segunda-feira, 29 de maio de 2017

Artigo - Salvem o Teatro Sandoval Wanderley!



Por: Caio Padilha


Salvem o Sandoval Wanderley!

Nenhum Teatro a Menos!
Lembra aquela lição escolar sobre os três poderes da república?
Lembrou?
Pronto. Agora esqueça.
Atualmente o legislativo, o executivo e o judiciário são, na verdade, meros acessórios de um só poder... um outro poder quase sempre alheio à democracia e ao bem comum: O PODER ECONÔMICO. 

Em Natal, com maior ou menor sucesso em cada caso, o poder econômico vai tentar aparelhar a Câmara Municipal, Fundação de Cultura, Procuradorias, a Rede Potiguar de Teatro, sindicatos, associações de moradores, para derrubar, demolir, sepultar o atual prédio do Teatro Municipal Sandoval Wanderley no bairro do Alecrim. O "Teatro do Povo", único e antigo equipamento cultural público nessa região da cidade.
"Mas também não é bem assim Padilha... (vão me dizer alguns)... acontece que o Teatro além de já deteriorado,e fechado a 9 anos, está no principal bairro comercial da cidade... e o empresário precisa justamente desse prédio para inaugurar um grande shopping. Ninguém ía reabrir isso mesmo... Mas olha, ele se compromete a construir um outro Teatro lááá na Ribeira, onde é o lugar de quem faz cultura...."

Então eu respiro fundo e vou pra casa escrever uma carta compartilhada aos meus colegas...
Tudo que se segue aqui tenta organizar o meu próprio pensamento sobre essa questão. Vamos com calma que lá vem textão:
Sabe quando uma marca de refrigerante se orgulha em estampar em sua embalagem que possui 2% de suco natural? E você acaba acreditando que isso é uma coisa maravilhosa? Pois bem, é mais ou menos assim que enxergo a gestão de Cultura em nossa cidade. Se abandona 98% do que deveriam fazer pela sociedade e ainda querem que achemos "o máximo" aqueles 2% que acontecem. "Ah porque a crise", "ah porque o prazo, o ministério, o prefeito, os bombeiros" enfim... o resultado é que a capital do estado não têm Teatro Municipal funcionando por quase uma década. Claro que esse "abandono" muito interessa à especulação imobiliária,como vemos também no caso do antigo Hotel Reis Magos. 

Vemos até a classe teatral ser acusada de não ter lutado pelo prédio, quando o próprio prefeito vetou a aprovação de orçamento para reforma do Sandoval, reivindicada à pouco tempo pelos artistas. E nesse momento tão difícil em nosso país, não posso deixar de pensar: será que a reforma foi vetada porque já se sabia do interesse do empresariado pelo local? Será que mais uma vez a promiscuidade entre público e privado visa financiamento para políticos de campanhas futuras? Não posso afirmar.
Eu sei que quando alguém morre (e com prédios não é diferente) costumamos lembrar só de suas qualidades, e não de seus defeitos... mas por não acreditar que o Sandoval está morto, mas sim mantido em cárcere sob tortura, vou aqui defender justamente suas precariedades. Precariedades com as quais, digamos de passagem, estamos acostumados a lidar em nosso ofício teatral Brasil afora, e também às quais sempre fomos condenados a enfrentar por falta de investimentos públicos por aqui.
Eis os defeitos que agora se destacam para legitimar a derrubada do prédio. Sobre cada um dos destaques farei uma reflexão.
1) ESPAÇO FÍSICO: O atual prédio do Teatro Municipal Sandoval Wanderley não nos dá possibilidade de ampliação. O terreno é restrito, a área interna não comporta shows ou cenários maiores.
REFLEXÃO:
Para iniciar com um clichê popular, digamos que tamanho não é documento. O teatro por décadas deu conta de um sem número de apresentações em que a ampliação do prédio não se colocava como questão. Ele tem a exata medida de sua limitação espacial, como aliás ocorre em qualquer outro teatro, de qualquer porte. Se apresenta lá, aquilo que cabe lá. Eu e meu Grupo de Teatro já nos apresentamos em teatros maravilhosos e péssimos independentes de seu tamanho. É assim que funciona e sempre funcionou no nosso ofício. 

