segunda-feira, 5 de junho de 2017

Como a internet e as redes sociais afetam os namoros e relacionamentos


É só o crush ficar on-line que o coração começa a bater mais forte. Todos os dias, a rotina inclui um passeio por todas as redes sociais da pessoa amada — a famosa “stalkeada”. O sonho de quem paquera pela internet não é só ter um relacionamento, mas ser “shippado” pelos amigos (leia glossário). A internet mudou a forma de paquerar não seria uma exceção. Neste Dia dos Namorados, a Revista tenta entender como funciona a conquista em tempos de conectividade — como a rede tem influenciado o ciúme, o namoro e o caminho até a cara-metade?

Não é de hoje que os solteiros buscam na internet uma forma de conhecer alguém especial. Dos tempos do bate-papo até os modernos aplicativos de encontros, a web é uma ferramenta que pode, não só facilitar a vida dos tímidos, como ajudar a encontrar pessoas com gostos parecidos — aumentando as chances de o romance vingar. Para os neurotransmissores, a fase da conquista é extremamente benéfica, graças à ação da dopamina e da ocitocina, responsáveis pela motivação, confiança e criação de laços afetivos, segundo a psicóloga Lia Clerot.

Naturalmente, a rede também tem seus lados pouco positivos. Ciúme em excesso, obsessão, distanciamento físico do par, tudo isso entra na lista de possíveis efeitos colaterais da vida amorosa on-line. “O uso das redes sociais é benéfico porque acaba aproximando pessoas que estão longe e faz com que o seu círculo social aumente. Contudo, acho que é preciso ter cautela na utilização, como tudo na vida”, reforça a psicóloga. “É muito comum ver casais sentados em um restaurante, os dois com celulares em punho e sem trocar uma palavra sequer. Nesse caso, os resultados podem ser desastrosos.”

Em algumas histórias, o mundo virtual pode fazer papel de cupido e proporcionar o que não seria possível na vida real. Muitas vezes, as rotinas vividas e os lugares frequentados podem dificultar o encontro de alguém que poderia ser especial. No caso de Mariane Weizenmann, 24 anos, e Átila Arantes, 29, a rede social proporcionou, há 10 anos, que os dois se conhecessem por acaso, em uma brincadeira feita quando uma amiga de Mariane visitou a página de Átila no extinto Orkut.

“O Orkut, na época, ajudava no monitoramento. Podíamos ver quem havia visitado nossa página e checar o perfil dessa pessoa. Foi em uma dessas que conheci a Mariane”, lembra-se Átila. O dentista conta que uma amiga da namorada visitou sua página na rede social e, ao começar a conversar com ela na própria página, Mariane entrou na brincadeira. “Tínhamos costume de entrar no perfil de quem tinha nos visitado e mandar uma mensagem no painel de atividades. Foi em uma conversa dessas que a Mariane apareceu e começou a conversar também”.

A partir daí, Átila e Mariane começaram a se interessar um pelo outro. “Eu estava na 8ª série. Conversávamos muito pelo Orkut e ele acabou pedindo meu telefone. Depois, descobrimos que frequentávamos vários lugares em comum, mas nunca havíamos nos esbarrado”, comenta Mariane. Para ela, a rede social ajudou os dois a se conhecerem um pouco mais e a perderem a timidez. “Eu participava de mais de 500 comunidades. Ele olhou cada uma para me conhecer melhor. Quando nos encontramos pela primeira vez, ele levou um presente com várias coisas de que eu gostava.” Depois da primeira interação na rede social, o casal demorou uma semana para se encontrar. “Eu a estudei. Sabia tudo do que ela gostava e comecei a usar isso para agradá-la. Foi bom porque já tinha meio caminho andado”, brinca Átila.

O casal acredita que não teria se conhecido sem o contato com a internet. “Pela diferença de idade, nossas vidas e rotinas eram um pouco diferentes. Um encontro seria difícil. Acho que o Orkut nos uniu”, diz Átila. Para Mariane, ter o contato com a rede social antes do primeiro encontro foi essencial para criar confiança. “Quando nos encontramos, a conversa fluía, porque sabíamos que um tinha interesse pelo outro. Já nos conhecíamos um pouco.”


O glossário do amor on-line

Shippar
A gíria é uma variação da palavra inglesa relationship (relacionamento). Na linguagem da internet, shippar um casal quer dizer que você aprova aquele namoro e que acha os namorados o máximo.

9vinha
Os 9inhos — ou novinhos — são exatamente o que a palavra sugere: os jovens da internet.

