quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Artigo - Não vale ser transfóbico e se vestir de mulher no Carnaval


Por: Ítalo Damasceno*

Lembro sempre da primeira vez que me vesti de mulher no carnaval. Já faz alguns anos e foi para sair nas ladeiras de Olinda. Que decisão difícil.
Não há mal algum em querer se vestir de mulher no carnaval — tanta gente faz isso –, mas eu achava que meu caso era especial. Todos os meus amigos que se fantasiavam assim eram héteros e a minha fantasia poderia ser uma denúncia da minha orientação sexual. O que poderia acontecer se soubessem que um gay estava se travestindo? Não seria pior? A fantasia de carnaval poderia ser lida como a realização de um desejo escondido? E como as pessoas reagiriam ao concluir que a verdade era a fantasia, mesmo que não fosse, pois nunca me identifiquei como transexual? Juro que todas estas perguntas me passaram pela cabeça.

Juntei a coragem que eu tinha e troquei as perguntas por uma gigante flor tropical no cabelo, uma coisa bem Gal. Achei que só uma flor gigante e colorida para se destacar na minha longa cabeleira (se nunca reparou na minha foto do perfil, veja e comprove). Uma saída de praia bem solta, um batom lilás e um tênis All Star. Pronto, eu estava vestido de mulher(?). O primeiro teste foi sair do quarto. Com medo eu fui e o riso foi geral. Todo mundo achando graça daquela mulher de barba, All Star e perna cabeluda.

A segunda investida foi dar o primeiro passo do lado de fora de casa. Aí a tensão foi mais forte. Eu estaria completamente exposto e demonstrar insegurança só ia me deixar mais vulnerável a algum ataque. A primeira pessoa que eu tive que cruzar era o porteiro do prédio, que deu uma olhada de alto a baixo e com um risinho sacana disse:

– Que mulher feia!

Todos gargalhamos. No caminho para a parada de ônibus, percebi o vento levantando minha saia e que delícia era aquela peça de roupa, que prática.
"Como assim os homens não usam saia? Cheguei a achar aquela peça mais adequada ao corpo masculino do que o feminino."

Idealmente confortável para aquele calor de rachar. Mas não tinha jeito, meu conforto não impediu de perceber os vários pescoços que se quebravam para dar uma nova olhada para o cara de vestido. Era carnaval, estava todo mundo fantasiado de alguma coisa, mas estar de vestido me dava a atenção de um segundo olhar. Teve até o segurança que passou por mim de moto, fez a volta e passou uma segunda vez com a velocidade bem reduzida, deu uma buzinadinha e… isso é história para um outro post. Continuando.

Desci do ônibus e a algazarra explodiu. Foi ótimo encontrar homens que também estavam de mulher. Tinha gente que dizia que eu estava linda, outros que estava feia. Alguns, acompanhados das namoradas, me pediam selinho e elas, entrando na brincadeira já alcoolizadas, diziam histericamente:
- Pode beijaaaaar!

Teve um homem que saiu me xingando porque eu não quis dar o beijo, dizendo que eu era muito feia e não precisava ficar me achando. Vislumbrei um pouco como o corpo da mulher é tratado pela sociedade pelo simples fato de estar fantasiado como uma. Que dureza, viu?
Quando finalmente eu estava tranquilo com minha fantasia e acreditei que o mundo estava massa por não sentir mais medo chegou uma drag queen maravilhosa. Vestida de cowgirl, de peruca loira, enchimento nos quadris lhe dando lindas curvas femininas e uma maquiagem que reluzia sob o Sol. Quando a avistei de longe, imaginei logo que, se eu fui acolhido de forma tão calorosa, ela seria ovacionada por conta do seu belo trabalho artístico. Como sou bobo.

A vaia foi geral. A ladeira inteira foi tomada pelo som horrível da reprovação e falta de respeito. Foi desolador ver que eu tinha sido aceito porque, afinal, eu não havia quebrado a regra. Eu não estava fazendo aquilo a sério. Eu não queria ser mulher, mas ela não estava fantasiada, portanto não estava agindo da “forma correta”. Foi brutal e doloroso.
"Ela passou e o silêncio se instalou, tão silencioso quanto se pode ser uma ladeira no meio do carnaval de Olinda."

Ver um monte de fotos de vocês fantasiados de mulher nos blocos pré-carnavalescos de Brasília, me lembrou deste fato. Esse carnaval tá servindo inclusive para protestar pela cidade que a gente quer, com direito a música e pontos de cultura. Isso é lindo. Entretanto meus caros, estar vestido de mulher num bloco e depreciar umx transexual não vale. Aceitemos o som e aceitemos xs trans.


* Ítalo Damasceno é advogado balzaquiano, escreve sobre a temática LGBT.


Fonte: Portal Metrópoles

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