quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Aula Inaugural - Prof. Rodrigo Dantas: "O golpe: o que fazer em face do retrocesso que nos ameaça?"


Ementa: O golpe parlamentar-judiciário-midiático-empresarial de 2016 no Brasil restabeleceu o poder de classe da burguesia sobre o governo, o aparelho de estado e todos os poderes constituídos, visando liquidar todas as conquistas civilizatórias da sociedade brasileira e levar às suas últimas consequências o projeto neoliberal de privatização, desindustrialização, desnacionalização, financeirização e recolonização do país. A despeito do mal estar que se alastra, não existe hoje resistência popular organizada. Após a dura derrota imposta ao projeto petista, nos faz falta um projeto nacional capaz de mobilizar a população para reverter o retrocesso histórico que nos ameaça. Diante das transformações estruturais em curso na sociedade capitalista, diante dos limites impostos pela globalização a qualquer projeto nacional de transformação social, qual o nosso projeto de sociedade, de governo, de país? Queremos retornar ao passado recente, conservar o que está sendo desmontado, ou temos algo diferente a propor?

Mini-Curriculo: Rodrigo de Souza Dantas é professor de filosofia política no Departamento de Filosofia da UnB. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Foi chefe do departamento de filosofia da UnB, professor visitante na UFF, secretário-geral e presidente da Associação dos Docentes da UnB e vice-presidente nacional do ANDES SN.


Serviço

Local: Auditório do Ceam
Data: 1º de setembro/2017 - sexta-feira
Horário: 10h


Fonte: Site do CEAM/UnB

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

'Empregadinha', 'plebeia', 'devia morrer': o festival de racismo que assolou a vitória da miss Brasil


Monalysa Alcântara, de 18 anos, é a terceira negra a conquistar título no Brasil



A piauiense Monalysa Alcântara, de 18 anos, foi coroada como a nova Miss Brasil na noite deste sábado (19), em concurso realizado em Ilhabela, no litoral de São Paulo. Ela desbancou outras 26 candidatas e representará o país no Miss Universo deste ano, que ainda vai anunciar o local do evento. Por ser a terceira mulher negra a conquistar o título, entretanto, a modelo tem sido alvo de comentários racistas e preconceituosos nas redes sociais.

Uma das justificativas dadas pelos jurados para a vitória de Monalysa foi o fato de ela representar a "brasilidade". No ano passado, Raissa Santana, do Paraná, foi a vencedora do concurso e segunda negra a carregar a faixa com o título. "Agora me responde, o que é a famigerada brasilidade? É ser negra: Então as brasileiras caucasianas não são brasileiras? Por favor, para, né? Mas mesmo assim não vou atacar nem desmerecer o brilho da mona, porém espero que a Missa Argentina me represente e represente a parte brasileira que não possui a 'brasilidade", comentou Thales Weingarten Couto.

Um dos comentários mais reproduzidos e criticados foi feito pela usuário do Twitter Juliana Porto, que comparou Monalysa a uma empregada doméstica. "Credooo! A Miss Piaui tem cara de empregadinha, cara comum, não tem perfil de miss, não era pra estar aí. Sorry", escreveu ela. Já Josimar Quintinho desejou a morte da modelo por ser negra. "Não é exagero. Só espero que ela morra antes do Miss Universo, pra Ju assumir o posto", disse o internauta em referência à gaúcha Juliana Mueller, de 25 anos, que ficou em segundo lugar.

Veja algumas publicações racistas sobre a vencedora do Miss Brasil 2017:







Fonte: Jornal Diário de Pernambuco

Demissão após a maternidade: “Não cometi nenhum erro. Eu só gerei uma vida”

Foto: Juliana Farinha
Ana Carolina, que foi demitida meses depois de Júlia nascer.


Ana Carolina Gaspar, de 34 anos, tinha um cargo de gerência em uma multinacional do setor de varejo quando engravidou de Júlia. Estava havia tempo suficiente na empresa para perceber alguns sinais do machismo cotidiano, como ter que levar água e café para o chefe, a pedido dele, que acreditava que a única mulher da equipe era quem deveria desempenhar a função, conta ela. Mas, logo na primeira dificuldade da gestação, ela afirma ter percebido que a situação de desigualdade na empresa era mais grave do que imaginava. Assim como muitas mulheres que engravidam, passou a ser apartada das funções e a sentir-se assediada, diz.

"Estava com quase três meses de gestação quando tive um diagnóstico de descolamento da placenta e tive que ficar de repouso absoluto. Quando fui autorizada pelo médico a voltar, descobri que eles haviam retirado a minha equipe de mim. Não recebia e-mails, fui mandada para outro andar e fiquei sem função, a ponto de pedir trabalho escondido para os colegas. Ia todos os dias para a empresa chorando, pensando no erro que eu tinha cometido para ser tratada assim. Mas não cometi nenhum erro, eu só gerei uma vida", conta ela. A situação chegou ao limite, diz, quando o bônus da empresa foi distribuído. "Eles falaram que eu havia atingido as metas, que todos estavam felizes com a minha gerência, mas que eu tinha perdido a energia porque tinha engravidado. E, por isso, não merecia receber", relembra. Diante da situação, e da dificuldade em engordar devido ao estresse, Ana Carolina acabou, novamente, afastada pelo médico. No dia em que cumpriu os cinco meses de estabilidade que a lei determina para as gestantes foi demitida, sem sequer poder se despedir dos colegas, afirma.

A história da ex-gerente se repete com muitas mulheres e ainda com bastante frequência nos dias atuais. Um estudo ainda não divulgado, feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) com 247.000 mulheres entre 25 e 35 anos, apontou que metade das que tiveram filhos perderam o emprego até dois anos depois da licença-maternidade. No segundo mês após o retorno ao trabalho, a probabilidade de demissão chega a 10%, de acordo com dados antecipados pelo jornal O Globo. Um número impactante, especialmente quando se leva em consideração a insegurança emocional que muitas mulheres vivenciam em relação ao trabalho quando engravidam.

"Fiquei envergonhada de contar que estava grávida", conta Rachel Palhano, de 39 anos, que trabalhava há poucos meses em uma grande agência publicitária de São Paulo quando engravidou de Theo, agora com cinco anos, e teve que voltar a trabalhar antes do final da licença maternidade. "Estava no terceiro mês da licença quando meu chefe ligou dizendo que estavam fazendo uma reestruturação na empresa e precisavam que eu voltasse antes do tempo", afirma. "Na hora eu achei ruim, mas voltei. Assim que acabou o período de estabilidade, porém, fui mandada embora", relembra ela, que acabou indo trabalhar em uma agência menor, onde consegue ter mais flexibilidade com os horários. "Ficou muito claro que aquela outra agência, mais tradicional, não estava preparada para acolher as funcionárias que viravam mães. Dava uma sensação quase de que não se podia engravidar."


Ilegalidade

O número de gestantes com processos trabalhistas (que vão de demissão a assédio moral, por exemplo) também tem aumentado no país. Segundo o Tribunal Superior do Trabalho, a quantidade de novos processos envolvendo rescisão de contrato de trabalho de gestantes subiu 23,3% entre 2014 e 2016 (de 20.821 para 25.072). No Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª Região (São Paulo), esse acréscimo foi de 92,6% no mesmo período. Em 2016, o sistema registrou 4.819 novos casos, ante os 2.502 casos de 2014. A alta segue a tendência dos processos relacionados a demissão no tribunal, impulsionados por conta da crise financeira.

Ana ainda não decidiu se vai processar a empresa onde trabalhava e Rachel decidiu que não o fará, apesar de ter tido sua licença maternidade interrompida antes do prazo. Assim como elas, muitas mulheres demitidas após a gestação se furtam de buscar a ajuda da Justiça porque sabem que, quando a demissão ocorre após o período de estabilidade, de cinco meses após o parto, é difícil provar que sua dispensa foi motivada pela chegada do novo membro da família, explica a advogada trabalhista Fabíola Marques, conselheira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo.

"A mulher pode até pleitear indenização pela prática de ato discriminatório. Mas, na prática, é muito difícil ela provar que a demissão se deu por esse motivo. E, infelizmente, esse tipo de situação ainda é muito normal", explica. "Quando um filho nasce, geralmente são as mulheres que assumem as novas responsabilidades. Isso faz com que ela assuma novas funções para além da empresa, porque dificilmente há uma efetiva divisão de responsabilidade com os pais. Muitas vezes faltam ou chegam atrasadas para levar a criança ao médico e têm direito aos maiores períodos de afastamento", ressalta a advogada, que acrescenta que essa percepção de que a mulher após engravidar se torna menos rentável para a empresa é que acaba elevando os números de demissões.

"Esse é um viés inconsciente muito forte", afirma Vanessa Lobato, vice-presidente de recursos humanos do Banco Santander, que tem trabalhado o tema da diversidade com seus funcionários. Ela reconhece que hoje em dia existem hoje homens mais participativos, que como pais, dividem a tarefa com a mãe da criança. “Mas, de fato, no primeiro ano a criança vai ao pediatra todos os meses. Se vai para creche, adoece mais. A questão é que não faz sentido que se crie um ambiente em que não seja possível que a mulher saia para levar o filho ao médico. Até porque não é isso que vai afetar o resultado dela no trabalho", afirma ela.

Para a desembargadora Ivete Ribeiro, do TRT de São Paulo, é preciso que se criem situações mais igualitárias entre homens e mulheres trabalhadores, como aumentar a licença paternidade, por exemplo.


Fonte: Jornal El País (Espanha)

Artigo - Democracia sem povo | Dizem que as eleições de 2018 estão perto, mas estão muito longe: o crime é agora



Por: Eliane Brum*


Se discute muito 2018. Se Lula (PT) será candidato ou estará preso, se o político de Facebook João Doria (PSDB) vai dar o bote decisivo no padrinho Geraldo Alckmin(PSDB), se Jair Bolsonaro (PSC por enquanto) vai conseguir aumentar seu número de votos com o discurso de extrema-direita, se Marina Silva (Rede), a que não é mais novidade, conseguirá se recuperar. Como o PMDB e o DEM se articularão para continuar no poder. Mas discutimos menos do que deveríamos o que vivemos em 2017, neste exato momento. Agora. Neste momento em que um país inteiro foi transformado em refém. Não como metáfora, não como força de expressão. Refém é o nome do que somos.