Nudes
Mesmo sem estar em um aplicativo de encontros, a frase “manda nudes” já é conhecida na internet. Os nudes nada mais são que fotos da pessoa pelada. Se for mandar, um aviso: cuidado para não ter suas fotos liberadas na rede. Cobrir o rosto é uma estratégia muito usada para não ser identificado(a) posteriormente.
Crush
Em inglês, a expressão I have a crush on you significa algo como “estou a fim de você”. O crush, então, é aquela pessoa em que você está de olho.
Stalker
Também derivada do inglês, a palavra significa literalmente “perseguidor”. O stalker é aquela pessoa que investiga tudo sobre o crush: quais são as redes sociais principais daquela pessoa, onde ela vai, o que gosta de fazer.
Match
O famigerado match ocorre quando uma pessoa que você está a fim também demonstra interesse em você. O termo é usado, geralmente, em aplicativos de encontros.


Ciúme de você

Para evitar possíveis problemas causados por conta das redes sociais, o casal Geyza Silva, 23, e Junior Souza, 21, optou pelo uso de uma conta conjunta no Instagram. Desde a primeira semana de namoro, os dois excluíram todas as contas individuais que tinham e criaram uma única para o casal na rede social. Hoje, noivos, os dois acreditam que a iniciativa contribuiu para a durabilidade do relacionamento.

“Tomamos essa decisão baseados em experiências passadas, que acabaram sendo desagradáveis. Temos o mesmo estilo de vida e os mesmos gostos, então, não vejo problema nesse compartilhamento”, diz Junior. A conta foi criada, inicialmente, para que ele tivesse visibilidade nas competições de fisiculturismo, mas, depois de um tempo, tomou um rumo diferente. No Instagram, o casal posta fotos contando o dia a dia, as idas à academia e as declarações de amor. “Nós dois temos a senha e, normalmente, postamos quando estamos juntos”, comenta Geyza.

Para o casal, essa é uma boa forma de interação entre si e com os amigos. “Acaba que sabemos quem nos segue e que as curtidas são para os dois”, diz o noivo. Eles garantem que não sentem falta da individualidade. “Eu brinco que, se estamos juntos até hoje, é porque temos essa conta. Ciúme não passa aqui”, fala Geyza. Para Junior, o ciúme e o monitoramento são coisas que podem ser evitadas no comportamento do dia a dia. “Nossas ações e a forma como lidamos com as coisas têm muita importância.”

O ciúme entre casais não é algo necessariamente novo, mas a internet trouxe formas diferentes de experimentar o sentimento. A insegurança, para a psicóloga Lia Clerot, é a mãe do controle. “O parceiro que é inseguro acaba tendo sérios problemas de autoestima e isso, muitas vezes, precisa de ajuda profissional, já que a pessoa, geralmente, não enxerga o próprio problema”, alerta. “Ao tentar atingir estereótipos muitas vezes inatingíveis que se vê nas redes sociais, as pessoas podem acabar tendo uma insatisfação crônica, por não ter a vida perfeita, o que, para o ciumento, pode desencadear em uma crise de insegurança e autoestima.”

Mario Louzã, médico psiquiatra e membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, acredita que o acordo entre o casal é o ponto de partida para um relacionamento saudável. Se bem firmada na vida real, a combinação tende a se expandir com segurança no mundo virtual, segundo Louzã, mesmo com as tentações da internet. “Se o pacto entre o casal não é estabelecido de modo claro, fica sempre em aberto a possibilidade de ‘traição’, o que pode tornar as pessoas mais ciumentas.”

Mas e o perfil de casal é uma alternativa à possessividade excessiva? Para Louzã, pode ser uma aliança, “que representa, ao mesmo tempo, o compromisso entre ambos e que também ‘avisa’ que tal pessoa está comprometida”. Já o psicólogo Vladimir Melo, especialista em terapia conjugal e familiar, não vê o perfil conjunto como uma forma efetiva de diminuir o ciúme. “Em primeiro lugar, isso demonstra a falta de confiança entre os dois. E reforça a ideia de controle de um sobre o outro, o que pode se tornar um problema cada vez maior na relação.”

Para o psicólogo, casais que aderem ao perfil duplo tendem a começar a exercer ainda mais controle sobre o(a) outro(a), o que pode ser um impeditivo para a individualidade. “Com isso, essa dinâmica acaba sufocando ambos os cônjuges e criando um clima de desgaste.” A liberdade de expressão e a privacidade, ainda segundo Vladimir Melo, desempenham, atualmente, um papel muito importante na forma de comunicação virtual, e isso se reflete também na forma como as pessoas paqueram.


