terça-feira, 2 de maio de 2017

Saiba como identificar se você está ou não em um relacionamento abusivo


Ciúmes, possessão, intransigência, agressão. As evidências estavam todas lá, sendo experimentadas e sentidas psicológica e fisicamente todos os dias, mas o processo foi lento e, literalmente, doloroso, até que Letícia* tivesse a consciência de que, sim, vivia em relacionamento abusivo e aquilo não podia mais continuar.

A jovem de 25 anos faz parte de um recorte, infelizmente, cada vez mais comum na sociedade: o de pessoas envolvidas em relações baseadas em abusos por parte de um dos parceiros. Um relacionamento abusivo se caracteriza pelo predomínio excessivo de poder sobre o outro, ou seja, há uma necessidade forte de controle do parceira/o. A agressão pode não ser apenas física, mas verbal, sexual, emocional, psicológica, financeira e até digital.

No caso de Letícia, muitas dessas situações de agressão se confirmaram durante o tempo em que durou o relacionamento, em uma proporção que foi sendo agravada com o avançar do fortalecimento dos laços entre o casal. No começo, a jovem conta que o parceiro tinha atitudes muito sutis relacionadas a ciúmes, mas com o tempo e o comprometimento de ambos, a situação mudou de figura.

“No começo era muito tranquilo, muito leve, as coisas foram ficando sérias quando ele começou a demostrar muito ciúme, mas eu sempre achava que era normal. Ele sempre dava um jeito de me culpar e eu acreditava naquilo. Fui me afastado de amigas e amigos, nesses últimos cinco anos, eu parei de falar com todos os meus amigos homens”, relembra.

É por isso que os relacionamentos no qual um parceiro extremamente ciumento quer controlar as atitudes e decisões do outro e tenta isolá-lo do restante do mundo pode ser considerado abusivo. Por vezes, a agressão, além de mental, é física, e é um dos principais motivadores de crimes como o feminicídio.

“Eu parei de sair, porque as poucas vezes que saia sempre tinha confusão. Quando saíamos para comer, eu não podia olhar para o lado, por que sabia que poderia acontecer uma crise de ciúme, uma cena dele por achar que eu estava flertando com alguém. Esses abusos foram piorando até que eu engravidei e foi um período mais tranquilo, porque acho que ele se sentiu seguro por eu estar com o corpo modificado. Nesse período pude me reaproximar das minhas amigas”, afirma.

Com o nascimento do filho do casal, os abusos não cessaram. O parceiro continuou a tratar Letícia como propriedade e até agredi-la fisicamente. “Ele passou a se sentir meu dono. Tinha algum problema e descontava em mim e no nosso filho. Em muitas situações, quando estava estressado, chegava a me agredir. Chegou um tempo insustentável. Eu comecei a ver que isso estava afetando o desenvolvimento da criança e resolvi sair de casa, mas até em tão eu tinha esperança que ele mudaria”, constata Letícia.


Abusos continuados

A jovem retornou para casa após um tempo afastada do companheiro, que pediu para a relação ser retomada prometendo mudanças de atitudes. Tudo ficou apenas em discursos e, logo depois, Letícia sofreria novamente com agressões físicas e psicológicas. Após sair de casa outra vez, ela teve uma certeza: “Só percebi que meu relacionamento era abusivo, quando consegui sair dele”, confessa.

“Eu nunca o denunciei, mas ele chegou a me bater várias vezes. Eu até ameaçava, mas ele caçoava de mim. Depois da separação aconteceu um episódio dele me ameaçar e me xingar por telefone e pessoalmente. Ligou para minha avó idosa me ameaçando e me xingando. Por conta dessa ação, resolvi procurar a delegacia da mulher”.



Denúncia e amparo

Segundo Letícia, na Delegacia da Mulher, ela teve toda orientação e aporte possíveis. A jovem também procurou a Procuradoria da Mulher, onde também recebeu as devidas orientações e encaminhamentos. Hoje, ela tem amparos legais para o ex-companheiro se manter longe dela, tendo convívio, aos fins de semana, apenas com o filho. Ela sabe que, a partir de agora, o caminho é seguir a vida, sem medo ou dores. Mas uma missão que sabe que não será fácil.

“Estou bem focada na segurança minha e do meu filho. Trabalhando e lutando para as coisas se resolverem da melhor forma. Fica o medo e sensação de que pode acontecer de novo, a tranquilidade que já passou. E que tem que seguir em frente e que agora está tudo mais tranquilo”, finaliza.

* nome fictício para proteger a identidade da vítima


Abusos contra as mulheres se revelam em muitos aspectos, destaca delegada

“Quando lemos os inquéritos policiais, a gente percebe o cenário de violência que as mulheres já estavam imersas e elas não percebiam. Elas não conseguem enxergar. Por isso devemos falar desses cenários reais”.

