segunda-feira, 5 de junho de 2017

Lixão, um problema de todos nós: o aterro da Estrutural, o segundo maior do mundo, expõe, há 60 anos, mazelas sociais e ambientais


O maior lixão da América Latina

Estradas de terra cortam o Lixão da Estrutural de fora a fora. Por elas trafegam caminhões abarrotados de resíduos. O ar é insuportável, devido ao cheiro azedo misturado aos gases provenientes de decomposição de produtos descartados, principalmente domésticos. Há uma energia pesada no local.

As condições insalubres, contudo, não impedem a presença de cerca de 2 mil homens e mulheres, que disputam cada metro quadrado do segundo maior lixão a céu aberto do mundo e o maior da América Latina, em busca da sobrevivência. Essa rotina extenuante e retrato da exclusão social são expostos pelo Correio na série de reportagem Lixão, problema de todos nós, publicada a partir desta quarta-feira (10/5).

O Lixão da Estrutural, em processo de desativação, está a 15km da Praça dos Três Poderes, centro das decisões políticas do país e coração da capital da República. É tão grande em volume que fica atrás apenas do Lixão de Jacarta, na Indonésia. A diferença é que a população de Jacarta é seis vezes maior do que a do DF.

O depósito improvisado nasceu praticamente com Brasília. Passados quase 60 anos, o espaço acumula 40 milhões de toneladas de detritos. O maciço — nome técnico para a parte central onde é disposto o lixo domiciliar — tem 55m de altura.



O papel dos catadores

“Agora que os ambientalistas estão tomando consciência do nosso papel para o meio ambiente.” Essa é a opinião de uma peça importante no processo de reciclagem do lixo no Distrito Federal. Presidente da Construir, uma das nove cooperativas autorizadas a coletar material reciclável nos galpões prometidos pelo Governo do Distrito Federal (GDF), a catadora Zilda Fernandes de Souza, 49 anos, sabe da relevância da categoria para a natureza. São esses trabalhadores, que, de alguma forma, cuidam do meio ambiente, coletando e separando o que é descartado pela população.

A presença dos catadores no lixão aponta para condições insalubres de trabalho, com pessoas se misturando diretamente a objetos e resíduos. “A gente não pode olhar só para a eficácia social do que representa esse material na vida das pessoas”, alerta Sylmara Lopes Francelino Gonçalves Dias, professora do curso gestão ambiental e do programa de pós-graduação em ciência ambiental e sustentabilidade da Universidade de São Paulo (USP). Para ela, a remoção desses materiais recicláveis é fundamental para diminuir os danos ao meio ambiente.

Muitos não fazem ideia da importância da atividade dos catadores do Lixão da Estrutural para a sustentabilidade. No entanto, a contribuição deles, nesse aspecto, é explicada de maneira simples, garante Zilda. “Nós ajudamos tirando o que é ruim para o meio ambiente. É o mesmo material que a gente pega no lixão para vender. Se a gente não fizesse isso, seriam 500 anos para ser dissolvido na terra”, diz.

Diariamente, 2,8 mil toneladas de lixo são despejados no Lixão da Estrutural, de acordo com o Serviço de Limpeza Urbana (SLU). Por mês, cada catador recolhe cerca de 2 mil toneladas. Porém, o trabalho manual sobre grandes montes de entulho não garantem que todo plástico, isopor e papelão serão levados para reciclagem. Com o Aterro Sanitário de Brasília, em Samambaia, a promessa é de que esse material passe por uma triagem mais rigorosa.


Sobrevivência

Os centavos recebidos antes da crise financeira — que reduziu o volume do lixo de qualidade e, consequentemente, atingiu a renda desses catadores — têm agora a chance de aumentar. O plano do GDF é que, ao ingressarem em cooperativas, os profissionais sejam favorecidos com a coleta seletiva de lixo, ao mesmo tempo que o meio ambiente.

Nessa relação, quem fica atrás é a sociedade. “Quem ganha mais ganha é a indústria, que paga pouco pelo material, que não podemos julgar apenas pelo valor”, comentou Sylmara, a especialista da USP. “Precisamos mesmo fechar os lixões no Brasil inteiro. O que não pode é ignorar as pessoas que sobrevivem disso nessa transição”, conclui.

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Fonte: Jornal Correio Braziliense

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