domingo, 18 de junho de 2017

Artigo - Se tudo der certo, o Brasil será da molecada que trabalha



Por: Alexandre Versignassi*


A história bombou ontem: alunos do último ano do ensino médio num colégio gaúcho organizaram uma festa a fantasia com o tema “se tudo der errado”. E foram para a escola vestidos de atendente do McDonald’s, vendedor de sorvete, diarista.

A coisa serviu para ilustrar uma queixa antiga: a de que brasileiro despreza trabalhos produtivos. E despreza mesmo. Nos andares mais altos da nossa pirâmide social, o único trabalho aceitável é estágio de faculdade. Funções “de entrada” do mercado de trabalho (garçom, operador de telemarketing, vendedor de sapato) são tarefas a ser desempenhadas por escravos – no caso, pelo equivalente moderno a escravo: quem faz trabalhos braçais em troca de R$ 4o, R$ 5o por dia.

Nisso, temos um conflito com o que acontece nos países menos desiguais e mais ricos que o nosso. Nas nações que deram certo, você sabe, estudante trabalha de garçom, de vendedor de sapato, de chapeiro do McDonald’s. E não importa se o sujeito tem dinheiro na conta para comprar a loja do McDonald’s onde passa o dia fritando batata, ou ou se o cidadão é da família real – o rei da Holanda passou décadas de sua vida de príncipe trabalhando anonimamente como piloto da KLM (não que isso seja exatamente um “emprego de entrada”, mas vamos dar um desconto).

Mesmo assim, o fato é que os colégios de classe média alta não representam o Brasil real. Quase metade (44%) dos estudantes brasileiros de 15 anos trabalham antes ou depois das aulas, segundo um estudo do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Isso coloca a o Brasil bem à frente da média dos países ricos, que é de 23%. Nos EUA, onde até as filhas de Barack Obama trabalham de vez em quando, só 32% dos estudantes pegaram no batente no último ano. Ou seja: no Brasil de verdade, aquele fora do centro expandido de SP, da zona sul do Rio e das nossas outras bolhas sociais, a molecada trabalha, sim. E bem mais do que o senso comum leva a crer. Só pena que o nosso PIB não esteja nas mãos de quem precisa se virar desde cedo. Mas um dia vai estar. Se tudo der certo.


* Alexandre Versignassi é diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", finalista do Prêmio Jabuti.


Fonte: Revista Superinteressante

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