segunda-feira, 29 de maio de 2017

Entrevista - "Se Lutero vivesse hoje, criticaria os pentecostais"


Inicialmente discriminados e até perseguidos durante as duas guerras mundiais, os luteranos no Brasil superaram seus problemas e as divergências com os católicos e hoje celebram juntos os 500 anos da Reforma protestante.Quando os portugueses pisaram pela primeira vez em terras brasileiras, em 1500, o monge rebelde alemão Martinho Lutero ainda não havia publicada as 95 teses que provocariam um cisma na Igreja católica. Quando os primeiros imigrantes alemães luteranos chegaram no Brasil 400 anos mais tarde, encontraram um país totalmente católico, que ainda não conhecia a Reforma de Lutero.

Nesta entrevista, o pastor luterano Cláudio Kupka fala sobre as dificuldades e os desafios de uma Igreja minoritária. Ele é pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e membro da comissão conjunta luterana do jubileu dos 500 anos da Reforma no Brasil.


Deutsche Welle: Quando os luteranos chegaram ao Brasil no século 19 só havia católicos. Como foi chegar num país totalmente católico?

Cláudio Kupka:
Além da dificuldade de se estabelecer nas colônias, pois tinham poucos recursos, os imigrantes alemães luteranos sofreram discriminação religiosa. Casamentos e batismos não eram reconhecidos. A maneira de compensar este preconceito foi viver em colônias. No gueto alemão, eles se protegiam do preconceito religioso e dali tentavam se comunicar com a Igreja luterana alemã para buscar atendimento religioso e ter pastores, por exemplo.


Comparando a situação dos luteranos que chegaram no século 19 com a dos luteranos no Brasil hoje: ainda há uma luta pela sobrevivência?

Sim. Mesmo vindo de condições socioeconômicas desfavoráveis, esses alemães logo se fortaleceram pela agricultura, pela busca da educação, e rapidamente assumiram uma liderança na sociedade. Mesmo assim continuamos uma igreja minoritária no Brasil, com pouca evidência, vivendo sempre sob suspeita, por exemplo, na época da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. Falar alemão era algo perigoso, era proibido, pastores e lideranças alemãs foram presos porque se suspeitava que fossem representantes de interesses nazistas.

Era negativo e vergonhoso ser luterano. Os luteranos sempre tiveram dentro de si um conceito tipo não devemos nos expor muito. Mas desde os anos 70 a Igreja luterana no Brasil está superando isso. É nítida a mudança de atitude, de mais coragem, autenticidade e firmeza. A situação com a Igreja católica mudou muito. Antigamente, por exemplo, havia problemas com casamentos mistos entre católicos e luteranos, hoje não. Há uma aceitação mútua e um respeito muito maior. Com o papa Francisco ficou ainda mais fácil.


Como os luteranos convivem com os pentecostais?

A Igreja Pentecostal chegou ao Brasil nas décadas de 50 e 60. Há uma distinção entre o pentecostalismo clássico, o histórico e o neopentecostalismo. O neopentecostalismo, que são por exemplo a Igreja Universal e a Renascer, surgiu mais tarde. O pentecostalismo tradicional veio dos Estados Unidos. Ele trouxe a valorização do Espírito Santo, dos milagres, as curas, o exorcismo - e tem uma dimensão emocional muito forte.

O neopentecostalismo veio depois, não se prendendo tanto a doutrinas e valores morais, mas mais entrosado com o sistema de vida consumista, na busca de êxito pessoal, defendendo a teologia da prosperidade. A religiosidade empodera a pessoa para ela ser bem sucedida. Isso nos trouxe problemas, pois eles ocuparam espaço na mídia e fizeram o termo "evangélico" ser associado ao que representam.

Para não serem confundidos, os evangélicos luteranos procuraram outros nomes para serem identificados. E assim voltamos a usar "protestante" e valorizar a palavra "luterano", para saírmos da ideia de que ser evangélico é estar interessado no dinheiro e explorar o povo. Há alguns anos, tivemos um debate sobre o uso da palavra bispo, que é uma autoridade pentecostal, por causa da má imagem na sociedade. Adotamos então o nome "pastor sinodal".


Que elementos luteranos os pentecostais ainda têm hoje?

Os neopentecostais rompem com tantos conteúdos básicos da teologia cristã que, a rigor, não podemos considerá-los uma teologia cristã. Se Lutero vivesse hoje, ele provavelmente criticaria os pentecostais e neopentecostais por estarem vendendo salvação. É contraditório, mas é claro que Lutero é de todos os evangélicos e também da Igreja católica. É uma ironia que agora a TV Record, de propriedade da Igreja Universal, vá lançar um seriado sobre Lutero. Justamente a denominação que mais trai os princípios da Reforma vai capitalizar em cima dessa comemoração.

Um ponto importante que distingue os luteranos é a ética em relação à vida e à sociedade. A interpretação literal da Bíblia acaba causando divisões e divergências. Por exemplo, a questão de gênero. Os pentecostais são categóricos que homossexualidade é pecado e não aceitam ninguém com esta opção sexual. Já os protestantes tratam o tema com respeito, mesmo que alguns não abençoem uniões homossexuais.


Os luteranos e os católicos vão festejar o jubileu dos 500 anos da Reforma juntos? Existe uma aproximação?

Talvez não tanto como na Alemanha, onde o diálogo entre protestantes e católicos é muito forte. Fizemos uma celebração em Porto Alegre com a presença do arcebispo. Em 28 de setembro próximo, a convite da Igreja católica, haverá uma celebração na catedral metropolitana de Porto Alegre.

Nós não estamos comemorando uma vitória sobre a Igreja católica. A Reforma é um processo histórico do qual ambas as Igrejas cresceram. A Igreja católica também ganhou com a Reforma, ela reviu muitos postulados e se repensou. Os temas que nos dividiram na Reforma estão superados.


Por que há duas Igrejas luteranas no Brasil, a IECLB e a IELB?

A Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) tem outra origem. São alemães que emigraram da Alemanha para os Estados Unidos. São um pouco mais conservadores. A partir da virada do século 19, vieram como um movimento missionário para o Brasil. É uma Igreja com menor expressão numérica, com um perfil um pouco diferente, que atingiu um público muito semelhante ao nosso. Hoje é parceira nas comemorações dos 500 anos da Reforma. Temos algumas diferenças em relação a eles, que por exemplo não aceitam o pastorado feminino, nem crianças na Santa Ceia.


Qual o seu recado como brasileiro para o jubileu da Reforma na Alemanha?

A integração entre luteranos com a Igreja católica na comemoração na Alemanha é invejável. Não temos no Brasil o mesmo nível de interação. É bonito ver como a Igreja na Alemanha tem visibilidade na sociedade e suas ideias são discutidas. As pessoas sabem o que Lutero fez, sua contribuição para o idioma alemão e a própria sociedade.

No Brasil, não temos a estrutura e o espaço para cobrar o imposto religioso [na Alemanha, é descontado diretamente do salário], aqui as contribuições são espontâneas e em nível local. Nossa situação financeira é frágil.

A Igreja alemã tem uma situação privilegiada, mas, ao mesmo tempo, cada vez menos fieis. Enquanto nós, justamente com a presença das pessoas, tentamos construir uma situação institucional mais segura, isso é mais sustentável.

A Alemanha valoriza muito isso. Antigamente, íamos à Alemanha buscar dinheiro, ajuda e referências. Hoje, há uma troca. A Igreja alemã nos pergunta como lidamos com alguns temas e quer aprender com a gente. Essa partilha é muito rica.


Fonte: Portal da Terra / Jornal Deutsche Welle (Alemanha)

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