E acredito sim que a cidade precisa também de equipamentos para pequenos espetáculos, shows intimistas, artistas marginais e de menor público que não acessam Alberto Maranhão ou Riachuelo, por exemplo.
E por último, se o terreno é tão pequeno e o grupo empresarial tão rico, porque não compram uma meia dúzia de lojas com tamanho equivalente e constroem seu empreendimento um pouco mais para o quarteirão vizinho? Será que o Sandoval é que tem de ser sacrificado por tão pouco espaço? Ahhh entendi... o teatriinho é pequeno, mas o metro quadrado se tornou tão valioso que se torna imprescindível para o novo shopping. É de frente pra avenida e tudo mais... então.. não dá pra ser em outro lugar do bairro.

2) FALTA DE PÚBLICO E VOCAÇÃO EMINENTEMENTE COMERCIAL, E NÃO CULTURAL, DO BAIRRO QUE SEDIA O TEATRO: Parece unânime de que o Alecrim é o principal bairro comercial da cidade e que, por sua vez, a Ribeira se configura como o principal bairro cultural. Com essa permuta público/privada, afirmam que cada atividade ficaria devidamente em seu lugar apropriado, potencializando assim a procura dos natalenses pelo comércio e pelo teatro em cada um dos bairros próprios.
REFLEXÃO:
Essa é uma idéia vocacional dos bairros que parece um tanto equivocada... não é porque o bairro do Bom Pastor, por exemplo, tem dois cemitérios que ele teria uma vocação funerária... lá também tem cultura e poderia muito bem abrigar um teatro do porte do Sandoval. E para muitos a idéia de que o Alecrim não tem vocação cultural é absurda! O governo quer o tempo todo legitimar a universalidade dessa idéia de que a Ribeira em todas as cidades do mundo é o lugar de fruição cultural.Tudo bem, mas o Alecrim também não merece seu teatrinho?

Outro problema dessa idéia setorizada de cidade é que ela não equilibra as forças, e por tanto não é justa...Explico. Reparem que o tal shopping proposto no Alecrim pode engolir o prédio do Teatro Sandoval Wanderley, mas o prédio do Teatro jamais poderia ser ampliado o suficiente para engolir o vizinho Banco do Bradesco por exemplo. Assim como o proposto "teatro substituto" na Ribeira jamais cogitaria tomar algum prédio do comércio local, entendem? Por isso cabe ao poder público proteger o prédio do teatro que é um patrimônio da cidade, pois os bancos e os comércios já têm a proteção de toda a legislação em defesa da sagrada propriedade privada. E o Sandoval o que tem? Só desesperança? Não quero acreditar.

Quanto ao problema de sucesso de público, bem, isso é uma questão contemporânea complexa para diversos teatros e não quero aprofundar aqui. Mas platéia é uma coisa que no Teatro sempre foi oscilante... isso não é culpa do prédio ou de sua localização... há dias de casa cheia e sessão dupla, e dias de platéia vazia em qualquer espaço de apresentação, inclusive em teatros consagrados e/ou super acessíveis. Sempre convivemos com isso também nas salas de cinema, lançamentos de livros, exposições, enfim... isso pra mim não é desculpa.

3) FALTA DE ESTACIONAMENTO.
REFLEXÃO:
Há um problema sério com o "teatro do povo". Ele não tem estacionamento! Essa pra mim é a pior. Todo o comércio do bairro do Alecrim sofre com a falta de vagas para estacionamento. No bairro inteiro é super difícil de estacionar para qualquer coisa... e por isso vão sair demolindo os estabelecimentos? Não... e o teatro merece ir ao chão porque a prefeitura não organiza o bairro para ter vagas? Também não. Porém, vejamos que curioso. Mesmo com esses problemas de trânsito veicular, o Alecrim tem o comércio mais procurado do estado, com um fluxo de pessoas impressionante... e sabe por que? Não é mágica minha gente, é um comércio popular,feito e procurado majoritariamente por gente humilde que, em sua maioria é claro, não possui automóvel. O prédio do Teatro Municipal Sandoval Wanderley tem pelo menos 2 pontos de ônibus enormes exatamente em frente. Por ali passam quase todas as principais linnas do transporte coletivo. O que dá ao prédio um grande potencial de público local e de turistas. Para mim, quando o próprio poder público coloca a falta de estacionamento como problema para a fruição da cidade, assume que não oferece transporte público decente aos cidadãos, e por tanto confessa sua incompetência.

