terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Artigo - O que os turbantes têm a ver com a cultura africana?


O turbante é para muitos símbolo de cultura e beleza negra, mas outros povos e culturas também utilizam esse acessório repleto de significados e funções



Por: Redação do Blog citado na fonte


A resposta é nada. Os turbantes não tem nada a ver com a cultura africana. Vamos falar sobre turbantes? Você sabia que esses turbantes que andam em alta são de inspiração retrô, década de 1920? E que eles surgiram lá pelos lados da Ásia?

Homem sikh – O sikhismo ou siquismo é uma religião monoteísta fundada em fins do século XV no Punjabe (região dividida entre o Paquistão e a Índia) pelo Guru Nanak (1469-1539)


São turbantes inspirados na tradição hindu, mogul, sikh e nos turcos otomanos. A moda de usar turbantes entre pessoas brancas surgiu por volta do início do século 18, finalzinho do 17. Isso aconteceu porque os europeus passaram a ter um grande contato com o “luxo” do Império Otomano e das cortes da Índia. Mas eles existem há muito mais tempo. Sabe-se que existia antes do ano 570DC, ou seja, antes do nascimento de Maomé e da fé islâmica. E nela o turbante tem uma função religiosa.


Os antigos usavam como símbolo de status. Era um costume caro e os turbantes não eram usados para reverenciar a cultura de onde tinha saído, mas pra ostentar, assim como o sujeito do século 16 ostentava um fardo de canela da china. Era exótico e remetia ao luxo. A obra “Moça com brinco de pérola” do pintor holandês Johannes Vermeer ilustra bem isso. Depois do século 17, a moda só cresceu, mas ninguém, absolutamente ninguém, na Europa dos anos de 1920 (e em todo mundo ocidental, que acompanhava a moda europeia), usava um turbante ou qualquer outro acessório de inspiração africana.

Dizer que usar turbantes é apropriação cultural relativa à cultura africana (O que seria isso, aliás? A África é imensa, tem muitas culturas dentro dela e a maioria não usa turbante, nem tem dreadlock) é um imenso equívoco.

Os grupos e etnias africanas que usam turbantes também adotaram o acessório na mesma linha que os europeus: por apropriação cultural relativa, dessa vez, aos califados do Oriente Médio e ao Império Mali. Usava-se para “ficar na moda”, pra parecer chique e principalmente, pra se adequar à cultura islâmica, que foi muito influente na África como um todo.


Os povos africanos originalmente usavam vários ornamentos de cabeça, mas a maioria é mais parecida com toucas e chapéus do que com turbantes. Suponhamos que a gente deva pensar em termos de identidade cultural, e que mesmo o turbante sendo um acessório assimilado pelos africanos, ele representa, de certa forma, a identidade dos afrodescendentes, por ter sido usado por seus ancestrais. Esse é o caso dos EUA, não o do Brasil. Se você pegar um mapa ilustrativo das rotas do tráfico negreiro, vai ver que os negros que foram ser escravos nos EUA eram em sua esmagadora maioria, dos países que haviam integrado o Império Mali e de suas regiões de influência direta. Assim, se você usa um turbante nos EUA, ele é realmente muito simbólico e denota sua origem étnica (que o diga Malcolm X, que travou uma luta tremenda pra resgatar suas origens de muçulmano negro).

Esses mesmos negros vieram, em quantidade muito menor, aportar no nordeste brasileiro, onde eram chamados de “Malês“, e ostentavam seus turbantes não por serem africanos, mas por serem muçulmanos orgulhosos de sua fé. Não era comum que outros grupos étnicos escravizados o utilizassem. Na realidade, o uso dos turbantes era mesmo comum entre as mulheres escravas, de todas as etnias, mas por um motivo bem diferente do qual vocês pensam.

Negra com turbante fotografada por Albert Henschel (c.1870)


Elas usavam turbantes para denotar status social inspiradas pelas grandes damas africanas da costa atlântica, que usavam o turbante como símbolo de opressão e superioridade social.