Até então só as ditaduras, aquelas com tanques e com fuzis nas ruas, haviam conseguido isso. O que acontece no Brasil é mais insidioso. O Brasil inventou a democracia sem povo. Não aquela das retóricas ou dos textos acadêmicos, mas aquela que é. O povo, para aqueles que hoje detêm o poder no Brasil, não tem a menor importância. O povo é um nada.

Com 5% de aprovação, segundo o Ibope, a menor de um presidente desde a redemocratização do país, Michel Temer (PMDB) pode fazer – faz e fará – todas as maldades e concessões que precisar para continuar onde está. Sente-se livre para não precisar dar qualquer satisfação à população. Todo o seu cálculo é evitar ser arrancado do Planalto e em algum momento despachado para a cadeia pela aceitação pelo Congresso da próxima denúncia que virá, já que da primeira ele escapou. Havia uma conversa de conteúdo mais do que suspeito, fora da agenda, à noite, na residência do presidente, e uma mala de dinheiro nas mãos de um homem de confiança de Temer – e não foi suficiente. Por que não foi suficiente? Era mais do que suficiente. Mas a justiça não está em questão. E dizer isso é o óbvio ululante de Nelson Rodrigues, chega a ser constrangedor escrever algo tão óbvio.

A presidência do Brasil hoje está nas mãos de um homem que não tem nada a perder desagradando seus eleitores, porque sequer tem eleitores. E sabe que dificilmente recuperará qualquer capital eleitoral. Sua salvação está em outro lugar. Sua salvação está nas mãos daqueles que agrada distribuindo os recursos públicos que faltam para o que é essencial e tomando decisões que ferem profundamente o Brasil e afetarão a vida dos brasileiros por décadas.

Temer goza da liberdade desesperada – e perigosa – dos que já têm pouco a perder. O que ele tem a perder depende, neste momento, do Congresso e não da população. Assim como depende de as forças econômicas promotoras do impeachment continuarem achando que ele ainda pode fazer o serviço sujo de implantar rapidamente um projeto não eleito, um projeto que provavelmente nunca seria eleito, tarefa que ele tem desempenhado com aplicação. Então, o povo que se lixe. O povo saiu da equação.

O Congresso – ou pelo menos significativa parte dele – não teme mais perder eleitores. Nem mesmo considera importante simular qualquer probidade para seus eleitores. Esse nível já foi ultrapassado. A reputação dos políticos e do Congresso chegou a um nível tão baixo, que também resta pouco, quase nada, a perder. Esta poderia ser uma preocupação, a de como recuperar a imagem, nem que seja pensando nas próximas eleições. Mas o rumo tomado foi outro. A oportunidade de saquear a nação a favor dos grupos que os sustentam e de sua própria locupletação foi tão atrativa diante de um presidente que sangra por todos os poros que para que se preocupar com o povo? Que se lixe o povo. A hora é agora.

O Congresso busca agradar àqueles a quem realmente serve – e, claro, a si mesmo. Para não deixar pontas soltas onde interessa, os deputados cuidam também de aprovar o que chamam de “reforma política”, mas uma que torne mais difícil renovar a Câmara com quem não pertença à turma. É o caso do tal “Distritão”, considerado pela maioria dos analistas a pior alternativa possível. Entre seus defeitos, está o de tornar ainda pior o que já é bem ruim: a representatividade do parlamento. Mas os deputados sabem bem por que fazem o que fazem – e o que buscam ao fazê-lo.

A Bancada Ruralista é o exemplo mais bem acabado deste momento do Congresso. Grande fiadora da permanência de Temer na presidência, com 200 deputados e 24 senadores, a também chamada “bancada do boi” coleciona vitórias numa velocidade atordoante. Quando se fala em ruralistas é preciso compreender que não está se falando dos agricultores que botam comida na mesa da população nem do agronegócio moderno, capaz de entender que a preservação do meio ambiente é um ativo fundamental para o setor.

Quem está dando as cartas no Congresso (e no Governo) é o que há de mais arcaico no setor agropecuário, um tipo que evoluiu muito pouco desde a República Velha. Essa espécie não se pauta por melhorar a produção pelo avanço tecnológico e pela recuperação das terras e pastos degradados, mas pelo que lhe parece mais fácil: avançando sobre as terras públicas, incluindo terras indígenas e unidades de preservação ambiental. O coronelismo parece já ter se infiltrado no DNA, seja herdado ou imitado.

Para avançar sobre as terras públicas de usufruto dos povos indígenas, as mais preservadas do país, os ruralistas têm cometido todo o tipo de atrocidades. Desde a posse de Temer, a bancada do boi conseguiu suspender demarcações cujos processos já estavam concluídos e se esforça para aprovar algo totalmente inconstitucional: o “marco temporal”. Por esse instrumento, só teriam direito às suas terras os povos indígenas que estavam sobre elas em 1988, quando a Constituição foi promulgada. Para ficar mais fácil de entender, é mais ou menos o seguinte: você foi expulso da sua casa por pistoleiros ou por projetos do Estado. Era, portanto, fugir ou morrer. Mas você perde o direito de voltar para a sua casa porque não estava lá naquela data. Não é só estapafúrdio. É perverso. O marco temporal deverá voltar ao STF em algum momento, mas, para agradar aos amigos ruralistas, Temer já assinou um parecer tornando o marco temporal vinculante em toda a administração federal.

Na lista de mercadorias da fatura ruralista para a manutenção de Temer no poder já foram entregues ou podem ser em muito breve barbaridades de todo o tipo: o desmonte da Funai, hoje à míngua e nas mãos de um general; a regularização de terras griladas (roubadas do patrimônio público), legalizando a rapinagem, aumentando o desmatamento e os conflitos, especialmente na Amazônia; o parcelamento de dívidas de proprietários rurais com a previdência em até 176 vezes, com o mimo adicional da redução da alíquota de contribuição; a redução em curso da proteção de centenas de milhares de hectares de unidades de conservação; mudanças nas regras do licenciamento ambiental que, se aprovadas, na prática não só abrirão a porteira para os empreendimentos dos coronéis da bancada e seus financiadores, mas tornarão o licenciamento ambiental quase inexistente (vale lembrar que a lama da Samarco aconteceu com as regras atuais e o que querem é torná-las muito mais frouxas).

Não para por aí. Os ruralistas querem bem mais: querem até o fim deste ano conseguir a permissão da venda de terras para estrangeiros e também mudar as regras sobre os agrotóxicos, o que no Brasil já é uma farra com graves consequências para a saúde de trabalhadores e de toda a população, mas os coronéis acham que tá pouco. E o objetivo de sempre, sua bandeira mais querida: botar a mão nas terras públicas de usufruto dos índios com a abominação chamada PEC 215.

A eleição de 2018, esta que ainda é uma incógnita, está perto? Me parece que está muito longe. Enquanto ela não chega, os ruralistas estão transformando o país numa ação entre amigos. Estão fazendo, sem que ninguém os freie, algo muito, mas muito grave, que afetará gerações de brasileiros que ainda nem nasceram: estão mudando o mapa do Brasil. Quando 2018 chegar, já era. Porque já é.

Há muita vida até 2018. E muita gente morrendo pela democracia sem povo que aí está. A fome e a miséria aumentando, as chacinas no campo e na floresta aumentando, os moradores de rua multiplicando-se nas calçadas (e sendo atacados, quando não mortos), os faróis repletos de pessoas tentando desesperadamente sobreviver vendendo alguma coisa, e os direitos duramente conquistados por décadas sendo destruídos um a um. Qualquer um que viva a vida de quem trabalha para se sustentar sente no dia a dia que perde. E perde rapidamente. Perde objetivamente, perde subjetivamente. Os abusos de poder estão por toda parte. E a Polícia Militar assumiu sem disfarces a ideologia de defender os grupos no poder contra o povo violentado por estes grupos.

Parece que se vive como se “ok, por agora está tudo perdido mesmo, vamos tentar melhorar o xadrez para 2018”. Um xadrez que, pelo menos para a esquerda, não está fácil. E não está fácil nem mesmo para qualquer coisa que se possa chamar de uma direita de fato. Mas a vida acontece agora. E muito está acontecendo agora. Tudo o que se viverá até a eleição e a posse dos eleitos afeta e afetará de forma profunda e permanente a vida dos brasileiros.

Este momento não é um soluço no tempo. O ano de 2017 não pode ser um entretempos, porque não está sendo para quem tem o poder para saquear o Brasil e os direitos dos brasileiros. Para estes está sendo o melhor tempo. Poder usurpar de tal forma o poder e ainda chamar de democracia?

É um outro nível este a que o Brasil chegou depois do impeachment de Dilma Rousseff, este momento em que não é preciso mais sequer manter as aparências. Para o impeachment, havia multidões nas ruas. Pode se discordar da interpretação que estas pessoas faziam do momento do país, pode se suspeitar das reais intenções dos grupos que lideravam os protestos “anticorrupção” – hoje desmoralizados pelo silêncio diante das evidências muito mais eloquentes contra Michel Temer –, mas não se pode negar que havia milhões nas ruas. Havia aparência. Havia a aparência de que a voz de parte significativa da população estava sendo ouvida mesmo que as razões para o impeachment fossem claramente insuficientes para justificá-lo.

Hoje, a população sequer está nas ruas. E torna-se muito mais assustador quando aqueles que detêm o poder chegam à conclusão de que não precisam mais sequer convencer a população ou cortejar seus eleitores. Quando descobrem que não precisam sequer se dar ao trabalho. De que podem prescindir de fazer de conta. A tarefa que precisavam que a população desempenhasse era a de ir para as ruas pedir o impeachment de Dilma Rousseff. Milhões foram, vestidos de amarelo, sob a sombra do pato da Fiesp. E agora se tornaram dispensáveis. E a parcela da esquerda que ainda podia fazer um barulho nas ruas pelo impeachment de Temer parece ter também calculado que é melhor (para seu projeto eleitoral) deixar as coisas se esgarçarem ainda mais até 2018. Se houve algum barulho quando o Congresso decidiu rejeitar a denúncia contra Temer, ele foi sepultado por um silêncio de tumba.

