segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Artigo - Liberdade de expressão X Liberdade de opressão: Maria Callas, a Dama Dourada e o Queermuseu




Por: Leilane Assunção



No último dia 16 de setembro fez quarenta anos que se foi aquela que é considerada pela maioria dos críticos de arte do mundo como a maior cantora de ópera de todos os tempos: Maria Callas, prematuramente morta aos 53 anos – uma morte por esgotamento nervoso e que teve muito a ver com uma história marcada pelo estigma da crítica negativa, aquela que visa destruir e não construir algo.

Maria Callas, ate o fim, mesmo quando já consagrada, era perseguida por um grupo de pessoas que insistia em dizer que o que ela fazia ao cantar era degenerar padrões clássicos, da estética e fonética musical. Ela foi acusada de praticar uma arte degenerada, ainda mais que por ter cantado algumas árias para os alemães e italianos no contexto da ocupação nazista sobre a Grécia na Segunda Grande Guerra.

Acabou sendo demitida ao final do conflito da ópera de Atenas devido a suas supostas atividades colaboracionistas. Mais um estigma com o qual teve, Maria, de se ver. Ser a portadora de uma arte degenerada, e ter se associado ao nazismo. Dado curioso. Tais críticos sequer tinham coerência, afinal como pode alguém fazer arte degenerada e ao mesmo tempo ser nazista? Se foram esses mesmos nazistas, os inventores, no século XX, de tal conceito?

É verdade que, em outros tempos da história, a arte foi questionada, artistas foram acusados em dezenas de milhares de situações de estarem “degenerando” padrões artísticos inegociáveis. Poderia citar desde o mundialmente conhecido Manet ao expor sua “Olympia” no salão de artes de Paris em 1865 – que causou furor com criticas como imoral, indecente, indigna da grande arte e quesó não foi destruída devido à sábia e prudente intervenção da curadoria da exposição – até minha cara amiga trans carioca-potiguar-baiana Pedra Costa que agora anda abalando na Pós-Graduação da mesma universidade que um dia rejeitou Hitler – o cara que ia dizer pra Europa durante alguns anos que arte poderia e que arte não se poderia consumir.

Antes de ir pra Viena, como uma despedida e numa atitude estratégica que já previa a possibilidade de hostilidade física, Pedra fez uma performance que entrou para a história da arte potiguar contemporânea: a retirada de um terço jesuítico do anus – como diria Pedra “bolinha por bolinha” – balizada pelo conceito de que a “catequese cristã” colonizou o corpo, interditando as zonas de prazer tidas como homoeróticas. Ao passar o símbolo do poder sacro pelo orifício erógeno sexualmente interditado conquistar-se-ia, simbolicamente claro, uma “descolonização do corpo”. Em perfeita sintonia com as teorias e estudos Queer e Pós coloniais.

Claro, a arte tem que fazer isso mesmo! Fazer pensar, provocar indagações, questionamentos, mas não gerar violência. Pedra já estava indo embora para Berlim na época (2010). Ainda bem! Temia por sua vida caso houvesse ficado, recebeu ameaças de surras e até de morte. Foi um horror!


Foi também lá, em Berlim, que 80 anos atrás surgiu o moderno conceito de “arte degenerada” –hoje invocado para fechar uma exposição de arte LGBT-Queer no Brasil. Um conceito, esse sim, sem dúvida “degenerado” desde sua matriz, uma vez que obedece a ideologia racial antissemita que todos sabemos ter sido adotada de maneira genocida durante o período nazista na Alemanha e Europa Ocupadas, e serviu para os interesses de apagamento das memórias, das contribuições cientificas, artísticas, econômicas que porventura fossem advindas da comunidade judaica que se visava destruir da história naquele infeliz momento.

Pode parecer hoje, absurdo imaginar que o conceito de “arte degenerada” possa um dia ter sido aplicado àquela que é hoje considerada a “mona lisa austríaca” e também a obra prima de um dos mestres do simbolismo: Gustav Klint. “A dama dourada”, nome mui apropriado, embora dado nas mais infelizes circunstancias, uma vez que se tratava do desejo dos nazistas de apagar a identidade da mulher judia presente naquele quadro – a socialite e mecenas de arte da Viena de começos do século XX, Adele Bloch-Bauer. Hoje, é considerado o sétimo quadro mais caro da história do comercio de arte, para os nazistas de ontem e me arrisco a dizer, os de hoje, é apenas arte degenerada.

Nessa roda viva da história, onde cada giro parece corresponder há um ciclo do tempo, o fascismo voltou a moda. Tem peça de teatro sendo censurada por sugerir que Jesus poderia voltar a vida no corpo de uma travesti, e não poderia? Se tal como diz a mensagem cristã, Ele veio para todos, por que não poderia vir como uma travesti? O corpo das travestis e transexuais é indigno demais? Sujo demais pra ser considerado como diz um evangelho “templo do espírito santo”?.

Tem arte feita por ou para LGBTs sendo perseguida, violentada, pelo país inteiro. O caso mais chocante foi o encerramento abrupto da exposição “Queer Museu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira”, em Porto Alegre, onde um grupo relativamente reduzido, porém muito barulhento, de profissionais do ativismo de direita constrangeram, intimidaram e descontextualizaram, todo um projeto libertário e libertador, chegando ao cúmulo, ao extremo, de vermos uma exposição de arte ser fechada em pleno século XXI com o argumento usado pelos nazistas 80 anos antes: arte degenerada.

Quem define isso? Eu não concordo. Acho digno o tipo de arte que ali se expunha. Já vi muita arte que não gostei, não concordei, não achei “bonito”. Mas nunca quis que essas exposições fossem fechadas. Acho que, se a arte não flerta com o fascismo, com as opressões, ela deve ser livre.

A decisão judicial do magistrado que proibiu a peça no interior de São Paulo por exemplo, era de que ela ofendia valores religiosos – leia-se valores cristãos, porque se fossem valores candomblecistas ninguém se importava – o direito à liberdade religiosa foi invocado pra acabar com a liberdade artística. Estado laico na lata do lixo nessa, agora, república de bananas chamada Brasil.

Acho importante se distinguir a liberdade de expressão da liberdade de opressão. Isso vem sendo muito misturado na narrativa do fascismo. Não posso reivindicar por exemplo o direito de oprimir os trabalhadores domésticos livremente sem legislação específica, isso não é ético, não é moral, não é humanitário, mas é o que vejo sendo feito por essas pessoas que adotam, as vezes sem nem entender, a narrativa do fascismo.

A liberdade de credo e crença garantida na Constituição protege contra perseguições religiosas, garante liberdade de culto, mas não garante imunidade de critica e sátira. Não existe precedente para acreditarmos que aceitar essa censura sobre a arte não seja uma violação das mais básicas de direitos constitucionais nacionais, além de princípios e valores consagrados pela própria ONU desde 1948.

Serei sempre a favor da liberdade de expressão, mas estou em combate com aqueles que reivindicam a liberdade de opressão. Viva a liberdade de ser livre e deixar ser livre, a liberdade da ciência, da arte e da informação. QueerMuseu, todos os que fazem e fizeram, vocês já entraram para a história da arte do Brasil.


Fonte: Saiba Mais Agência de Reportagem

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