Lembrem que os africanos começaram a usar turbantes e vestes tipicamente associadas ao Islã, pra demonstrar status e coerência com a nova religião. As mulheres africanas do século 18 para o 19 levaram esse costume ao extremo. Nunca ninguém na costa atlântica da África usou tanto turbante quanto nesse período. Foi aí que a moda realmente pegou.

Mulheres usando o ojá


Excluindo-se o ojá, que não é um turbante, mas uma faixa, dos iniciados nos ritos Youruba (e que ninguém usa na rua), os turbantes usados pelas damas africanas serviam pra diferenciá-las das demais mulheres, de posição inferior à delas. Essas damas costumavam ter vários maridos e, entre eles, comerciantes e nobres europeus com os quais tinham filhos e que lhes garantiam poder econômico, além do poder político que elas já possuíam por linhagem.

Para demonstrarem seu status umas pras outras (e também pra população branca da época, que sabia do seu poder), as escravas usavam turbantes de inspiração árabe, mangas bufantes e saias longas soltas (Como as roupas típicas das baianas) pra emular as vestes da nobreza africana da costa atlântica, que assim como a nobreza europeia, via nos turbantes e trajes de inspiração árabe/muçulmana um modo de ser visto como chic e exótico.


Nada tinha a ver com identificar etnias ou com símbolo de resistência. Era a mais pura apropriação cultural (no mais amplo sentido do termo), usada pela elite e reproduzida pelas classes mais baixas. Exatamente como hoje em dia, quando você compra uma batinha indiana porque a atriz famosa está usando na novela.

Na época, não havia nenhuma história de heroísmo e luta ligada ao uso do turbante. Durante a Segunda Guerra Mundial o turbante era usado para esconder os cabelos maltratados. E hoje são usados pelos negros por conta do Movimento do Orgulho Negro iniciado nos EUA em 1960, como uma forma de afirmação.

O mesmo acontece com os dreads. Na África, muito pouca gente usa dread. Esse é um costume de afrocaribenhos, que por sua vez o faz por influência judaico/cristã, relacionada com a igreja ortodoxa etíope, que não é originalmente africana, mas do Oriente Médio. Na África, pasmem, a maioria do que se pensa serem dreads e tranças, são perucas. Sim, perucas!


Em resumo, se formos analisar de onde veio cada item de vestuário que a gente usa hoje em dia, sejamos nós da etnia que formos, veríamos muitas curiosidades como a calça que é de origem celta, a meia é coisa de francês, saia plissada é coisa de (homem) escocês e tênis é invenção estadunidense.

Lookbook da marca Dent de Man


Se formos abordar a apropriação cultural em relação à traços genuinamente pertencentes à cultura afro pós diáspora (que é quando os negros passam a se reconhecer como negros e criam a identidade étnica de negro, perpassando as etnias originais africanas), precisaríamos começar a reclamar dos brancos no samba (Maldito Adoniran, maldito Germano Mathias, que roubaram a identidade cultural!), do RAP, reclamar de gente branca que come acarajé, inhame, de gente branca que dança/canta funk, soul, blues, R&B… mas isso não acontece e nem deveria. A cultura não é estática, imóvel. A África atual, inclusive, intercambia culturalmente elementos de vestuário ocidental como o terno, a gravata, em releituras que a maioria das pessoas acha bem legal.

E temos outras muitas releituras que se apropriaram do turbante mas isso já é uma outra história.


Sapeurs (Society of Ambianceurs and Persons of Elegance), os homens mais elegantes do Congo


Bibliografia:
– História da Moda; SABINO, Marco (2010)
– Dicionário da Moda; SABINO, Marco (2007)
– A História Mundial da Roupa; ANAWALT, Patricia Rieff (2011)


Fonte: Blog Moda Moda Moda

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