Ter o país sob o comando de pessoas que distorcem e afirmam o contrário do que apontam os fatos é assustador. Mas alcançamos um outro tipo de perversão, aquela que dispensa até mesmo as aparências. Pessoas que sequer se preocupam em aparentarem fazer a coisa certa. Os encontros à noite, fora da agenda, entre Michel Temer agora até mesmo com a procuradora-geral que nem assumiu ainda, as confabulações de Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, com pessoas que poderá julgar, Aécio Neves autoconvertido no novo Eduardo Cunha. Enfim, nada mais eloquente do que uma mala de dinheiro ligada a um presidente que não é impedido de presidir.

Se Temer ainda no Planalto é a materialização do cinismo vigente no país, o candidato a substituí-lo em caso de afastamento, Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara e também investigado da Lava Jato, é a troca para nada mudar, já devidamente acertada com os reais donos do poder. Mas ainda assim era preciso que isso acontecesse, para que algum limite existisse. Como não aconteceu, descemos a esse estranho mundo sem referências em que cada um está dando um jeito de se mimetizar e sobreviver.

A crise da palavra, esta que está no coração deste momento histórico, segue produzindo fantasmagorias. Como a “pacificação do país” de Michel Temer, em que a paz é só para ele e os que o mantêm no poder. Ou o argumento mais furado que uma peneira de que é melhor não tirar Temer agora por conta da “estabilidade”. Estabilidade para quem? Quem são os que estão se sentindo estáveis? Você está?

No segundo mandato interrompido de Dilma Rousseff, a palavra mais obscena era “governabilidade”. Em nome da “governabilidade”, traições profundas foram cometidas. Hoje, a obscenidade que enche a boca de tantos e consome muita tinta nos jornais é “estabilidade”. Há também os tais “sinais da economia”. Se há algo que atravessa a história do país, com especial ênfase a partir da ditadura civil-militar, é a mística dos economistas, com seus jargões, fazendo que pareça evidência científica o que seguidamente está mais próximo da astrologia.

Certa casta de economistas um dia terá uma categorização própria na história. Olhando com a necessária distância, é bem curioso o poder que exerce, ao ocupar largos espaços na mídia para legitimar o ilegitimável. Delfim Netto é talvez o personagem mais fascinante. Signatário do AI-5 e ministro de vários governos da ditadura civil-militar, inclusive liderando a pasta da Fazenda nos tempos de Médici, os mais brutais do regime, conseguiu a façanha de hoje opinar na imprensa de todos os espectros ideológicos, da direita à esquerda. Tornou-se um guru, sem que isso produza um mínimo de estranhamento ou perguntas incômodas sobre o fato de ter compactuado com uma ditadura que sequestrou, torturou e matou milhares de brasileiros. Está aí, bem tranquilo, ditando o que está certo e errado no país. Dando receitas para o momento como se estivesse num programa de culinária.

Os gritos nas redes sociais (quase) não produzem movimento. Servem mais para ilusão de que se protesta e de que se age. Uma espécie de descarga de energia que se exaure na própria bolha e nada causa. Servem, sim, para camuflar a paralisia. Nem mesmo a vergonha que se produzia com a imprensa estrangeira chamando o Brasil de “república de bananas” provoca hoje qualquer efeito concreto. Temer causa vexame em cima de vexame no exterior e já não importa. Já não há vergonha. Há uma espécie de aceitação de destino, do pior destino. E há uma desistência. E talvez algo ainda pior, que é a corrosão de qualquer sentimento de pertencer a uma comunidade. O imperativo parece ser o de cuidar da própria vida enquanto der. Mesmo sentindo que há muito já não está dando.

Fica a dica: 2018 está longe, embora muitos digam que é logo ali. Sem contar que não há nenhuma garantia de que vai melhorar depois da eleição. Mas agora, neste momento, pessoas estão morrendo mais do que antes, passando fome mais do que antes, sendo expulsas de suas casas mais do que antes, perdendo seus direitos mais do que antes. Nas periferias urbanas e rurais, aqueles que matam estão matando mais, seguidamente com a farda do Estado. A floresta amazônica está sendo mais uma vez entregue ao que há de mais arcaico na história do Brasil e está sendo destruída de forma acelerada, comprometendo qualquer futuro possível. E você, isso que se convencionou chamar de “povo”, não importa para mais nada.


* Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum


Fonte: Jornal El País (Espanha)

Temer extingue reserva na Amazônia para ampliar exploração mineral

Floresta Estadual do Paru, parte da Renca, que possui áreas onde é possível realizar pesquisas


O presidente Michel Temer extinguiu nesta quarta (23) uma área de reserva, na Amazônia, de 46.450 km² –tamanho equivalente ao do Espírito Santo–, na divisa entre Pará e Amapá, conhecida como Renca (Reserva Nacional de Cobre e seus Associados). A região possui reservas minerais de ouro, ferro e cobre.

A Renca foi criada em 1984, durante o regime militar. Dentro da reserva estão localizadas partes de três unidades de conservação (UC) de proteção integral, de quatro unidades de conservação de uso sustentável (uma delas na qual a mineração era permitida a partir de um plano de manejo) e de duas terras indígenas.

Até então, somente o Serviço Geológico Brasileiro poderia realizar pesquisa mineral ou viabilizar e autorizar qualquer tipo de extração econômica de minerais.


A mudança de status era sinalizada desde o final de março e começo de abril pelo Ministério de Minas e Energia e faz parte do "Programa de Revitalização da Indústria Mineral Brasileira".

O decreto, publicado no "Diário Oficial da União", diz que a extinção "não afasta a aplicação de legislação específica sobre proteção da vegetação nativa, unidades de conservação da natureza, terras indígenas".

Luiz Jardim Wanderley, pesquisador da Uerj e membro do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, afirma que a extinção tem, antes de mais nada, impacto político. "Coloca mais pressão sobre essas terras indígenas e UCs, abrindo mais uma área de interesse ao setor mineral. É um indicativo de que o governo Temer vai flexibilizar áreas que tinham alguma restrição", diz.

Segundo Mariana Napolitano, coordenadora do núcleo de ciências do WWF Brasil, o crescente interesse pela mineração na área poderia levar à redução das áreas de proteção e a corridas pelo ouro. O resultado disso seria uma explosão demográfica, mais desmatamento, contaminação de recursos hídricos por metais pesados, além de ameaça às populações tradicionais indígenas, diz.

"Exploração de minério perto de áreas protegidas causa impacto em toda a região. A extinção da Renca por decreto, ato que não permite diálogo sobre salvaguardas sociais e ambientais, é uma sinalização bem ruim do governo e vai no sentido da redução de áreas protegidas por meio de medidas provisórias."

Recentemente, cumprindo promessa feita à bancada paraense, Temer enviou ao Congresso projeto de lei que retira 3.490 km² da Floresta Nacional do Jamanxim, no sudoeste do Pará.

Segundo estudo do WWF sobre a Renca, as áreas nas quais a mineração poderia ser realizada –cerca de 30% do total, porção fora de UCs e terras indígenas– não necessariamente coincide com zonas de interesse para mineração.


Outro lado

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) reafirma o que assevera o decreto e diz que as unidades de conservação da área não serão afetadas.

O MMA afirma ainda que "qualquer empreendimento que possa impactar as unidades de conservação é passível de procedimento de licenciamento específico, o que garante a manutenção dos atributos socioambientais das áreas protegidas".

Segundo o Ministério de Minas e Energia, "o objetivo é atrair novos investimentos, com geração de riquezas para o país e de emprego e renda para a sociedade, pautando-se sempre nos preceitos da sustentabilidade. Acredita-se ainda que a medida poderá auxiliar no combate aos garimpos ilegais instalados na região".

Procurado pela reportagem, o Ministério de Minas e Energia não retornou sobre qual seria a fração de área passível de exploração dentro da Renca. A assessoria da Presidência da República disse que Michel Temer não irá se manifestar sobre o assunto.


Raio-X - Renca

Nome
Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca)

Área
46.450 km², entre o Amapá e o Pará

Ano de criação
1984

Composição
Áreas de proteção integral: Estação Ecológica do Jari, Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e Reserva Biológica de Maicuru

Áreas de uso sustentável dos recursos: Reserva Extrativista Rio Cajari, Floresta Estadual do Paru, Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e Floresta Estadual do Amapá

Terras Indígenas: Rio Paru D'este e Waiãpi

Objetivo
Segundo o Ministério de Minas e Energia, evitar o desabastecimento de recursos minerais estratégicos para o país, como ouro, platina, cobre, ferro, manganês e níquel

Riscos
Pressão sobre terras indígenas e Unidades de Conservação; nova corrida pelo ouro; desmatamento e ameaça à biodiversidade

Exploração
Era bloqueada para investidores privados e não ocorreram parcerias com o governo devido ao alto custo operacional

Novidade
O decreto 9.142/2017 retira o status de reserva nacional de algumas áreas da antiga Renca; cerca de 30% do total poderá ser explorado.

Mineração
O setor corresponde a 4% do PIB brasileiro e a produção em 2016 foi de US$ 25 bilhões.


Fonte: Jornal Folha de São Paulo

Taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo


Apenas na última semana, foram registrados pelo menos cinco casos de mulheres assassinadas por seus companheiros ou ex-companheiros só em São Paulo. Dado alarmante que reflete a realidade do Brasil, país com a quinta maior taxa de feminicídio do mundo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de assassinatos chega a 4,8 para cada 100 mil mulheres. O Mapa da Violência de 2015 aponta que, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por sua condição de ser mulher. As mulheres negras são ainda mais violentadas. Apenas entre 2003 e 2013, houve aumento de 54% no registro de mortes, passando de 1.864 para 2.875 nesse período. Muitas vezes, são os próprios familiares (50,3%) ou parceiros/ex-parceiros (33,2%) os que cometem os assassinatos.

Com a Lei 13.140, aprovada em 2015, o feminicídio passou a constar no Código Penal como circunstância qualificadora do crime de homicídio. A regra também incluiu os assassinatos motivados pela condição de gênero da vítima no rol dos crimes hediondos, o que aumenta a pena de um terço (1/3) até a metade da imputada ao autor do crime. Para definir a motivação, considera-se que o crime deve envolver violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

Para a promotora de Justiça e coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (GEVID) do Ministério Público do Estado de São Paulo, Silvia Chakian, a lei do feminicídio foi uma conquista e é um instrumento importante para dar visibilidade ao fenômeno social que é o assassinato de mulheres por circunstâncias de gênero. Antes desse reconhecimento, não havia sequer a coleta de dados que apontassem o número de mortes nesse contexto.

Apesar dessa importância, a promotora alerta que a lei é um ponto de partida, mas sozinha será capaz de acabar com crimes de feminicídio. “Como um problema bem complexo de causas sociais que estão relacionadas a aspectos da nossa sociedade – ainda tão patriarcal, machista e conservadora – não existe uma fórmula mágica, é necessário um conjunto integrado de ações”, defende.


Lei Maria da Penha

A implementação integral da Lei Maria da Penha é o primeiro ponto desse rol de medidas que devem ser tomadas pelo Estado. Reconhecida mundialmente como uma das melhores legislações que buscam atacar o problema e elemento importante para a desnaturalização da violência como parte das relações familiares e para o empoderamento das mulheres, a lei ainda carece de implementação, especialmente no que tange às ações de prevenção, como aquelas voltadas à educação, e à concretização de uma complexa rede de apoio às mulheres vítimas de violência, na avaliação da promotora Silvia Chakian.

“A gente não vai avançar na desconstrução de uma cultura de discriminação contra a mulher, que está arraigada na sociedade, nas instituições e em nós mesmas, sem trabalhar a dimensão da educação”, alerta.

De acordo com a promotora, a rede de atendimento, de atenção e de proteção às mulheres que vivenciam situações de violência pode ser definidora do rompimento desse ciclo, porque ela deveria fornecer apoio multidisciplinar, inclusive psicológico e financeiro, para que a mulher possa tomar a decisão de romper a relação abusiva e tenha condições de se manter fora dela.

“Onde não há delegacia especializada, centro de referência, casa abrigo e outras instituições de apoio, essa mulher vai sofrer calada, dentro de casa, sem conseguir buscar ajuda”, afirma. Como o fato extremo do assassinato é, em geral, uma continuidade de violências perpetradas antes, a existência desses mecanismos de auxílio pode interromper o ciclo de violações, antes que a morte ocorra. “Os feminicídios são tragédias anunciadas, por isso, essas são evitáveis”, alerta Chakian.

Outras formas de combater essa realidade dramática é aprimorar as condutas dos profissionais envolvidos nos processos de investigação e julgamento de crimes de feminicídio. Nesse sentido, em 2016 o governo brasileiro, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e a ONU Mulheres publicaram as Diretrizes Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de Gênero as Mortes Violentas de Mulheres – Feminicídios.

O documento detalha, por exemplo, quando e como a perspectiva de gênero deve ser aplicada na investigação, processo e julgamento de mortes violentas de mulheres, além de formas de abordagem das vítimas e informações sobre os direitos delas. O documento destaca ainda ações que podem ser desenvolvidas pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário, de modo que a justiça incorpore a perspectiva de gênero em seu trabalho e para que sejam assegurados os direitos humanos das mulheres à justiça, à verdade e à memória.


Fonte: Portal Agência Brasil

Brasil é o 4° país no mundo em número de casamentos infantis


Um relatório divulgado este ano pelo Banco Mundial, em parceria com a ONU Mulheres e o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), revelou um dado assustador: a cada ano, 15 milhões de meninas em todo o mundo se casam antes de completar 18 anos. E o problema faz parte da realidade brasileira: o país é o quarto no mundo onde mais existem casos de casamento infantil.

Os dados relacionados ao cenário brasileiro foram estimados pela Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, do Ministério da Saúde, em 2006, e contextualizados globalmente pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela organização não governamental Promundo.

No Brasil, existem 3 milhões de jovens entre 20 e 24 anos que se casaram antes de completar a maioridade. Na América Latina, o país ocupa o primeiro lugar no ranking com o número total de casamentos infantis.

De acordo com o último Censo, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pelo menos 88 mil meninos e meninas com idades de 10 a 14 anos estavam casados em todo o Brasil, em 2010. Na faixa etária de 15 a 17 anos, eram 567 mil. Quase 40% das brasileiras se casam antes de completar 18 anos.

Os motivos assustam tanto quanto os números. A pobreza e a violência doméstica estão entre os motivos para o casamento na infância, assim como a gravidez precoce.

A lei brasileira autoriza o casamento a partir dos 16 anos, desde que os pais assinem uma autorização de emancipação. A maioria dos casamentos com menores de idade não é legalizada e fica fora das estatísticas.

Vale lembrar também que relação sexual com menores de 14 anos é considerada crime de estupro no país, mesmo que haja consentimento.


Fonte: Portal Observatório do Terceiro Setor

'Sinto saudade de ser criança': em uma década, gravidez de meninas de 10 a 14 anos não diminui no Brasil

Foto: BBC Brasil

Maria, que engravidou aos 13 anos: 'Quando entendi que estava grávida, senti muito nervosismo. Pensei: não vou ser mais criança, agora eu vou cuidar de outra criança'



Aos 13 anos de idade, Maria entendia pouco sobre seu próprio corpo. Demorou quatro meses para descobrir que esperava um filho - fruto da primeira relação sexual que teve na vida, com um homem de 21 anos. Até receber a notícia da gravidez, Maria não sabia como ocorre uma gestação - jamais tinha recebido qualquer orientação em casa ou na escola. Tampouco sabia que a lei brasileira configura situações como a dela como estupro de vulnerável.

No posto de saúde de Autazes (AM), município a quatro horas de distância de lancha e carro de Manaus, Maria recebeu um único atendimento psicológico. O objetivo do profissional, conta ela, foi explicar o que era ser mãe.

"Quando entendi que estava grávida, senti muito nervosismo. Pensei: não vou ser mais criança, agora eu vou cuidar de outra criança", lembra ela, com a fala tímida, enquanto o filho, hoje com três anos, circula pela casa simples onde moram.

Maria e a criança são sustentadas pelos minguados rendimentos que a mãe dela recebe com bicos em serviços domésticos e o Bolsa Família. Sua condição não é exceção na cidade de Autazes onde, segundo o IBGE, quase metade dos domicílios tem renda total de no máximo um salário mínimo. Maria teve que deixar a escola - perguntada sobre o que gostaria de fazer no futuro, respondeu que não sabe.

Sente saudade de ser criança? "Sinto. Eu jogava bola na rua, bola de gude". E agora? "Não…. Fico em casa e vou à igreja", diz, enquanto revê na televisão o filme Esqueceram de Mim 3.

Aos 15 anos, dois anos após o ter o primeiro filho, ela sofreu um aborto, e agora, aos 16, acaba de dar à luz uma menina, que mama em seus braços. Depois do último parto, quis fazer uma laqueadura, mas o procedimento não é permitido para mulheres tão jovens.

Hoje, cria os filhos sozinha. O pai da primeira criança morreu assassinado. O da recém-nascida, de 23 anos, mora em uma comunidade afastada do centro de Autazes e só soube que seria pai quando a gravidez estava no sexto mês. Os dois já não estão juntos - Maria diz que ele ajuda a comprar fraldas ou talco, mas não costuma cuidar da filha. "O que pedir, ele dá, mas tem medo de pegar porque ela é muito pequenininha".


Maria - cujo nome verdadeiro foi preservado para não expô-la, assim como o das demais entrevistadas - é uma das quase 305 mil brasileiras de 10 a 14 anos que tiveram filhos entre 2005 e 2015, segundo o Datasus (banco de dados do Ministério da Saúde), que reúne os registros de maternidades e cartórios.

Os números mostram que a gravidez entre meninas dessa idade ocorre em todo o país, principalmente nas áreas mais pobres, alcançando os piores índices na região Norte. O mais grave é que a taxa de fecundidade entre garotas nessa faixa etária não tem caído, ao contrário da tendência geral do país, em que se observa queda nos nascimentos tanto entre adolescentes (mulheres de 15 a 19 anos), quanto entre adultas (a partir de 20 anos).

Com a ajuda da demógrafa Suzana Cavenaghi, a BBC Brasil calculou que o número de nascidos vivos a cada mil mulheres entre 15 e 49 anos caiu de 58,9 bebês em 2005 para 53,6 em 2015. Enquanto isso, a taxa para meninas entre 10 e 14 anos ficou em 3,2 bebês nos mesmos anos.

Não há um banco de dados que permita ampla comparação internacional para gravidez entre meninas dessa idade. No caso dos Estados Unidos, por exemplo, a gestação nesse grupo etário é bem mais baixa e está em contínua queda: segundo o relatório mais recente do Departamento de Saúde americano, a taxa de nascimentos por mil garotas de 10 a 14 anos caiu de 0,6 em 2007 para 0,2 em 2015. Em 1991, era de 1,4.


Retrocesso na educação sexual

Ouvidos pela BBC Brasil, especialistas das áreas de saúde, educação e direito que acompanham o tema apontam para diversos fatores que podem explicar a persistência desse quadro, com destaque para a falta de orientação sexual em casa e nas escolas.

Segundo a Unesco, o ensino sobre os temas sexualidade e prevenção à gravidez sofreu enorme retrocesso no Brasil desde 2011, quando a polêmica envolvendo o material educativo Escola sem Homofobia (que ficou tachado de "kit gay") acabou levando ao recolhimento de todo o suporte didático para educação sexual, que era distribuído desde 2003 para crianças a partir dos 12 anos, no âmbito do Programa Saúde na Escola.