4) PRECARIEDADE DE EQUIPAMENTOS E ESTRUTURA.
REFLEXÃO:
Se formos derrubar TODOS os equipamentos públicos com precariedade de equipamentos e infra estrutura, deixemos pelo menos o teatro por último. Sem mais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Sabemos que em uma democracia não se pode definir políticas ou tomar decisões públicas tão sérias a partir de convicções pessoais, aspirações do poder privado, intenções eleitorais etc... uma política ou decisão pública deve, dentro de um sistema republicano, ser inspirada em diretrizes democraticamente elaboradas, inclusive com parâmetros nacionais para proteger o bem comum. Somos uma capital do nordeste minha gente! Me refiro aqui à dispositivos tais quais: plano nacional de cultura, plano nacional do desenvolvimento do turismo, e também das cidades, etc.. esses dispositivos, os quais tenho convicção de que não indicariam a substituição de qualquer teatro do Brasil, ainda que fechado por incompetência das gestões, por um shopping privado. Digo isso porque desse ponto de vista, o teatro não está abandonado. Ele está amparado por diversas legislações que legalmente o protegem por sua função pública irresponsavelmente interrompida.
Mesmo que o grupo empresarial sinalize a construção de outro prédio teatral em outro bairro da cidade enfim, temos que admitir que é uma memória que se apaga. E uma demolição que em seguida acende uma série de incertezas. Que vão desde a POSSIBILIDADE de um terreno da união a ser oferecido na Reibeira, até a indefinição da transparência na elaboração e execução do projeto. A gente não quer apenas redução de danos!! A gente quer não ter dano nenhum e devolver à cidade o lhe é de direito!! É assim que o prefeito quer fazer pelo povo do Alecrim?

Nesse sentido, sabendo que a memória é um dos pilares do fazer teatral, dizem que vão manter um memorial Sandoval Wanderley. Mas se tal acervo é tão importante, e se ele é existente: esses objetos, essas fotografias, textos, já deveriam estar expostos pela Capitania, como símbolo de sua preocupação com essa memória, e não como consolação de uma demolição. Me desculpem. 

Lembro a todos que um prédio Teatral não é só um local de apresentações artísticas para o setor cultural ou turístico... O atual prédio do teatro pode voltar a abrigar idéias, processos criativos, oficinas formativas, palestras, simpósios, micro utopias, sonhos de juventude, ações de paz e comunhão humana enfim... o teatro também movimenta o comércio, comprando tecidos, lâmpadas, instrumentos, madeiras, pregos, movimentando bares e restaurantes em torno, acionando uma cadeia produtiva que vai desde a hotelaria até o pipoqueiro da porta do teatro, enfim. Um shopping no Alecrim e um Teatro na Ribeira pra mim é chover no molhado... e precisamos irrigar onde está seco. 

O Alecrim tem sede de Cultura!!!
A cidade que não tem um teatro municipal está exposta à incivilidades, e não dá sinais de sensibilidade para o bem estar da população. População esta que está praticamente condenada apenas ao entretenimento televisivo industrial hegemônico.
Enfim, minha proposta é que um empreendimento tão amplo proposto por esse grupo empresarial tenha como condição para se estabelecer no bairro, revitalizar o Teatro exatamente onde ele está. Já sabemos que o referido projeto empresarial já contempla praças de convivência, calçadão e não sei que mais, e portanto pode com certeza muito bem dar o teatro de volta e de presente para cidade, e especialmente para o querido bairro do Alecrim.


Fonte: Facebook

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