água. Quando disse que podia, ele tentou me agarrar à força. Ele só parou quando falei que a minha colega de quarto estava no cômodo ao lado.

Aos 22 anos, um funcionário do RH da empresa para a qual eu trabalhava me convidou para saírmos para beber após o trabalho. Depois de eu recusar, ele marcou uma reunião comigo na manhã seguinte. Na reunião, ele comentou como a sala estava fria, tirou o casaco e colocou-o sobre as minhas pernas.
As histórias acima são apenas um punhado de recordações; são um pequeno sinal no radar de uma epidemia com a qual as mulheres aprenderam a viver e que a sociedade tem permitido.

Aos 23 anos, um bêbado na rua me agarrou pela perna e me puxou para cima dele. Levantei e corri até o estacionamento onde meu carro estava. Imediatamente após o ocorrido, fui à delegacia registrar um boletim de ocorrência. Lá, me perguntaram quanto eu havia bebido naquela noite.

Aos 23 anos, conheci um cara em um bar. Trocamos nossos números. Na manhã seguinte, acordei com fotos não solicitadas do pênis dele.

Aos 24, um homem me seguiu pela rua até eu fingir que estava atendendo o celular e entrar em uma loja.

Aos 24, um motorista do Uber pediu o número do meu celular no carro. Recusei. Ele me disse que odiava andar de carro com vagabundas metidas a besta. Pedi para que ele me largasse quatro quarteirões antes do local onde pretendia descer.

Aos 25, um motorista do Uber fez uma série de perguntas inadequadas à minha namorada e a mim sobre a nossa relação, incluindo quem era a mais dominadora na cama. Minha namorada deu um corte nele e ficamos fazendo contagem regressiva dos minutos até descermos no nosso destino.

Semana passada, um homem gritou comigo da janela do carro dele. Há dois dias, um cara no Twitter disse que eu era uma vadia nojenta.

As histórias acima são apenas um punhado de recordações; são um pequeno sinal no radar de uma epidemia com a qual as mulheres aprenderam a viver e que a sociedade tem permitido.

Nesta semana, mulheres estão escrevendo "eu também" nos seus status nas redes sociais para mostrar a magnitude do assédio e do abuso sexual que enfrentam diariamente. Originalmente, esse movimento foi iniciado por Tarana Burke há 10 anos, mas foi repopularizado após ser tuitado pela atriz Alyssa Milano e outras celebridades. Desde então, milhares de mulheres expressaram sua solidariedade no Facebook, no Twitter e em outras redes sociais (só ao tuíte da Alyssa Milano, 44.000 pessoas responderam).

No entanto, apesar da intenção por trás dessa iniciativa ser nobre, essas duas palavrinhas não são capazes de resumir a experiência pela qual tantas pessoas passaram. Elas apenas arranham a superfície de como é passar a vida toda em um mundo que decidiu que o seu corpo não lhe pertence.
Essas duas palavrinhas – me too / eu também – apenas arranham a superfície de como é passar a vida toda em um mundo que decidiu que o seu corpo não lhe pertence.

Quando somos meninas, nos ensinam que temos que nos esconder. Nos ensinam que temos que nos diminuir, a não ocupar espaço. Notamos os olhares maldosos dos homens ainda novinhas. Atravessamos a rua à noite e caminhamos com nossas chaves entre os dedos. Tentamos ser educadas nos e-mails profissionais, mas não o bastante para que eles entendam do jeito errado. Beijamos caras de quem não gostamos por termos medo de sentir o terror de sermos fisicamente forçadas a beijarmos um cara de quem não gostamos. Decepcionamos os homens facilmente e repetidamente até que eles se cansem e nos deixem em paz. Ignoramos e-mails de trabalho inadequados. Lemos ameaças on-line. Conferimos mais de uma vez as trancas das nossas portas à noite.

É importante conversarmos abertamente sobre como é difícil escrever essas duas palavras – "me too"/ "eu também" – e o que elas significam. Precisamos reconhecer que esse problema não tem a ver com apenas algumas maçãs podres, mas um sistema podre.

Não são só duas palavras ou uma ocasião — esse é o mundo no qual as mulheres têm sido condicionadas a viver e que precisa mudar o quanto antes.

Este post foi traduzido do inglês.


Fonte: Site Buzzfeed

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