"Hoje, nessa faixa etária de 10 a 14, nada tem sido feito no campo das políticas públicas de educação e sexualidade. Não existe uma diretriz nacional. Isso acaba virando um tabu e, como consequência, temos as crianças engravidando", critica Rebeca Otero, coordenadora de Educação da Unesco no Brasil.

Para o órgão da ONU, a educação sobre sexualidade e gênero deve começar desde os cinco anos, para meninas e meninos. Isso nunca foi implementado no Brasil, diz Otero.

"A orientação da Unesco é que os assuntos sejam adaptados a cada faixa etária: o conhecimento do corpo, por que sente o desejo, o que é abuso sexual. Tendo essa informação, a criança vai saber como se proteger de uma gravidez, como postergar sua vida sexual, caso queira".

Sem orientação, as meninas de menor renda são as mais vulneráveis, nota Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, especializado em sexualidade.

"Muitas vezes, nas casas mais pobres, a família inteira é obrigada a viver num mesmo ambiente. Então, pais fazem sexo e elas não só assistem, como passa a ser algo muito natural ainda cedo", observa.

"E hoje há também muito mais mães e pais separados, em busca de novos parceiros. Essas meninas convivem em ambiente muito mais sensualizado do que antigamente, também pela mídia, músicas, televisão, internet. Mas, ao mesmo tempo em que vivem num mundo social com muita liberdade, há um despreparo da escola, da família, para encarar que elas já podem ser sexualmente ativas. Elas ficam vulneráveis pela ignorância", afirma.


'Já vai abrindo as pernas'

E se a escola e a sociedade não educam para evitar a gravidez, em geral também não estão preparadas para acolher as meninas gestantes, ressalta Otero.

Grávida aos 14 anos de um namorado de 19 em uma comunidade pobre de Autazes, Lúcia sofreu represálias na escola e na igreja evangélica. "Já vai abrindo as pernas, depois fica sem condição", disse ter ouvido de um professor.

Ela não queria um filho, mas, religiosa, nem cogitou o aborto. "Sabia que era uma vida, não podia matar."

A filha nasceu há um mês e agora ela só pode ir à igreja se ficar isolada. Foi excluída do grupo de jovens, em que participava do coral, sua principal distração. O pastor quer que ela case com o pai da criança "para voltar à comunhão e participar do grupo de senhoras".

"Eu não sou senhora. Tenho que ter responsabilidade por causa dela, mas não tenho que ser senhora. Me senti abandonada, senti revolta", contou.

Lúcia sente saudade do seu corpo. Os seios ficaram bem maiores, a barriga ganhou estrias. Está traumatizada com a gravidez e diz que não quer mais ter filhos. O processo de parto foi difícil, com duas hemorragias, e acabou em cesárea. "Achei que tinha morrido. Minha vista escureceu, perdi o movimento do corpo. Dor de parto vai quebrando tudo dentro da gente", relembra.

Lúcia decidiu ter uma segunda chance na vida: vai se mudar no próximo ano para Presidente Figueiredo, outra cidade do Amazonas, onde terá o suporte de uma tia. A filha vai ficar com a mãe de Lúcia em Autazes - ela, que também teve o primeiro filho aos 14 e foi obrigada ao matrimônio, apoia a decisão da menina.


"Casamento cedo tira a liberdade. Eu vou sentir saudades da minha filha, mas lá a escola é melhor. Quero ser arquiteta, pegar ela quando eu tiver faculdade e condição de criar", planeja Lúcia.


Abusos por trás da gravidez

Especialistas no tema acreditam também que a violência sexual e a tolerância com relações supostamente consentidas entre adultos e menores de idade estão por trás da maioria dos casos de gravidez na pré-adolescência.

"Nem todos os casos nessa faixa são resultado de estupro, mas o que vemos muitas vezes são meninas que sofrem abusos sexuais durante a infância e isso acaba estimulando sua sexualidade, levando essas meninas a namorarem mais cedo, o que acaba desembocando nessa gravidez", afirma Ana Carolina Araújo, conselheira tutelar em Ceilândia, cidade satélite de Brasília.

A polícia do Distrito Federal registrou 832 estupros de vulneráveis (menores de 14 anos) em 2016, mas Araújo acredita que a maioria dos casos não chega a ser denunciada. Essa é a mesma impressão da delegada Juliana Tuma, titular da única Delegacia Especializada em Proteção a Criança e ao Adolescente de Manaus. Ela diz que chegam para ser investigados por dia, em média, de seis a sete suspeitas de estupros de vulneráveis.

No Amazonas, a quantidade de nascidos vivos de mães de 10 a 14 anos cresceu 40% desde 2005 (maior alta entre os Estados), chegando a 1.432 em 2015.

Para o promotor de Autazes, Cláudio Sampaio, que já atuou também em outras cidades do Estado, a redução do problema virá "somente com projetos sociais, um debate maior da própria sociedade, que seja incentivado por órgãos públicos ou por igrejas, pra poder fortalecer o respeito à sexualidade da mulher e o respeito à criança".

"Aqui no Norte, vejo uma cultura, digo no sentido de hábitos que estão enraizados na sociedade, de aceitação das relações sexuais entre crianças e adultos. Isso é considerado normal, infelizmente, e acontece até no próprio núcleo familiar, com padrastos, com irmãos, com tios", afirma.

Mas essa solução proposta pelo promotor esbarra em outro problema que ele próprio identifica: a "ausência do poder público" em uma região distante do restante do país, de grande extensão e com enormes desafios logísticos devido à floresta.

Ele ressalta a necessidade de maior presença do governo federal, já que é comum autoridades locais estarem envolvidas em abusos. O caso mais famoso é o de Coari, cujo ex-prefeito Adail Pinheiro chegou a ser condenado a 11 anos e 10 meses de prisão por exploração sexual infantil, mas esse ano recebeu indulto (perdão) da pena e foi solto.

"O governo federal precisa cuidar das pessoas daqui, e isso não é propriamente dar dinheiro, dar um Bolsa Floresta. É preciso que o poder público venha e capacite as pessoas, para que possam desempenhar profissões, para que entendam a necessidade de respeito às mulheres", cobra.

As três garotas com quem a BBC Brasil conversou no Amazonas relataram ter sofrido algum tipo de abuso sexual durante suas vidas, casos que seguem sem punição. Maria foi estuprada por um comerciante aos 13, quando já estava grávida. Lúcia teve a coxa acariciada por um funcionário do posto de saúde aos 12 - ele depois estuprou a irmã dela, que tinha 14.

Em Manaus, Joana, hoje com 17 anos e mãe de dois filhos, contou que sofreu seu primeiro abuso aos 5. O estuprador foi um vizinho, que pagou R$ 50 a sua mãe, viciada em drogas. Com muito sangramento, foi parar num hospital. "Meu útero saiu do lugar, até hoje sinto dores por isso". Nada aconteceu com ele, que a abusou novamente cinco anos depois, dessa vez por R$ 100.

Joana saiu de casa para um abrigo depois de se cortar "todinha com uma gilete". Passou por vários. "Depois do meu segundo estupro, com 11 anos, comecei a ser putinha", conta. Sua primeira gravidez, aos 13 anos, foi interrompida com quatro comprimidos de um remédio abortivo. Na segunda, aos 14, decidiu ter o filho. O pai era seu namorado, então com 21 anos, homem que a explorava sexualmente e a induzia a se drogar junto com sua mãe.

"Passei duas semanas pensando com Deus se abortava. Pensei: vai atrapalhar minha vida, vai acabar minha vida de puta."

A gravidez na pré-adolescência em geral traz efeitos negativos para as meninas e seus bebês: estudos mostram maior incidência de evasão escolar, de depressão pós-parto e de nascimentos de bebês prematuros e com baixo peso.

Entre elas, o acompanhamento pré-natal e a amamentação costumam durar menos tempo do que entre as mães adultas. São consequências da pouca maturidade e das condições sociais precárias.

No caso de Joana, a gravidez acabou tendo impacto positivo. O acompanhamento pré-natal a levou ao Serviço de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual de Manaus, onde recebeu apoio psicológico e conseguiu interromper a venda do seu corpo e, gradualmente, o uso de drogas.

Hoje ela está casada e tem uma boa relação com o pai de sua segunda filha, de sete meses. Ele tem 21 anos e trabalha com manutenção de ar-condicionado - item onipresente na fervente Manaus.

"Depois que meus filhos nasceram, veio um amor muito grande. Eu quis deixar a vida velha pra lá. Mas às vezes eu choro, quando meus filhos estão dormindo. Fica um reflexo (lembrança) na minha cabeça. Eu fico lendo a Bíblia, fico lendo, fico lendo, e só assim eu acalmo. Se eu for começar a pensar, eu fico doida", diz ela, que é evangélica.

"Eu tenho muito sonho de que mato ele (o abusador, que segue morando no bairro da infância de Joana). Eu quero matar ele, mas se eu for pra cadeia, o que vai ser dos meus filhos? Eu penso muito nisso."

A BBC Brasil questionou os ministérios da Educação e Saúde sobre as críticas quanto à falta de políticas públicas para enfrentar a gravidez de garotas e saber o que o governo pretende fazer para enfrentar o problema. A pasta da Educação não se manifestou. Já a pasta da Saúde se limitou a comentar as causas do problema e minimizar sua gravidade, destacando que os nascimentos nesse grupo representam 0,9% do total de nascidos vivos no país.

"A leve tendência de aumento, (da gravidez) na faixa de 10 a 14 anos, pode estar associada a vários fatores tais como violência sexual, aspectos culturais, iniquidades, falta de oportunidades, dentre outros; além disso, esse é um percentual muito pequeno, quando considerada todas as faixas etárias", respondeu o ministério.


