domingo, 18 de junho de 2017

Cresce o número de evangélicas que aderem ao feminismo


Figuras estereotipadas de mulheres evangélicas e das militantes feministas permeiam o senso comum há décadas. Nesse imaginário coletivo e ultrapassado, esses dois universos antagônicos nunca poderiam coexistir. Mas uma onda de mulheres cristãs está aderindo ao feminismo e questionando um sistema milenar.

Elas lutam para participar das decisões das igrejas, reivindicam maior inclusão no ministério ordenado e usam as redes sociais para compartilhar histórias de opressão clerical. Essa comunidade, cada vez mais crescente, acredita que não deveria existir nenhum fator excludente entre as duas frentes. Elas admitem o preconceito que ainda sofrem dentro da igreja e também da sociedade.

A socióloga e feminista Camila Galetti, filha e sobrinha de pastor, percebe que as pessoas, de ambos os lados, ainda se incomodam com a associação dos dois mundos. “No ambiente acadêmico eu sou aceita até o momento que digo que não sou ateia. Isso só é esquecido no decorrer da minha militância. Na igreja há o estranhamento, mas também a curiosidade”, avalia.

Mas o grupo do qual ela faz parte admite que o ambiente cristão ainda precisa de muitos reparos e que a pauta feminina dentro das igrejas não cresce porque não há espaço para as mulheres participarem dos processos de decisão. “Existe muita resistência em aceitar mulheres ordenadas, mesmo nas congregações que já permitem isso”, complementa a teóloga Romi Márcia Bencke, que também é pastora e mestre em ciências da religião.
"Da mesma forma que somos excluídas da sociedade, também estamos fora das principais rodas da igreja", Romi Márcia Bencke

Essa realidade se deve à interpretação equivocada de textos bíblicos. Um dos principais trechos está no livro de Efésios que regala à mulher o papel de submissão e obediência ao homem. “Assim como hoje, nos tempos bíblicos também se justificava a submissão das mulheres com o argumento de que era ordem de Deus. Não é. Todas as interpretações que colocam as mulheres nesse papel são tendenciosas e manipuladas”, explica.

A teologia moderna avalia que a construção das escrituras sagradas foi concebida em contextos e épocas diferentes. “A Bíblia não deve ser entendida como a voz de Deus, mas sim como a memória de um povo”, acrescenta a teóloga e evangélica nascida em berço pentecostal, Valéria Vilhena.
“Diferenças biológicas não podem justificar injustiças, violências e desigualdades de oportunidades. Tampouco a Bíblia pode ser base para isso. O feminismo é forma de luta política e a Bíblia tem muitos textos que pautam por essas lutas, pelos mais pobres, pelos injustiçados”, explicou a teóloga.

Mas Romi ainda acredita na possibilidade de alinhar a proposta feminista e com a vida cristã e considera que princípio da Bíblia é a igualdade entre todas as pessoas. “São muitos os textos do Evangelho em que Jesus se dirige às mulheres de igual para igual. Muitas exerciam protagonismo no movimento de Jesus, como Maria Madalena. O feminismo problematiza as relações desiguais de poder e nos evangelhos existem muitos textos que criticam essas relações também”, explicou a pastora.
Para ela, a postura de Jesus em relação às mulheres era de igualdade e não há nenhum tipo de negativa para a participação feminina em seu movimento. “Basta ver a história da crucificação. As únicas que correm o risco de ficar junto à cruz são as mulheres. Também são elas as primeiras testemunhas da ressurreição”.

Aborto

Se o papel da mulher na igreja caminha devagar, discussões pertinentes à mulher não existem. Aborto, mesmo sendo uma questão de saúde pública, é um dos fatores mais ignorados pela igreja, especialmente pelas mais tradicionais. Quando isso não acontece, o termo é reduzido: “pecado” e ponto final. Camila lembra que mesmo com pesquisas indicando um número cada vez maior de mulheres cristãs que abortam, a igreja permanece calada para a discussão.
“Se é uma realidade por que eu não a problematizo? A igreja não precisa ser a favor da descriminalização, mas precisa se posicionar diante disso no sentido de justiça e entender que muitas mulheres, dentro de uma comunidade de fé, abortam”, contextualiza Camila.

Valéria também fica descontente com a falta de debate sobre o assunto e relembra que em uma sociedade legalmente laica, a saúde pública nesses casos não pode ser encarada a partir da fé. “Crença é para ser vivida e não para ser imposta. As mulheres não estão sendo ouvidas, os dados não estão sendo expostos. Não se olha pelo viés da saúde pública, mas pelo viés religioso. Políticas públicas não podem responder a partir de um sistema de crença. Devem responder de acordo com as demandas da sociedade.”


Fonte: Portal Metrópoles

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