quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Artigo - "A Bruxa" como símbolo de empoderamento feminino



Por: Sérgio Lourenço


A ascensão violenta do patriarcado sobre as culturas matricêntricas fez com que a Totalidade feminina, que outrora estava encarnada e mantida na figura de uma Deusa Mãe fosse dicotomizada, tornando a mulher um ser que passa a se dividir entre o público e o privado. E a sombra que antes compreendia um dos seus muitos aspectos passa agora a assombrar as próprias mulheres através da imagem de tudo àquilo que fora renegado da alma feminina: a sexualidade, a magia e o selvagem através da figura da Bruxa.

Contudo a bruxa para as culturas pré-cristãs e matrilineares não era uma figura de horror, como ira ser produzida na Europa Medieval pela Inquisição. Mas sim uma figura de sabedoria, cura e poder. A bruxa encarnava através de seus muitos simbolismos a mulher empoderada e sábia, aquela que se distanciou de sua sociedade e se permitiu romper com o ordinário sistema que a alienava. Desse modo possuindo a capacidade e o poder de fazer coisas extraordinárias. Sem dúvida o contato com o selvagem através das técnicas mágico-religiosas, bem como um reconhecimento profundo e sagrado de sua própria sexualidade foram ferramentas essenciais para atingir essa espécie de poder.

Mas quando a mulher foi dividida a bruxa já não é mais uma fonte de inspiração feminina, e sim um símbolo que serviu de propaganda para evitar que as mulheres nas recém sociedades patriarcais agrícolas reconquistassem seu espaço de dominância. Mais tarde isso serviria de uma ferramenta excelente para o Cristianismo exercer dominação sobre a massa e fabricasse a “Santa” como o único ideal a ser buscado pelo feminino sagrado.

A bruxa será por muito tempo uma entidade femêocentrada e sobrevivente de um holocausto feminino, guardando os seus poderes nas sombras das feminilidades. Isso se deve ao fato de que mesmo a bruxa/feiticeira tendo encarnado uma faceta tenebrosa ela ainda emanava nas mulheres uma figura de empoderamento, questionamento e resistência frente aos ideais machistas e patriarcais. Hoje podemos perceber e receber isso mais claramente através dos muitos movimentos de reconstrução das práticas ancestrais matricêntricas como: Bruxaria, Neo-Xamanismo, o Sagrado Feminino. Que vêm dialogando com movimentos de contracultura que permitem que a mulher ao mesmo passo que se empodere questione a cultura sobre a qual ela e as avós de suas avós se sujeitaram por muito tempo.

Portanto, quando a mulher contemporânea dialoga com a figura da bruxa reconstruída e resgatada dos horrores e escombros da Inquisição, ela começa a reconhecer essa imagem com uma aliada de sua própria feminilidade é então que ela começa a questionar os ditames de seus pais e avôs, e como Liliths se rebelam da submissão como único caminho oferecido de relacionamento para a mulher dentro das culturas machistas, resgatando sua autonomia e poder pessoal.

Entretanto, esse resgate não é fácil e nem amistoso, pois lentamente, enquanto a mulher desce em sua nau pelas entranhas de seu ser subterrâneo ela precisa se confrontar com as mentiras construídas mitológica e historicamente sobre ela mesma. Então a bruxa aparece, como uma verdadeira Hécate que lhe guia na escuridão tenebrosa deixada pelo patriarcado. E para isso é preciso que a mulher vá se despindo de seus empréstimos culturais e até mesmo questione os discursos biologizantes e naturalizantes que por muito tempo forjaram o que seria um “gênero feminino”.

Nesse confronto com ela mesma, a bruxa interior lhe ensina a honrar seu corpo e sua sexualidade, não mais como instrumentos erotizantes e pornográficos para agradar um determinado homem, mas agora para serem ferramentas de seu próprio prazer e cura. A vagina então se (re) torna para a mulher a entrada para uma caverna uterina de possibilidades criativas. A bruxa a conduz para esse estado, revelando seus aspectos de vida-morte-vida em seu próprio ciclo menstrual.

À medida que a bruxa vai permitindo que a mulher se empodere, ela também vai lhe dando caminhos de sororidade com todas as coisas presentes na natureza manifesta, e mais, permite que busque por outras iguais a ela. Por isso a bruxa vai estar por de trás de todas as mulheres que não se deixaram calar: as proletariadas, as poetisas, as sacerdotisas, as mães solteiras, as militantes políticas, as artistas, as cientistas, as guerreiras, as curandeiras, as mulheres do povo. As que sempre fizeram linhas de resistência em todas as épocas e culturas, e por isso foram perseguidas pelo machismo.

A bruxa renasce das profundezas de um inconsciente coletivo com uma urgência contemporânea para auxiliar a mulher em seu caminho de empoderamento e luta. Podemos ver essa imagem de poder da bruxa presente também nos próprios discursos do criativo movimento feminista, que ensina a toda uma coletividade, a igualdade necessária para (sobre) vivermos como sociedade.

A imagem arquetípica da bruxa pode ensinar a mulher contemporânea o resgate de sua totalidade e sacralidade, que é inerente e presente em cada mulher. Já que a feiticeira nos lembra que a ponte para o sagrado, o mistério e o numinoso não estão presentes e nem são pertencentes a uma instituição religiosa estabelecida violentamente por homens de diversas fés. Mas que esta presente em sua própria consciência que se debruça no mundo imanente e manifesto da Terra. Por isso também a bruxa vai ensinar a mulher a perceber que a Terra, como Mãe e uma Grande Mulher, é o seu Templo. Templo esse que também vem sendo estuprado e massacrado por outro homem, o capitalismo. Que com a sua lógica neo-liberalista tem destruído os recursos naturais e afetado as relações interdependentes de nossos irmãos animais e vegetais.

A bruxa vai também conduzir a mulher para a sua integralidade afetiva, que foi destituída por muito tempo pelos mitos matrimoniais cristãos, e que ainda hoje constrói falácias de uma suposta dependência afetivo-emocional que a mulher tem pelo homem. Então a bruxa a ensina que não há essa metade faltante da laranja, ou a parte mordida da maçã de Eva. Não! Há somente ela e suas relações, plenas e vastas consigo mesma.

Fonte: Blog O Moinho das Bruxas

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