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

Vítimas e autores de bullying ficam suscetíveis a problemas de saúde


Quando o tema é bullying, geralmente os danos psicológicos causados por esse tipo de violência são os mais lembrados. As consequências emocionais, porém, podem ser tão devastadoras a ponto de gerar danos físicos ao longo do tempo. Pesquisas têm mostrado que tanto as vítimas quanto os autores ficam mais suscetíveis ao desenvolvimento de problemas de saúde quando adultos, como desordens cardiológicas desencadeadas por dependência em cigarro e álcool e problemas de sono. As constatações, dizem especialistas, tornam a vigilância contra o bullying ainda mais necessária.

“As consequências a longo prazo são importantes de serem estabelecidas. A maioria das pesquisas sobre esse tópico se baseia no tratamento para a saúde mental, mas nós quisemos examinar o impacto potencial na saúde física”, explica Karen A. Matthews, psiquiatra e professora da Universidade de Pittsburg, nos Estados Unidos. Ela e a equipe trabalharam com a hipótese de que, como o bullying leva a interações interpessoais estressantes para vítimas e agressores, ambos poderiam ter a saúde debilitada.

A fim de aprofundar essa questão, recrutaram participantes do estudo Pittsburgh Youth, investigação com dados de 500 meninos matriculados nas escolas públicas da cidade norte-americana em 1987 e 1988, quando o grupo cursava a primeira série e tinha entre 10 e 12 anos de idade. À época, os participantes foram submetidos a avaliações regulares sobre fatores psicológicos e biológicos. Também foi feita a coleta de dados fornecidos pelos pais e professores sobre comportamentos relacionados ao bullying.

Quase 20 anos após o experimento, a equipe de Karen Matthews conseguiu reunir 260 participantes do estudo original, que responderam a questionários sobre fatores de saúde psicossocial, como nível de estresse, histórico de saúde, dieta e exercício e status socioeconômico. Como resultado, os pesquisadores observaram que os agressores e as vítimas de bullying tinham uma condição de saúde classificada como fraca.

O estudo mostrou ainda que os agressores durante a infância eram mais propensos a fumar cigarros e maconha, a experimentar circunstâncias estressantes e a ser agressivos e hostis. Por outro lado, os que haviam sido intimidados tendiam a ter mais dificuldades financeiras, relataram se sentir tratados injustamente pelos outros e eram menos otimistas quanto ao futuro.

“Os agressores da infância ainda eram combativos, e as vítimas continuavam se sentindo tratadas injustamente. Ambos os grupos tiveram muitas situações de estresse na vida adulta. Com isso, vemos que o impacto do bullying na infância dura muito tempo e que esses resultados também estão relacionados a riscos maiores de doenças cardiovasculares”, ressalta Karen Matthews.


Aval científico

Para Roberto Cândia, cardiologista do Laboratório Exame, em Brasília, a pesquisa norte-americana traz constatação científica a uma suspeita antiga. “Ainda não tínhamos a exata noção dos danos à saúde que o bullying pode causar, e também vimos que os dois lados envolvidos saem prejudicados. Podemos observar que o uso de cigarro e álcool, além do de drogas ilícitas, é recorrente em pessoas que sofrem esse trauma, e eles podem prejudicar severamente o organismo, com problemas graves, como pressão arterial alta e mais chances de ter um infarto”, destaca.

O cardiologista também ressalta que o trabalho reforça como os danos causados por esse tipo de violência são bem mais duradouros do que o imaginado, o que serve como um alerta para as vítimas e pessoas próximas a elas. “Vemos que a fase da infância não é a única prejudicada, a criança vai levar esse prejuízo para a vida toda. Isso vai influenciar muito negativamente o organismo dela, já que a saúde estará mais debilitada”, explica.

Tania Paris, fundadora da Associação Social pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC), em São Paulo, também acredita que o estudo serve como mais reforçador da importância de combater o bullying. “Esse tipo de estudo ressalta a necessidade de essa luta ser mantida, já que, dessa forma, também evitaríamos a segunda modalidade de danos, os físicos, que podem surgir muito depois. Ou seja, estaríamos combatendo a fonte de diversos outros problemas”, frisa.

Tania Paris sugere que os resultados da pequisa sejam discutidos com adolescentes. “Esse tipo de informação pode ser bastante útil quando conversamos com os jovens. Dizer a eles que essa prática pode ter consequências severas à saúde pode funcionar como um argumento forte para esse tipo de público. Para as crianças, porém, não funcionaria. Com os menores, tentamos ao máximo estimular a vontade de ajudar, mostrar a eles que vão se sentir muito mais felizes consigo mesmo caso façam algo de bom para o colega, em vez de abusar dele”, conta.


Até a meia-idade

Uma pesquisa do King’s College mostrou que os prejuízos emocionais e físicos do bullying vivido na infância persistem até pelo menos a sexta década de vida. O estudo, publicado no American Journal of Psychiatry, avaliou dados de mais de 7 mil crianças reunidos no estudo British National Child Development Study. A pesquisa foi realizada durante uma semana em 1958, quando os participantes tinham em média 10 anos de idade.

Em 2014, os pesquisadores britânicos avaliaram os dados reunidos no primeiro trabalho e compararam com informações da maioria dos analisados fornecidas por novas entrevistas. Constataram que indivíduos intimidados na infância eram mais propensos a ter uma saúde física e psicológica mais fraca e um funcionamento cognitivo mais prejudicado quando chegaram à casa dos 50 anos. Eles também apresentaram risco maior de depressão, transtornos de ansiedade e pensamentos suicidas.


Palavra de especialista

Refúgio errado
“As pessoas que sofrem bullying têm maior propensão ao uso de drogas por diversas razões. Algumas recorrem a essas substâncias na tentativa de se inserir em um grupo ou como uma maneira de obter alívio das angústias e dos sintomas provocados pelo bullying. Essa imposição é particularmente forte entre os adolescentes. Nessa fase da vida, a prática de bullying é muito comum, e os indivíduos que sofrem com isso tendem a ficar mais isolados. Por isso, podem enxergar o uso de drogas como uma alternativa de se ‘encaixar’ em algum tipo de grupo. Também observamos que vítimas têm uma tendência maior de sofrer de ansiedade e depressão e muitas delas acabam não buscando tratamento adequado para combater os sintomas. Muitas dessas substâncias são tratadas pelas pessoas como uma forma mais fácil de ‘curar’ o que elas estão sentindo, principalmente nos casos em que o indivíduo não quer um tratamento ou não tem acesso fácil a um serviço médico”

João Armando, psiquiatra do Instituto Castro e Santos (ICS) e pós-graduando em dependência química


Fonte: Jornal Correio Braziliense

Artigo - A estranha geração dos adultos mimados



Por: Ruth Manus


Tudo começou com uma colega minha de estágio, há mais de 10 anos, que pediu demissão por acreditar que “não foi criada para ficar carregando papel”. Sim, carregar papel fazia parte das nossas tarefas, enquanto ajudávamos o juiz e os demais servidores públicos com os processos do Tribunal. Acompanhávamos audiências, ajudávamos com os despachos e, sim, carregávamos papéis entre o segundo e o quarto andar do edifício.

Os pais da menina convenceram-na de que ela era boa demais para aquilo. Não importava que nós fôssemos meninas de 19 anos, no segundo ano da faculdade, sem qualquer experiência, buscando aprender alguma coisa e ganhar uns poucos reais para comer hamburguer nos finais de semana. Ela, que tinha a certeza de ser uma joia rara, foi embora, deixando sua vaga vazia no meio do semestre e sobrecarregando todos os demais, inclusive eu, sem nem se constranger com isso.

O tempo passou e, quando eu já era advogada, tive um estagiário de vinte e poucos anos que, três meses depois de ser contratado, solicitou dois meses de férias. Eu nem sequer entendi o pedido. Perguntei se ele estava doente ou se havia algum outro problema grave. Ele me respondeu que não, que simplesmente tinha decidido ir para a Califórnia passar dezembro e janeiro, pois a irmã estava morando lá e ele tinha casa de graça. Eu mal podia acreditar no que estava ouvindo. Deixei ele ir e pedi que não voltasse mais.

Alguns anos depois, ouvi um grande amigo me dizer que iria divorciar-se. Ele havia casado fazia menos de um ano, com direito a uma imensa festa, custeada pelos pais dos noivos. Mais uma vez perguntei se algo de grave tinha ocorrido. Ele me respondeu que “não estava dando certo”, discorrendo sobre problemas como “brigamos por causa da louça na pia”, “não tenho mais tempo para sair com meus amigos” e “acho que ainda tenho muito para curtir”. Me segurei para não dar um safanão na cabeça dele. Aos 34 anos ele falava como um garoto mimado de 16. Tentava explicar isso para ele, mas era como conversar com a parede.

Agora foi a vez de uma amiga minha, com seus quase 30 anos, que me disse que iria pedir demissão pois fora muito desrespeitada no trabalho. Como sou advogada trabalhista, logo me assustei, imaginando uma situação de assédio moral ou sexual. Foi quando ela explicou: meu chefe fez um comentário extremamente grosseiro no meu facebook. Suspirei e perguntei o que era, exatamente. Ela disse que postou uma foto na praia, num fim de tarde de quarta-feira, depois do expediente, e o chefe comentou “Espero que não esqueça que tem um prazo para me entregar amanhã cedo”. E isso foi suficiente para ela se sentir mal a ponto de querer pedir demissão de um bom emprego.

Eu não sei bem o que acontece com a minha geração. O fato de termos sido criados com cuidado e afeto pelos nossos pais, começou a confundir-se com uma espécie de sensação de que todos devem nos tratar como eles nos trataram. O chefe, o colega, o marido, a mulher, os amigos, ninguém pode nos tratar de igual para igual e muito menos numa hierarquia descendente. Se não for tratado a pão de ló, este jovem adulto surta, se julga injustiçado e vai embora.

Acho que o mundo evoluiu e as situações nas quais se tratava alguém com desrespeito são cada vez menos toleráveis, o que é ótimo. Também é ótimo o fato de sermos uma geração que busca felicidade e não apenas estabilidade financeira. É bom termos a coragem de mudar de carreira, de recomeçar, de priorizar as viagens e não a casa própria.

