terça-feira, 2 de maio de 2017

Entre 2014 e 2015 quase 200 crianças adotadas em SP foram devolvidas


Entre 2014 e 2015, quase 200 crianças adotadas foram devolvidas aos abrigos, em São Paulo. Nesta terceira reportagem da série sobre adoção, Graziela Azevedo mostra que adotar é um processo de construção, que precisa de paciência e de apoio.

Nessa família ninguém esconde alegrias e nem segredos.

“Eu cresci sabendo que eu era adotada porque meus pais sempre falavam sobre adoção tão naturalmente quando a gestação das minhas irmãs”, conta Angélica Carvalho.

Falavam e fotografavam tanto que dá até para contar.

Era uma vez uma menina chamada Angélica. Nasceu doentinha numa família que não conseguiu cuidar dela, por isso foi adotada. Um dia feliz, que marcou uma vida de brincadeiras com as irmãs e de laços de afeto que se multiplicaram. Mas um ou outro momento difícil geraram dúvida.

“Eu via como meus pais sofriam com o preconceito de algumas pessoas fazendo uma piada indiscreta ou alguns comentários. Eu olhava e falava assim: eu não sei se eu vou aguentar isso para mim”, disse Angélica.

Mas a filha adotiva decidiu adotar também. Foi com o apoio do Anderson. Casados, eles se mudaram para o interior do Piauí.

“Tivemos que ir até a capital, que é Teresina, porque só lá eles faziam o curso de três dias para poder se habilitar. Porque se você não fizer o curso você não pode adotar”, explica Angélica.

Foi um ano de espera até receberem o telefonema da Vara da Infância.

“Aí ela começou a chorar, já emocionada. Não sabia se pulava, se gritava”. Lembra o empresário Anderson Carvalho.

“As pessoas paravam na rua e viravam: ‘O que essa doida tá chorando?’ Eu dizia: ‘É meu filho, meu filho tá chegando!’”

Aí começou a outra parte dessa história também toda registrada em fotos desde o dia em que conheceram o Pedro num abrigo: a fase de adaptação por lá e a ida para casa. Uma história que também guarda seus momentos de insegurança.

“A gente notou que ele entender que nós éramos os pais dele, que ele podia confiar, entregar o coraçãozinho dele nas nossas mãos, demorou aproximadamente de três a quatro meses”, conta Angélica.

Se com um bebê é assim, com crianças maiores a construção de uma relação de confiança e amor pode demorar ainda mais.

“Então, eu convivi três anos, entendeu. Conheci bastante deles, aprendi bastante com eles”, diz a menina.

Mas aos 10 anos de idade, a menina foi devolvida pelos pais adotivos. Ela e o irmão mais novo voltaram para o abrigo.

“Eu não entendi porque ela não gostava de mim. Eu tentava, entendeu. Eu juro pra você que eu tentava ser pelo menos amiga dela. Tentava. Não conversava, não perguntava como foi a escola. Não me ajudava em nada”.

É difícil acreditar, mas acontece! Em São Paulo foram 198 adoções frustradas entre as 2.514 que aconteceram entre 2014 e 2015.

Legalmente a devolução é tratada como abandono, passível de pagamento de indenização e pensão. Quem estuda o assunto garante que é preciso trabalhar bem o pré e o pós adoção para evitar traumas.

“Cada criança está no abrigo com a sua história, com o tempo do abriga mento, com quanto tempo conviveu na família de origem. Então, cada criança vai ter uma história que vai ali também contribuir para a adaptação. Por isso que é tão importante, mais uma vez frisando, a preparação dessa criança e também desse adotante”, explica a psicanalista Maria Luiza Ghirardi, do Instituto Sede Sapientie.

O maior desafio é com crianças mais velhas e com irmãos, que são muitos nos abrigos.

“Meu irmão é a única família que eu tenho. Então eu prefiro estar lá no abrigo com o meu irmão do que estar em uma família sem o meu irmão”, diz a menina devolvida.

Para crianças maiores e adolescentes, o tempo num abrigo é uma espécie de vida provisória, aqueles que não podem mais voltar para a família de origem estão sempre imaginando uma outra. Os meses e anos que vão passando sem isso dão a sensação de algo incompleto. Muitos adultos sem filhos também vivem esse sentimento de um lar inacabado.

“Era um vazio. Era só eu e ele”, diz o engenheiro Ailton Pessoa.

Ailton e Neto viviam juntos há quatro anos quando se inscreveram no Cadastro Nacional de Adoção. Aceitavam até duas crianças de qualquer raça e maiorzinhas.

“Menina ou menino, não tinha preferência de cor, raça, nada”, completa o veterinário Sebastião Leme Neto.

Parece que o pessoal da Vara de Família percebeu o tamanho do coração desses dois.

“Na realidade, eles conversaram com a gente que tinha três num abrigo, que a idade era de 9, de 7 e de 6. Falei: 'Meus Deus’. São três. E aí a gente olhou um pro outro e por que não três?”, contou Ailton.

Gabriel, Ryan e Gustavo também levaram o susto deles.

“No começo eu falei: ‘Meu pai Neto falou: eu namoro com o pai Ailton’. Eu falei: ‘Não, vocês não namoram junto’. ‘Não, ele é meu tio’, sabe. Foi uma confusão”, lembra Ryan.

Repórter: Como foi que você aceitou?
Ryan: Como? Então, isso aí eu fui me acostumando.

Repórter: E hoje, como é?
Ryan: É muito legal.

A gente percebe que é mesmo, Ryan! Mas nem tudo foi só diversão.

“Os desenhos deles eram extremamente absurdos. Desenho com faca. Tudo tinha morte. Tudo tinha arma”, lembra Neto.

“Fazia arte demais. Arte feia para tentar ser devolvido. Na cabecinha deles, ele achava que ia ser devolvido”, conta Ailton.

Repórter: Estava testando vocês?

Ailton: Testando. E a gente virava e falava: “Você não vai ser devolvido. Você é nosso filho. A partir de hoje você é nosso filho”.

Com a ajuda de uma psicóloga, com paciência e amor as dificuldades foram superadas.

“Toda criança chora, toda criança acorda de noite, toda criança pega resfriado, catapora, sarampo, suja a fralda. Toda criança é desobediente, toda criança precisa de limite. Ou seja, as pessoas às vezes não alcançam a realidade do que é ser pai e mãe”, disse o desembargador Reinaldo Torres de Carvalho, vice-coordenador de Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Mas esses dois pais alcançaram e garantem: a casa nova fica pronta no fim do ano e nunca, nunca mais vai ficar vazia.


Fonte: Portal G1

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes