segunda-feira, 5 de junho de 2017

Negros são maioria entre população de menor renda no Brasil, alerta CEPAL

A distribuição de renda é somente uma das dimensões da desigualdade na região analisadas no relatório anual “Panorama Social da América Latina 2016”


Há uma concentração significativamente mais elevada da população negra entre as menores rendas no Brasil na comparação com a população não afrodescendente, revelou na terça-feira (30) novo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

Analisando dados de quatro países latino-americanos, o documento “Panorama Social da América Latina 2016” mostrou que enquanto havia 33% de negros na menor faixa de renda no Brasil, a proporção era de 16% entre os que se declaram não afrodescendentes, segundo dados de 2014.

A mesma situação é vista em outros três países latino-americanos analisados. Enquanto os negros respondiam por 34% das menores rendas no Equador, esse percentual era de 22% entre os brancos. No Peru, a proporção era de 20% e 13%, respectivamente. No Uruguai, a desigualdade chega a ser ainda maior: os negros respondiam por 50% das menores rendas, enquanto entre os não afrodescendentes essa proporção era de 27%.

A situação se reverte quando são analisadas as maiores rendas nos quatro países latino-americanos analisados. Segundo a CEPAL, no Brasil, os negros respondem por 8% do topo da pirâmide, enquanto os brancos são 24%. Tendência semelhante ocorre nos demais três países.

“As desigualdades étnico-raciais, junto com as socioeconômicas, as de gênero, as territoriais e aquelas associadas ao ciclo de vida constituem eixos da matriz da desigualdade social na América Latina”, afirmou o documento da CEPAL.

“Elas se manifestam nos diversos âmbitos do desenvolvimento social, entre eles a posição socioeconômica, a saúde, a educação e o trabalho”, completou.

Segundo a CEPAL, uma das evidências mais eloquentes da interação que ocorre entre as desigualdades socioeconômicas, de gênero e étnico-raciais é a que se manifesta na situação das trabalhadoras domésticas assalariadas.

De acordo com o organismo da ONU, esta é uma das ocupações que geram mais fontes de emprego para as mulheres na América Latina, ao mesmo tempo em que se constitui uma das atividades menos valorizadas social e economicamente, apresentando um alto déficit do ponto de vista do trabalho decente.

“Ao considerar a dimensão étnico-racial, se observa que, no total da ocupação feminina, o percentual de trabalhadoras domésticas assalariadas varia de cerca de 3% (no caso das mulheres afrodescendentes da Colômbia) até 20% (no caso das mulheres afrodescendentes do Brasil)”, disse a CEPAL.

No Brasil e no Equador, o percentual de mulheres ocupadas como trabalhadoras domésticas equivale ao dobro do percentual de mulheres não afrodescendentes na mesma ocupação.


Saúde da população afrodescendente

Segundo a CEPAL, as condições de pobreza na qual vivem as mulheres afrodescendentes da região agravam suas condições de saúde, ao que se somam as limitações de acesso e acessibilidade cultural aos serviços de saúde, incluindo saúde sexual e reprodutiva.

A gravidez na adolescência é outra manifestação da desigualdade que afeta as jovens afrodescendentes. As cifras dos censos revelam que o percentual de adolescentes afrodescendentes entre 15 e 19 anos que são mães se mantém em níveis elevados, e em sete dos dez países com dados disponíveis supera o percentual de maternidade das adolescentes não afrodescendentes.

As maiores desigualdades relativas são observadas no Brasil e no Uruguai, o que, segundo a CEPAL, “põe em evidência que inclusive países que implementaram políticas de saúde integrais e universais para a atenção de jovens, incluindo aquelas dirigidas à redução da gravidez não desejada na adolescência, não foram capazes de superar a desigualdade étnico-racial”.

Clique aqui para acessar o relatório completo da CEPAL (em espanhol).


Fonte: Portal da ONU

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