Mas nada disso justifica que a minha geração tenha comportamentos tão egoístas, agindo como verdadeiras crianças mimadas. E o grande perigo é que essas crianças mimadas têm belos diplomas e começam a ocupar cargos importantes nas empresas e no setor público. Vamos nos tornar um perigoso jardim de infância, no qual quem manda não pode ser contrariado e quem obedece também não. Isso não será uma tarefa fácil.


Fonte: Portal Observador (Portugal)

Entrevista - Jovens podem cair em 'limbo irreversível' no Brasil, diz economista


No momento em que deveria aproveitar suas últimas décadas de população predominantemente jovem e preparar-se para os desafios tecnológicos e sociais do século XXI, o Brasil está exterminando sua juventude em uma velocidade assustadora - negros, em especial, são as principais vítimas. Para os jovens brasileiros, é cada vez maior o risco de que o futuro esteja fadado a um quadro irreversível de "limbo": trabalho informal, pobreza e sem repertório para mudar a realidade. O alerta é do economista Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco. "Nós já perdemos o bônus demográfico, temos um padrão de desigualdade gigantesco, o mundo está avançando em velocidade muito alta. A projeção para a juventude em 2030, 2050 pode ser uma posição de limbo", prevê.

Formado em economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde também lecionou, Henriques tem vasta experiência na gestão pública: ex-pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), coordenou a criação do programa Bolsa Família, em 2003, como secretário Executivo do Ministério de Assistência e Promoção Social, e desenvolveu o programa UPP Social, em 2010, como secretário no Rio de Janeiro. "O fato mais importante hoje, do ponto de vista econômico, é você estar fechando o horizonte de empregabilidade da juventude", afirma o economista, que critica a ausência de políticas para os jovens, além do fato de que o país não se preparou para protegê-los dos efeitos da recessão.

Henriques diz que a saída para os problemas do país passa por elevar o status da política social, reconhecendo-a tão importante quanto a política econômica. "Inclusive a elite econômica, a elite do poder, não reconhece o valor da educação. É a visão da política social como acessória".

Português nacionalizado brasileiro, ele diz que o Brasil naturalizou a relação com a desigualdade social - desenhada na história do país desde os tempos da escravidão - e por isso reage muito pouco mesmo diante de claros sintomas de "doença civilizatória", diz Henriques, como o assassinato massivo de negros e gays. Entre 2005 e 2015, o Brasil teve 318 mil jovens assassinados e em cada 100, 71 são negros, segundo dados do Atlas da Violência. "A sociedade brasileira está se recusando a ver que está fazendo um movimento absolutamente enlouquecido", diz. "Parece inevitável que, em um momento de crise, os pobres vão sofrer", afirma. "Deveríamos dar atenção dobrada aos grupos mais vulneráveis. A seguir os principais trechos da entrevista:


Valor: Que retrocesso social da crise preocupa mais?

Ricardo Henriques:
O fato mais importante hoje, do ponto de vista econômico, é estar fechando o horizonte de empregabilidade da juventude. Todos os indicadores do último ciclo mostram uma queda da renda média, mas muito centrada no jovem. No momento em que eles estão entrando no mercado de trabalho, a taxa de desemprego entre eles é maior. Isso alerta para a quase inexistência de políticas para a juventude. Não se antecipou, para uma sociedade com o padrão de desigualdade que a nossa tem, uma política minimamente articulada para a juventude. Isso só existe no campo declaratório, há vários documentos, como o estatuto da juventude, por exemplo. Quando nós avaliamos as políticas para jovens na cidade do Rio de Janeiro, no início dos anos 2000, havia 40 a 50 programas de jovens, somando as esferas municipal, estadual e federal. Mas não havia uma política para a juventude. Isso é fruto de duas coisas: a falta de políticas consistentes, e a falta de uma visão integrada das políticas. E aí quando você olha tem a agenda da assistência social fazendo coisas parecidas com o que a educação está fazendo, e com o que a secretaria de trabalho está fazendo. E com uma intenção que faz sentido, mas não está baseada em evidências. Acaba-se criando uma quantidade relevante de intervenções, com autorias distintas, não coordenadas, e se perde o foco em sujeitos concretos em territórios concretos. E vários jovens que não são atendidos por nenhuma delas. Não construímos um colchão de amortecimento com educação nem capacitando esses jovens. E quando vem a crise esse colchão rasga rapidamente e eles não têm inserção nem no mercado de trabalho nem outras redes de acolhimento. No máximo, ficam nas famílias.


Valor: Políticas para jovens deveriam ser estratégia para o país?

Henriques:
Concordo. E acho que o desafio macro é para além de jovens. Precisamos elevar a política social para o mesmo status da política econômica. Geramos um efeito perverso gigantesco no Brasil, que reflete o padrão de desigualdade estrutural. Ao hierarquizar uma agenda em que a política econômica tem precedência sobre a política social, você criou um enorme conjunto de dificuldades e vulnerabilidades para avançar nesse processo. A política social não pode ser um braço da econômica.


Valor: Dá para resolver o problema econômico sem atacar o social?

Henriques:
De jeito nenhum. Mas a sociedade não antecipou isso, e, mesmo pós-Constituinte, os avanços que tivemos foram sempre no sentido de manter a política social como auxiliar da política econômica. A grande mudança de fundo que se precisa é como trazer para o centro da cena política a política social. Que país a gente quer? Que país estamos projetando? Se for um país de futuro, sobretudo nesse momento de aceleração da sociedade do conhecimento, só será possível se colocarmos o social equivalente ao econômico. A fronteira de conhecimento da sociedade está avançando e estamos aquém dessa velocidade, e ainda com tamanha desigualdade, que faz com que a fiquemos em uma situação de limbo. Nós já perdemos o bônus demográfico, temos um padrão de desigualdade gigantesco, o mundo está avançando em velocidade alta. A projeção para a juventude em 2030, 2050 pode ser uma posição de limbo.


Valor: Como isso se pareceria?

Ricardo Henriques:
Uma situação de mais limbo, mas limbo estrutural, talvez não reversível. Uma juventude fadada a estar no setor informal o tempo todo, salário baixo, sem capacidade de se inserir no mundo do trabalho futuro. Sabemos que o mundo do trabalho está em uma velocidade de se reprogramar muito alta e precisaremos de adultos capazes de se adaptar às múltiplas configurações que teremos nessa sociedade. Não estou comparando a gente com Finlândia, estou comparando a gente com a gente mesmo. Se a política econômica tem determinada potência em crise ou sem crise, a política social precisa ter esta mesma potência. E não existe esse arranjo. E aí você coloca uma sociedade que já aprendeu a viver só com 30% da sua população efetivamente engajada, extremamente desigual, você faz um vaticínio disso: está consolidada uma configuração de sociedade que se alimenta por uma visão completamente sem sentido, porque não faz sentido tamanha desigualdade, mas que pode se acostumar a isso e estabilizar essa situação desigual.


Valor: Como o "limbo" seria pior que agora para o jovem pobre?

Henriques:
Eu concordo, o jovem já está no limbo. Não é à toa que são os jovens negros que são exterminados em velocidade assustadora. A gente já perdeu a corrida. Nós perdemos a oportunidade nos anos 70, por exemplo, pós-democratização. Tínhamos demografia favorável, equilíbrio entre o urbano e rural relativamente favorável, podíamos ter investido na massificação do ensino com qualidade. Mas a gente não fez isso. Fizemos um processo de massificação do ensino sem estar atento a um padrão de qualidade que, na época, o mundo contemporâneo estava colocando. Investimos em qualidade no sistema de ensino só no topo universitário.


Valor: Favorecendo o topo.

Henriques:
Exatamente. Então esse arranjo perverso retroalimentou o padrão de desigualdade que a gente já tinha. A grande década perdida do país não é a de 80, é a de 70. Em que você não consegue aproveitar as taxas de crescimento que a gente tinha, a demografia favorável, a composição urbano-rural razoável, para poder fazer os movimentos de transformação estruturais que vários países tinham feito anos antes. Desde o Getulio, que quando faz avanços de política social já os faz em um padrão de desigualdade, só para alguns, para o trabalhador formal. Quem estava fora do mundo formal, ficou fora. A nossa transição da escravidão já é uma transição que institui um padrão de desigualdade. Você dá a libertação sem nenhuma referência do que seriam os mínimos denominadores comuns para uma inserção social e produtiva dessa população. Não tem reforma agrária, não tem acesso a educação, ao crédito. Você diz: 'livres e danem-se', e criam-se pobres em uma escala gigante. Não é à toa que a sociedade é tão racista.


Valor: Um grupo grande da população nunca esteve na agenda?

Henriques:
Isso. É uma sociedade que aprendeu a viver com 30% da população a puxando. Nos anos 70 já havia várias experiências mundiais, como a alfabetização da Hungria, e processos massificados de educação de populações rurais que viraram urbanas. O mundo sabia fazer. A sociedade hierarquiza a política econômica e torna a política social um investimento de segunda linha. A um ponto que, quando está se falando em gestores de política social, parece uma coisa fácil. Para a economia precisa de técnica, mas para política social só precisa da motivação, do engajamento. Mas é preciso técnica, de ciência, muito estudo, evidência empírica.


Valor: O debate atual parece opor os grupos "da economia" e "do social". Como unificar?

Henriques:
Tem que dizer o seguinte: é possível dizer que a eficiência da política social pode estar harmonizada com a garantia dos direitos. Geramos uma falsa polarização que é como se a garantia do direito em geral, da educação, da saúde, ela prescindisse de eficiência. E isso não faz sentido nenhum. Não há política social transformadora sem uma política econômica comprometida com isso. Qual o sentido do ajuste fiscal? Arrumar a casa para viabilizar o projeto de sociedade que se quer construir no futuro. Mas em comparação a outros países, enunciar isso em 2017 no Brasil traz um desafio muito maior, porque criamos um padrão de desigualdade tão estrutural e naturalizamos a relação com essa desigualdade, que para projetar um futuro de uma sociedade produtiva com equidade e inclusão eu preciso de um modelo muito forte, com algumas rupturas. Mas se eu não fizer esse acordo e houver o "grupo da educação" e o "grupo do fiscal" achando que são distintos e que há uma nobreza no grupo do fiscal maior que no da educação, a gente não muda esse processo.


