quinta-feira, 6 de abril de 2017

Quase 20% da população do Distrito Federal está acima do peso


No ônibus, nas lojas de roupa, no assento do avião e nos olhares e falas preconceituosos do cotidiano, a obesidade deixa marcas indeléveis na vida daqueles que carregam consigo quilos a mais. Na capital federal, 19,7% da população é obesa, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicada em 2015 — o panorama mais recente sobre a doença. Em 2010, o índice era de 15%. A cidade é a 16ª unidade da Federação com mais pessoas nessa condição. Hoje, Dia Nacional de Mobilização pela Promoção da Saúde e Qualidade de Vida, fica o alerta da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso): a expectativa é de que nos próximos anos ainda ocorra aumento dessa população.

São cerca de 530 mil pessoas obesas no DF. Até um ano atrás, o auxiliar administrativo Jônatas Pinto Silva, 33, fez parte desse grupo. Ele passou por uma cirurgia bariátrica, perdeu 46kg, mas, ainda hoje, guarda lembranças de um período que a depressão cada vez mais ganhava espaço. “Percebi o tamanho que eu estava quando minha esposa fez uma foto e eu ocupava todo o sofá”, conta. O choque serviu para entender o que acontecia com seu metabolismo. Jônatas sempre viu a balança registrar peso a mais — ele nasceu com 5kg. O rapaz perdeu totalmente o controle e chegou aos 125kg.

Para mudar a sua realidade, o primeiro passo que Jônatas deu foi entender o que era a obesidade, encará-la como doença e procurar ajuda. Exatamente o que recomendam os especialistas. “Há uma negação da obesidade como uma doença. Isso é lamentável. O paciente, geralmente, é acusado de ser responsável pelo mal que ele tem”, explica a endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente da Abeso. Apesar da íntima ligação com os hábitos, por exemplo o de comer, a obesidade é multifatorial e, em algumas situações, tem predisposição genética.

Com o aumento da população obesa, a Secretaria de Saúde tenta criar uma linha de cuidados específica. A intenção da pasta é credenciar o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) junto ao Ministério da Saúde, até o fim deste semestre, para receber recursos, já que a unidade realiza cirurgias bariátricas. Técnicos do governo federal ainda analisam a documentação, e o processo não tem prazo para ser concluído. A Secretaria de Saúde iniciou um treinamento com 40 servidores para uniformizar o atendimento e implementar um fluxo predefinido de acompanhamento da doença no DF. Por ano, a Secretaria de Saúde realiza 150 cirurgias bariátricas.

A preocupação dos médicos é que 54,9% da população da capital federal, cerca de 1,6 milhão de pessoas, está com excesso de peso. Isso pode aumentar casos de pacientes graves. “Atualmente, atendemos esses pacientes, só que de maneira pulverizada. Cada serviço realiza suas atividades, mas sem um encaminhamento predefinido de como será o fluxo do tratamento”, explica a coordenadora do Grupo Central da Linha de Cuidados de Sobrepeso e da Obesidade, Mariana Martins. A assistência será iniciada nas unidades básicas de saúde. A ideia é fazer avaliações, triagem do paciente e encaminhamento paras as intervenções necessárias.


Dificuldade

Nilvanda Camelo da Rocha, 42, está tentando compreender essa lógica. Há um ano, a consultora de vendas começou o processo para realizar a cirurgia bariátrica. A mulher está com 105kg, 36 a mais que o de costume. “Engordei após problemas de saúde, há 10 anos. Desde então, tudo mudou. As pessoas têm um padrão de beleza alta, magra e jovem. Já ouvi: ‘poxa, era tão bonita, como engordou’ ou ‘ela está engordando cada vez mais’. Eu me sinto incomodada, já fui alvo de fofoca e de ataques”, reclama. Ela narra as dificuldades diárias. “No ônibus, é preciso escolher uma pessoa magra para se sentar ao lado ou ficar em pé. Para as lojas, você não é um cliente potencial, comprar roupa se torna uma saga”, conta.

Apesar do aumento da qualidade de vida, da saúde e até mesmo da vaidade, Jônatas alerta para os riscos da cirurgia. “Consegui vencer a obesidade com a ajuda médica, mas é um processo para o resto da vida. Quem fala que não há dificuldade em ser gordo mente. Até o meu irmão já teve que amarrar o cadarço do meu sapato. A cirurgia não é a solução, mas, sim, um passo. São muitas visitas ao psicólogo, depois uma recuperação delicada e uma mudança de vida com suplementação alimentar e prática de exercícios físicos”, detalha. Hoje, Jônatas corre no Parque da Cidade e frequenta a academia. Numa gaveta, ainda guarda uma bermuda e uma camisa que usava quando era obeso.


Fonte: Jornal Correio Braziliense

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