quarta-feira, 22 de março de 2017

Entrevista - Carlos Prazeres, o maestro que quer democratizar a música clássica


Carioca de nascimento, residindo na Bahia há 6 anos, o Maestro Carlos Prazeres, 42, tem muito a dizer desde que topou o convite para ser o regente da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA).

Filho de um também maestro e de uma cantora lírica, Prazeres foge de todo o estereótipo e postura que se espera de um profissional nascido e criado em meio ao clássico e rígido mundo da música erudita.

Despojado, atencioso, aberto ao diálogo e disposto a interagir e conhecer estilos musicais populares, especialmente os locais, Prazeres tem sido o principal responsável pela significativa mudança que a OSBA sofreu nos últimos anos.

Sob a sua regência, a orquestra viu o seu público crescer em 192 %. Isso se deve, dentre outras coisas, aos projetos implementados pelo maestro que tiraram a roupagem sisuda e fria que afastavam a orquestra da população. Um bom exemplo, é o projeto CineConcerto, onde a orquestra toca trilhas sonoras de filmes famosos e com um detalhe todo especial: os músicos, e também o maestro, se apresentam fantasiados como os personagens do filme em questão. Recentemente, a OSBA tem aberto os seus ensaios ao público, mais um passo na tentativa de romper as históricas barreiras que separam a música clássica do povo.

Nós encontramos o maestro e batemos um papo com ele. Confira!


– Há cerca de dois anos, você disse que o seu principal objetivo ao sair do Rio e assumir a OSBA era tornar a música clássica mais próxima da população. Hoje, você acha que esta conquista está mais perto?


– Olha, vou te traçar uma linha de 2001 até aqui, que é o tempo que estou à frente da OSBA. Quando eu trabalhava no Rio, na Petrobrás Sinfônica, eu era auxiliar de um grande maestro, o Isaac Karabtchevsky, que junto com Eleazar de Carvalho foram, sem dúvida nenhuma, os dois maiores nomes da regência orquestral no Brasil. Então, eu era assistente, mas tudo era dele, os projetos, os concertos, eu apenas regia alguns desses concertos. Então quando surgiu a oportunidade da OSBA, eu vi a chance de ter os meus próprios projetos, próprios concertos. E sempre foi parte do meu ser, da minha família, a questão da democratização. O meu tio, o Perfeito Fortuna, criador do Circo Voador*¹ e que hoje dirige a Fundição Progresso*¹ (*¹ casas de shows no Rio de Janeiro), ele propunha no Circo, na época em que ele criou, criar hortas, orquestras, circos, companhias de teatro e etc. Aquilo foi uma grande catarse cultural no Rio de Janeiro. Eu tenho isso comigo, de não estabelecer diferenças entre o pop e o clássico. Meu pai foi um grande maestro clássico, então eu bebi das duas fontes.

Eu quero sim fazer concertos clássicos, sinfonias de Bruckner, um dos meus compositores preferidos, quero fazer obras do Messiaen, que é um compositor moderno. E hoje a gente vê, por exemplo, que a OSBA, apesar de lotar a Concha Acústica com o Cine Concerto, eu vejo que ela está conseguindo o seu objetivo quando ela lota o Teatro Castro Alves em um projeto como o Futurível, que é um projeto de música moderna. Cara, música moderna não é fácil de ouvir, não mesmo. Música moderna afugenta o público no mundo inteiro. É como se fosse as artes plásticas contemporâneas da música. Só que nas artes plásticas você pode ficar ali o tempo que quiser olhando para aquela obra, já na música não, você tem que sentar, esperar sentir aquilo. A gente brinca e contextualiza que o Futurível hoje é uma das maiores bandeiras do milagre feito pela OSBA, que é o milagre ter aumentado o nosso público em 192% a partir de 2011 e o milagre também de ter ali, na sua ligação com a sociedade baiana, um elo de confiança. O público da OSBA, hoje, ele nem vê qual é o programa, ele simplesmente vem porque é a Orquestra Sinfônica da Bahia e porque ele é apaixonado por ela. Então, quando a gente bota a música contemporânea para eles ouvirem, eles também vem. Não é só Gilberto Gil, colocamos Lindembergue Cardoso, Pierre Boulez, Olivier Messiaen e mesmo assim vemos o teatro lotar, isso é lindo, sou muito agradecido.