Valor: O que você acha das escolhas do ajuste até agora?

Henriques:
Tem elementos que vão na direção correta. De que escolhas você está falando?


Valor: O CNPq, por exemplo, está sem orçamento garantido no ano.

Henriques:
Fazer cortes lineares na política fiscal é, tanto na literatura e quanto na evidência empírica, um erro. Precisava haver uma leitura qualificada, modulada, e saber onde eu preservo, e até aumento investimentos. Cortar tudo por igual sem visão estratégica é um erro estrutural do ajuste, porque não sinaliza qual é o projeto de transformação que eu tenho para o país. É um aprendizado que o mundo tem feito. Os ajustes de conjuntura, e aí a gente vê Portugal, parte da Europa, eles têm que ter simultaneamente a projeção do país que você quer para a frente. Não é "zera tudo e recomeça". Ele deveria explicitar quais são os parâmetros e sinalizar o que você está preservando para, lá na frente, alavancar. Quando uma sociedade tem essa relação "naturalizada" com a desigualdade, parece que é mais indiferente penalizar a pobreza. Ao contrário. No período de crise deveria ter atenção dobrada a grupos mais vulneráveis.


Valor: Quando se aumenta a focalização e o "pente-fino" do Bolsa Família no agudo da crise, como o governo alega fazer agora, há risco de desassistência?
Henriques:
A questão da focalização é diferente: você deve fazer o máximo para chegar aos mais pobres. Outra coisa que é possível, em momentos de crise, é aumentar a linha de pobreza para incluir mais pessoas. Você precisa primeiro chegar em quem precisa e depois, se quiser, você pode aumentar. O programa Bolsa Família é uma conquista: ele faz o vínculo entre curto e o longo prazo. Alivia a pobreza por meio da transferência de renda, mas as suas condicionalidades miram o longo prazo: a manutenção da escola, exame pré-natal, etc. Um avanço que poderíamos ter nele e n&atildatilde;o fizemos, é que ele tem a potência de ser a plataforma do médio prazo, por meio do Cadastro Único, que é pouco usado. Com essa plataforma seria possível coordenar agendas sociais, e chegar nos mais vulneráveis.


Valor: Como?

Henriques:
Vou citar um exemplo que eu conheço, que é o Rio de Janeiro. A divisão territorial da cidade do Rio na educação é diferente da divisão da cidade para a saúde, que é diferente do jeito que eu divido para a assistência social. E o fato de isso ser feito assim só reflete o pensamento de que a política social não é tão digna, tão nobre. Porque seria impossível existir uma regulação do ICMS, por exemplo, que não pensasse em territorialidade. Absolutamente impossível. Aí volta para o Bolsa Família, o que ele permite? Ao ter o Cadastro Único, se eu ajustasse isso com visão de regulação e eficiência da política social - educação, saúde, assistência, meio ambiente, cultura, segurança - eu consigo olhar para isso de forma coordenada. Tratar uma pessoa como uma pessoa, e uma família como uma família, em saúde, educação e assistência. É preciso colocar a inovação dentro da política social, identificando o que deu errado, e sabendo porque deu errado. E decidir se continua arriscando, porque inovação é assim. O que é replicável? A experiência do Bolsa Escola ajudou a fazer o Bolsa Família, embora o Bolsa Família não seja o Bolsa Escola.


Valor: O senhor cita que a sociedade está ficando, em geral, menos tolerante. Isso também tem a ver com a desigualdade?
Henriques:
Talvez. Mas não dá para esquecer que o mundo está ficando mais conservador. Tem um movimento de sociedade que está tendo dificuldade de caminhar em direção a um contemporâneo mais tolerante que o mundo está projetando. Mas em uma sociedade tão desigual, por exemplo, parece que exterminar pessoas que se declaram homossexuais é um problema menor. E evidentemente é um sintoma dessa doença civilizatória brasileira. O Brasil tem extermínios em massa comparáveis a situações de guerra, em um Estado democrático. O fato de isso não gerar uma indignação radical na sociedade é muito forte. Tal qual é muito forte não se gerar uma indignação radical com os desempenhos que a gente tem nas avaliações educacionais. É uma sociedade que diz que educação é importante, mas de forma objetiva, não é uma sociedade que reconhece o valor da educação. Inclusive a elite não reconhece - a elite econômica, a elite do poder, não reconhece o valor da educação. É a visão da política social como acessória.


Valor: E o que falta para mudar? A instabilidade política atrapalha?

Henriques:
Cria um Fla-Flu irresponsável. Nós polarizamos a reflexão política do país com a irresponsabilidade de quem não quer fazer uma transição enquanto sociedade. Estamos diminuindo os campos onde é possível alcançar acordos transformadores. Os vetores que seriam de transformação de um novo posicionamento do país em uma sociedade global estão desconsiderados, jogados para segundo plano. Evidentemente, implica acabar com arranjos de miopia da política. Fazer esse salto passa pela política.


Valor: E em que medida a corrupção atrapalha?

Henriques:
Muito. Há que não só enfrentar a corrupção, mas fazer um arranjo que seja intolerante com a corrupção. E sinalizar um outro campo de arranjo da política. É importante que se preserve o amplo espectro doutrinário que há pelo mundo, mas que se faça um acordo sobre que salto a sociedade quer dar. E nesse amplo espectro doutrinário, da direita e da esquerda, deveria ter um campo de acordo que diga, por exemplo, que o padrão de desigualdade que nós naturalizamos não faz sentido para esse país. Que projete onde queremos estar em 2050 e saia não só desse Fla-Flu, mas dessa coisa meio cafona, velha, míope, que é essa disputa.


Valor: E quem vai liderar esse acordo? Será um governo?

Henriques:
Um governo, construído com a sociedade. Não uma pessoa. O legal é que hoje você tem parte da elite econômica indignada; parte dos coletivos jovens de favela indignados; parte de atores do mundo rural indignados; parte relevante das classes médias indignadas. Movimentos de indignação que não se reconhecem nisso que está colocado, o que dá um sentido de oportunidade.


Valor: Como compensar a dívida histórica com o jovem negro?

Henriques:
Veja o exemplo da agenda da Anistia Internacional do Brasil, o Jovens Negros Vivos. Dá visibilidade a algo que a sociedade brasileira está se recusando a ver, que está fazendo um movimento absolutamente enlouquecido para o século XXI: matar 56 mil pessoas por ano e com um perfil nessas mortes. Não é possível entrarem atirando indiscriminadamente em uma favela. A cultura que está colocada é que se você entrar na favela e se tiver dois caras, um negro, você vai atirar no negro primeiro. Se o país conseguir enxergar as distâncias entre brancos e negros que se mantêm em aprendizado na educação, e se sabe que quando se faz políticas afirmativas se consegue acelerar a redução dessas distâncias, pode articular uma sequência de políticas. Dado o direito à vida, que é preciso ser garantido em uma sociedade tão violenta, o direito à educação é a principal porta que abre o caminho para os outros direitos.


Fonte: Revista Valor Econômico

domingo, 27 de agosto de 2017

Os 10 castigos mais cruéis do mundo para mulheres infiéis. Alguns continuam até hoje em dia


Traição por parte de seu namorado(a) ou esposo(a) gera uma dor imensa. O desejo de vingança em contra da pessoa que te traiu a confiança é algo inenarrável, mas nada, absolutamente nada justifica a violência e muito menos a morte de alguma pessoa e muito menos aquela que compartilhou algum momento feliz ao nosso lado.

No mundo existe uma grande quantidade de culturas e cada uma tem suas próprias leis e crenças, ainda que muitas delas nos pareçam barbáries e condenáveis, pouco se pode fazer quando determinadas práticas perduram por séculos.


Estes são alguns dos castigos mais terríveis e cruéis que sofriam as mulheres que cometiam adultério.

1. Turquia antiga


Na Turquia se considerava que tanto o marido quanto qualquer membro da família tinham a opção de apunhalar uma mulher adúltera. As constantes punhaladas só terminavam quando a mulher falecia.


2. Antigo Oriente Médio


As mulheres eram mutiladas nas partes mais sensíveis de seus corpos, como o peito, o abdômen e inclusive as partes íntimas. Sobre as feridas, o marido introduzia chumbo, material com o qual também enchia o útero da vítima.


3. Tribos antigas da Papua Nova Guiné


Nas tribos antigas permitiam aos homens que decapitassem o amante de sua mulher, mas não antes de obrigá-lo a cortar os dedos da mulher e comê-los.


4. Islã


Entre os múltiplos castigos que existem no Islã está o de submeter a mulher a 100 chicotadas.


5. África antiga


Nessa região costumava-se lançar tanto a mulher infiel quanto o amante desde uma montanha. A ideia era que seus corpos caíssem sobre as rochas e falecessem ao instante.


6. Coréia antiga


Na Coréia do passado costumavam encher o corpo da mulher infiel com vinagre. Uma vez que o corpo da adúltera se inchava, o homem a golpeava até a morte.


7. Mongólia antiga


Se o homem pudesse comprovar que sua mulher havia sido infiel, poderia parti-la em dois pedaços. Literalmente.


8. Tailândia antiga


Este método de castigo é um dos mais cruéis. De acordo com a Tuul.tv, a mulher era presa em uma jaula. A razão? Quando ela estava no interior da jaula, traziam um elefante macho que tentava procriar na jaula onde a mulher estava. Ela morria por abuso por parte do animal.


9. Islã – Rajm


Este castigo talvez seja o mais conhecido: a lapidação. Enterram a mulher até a altura de seus peitos. Logo o marido, junto aos familiares, lançam pedras até que ela morra.


10. Índia rural


Na Índia, as mulheres que cometiam infidelidade eram submetidas a um abuso coletivo por mais de 10 homens, sendo que todos deveriam ser habitantes de sua própria aldeia. Esta medida também era usada como castigo para mulheres casadas que haviam cometido adultério.


Fonte: Portal Mistérios do Mundo

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