A análise é emblemática, porque resume o que a subsecretária da Secretaria de Segurança Pública, a delegada Eugênia Villa, não só constata em estudos como acompanha em evidências reais: os relacionamentos abusivos são dificilmente percebidos por quem o está vivenciando, mas são eles os responsáveis por grande parte dos inquéritos policiais de violência de gênero no Estado.

“A forma como os homens matam as mulheres é uma forma de relação de confiança. Ele mata conversando. Os familiares que depõem demonstram para a gente que identificavam violências anteriores. É o início de tudo, mas talvez as mulheres não enxergam”, reforça a delegada Eugênia Villa.

Foto: Jailson Soares (Jornal ODIA)
Para a delegada Eugênia Villa os relacionamentos abusivos são dificilmente percebidos por quem o está vivenciando


E a violência se estende por aspectos múltiplos: é o controle das finanças, roupas, atitudes recriminadas, possessão e tantos outros aspectos que mostram o estado de “doença” que pode ser estabelecido em uma relação. “Você não precisa nem tocar no corpo de uma mulher para que ela sofra violência, talvez, hoje, a violência psicológica seja a mais grave. Ela destrói a autoestima, a vida de um ser humano”, comenta Eugênia.


Relações abusivas extrapolam cenário doméstico

Não só em casa subjugada a uma relação amorosa que as mulheres têm sido alvos de violência. As relações abusivas também são identificadas em cenários diversos, como o próprio ambiente de trabalho. Eugênia Villa cita casos de insubordinação e violência recentemente acompanhados no Piauí.

"Tivemos casos de insubordinação grave de um professor não aceitar o comando da mulher que era sua superior dentro do cenário universitário. Isso também é violência, também é muito grave", destaca. A especialista lembra que, apesar de ser crucial no amparo a mulher vítima de violência, a Lei Maria da Penha não ampara casos como esse, por exemplo. Já que se limita ao cenário domiciliar.

"Essa lei foi um avanço, mas a mulher está em outros cenários. Políticos, públicos, institucionais, e quando ocupamos espaços de poder, que originalmente seriam dos homens, causamos irritabilidade ao sistema. Temos casos de mulheres que chefam funções públicas e, por isso, tivemos casos de insubordinação grave por alguém não aceitar o comando da mulher. A lei Maria da Penha contempla? Não. É preciso avançar. É. A lei é excelente? É. Nossas organizações policiais e judiciais que não acompanham a lei. A lei de crime fala de violência", afirma.

Além do dispositivo legal da lei Maria da Penha também é acionada a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher – Convenção de Belém do Pará, adotada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1994, que constitui-se no marco histórico internacional na tentativa de coibir a violência contra a mulher.

"Quando sai do cenário domiciliar e entra no cenário intermediário, usamos a Convenção de Belém do Pará para amparar esses casos de violência contra a mulher. A delegacia da mulher está preparada para receber tudo isso, mas o juizado não está. O juizado ainda fala assim: ‘juizado especial de violência doméstica’, mas a delegacia não é a de violência doméstica, é a violência contra a mulher e de defesa e proteção dessa mulher. Por isso que estamos nesse processo de capacitação das mulheres, para que a gente perceba os níveis de violência", finaliza.


Aplicativo 'Salve Maria' é aliado de segurança da mulher

Tecnologia em favor da segurança da mulher. Para ajudar a identificar casos de violência contra a mulher e denunciá-los, o Governo do Estado do Piauí lançou o aplicativo “Salve Maria”. A ferramenta é fruto de trabalho colaborativo entre a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/PI) e a Agência de Tecnologia da Informação (ATI). O novo aplicativo é mais uma plataforma de denúncias de violência contra a mulher disponibilizada pelo Estado e pela polícia.

Aplicativo é usado para denúncias de violência contra a mulher


A ferramenta permite que as mulheres ou pessoas próximas a ela (vizinhos, parentes) possam denunciar, em tempo real, qualquer tipo de violência. Com isso, a demanda vai chegar diretamente à Policia Militar e à Polícia Civil, e os policiais poderão ir até o local da ocorrência com a finalidade de verificar e proteger a vítima e as provas para um futuro inquérito policial.

Uma outra vantagem é que, ao usar o aplicativo, o denunciante vai poder georeferenciar o local onde o crime ocorre. A violência vai ser detectada no momento do seu cometimento e vai gerar dados estatísticos para que se possa acompanhar e planejar políticas de prevenção ao dano contra a mulher. O “Salve Maria” vai atender tanto mulheres em situação de violência, quanto pessoas que não compactuam e queiram ajudar denunciando os crimes. As denúncias serão realizadas de forma anônima. O aplicativo conta com duas formas de denúncia, o botão do pânico é uma delas. A segunda opção de denúncia é mais descritiva e poderá receber anexos.


Fonte: Glenda Uchôa - Portal ODIA

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