– Em uma entrevista para o Jornal O Globo, você narrou um fato da sua vida pessoal, onde contava que na sua casa só se ouvia música clássica, ao ponto de você ter que contar uma pequena mentira para seus amigos de escola sempre que eles perguntavam por seus discos de música pop. Até que um dia você pediu aos seus pais para que eles sintonizassem em uma estação de rádio popular, mas logo depois pediu para voltar a música clássica. Você acha que hoje é possível se fazer o caminho inverso, ou seja, um jovem criado em meio a música popular solicitar aos seus pais que lhe comprem discos de música clássica e o levem para assistir concertos?

Acho perfeitamente possível, vejo isso no meu cotidiano aqui na OSBA. Aqui temos adolescentes apaixonados por música clássica, pela orquestra, que escrevem para a gente. O próprio CineConcerto, que é música clássica também, ele lida com gente de 90 até 5 anos de idade, e todos adorando aquilo. O que eu percebo é que, na verdade, é uma questão de imagem, de formato, as pessoas levam menos de uma fração de segundo para estabelecer um julgamento sobre a outra, é muito rápido, você tá me julgando neste exato momento, eu também estou te julgando, e o público da OSBA julga ao ver aqueles músicos entrando de terno, com violinos, e logo pensam “Ih, isso ai é casamento, é coisa chata, não quero isso, quero rock n’roll”. Mas quando eles percebem que uma sinfonia de Beethoven é rock n’roll, uma sinfonia de Bruckner é rock n’roll, eles percebem que estão lidando com algo muito forte, é só nós mudarmos a imagem disso. A gente não quer trocar Bruckner por Gilberto Gil, queremos poder fazer os dois! Mas se fizermos Bruckner de uma maneira chata, sem falar nada, sem explicar nada a ninguém, as pessoas não vão entender e não vão voltar. Então não é simplesmente chegar ali, fazer o dever de casa, ensaiar, estudar a partitura, tocar e se mandar, isso jamais a OSBA vai ser enquanto estiver sob o meu comando.


– Quando veio para a Bahia, você se surpreendeu com a aceitação do público ao seu trabalho? O estereótipo de que aqui se só ouve axé, pagode, arrocha, foi quebrado ou essa aceitação já era algo que você esperava?

– Eu já esperava, mas vou te explicar o porquê. No Rio de Janeiro, até hoje, as pessoas me perguntam: “como assim na Bahia, cara? As pessoas lá ouvem música clássica? Não é só axé?”, e eu sempre falo assim, gente, o Rio também! É a cidade do samba, da praia, da festa, da alegria, é uma cidade muito parecida com Salvador. Então a gente aprendeu um pouco no Rio que a imagem é tudo nessa hora. É óbvio que a gente não ia chegar em um evento como os 50 anos do Teatro Castro Alves, casa lotada, e fazer uma peça inteira de Beethoven, lógico que não. Tem que ter música clássica, mas de uma maneira dinâmica. Mas música clássica mesmo, sem nenhum crossover, gostamos de música clássica pura. Mas eu nunca tive dúvidas de que o povo baiano é um povo essencialmente musical, e isso é fantástico. E aqui tem uma vantagem sobre o Rio de Janeiro que me deixou muito feliz. O Rio tem uma tradição de ballet, opera, piano clássico, antigamente as meninas estudavam piano em casa, iam para as aulas de ballet, o Rio é muito tradicional. Então quando você vem com o novo no Rio de Janeiro, é muito mais fácil você levar pedrada. Aqui na Bahia a gente pegou o que a gente chama de um livro em branco mas altamente preparado para uma tradição que já se remontava nos anos 60 com o Edgard Santos (primeiro reitor da Universidade Federal da Bahia – UFBA), com toda a escola de música da UFBA, com o Wellington Gomes, Paulo Lima, pessoas que vieram de uma fonte que foi Hans-Joachim Koellreutter e Walter Smetak, que produziram coisas lindas como Lindemberg Cardoso. O Lindemberg é o meu compositor favorito da Bahia. O Gilberto Gil chama ele de “Lind”, para você ver o nível de intimidade. Então eu pergunto as pessoas o porquê Gil tem essas músicas absolutamente incríveis, que modulam, que vão para outras tonalidades, ou seja, são coisas que ele se influenciou, não por uma pessoa, mas por todo um ambiente que se criou na Bahia. Isso tudo é muito bonito e eu sou grato por fazer parte dessa história.


Fonte: Portal Feminino e Além

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