quinta-feira, 30 de março de 2017

Artigo - Sobre relacionamentos modernos e a disputa de quem se importa menos



Por: Bianka Vieira


Se por muito tempo permanecemos adormecidos pelo feitiço do amor romântico, a partir do momento em que nos damos conta de que tudo era uma farsa e de que o tal príncipe destinado a nos tirar daquele sono solitário jamais viria, o jogo vira bruscamente. Ao declarar morte ao sentimentalismo meloso e às demonstrações exageradas de afeto, muitas das idealizações e juras de amor eterno deram lugar a uma suposta racionalidade caracterizada pelo desapego e pela disputa de quem se importa, demonstra e cobra menos dentro de um relacionamento.

Nessa de levar uma vida moderninha, ninguém quer assumir o papel antiquado de ser a pessoa que se interessa mais do que a outra na relação. Desde situações mais simples, como ser a primeira a mandar mensagem no dia ou chamar para sair, a outras mais complexas, como se abrir ou exigir respostas em momentos mais tensos, há sempre uma barreira que nos impede de agir espontaneamente, levando-nos a um calculismo prévio para cada movimento e proporcionando um desgaste imenso.

Isso porque, basicamente, os relacionamentos modernos sustentam-se em jogos psicológicos tão subliminares que não servem para outra coisa senão encher nossas cabeças com futilidades. Dentro dessa nova moda, por exemplo, a regra diz que, se ele levou duas horas para te responder no WhatsApp, isso quer dizer que você deve esperar mais duas para responder e não parecer a desesperada que olha o celular de minuto em minuto, certo? Errado.

O medo da entrega e de um lance mais sério tem nos levado ao ridículo da covardia amorosa. Se após a primeira ou segunda noite de sexo rola a menor demonstração de intimidade, a primeira resposta é correr. Carinho na frente dos outros nem pensar. Falar sobre aquela música que te faz lembrar de vocês dois? Brega. A ideia de demonstrar seu gostar te enche de calafrios por saber que a recíproca não virá. Dizer um “te amo”, então, é declarar a própria morte em praça pública.

Afinal de contas, para que se arriscar tanto se expressando se já fazemos o suficiente através de interações nas redes sociais?

A verdade é que um like não é sinônimo de amor e que é preciso muito mais atitude do que demonstrar suas emoções através de um clique. Dessa forma, enquanto permanecermos compenetrados nesta fria competição de ver quem “está mais nem aí”, o melhor orgasmo da sua vida deixará de ser compartilhado, assim como seus melhores momentos juntos nunca serão recordados em voz alta.

Seguindo esse caminho fatal, provavelmente seus relacionamentos incipientes serão rompidos assim, do nada, com um deixando a vida do outro sem saber de sua importância e significado durante o tempo em que estiveram juntos. Ah! E é claro que isso acontecerá através da internet, sem qualquer exigência de uma conversa cara a cara, já que você pode até sofrer e chorar as pitangas por aquele término, mas ninguém precisa saber.

Seja por uma síndrome de querer ser a diferentona que não se machuca ou seja por medo de perder a pessoa amada — já que a mãe Diná não está mais aqui para trazê-la de volta —, estamos nos enfiando cada vez mais em uma lógica de modernidade tóxica na qual a entrega é terminantemente proibida e se permitir sentir está fora de cogitação.

Ao desprender tanta energia desconstruindo filmes da Disney e se convencendo de que tudo não passa de mera ficção, fugimos cada vez mais de nossa própria realidade e da constatação de que sim, ainda gostamos de nos envolver, andar de mãos dadas, gostar, gozar e, se der vontade, se sentir livre e à vontade para dizer que quer repetir tudo mais uma vez.


* Bianka Vieira é aspirante a jornalista desde não se sabe quando, Bianka (com K) ama Billie Holiday, George Harrison, vinis, filmes antigos e tudo o mais que for brega. Inconstante que é, se apaixona e desapaixona todo dia pelas pequenezas da vida.


Fonte: Portal Fãs da Psicanálise / Portal Lado M

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