segunda-feira, 8 de maio de 2017

Exploração de crianças ainda é confundida com atividade positiva


Os trabalhos de uma criança empreendedora e outra, explorada, são comumente confundidos. Nas redes sociais, quando o labor infantil é tema, leigos sugerem qualquer esforço como proveitoso. “Melhor que roubar”, lê-se com frequência. Mas não custa muito para que a falácia esbarre em estudos sérios que enxergam na exploração infantil influências negativas nos desenvolvimentos cognitivo e afetivo. Consequências que podem perdurar por toda a vida.

Na semana do dia do trabalhador, em todo o País, as crianças seguem sendo objetificadas, agredidas e utilizadas como mão de obra para suprir as faltas financeiras da família. Na Capital pernambucana, não é diferente. Na quinta-feira (4), como em todos os outros dias úteis, Bianca (nome fictício), de 6 anos, vendia garrafas de água mineral na avenida Agamenon Magalhães, a mais movimentada da Cidade. O trabalho é a atividade que exerce até à noite, após as aulas que frequenta no turno da manhã. A pequena já explica que precisa conseguir dinheiro para pagar o aluguel de R$ 300 da casa na Ilha de Joana Bezerra, centro do Recife.

De acordo com a psicóloga Ana Rique, uma das consequências mais visíveis em casos como o de Bianca é o baixo rendimento escolar e psicológico. “As crianças exploradas não têm tempo para viver suas fases e, comumente, podem se tornar adultos deprimidos ou ansiosos. Não é difícil que se revoltem ao se compararem com os outros”, explica a psicóloga do trabalho. A especialista lembra ainda dos casos de exploração em que a escola é negligenciada, muitas vezes por completo.

“Crianças tornam-se provedoras e muitas vezes são punidas caso não tragam o valor esperado pelos pais. Ficam, então, com medo de voltar para casa no fim do dia. Se fogem, estão no contexto de prostituição e drogas da rua.”

A diferença entre “empreendedorismo” e o trabalho saudável para pessoas de idades mais tenras é definida por Rique pela não-privação das necessidades infantis e pela motivação interna. “O trabalho que não substitui o papel dos pais e não toma o tempo de lazer, de estudar, de socializar com pessoas da mesma idade, pode ser até interessante para criar noção de responsabilidade, por exemplo.”

O cenário do trabalho exploratório infantil, normalmente ligado à violência e à negligência, é trazido à tona pela doutora em psicologia cognitiva pela UFPE Karina Moutinho. “Sem estar na escola, a criança está fora de uma rede de proteção, reconhecida como promotora de desenvolvimento. Ela deixa de constituir uma rede social que é própria dela, importante para sua evolução pessoal e social. Fica, sim, desamparada, fora do seio familiar e descartável”, contou a psicóloga. “As pesquisas mostram que todo marginalizado tem dificuldade de participar da sociedade. Quanto mais cedo essa marginalização acontece, mais difícil. As que fogem, não retornam, não estudam e não seguem carreiras. É por essa exclusão no presente que se precisa ressocializar no futuro”, finaliza.


Explorações ainda piores

Mendicância e prostituição são problemas frequentes no Estado, mas são subnotificadas devido ao silêncio da população e à conivência dos familiares

Casos de mendicância e exploração sexual são registrados nos conselhos tutelares estaduais diariamente. Estão por todos os lugares: esquinas, paradas de ônibus, estradas. Na prática, pessoas como a conselheira estadual de Caruaru Ilana Mota as recolhe, leva para casas de passagem e elaboram relatório para o Ministério Público ou para a Vara de Infância e Juventude da cidade. Mas os números oficiais são subnotificados pelo silêncio da sociedade e pela conivência dos familiares.

Na mendicância, pais utilizam as crianças para sensibilizar a sociedade. “Não dá para levar adiante a denúncia porque os pais mentem. Dizem que não estão pedindo esmola ou que a criança está ali por não ter lugar onde deixá-la. Limitamo-nos apenas a aconselhar."

Para os casos que têm seguimento no poder judiciário, a retirada da criança do seio familiar é a última opção. "Identificamos os pais, convocamos para prestarem defesa sobre o estado daquela criança ou adolescente, avaliamos as condições de guarda e fazemos o acompanhamento. Depois de alguns anos, se não houver mudanças, a encaminhamos para adoção", detalha a juíza da 1ª Vara de Infância e Juventude da Capital, Hélia Viegas. “Muitas são famílias com histórico de abuso de drogas e álcool.”

De acordo com o sociólogo Jonathan Hannay, pesquisas mostram que as crianças que pedem esmolas sofrem com traumatizantes agressões verbais nas ruas, além das punições que encontram em casa. Entre os dois problemas, escolhem os desconhecidos. “A mendicância ou a prostituição são consequências da escolha dos adultos.” Ele lembra que a subnutrição decorrente de má ou pouca alimentação também afeta a capacidade cognitiva.

“A exploração sexual traz problema ainda maior. As crianças são objetos nesse ato de violência. O trauma, repetido, é refletido no futuro em diversos problemas de natureza mental, diminuição da expectativa de vida e envolvimento com drogas e criminalidade.”

Em Pernambuco, no ano passado, 51 casos de exploração sexual de crianças e adolescentes foram registrados. Mas os números não mostram a realidade. De acordo com a professora de Serviço Social da UFPE Valéria Nepomuceno, há uma subnotificação porque as estatísticas aumentam nas relações intrafamiliares.

“Muitas famílias de baixa renda enxergam no corpo de seus filhos uma forma de ganhar dinheiro. E, por estarem dentro da situação, crianças e adolescentes acabam percebendo essa realidade como natural e se veem obrigados a contribuir com a renda em casa. E o silêncio não denuncia nada."

Ontem, durante o lançamento da campanha em alusão ao dia 18 de maio, que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, ela denunciou o fechamento dos únicos 13 Centros de Referência Especializados de Assistência Social regionais distribuídos pelo Estado, negado pela gerente de comunicação da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude, Tereza Rozowikiwiat. A coordenadora da ONG olindense Coletivo Mulher,

Adriana Duarte, tem opinião afim com a de Valéria. “A demanda aumentou nos últimos anos. Em contrapartida, as redes de acolhimento têm enfraquecido. Não foi apenas a falta de verba, mas a substituição de técnicos capacitados também pesou", observa.


Fonte: Jornal Folha PE

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