Namoro distante, internet presente

Se para casais que lidam com a proximidade, a internet é uma boa opção para os manterem mais próximos, quando a distância separa os amados, é preciso dar um jeitinho e fazer das redes sociais grandes aliadas. Estar conectado pode diminuir a saudade e encurtar distâncias, mas também pode aumentar a vontade de dar aquela conferida no que o parceiro ou a parceira anda fazendo.

Ana Luiza Vale, 21, e Miguel Láper, 24, estão há mais de três anos desafiando a distância com muita disciplina e dedicação. Ela, brasiliense, resolveu deixar o coração pelas terras mineiras e, desde então, o casal tenta se acostumar com a rotina de idas e vindas e conversas pelas redes sociais “O início é sempre mais complicado. Para mim, era tudo muito novo. Tivemos que nos acostumar com a saudade e aprender a conversar virtualmente”, diz Ana. Ela e o namorado costumam conversar várias vezes ao dia pelo WhatsApp e por vídeo.

Para Ana, as redes sociais são essenciais e ajudam a manter um relacionamento saudável. “Precisamos de contato, não me imagino namorando como antigamente, à base de cartas, por exemplo. As redes sociais acabam sendo a forma mais prática e barata de mantermos contato.” A estudante acredita que, com a internet, é possível participar da rotina do namorado, mesmo quando os dois estão longe um do outro.

A distância não impede o casal de dar aquela monitorada no que o outro comenta, curte ou compartilha, mas Ana Luiza garante que os dois não têm esse costume. “É realmente mais fácil para sabermos o que o outro faz, com quem fala ou onde está. Mas acho que, em um namoro a distância, temos que nos desprender um pouco dessas coisas. Não faz sentido vigiar”, afirma.

O contato com as redes sociais, no entanto, não anula a necessidade de encontros sempre que possível. O casal se vê com certa frequência e, para Ana, é isso que ajuda a manter o relacionamento: a esperança e a expectativa do encontro. “Sempre que temos um tempinho nos nossos dias corridos, tentamos ficar juntos. Gostamos de estar inclusos no dia a dia um do outro”, conta.

A internet também teve um papel crucial no relacionamento de Francine Verzeletti e o empresário Ryan Clark. Das conversas despretensiosas em um bate-papo on-line há sete anos ao pedido de casamento na Escócia, em 2015, o casal tem na rede quase um “terceiro elemento” do casal, como define Francine. Após três meses de conversa, em 2010, Ryan embarcou em um avião rumo ao Brasil. “Ele passou quatro dias aqui, conheceu meus pais e tudo”, relembra a dentista.

Antes de voltar para casa, Ryan presenteou a namorada com um buquê de flores e uma carta dentro de uma garrafa, prometendo que voltariam a se encontrar em breve. O rapaz voltaria ao Brasil mais duas vezes naquele ano, e o país passaria a fazer parte de sua programação permanente de férias. O namoro a distância durou seis anos, sempre com a internet e suas ferramentas como válvula de escape para a saudade. Em 2013, Francine foi pela primeira vez à Escócia.

Quando completaram cinco anos de namoro, veio o pedido de casamento, nos arredores do Castelo de Dumbarton, na Escócia. “Ele chamou a família dele, a minha também foi. Quando chegamos no topo do castelo, escutamos um barulho. O primo dele apontou um avião no céu e, quando olhei, o avião estava com uma faixa escrita ‘Fran, will you marry me?’,” relembra. Nesse momento, Ryan já esperava a resposta da namorada de joelhos, com a aliança em mãos.

Mesmo noivos, os dois ainda precisam viver a mais de 9 mil quilômetros de distância por um ano, até que o casamento seja oficializado e o visto de Francine, atualizado. “No início, eu via a distância como algo negativo, mas eu era muito nova, exagerava em tudo”, pondera. Todos os dias, a rotina é a mesma: em um horário combinado, os dois precisavam estar em frente ao computador para conversar. “O smartphone, com certeza, foi uma invenção muito boa para o nosso relacionamento. Ele só existe graças à internet”, completa Francine. “Você vai aprendendo a ver a distância como algo que te faz crescer no relacionamento. Ela te obriga a construir uma relação baseada em confiança, paciência. Se você já começa dessa forma, é muito difícil dar errado.”


Fonte: Jornal Correio Braziliense

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