domingo, 22 de outubro de 2017

CÉSIO 137: 30 anos de um inimigo invisível


O maior acidente radioativo em área urbana do planeta completou 30 anos no dia 13 de setembro. Marcada por histórias de sofrimento, descaso e desinformação, a tragédia ocorreu em Goiânia, na vizinhança da capital do país. A partir dos relatos dos principais personagens, o Correio Braziliense reconta, na série de reportagens Césio 137: 30 anos de um inimigo invisível, os episódios que resultaram na morte de pelo menos 66 pessoas e na contaminação de 1,4 mil.

O trabalho investigativo aprofunda as causas e as consequências do acidente que, em termos de contaminação, perde apenas para o desastre da Usina Nuclear de Chernobil, na antiga União Soviética, em 26 abril de 1986. Na capital goiana, a lista de contaminados atinge gerações e cresce a cada ano, sem que se alcance dados concordantes das autoridades públicas. Após 30 anos, muitos ainda lutam não só para serem reconhecidos como vítimas, mas também contra o esquecimento.



01 - A cápsula da morte

Essa história começa em 1987. Mais precisamente em 13 de setembro. É na capital goiana, a cerca de 210 quilômetros do Distrito Federal, onde uma série de eventos trágicos se sucederam à abertura de uma cápsula com césio 137. Naquele início de tarde marcada pelo calor intenso e seco, com temperatura acima dos 35º C, dois jovens não imaginavam que seriam os responsáveis pelo maior acidente radioativo do mundo em área urbana. Movidos pela curiosidade, pela ignorância e pela necessidade de ganhar alguns trocados, ambos acabaram, também, vítimas do descaso de empresários e da incompetência de autoridades públicas.

O elemento radioativo ficava dentro de um aparelho de raio X abandonado no antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no Setor Central de Goiânia. Pouco depois das 13h, os catadores de sucata Wagner Pereira, então com 19 anos, e Roberto Alves, 22, deixaram o prédio carregando os 122kg do equipamento, dividido em dois cilindros. De lá, seguiram para a Rua 57, onde, a marretadas, liberaram, pela primeira vez, o césio no ambiente. A partir de então, o pó branco de brilho azul circularia por pelo menos quatro setores de Goiânia e contaminaria centenas de pessoas em poucos dias e milhares, em anos.

Oficialmente, o governo de Goiás reconhece quatro mortes causadas pela radiação. Além delas, 12 pessoas contaminadas morreram nas últimas três décadas — há 10 anos, eram 10. Mas levantamentos de sindicatos, associações e do Ministério Público de Goiás indicam pelo menos 66 óbitos e cerca de 1,4 mil vítimas contaminadas. Além das famílias humildes que, sob encantamento, tiveram contato direto com o material, médicos, enfermeiros, bombeiros e policiais militares sentiram os efeitos da radiação das mais diversas formas, seja pela manipulação, seja pela simples aproximação. Muitos deles trabalhavam para o Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa) e para a construtora Andrade Gutierrez. Ficaram doentes ao serem obrigados a integrar as equipes de segurança, de descontaminação e de remoção dos rejeitos.

Ainda hoje, muitas dessas pessoas lutam na Justiça pelo direito de receber indenizações, pensões, medicamentos e assistência médica. Algumas morreram logo após a irradiação, como a menina Leide das Neves Ferreira, 6 anos, que tornou-se símbolo da tragédia nuclear. Outras não resistiram a semanas ou meses de internação — os casos mais graves seguiram para tratamento intensivo no Rio de Janeiro. Trinta anos depois, alguns sofrem sequelas da exposição nuclear, como tumores e doenças crônicas. Em situações mais extremas, cuidam de feridas que insistem em reabrir. Já o trauma, todos o carregam.

A responsabilidade sobre o acidente recaiu sobre a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), os proprietários do IGR e o Instituto de Previdência e Assistência Social de Goiás (Ipasgo). Inicialmente, admitiu-se o número de 621 vítimas, entre mortos e contaminados. Dividiram-se, então, as vítimas em três grupos, mas apenas o primeiro teve direito a pensão indenizatória. Nesse ponto, as divergências cresceram, levando a ações propostas pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público de Goiás (MPGO) contra a União e o estado, respectivamente.

Em 2000, o MPGO conseguiu que o governo federal, por meio do Ministério da Saúde, reconhecesse mais vítimas não contabilizadas anteriormente. Entre termos de ajustamento de conduta (TAC) e inquéritos civis públicos, essa parcela de contaminados obteve sucessivas vitórias capazes de estabelecer direitos e deveres. Diante da atuação do Ministério Público de Goiás, até julho de 2002, mais de 800 novos envolvidos foram reconhecidos.


02 - Ferida que não cicatriza

No dia 23 de setembro de 1987, durante almoço na casa da mãe, Ernesto Fabiano recebeu do irmão Edson uma pedrinha branca, do tamanho de um grão de milho, com a promessa de que, à noite, veria um lindo brilho azul. Sem dar muita importância, Ernesto colocou-a no bolso da calça e caminhou 15 minutos até em casa. Ao chegar, colocou aquilo na gaveta de um criado-mudo. Mas o tempo em contato com o césio 137 foi suficiente para desenvolver uma ferida na coxa direita. Três décadas depois, ela não cicatrizou. “Os médicos disseram que, se tivesse passado mais meia hora, eu teria perdido a perna. Perdi osso, músculo, nervo. Machuca de dentro pra fora, sabe?”

Poucas horas depois, Ernesto começou a sentir os efeitos da radiação: náusea, tonteira e um “trem que ia e voltava na perna”. No dia seguinte, notou um inchaço na coxa, como uma picada de inseto. No hospital, tratou-se a lesão como queimadura. Mais tarde, o estranho diagnóstico foi contestado pelo irmão Edson e pela cunhada, Santana, que, naquele momento, também se sentiam mal e haviam escutado que a tal pedra seria radioativa. “Quando o Edson falou para a minha mulher, a Dalva, que aquela pedra podia ser radiação, ela pegou na gaveta e jogou no vaso sanitário. Isso apavorou todo mundo. Ela (a pedra) contaminou a casa todinha. Perdemos tudo. Saímos com a roupa do corpo”, conta Ernesto.

A família é vítima da tragédia do césio 137 em Goiânia, o maior acidente radioativo do mundo fora de uma usina nuclear. Edson dividia muro com o ferro-velho de Devair Alves Ferreira — o homem que, encantado com o pó brilhante que saía de uma sucata comprada de dois catadores, compartilhou a novidade com vizinhos, parentes e amigos. Ernesto esteve no grupo de 12 pessoas encaminhadas ao Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, para tratamento intensivo, depois que a tragédia ganhou dimensão nacional. Lá, morreram as primeiras quatro vítimas: Maria Gabriela Ferreira, 37 anos, esposa de Devair; Leide das Neves, 6, sobrinha do casal; Israel Baptista dos Santos, 22; e Admilson Alves de Souza, 18, funcionários do ferro-velho.



Fonte: Jornal Correio Braziliense

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