terça-feira, 2 de maio de 2017

Parteiras se dedicam à arte de trazer gente ao mundo

Foto: Ione Moreno
Os ensinamentos sobre o procedimento foram repassados de mãe para filha


Apesar do avanço da medicina em procedimentos de partos, os tradicionais processos de nascimentos domiciliares continuam sendo a escolha de centenas de mulheres da capital e do interior do Amazonas. Dados da Secretaria de Estado de Saúde (Susam) mostram que, somente nos últimos dois anos, foram realizados pouco mais de 3,3 mil partos humanizados no Estado.

Parteiras tradicionais defendem o método usado por elas em procedimentos feitos em casa como o meio mais humano e menos invasivo de trazer uma criança ao mundo. Mulheres que viveram essa experiência de parir da forma natural afirmam que o parto domiciliar traz dezenas de benefícios.

No Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc/Vivo) do Ministério da Saúde, os partos tradicionais são identificados como partos domiciliares. O relatório divulgado pelo órgão revelou que em 2015 foram feitos 3,106 nascimentos por meio desse procedimento. Já em 2016, o Ministério da Saúde registrou 3,242 partos domiciliares.

Em relação às parteiras tradicionais, reconhecidas pela Susam como agentes de saúde, o Amazonas já tem no banco de dados de, aproximadamente 1,3 mil cadastradas, sendo que desse total, mais de 400 parteiras foram capacitadas com a metodologia “Troca de saberes”, utilizada pelo Ministério da Saúde.

Para a coordenadora da área técnica de saúde da mulher, Sandra Cavalcante, essas iniciativas não podem ser jamais desprezadas, levando em consideração as particularidades das regiões do Amazonas. Sandra destacou a importância de sempre realizar palestras, cursos e orientações que possam acrescentar conhecimentos por meio da troca de experiências.

“As parteiras tradicionais são extremamente delicadas, com conhecimentos adquiridos em gerações passadas. Não usam técnicas invasivas, trabalham com a fisiologia do parto mesmo, com a mulher sendo protagonista do nascimento do seu bebê. Geralmente, essas parteiras orientam as grávidas a realizarem o pré-natal e todos os procedimentos da gestação. São de fato agentes educacionais de saúde. Vale ressaltar que mesmo sendo o parto mais humanizado, não podemos abrir mão da tranquilidade do hospital”, disse Sandra.

Com o objetivo de aprimorar e fortalecer a categoria, a Susam, com recurso executados pela Fundação Fio Cruz, o trabalho em parceria com as parteiras tradicionais será expandido para mais 20 municípios do Amazonas, afirmou a coordenadora.

“Já começamos um trabalho de fortalecimento em Manaus e agora esse serviço será levado para outras cidades do Amazonas. Será praticamente uma troca de experiências, de técnicas. Elas precisam desse apoio do município. Desde 2011, as parteiras tradicionais fazem parte das estratégias do Ministério da Saúde para reduzir a mortalidade neonatal. Tanto é que todas cadastradas receberam kits, com equipamentos de suporte para hora do parto. Isso é a valorização do trabalho dessas mulheres que sempre ajudaram com excelência no processo de nascimento dos amazonenses”, finalizou.


Nascimento de 500 crianças

Aos 83 anos de idade, dona Isabel Saraiva de Oliveira lembra que durante os 45 anos em que realizou partos, foi responsável pelo nascimento de ao menos 500 crianças, no Amazonas. A parteira tradicional comentou ainda que os ensinamentos sobre o procedimento foram repassados de mãe para filha.

“Sempre assistia à minha mãe fazer os partos das mulheres do interior. Eu e minhas irmãs crescemos vendo esse tipo de atividade, pelas beiras dos rios, nas comunidades ribeirinhas. É um dom da nossa família, ajudar as crianças a vir ao mundo”, disse.

Benefícios

Sobre os benefícios que o parto doméstico pode trazer tanto para mãe quanto para o bebê, a parteira explica que de todos os métodos usados para se colocar uma criança no mundo, o tradicional, aquele feito em casa pelas mãos de mulheres portadores apenas de conhecimentos populares, é o mais saudável e humanizado.

“Não tenho dúvidas de que o parto tradicional é a melhor opção para as mães. Falo em todos os sentidos. Na recuperação da mulher, no bem-estar do bebê, entre outros. Usamos técnicas não agressivas ao organismo feminino. Sempre procuramos um jeito delicado de tirar a criança sem que machuque a mãe. Tanto é que, no mesmo dia, a mulher, após parir já pode sentar, fazer um café, cuidar do seu próprio filho sem aquelas grandes restrições. Esse parto é mais humano”, salientou.


Lembranças das práticas

Entre tantas histórias memorizadas por dona Izabel, a que mais traz boas recordações é a do início de sua carreira como parteira. Ela relatou que devido à demora de um rapaz conseguir uma parteira, foi obrigada, no bom sentido, a realizar o nascimento do bebê dentro de uma casa.

“Tinha uma mulher sofrendo. O marido pediu que eu cuidasse dela até ele conseguir uma parteira. Só que não deu tempo. Ela entrou em trabalho de parto na minha frente, me vi obrigada a ajudá-la a ter o bebê. Como já tinha visto a minha mãe fazer alguns partos, coloquei em pratica tudo o que eu teoricamente já sabia. No fim, deu certo”, lembrou.

Mesmo que não tenha sido planejado, Daniela Araújo, 32, afirma que o seu parto doméstico, realizado em um município do Amazonas pouco distante de Manaus, foi a melhor maneira de seu filho vir ao mundo. Em meio à falta de estrutura dessas pequenas cidades, a antecipação do nascimento e o medo, Gabriel deu seu primeiro choro graças a uma parteira tradicional.

“Estava com oito meses de gestação. Fui passar um fim de semana no sítio da família, na estrada do Careiro da Várzea. Era fim da tarde quando comecei a sentir umas pontadas. Fiquei preocupada devido à distância do local onde eu estava até um hospital. As dores foram crescendo e quando percebi meu filho estava quase nascendo. Uma senhora que morava ao lado do sítio me socorreu e ajudou no nascimento do meu filho. Foi uma mistura de emoção com nervosismo, mas posso dizer que o tradicional é mil vezes melhor”, finalizou.


Fonte: Portal Em Tempo online

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