segunda-feira, 5 de junho de 2017

Brasília dopada: a banalização dos psicotrópicos na capital federal


A ingestão exagerada de remédios psicotrópicos — aqueles usados no tratamento da depressão, da ansiedade e de outros transtornos mentais preocupa. Entre 2015 e o ano passado, o uso de antipsicóticos em Brasília cresceu 53,4%.

Observar o avanço desses tipos de enfermidades, entender os efeitos nocivos provocados pelo alto consumo desses remédios e analisar os reflexos na sociedade é um desafio complexo que o Correio aborda, a partir de hoje, na série Brasília dopada.

São dramas revelados a cada laudo médico. Uma ponte difícil de cruzar na história de milhares de famílias. Rotina duramente afetada pelo tabu, pela discriminação, pelo autoconhecimento e pelo sonho de cura. Enquanto isso, muitos desses pacientes sobrevivem dia após dia com soluções passageiras, vindas de caixas compradas nas farmácias.

Apesar da banalização, há quem precise do uso contínuo de psicotrópico. Muitos pacientes resistem em admitir doenças como a depressão. Eles têm vergonha do diagnóstico e vivem entre o tabu e o preconceito.


Cresce o uso de medicamentos para controlar emoções

No ano passado, Secretaria de Saúde distribuiu 7,2 milhões de doses de antidepressivos.

OTÁVIO AUGUSTO

O mundo moderno cada vez mais impõe efeitos colaterais à condição humana. O estresse do dia a dia cobra seu preço e sentimentos como agitação, melancolia e depressão atingem a população independentemente da condição social. O consumo de remédios para controlar ou estabilizar essas sensações, os psicotrópicos, tem crescido na capital federal. Para se ter dimensão da quantidade desse tipo de medicamento ingerida pelo brasiliense, é como se todos os 2,9 milhões de habitantes do Distrito Federal tivessem tomado mais de duas doses de antidepressivo no ano passado. Somente a Secretaria de Saúde distribuiu 7,2 milhões de comprimidos em 2016, como revela levantamento realizado a pedido do Correio.

Psicólogos, psiquiatras e terapeutas são unânimes: o alto consumo e a banalização desses medicamentos podem se tornar um grave problema de saúde pública. O uso, para os estudiosos, está acima do que seria aceitável. Eles consideram que somente os casos graves deveriam ser submetidos a tratamento medicamentoso prolongado. Não saber lidar com emoções, fracassos e dilemas do cotidiano revela como a sociedade tem tratado com negligência as perspectivas da mente. Relatório divulgado em abril pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra a expansão da depressão, por exemplo. O documento diz que 6% da população com mais de 18 anos no DF já recebeu o diagnóstico da doença — percentual inédito até então.


Um detalhe acende o sinal de alerta. Entre 2015 e 2016, o consumo de medicamentos antipsicóticos em Brasília cresceu 53,4%. O cálculo é ancorado na lista dos 10 remédios psicotrópicos mais distribuídos pela Secretaria de Saúde. Essas drogas são usadas para o controle de colapsos e perturbações extremas da mente, como alucinações. Elas são mais fortes que os antidepressivos, por exemplo.


Preconceito

Os problemas mentais, geralmente, são socialmente considerados menos grave. Um erro que acentua o embaraço provocado por essas doenças. Os custos desse tipo de enfermidade são altos para quem sofre — constantemente alvo de preconceito e assédio moral — e até mesmo para a economia. Segundo levantamento da Universidade de Brasília (UnB), com dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), 48,8% dos trabalhadores que se afastam por mais de 15 dias do emprego sofrem algum transtorno mental, sendo a depressão o principal deles.

A banalização desses tipos de medicamentos separa, de um lado, pessoas que vendem psicotrópicos sem capacitação. De outro, aqueles que consomem indiscriminadamente. É o caso de um estudante contabilidade de 27 anos. Ele não quis ter a identidade revelada por receio da reação da família. “O medicamento melhora minha concentração e me deixa mais focado. A primeira vez que tive contato com alguém que vende sem ser médico foi em uma festa no Park Way. Isso deve ter uns dois anos. Desde então, sempre tenho alguns comprimidos de ritalina para focar nos estudos”, conta o morador de Águas Claras. Ritalina é um tranquilizante, indicado para o controle do transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH), muito consumido por estudantes e concurseiros para aumentar a concentração.

O rapaz diz que vai parar assim que for aprovado em um concurso público. A compra é sempre com um mesmo vendedor. Um colega de um conhecido da faculdade. O “reforço” custa caro e ele não sabe a origem do remédio. “Já gastei R$ 200 com menos de 20 comprimidos. Uso pouco, só em casos que preciso estudar muito. Sei que isso mexe com meu organismo, mas é só por um período”, minimiza. Quem conhece o estudante não desconfia do uso desregrado de psicotrópico. O porte atlético, conquistado nas academias de Brasília, a alimentação equilibrada e o estilo de vida saudável disfarçam esse terrível hábito. Os efeitos colaterais são perigosos, como ansiedade, aumento da pressão arterial e taquicardia.

Clique aqui para ler a matéria completa.


Fonte: Jornal Correio Braziliense

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