quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Artigo - Má que diabos é apropriação cultural?


Por: Suzane Jardim**


Recentemente viralizaram um post lá na outra rede social mostrando esse trabalho aqui da foto em uma tentativa meio torta de mandar um recado para o atual prefeito de São Paulo, João Dória, referente a sua cruzada contra a pichação e o grafite na cidade. Exatamente por isso resolvi “reavivar” esse texto que escrevi no ano passado.

Basicamente uma designer x ai (que eu não vou citar o nome pra não receber um processinho™ em casa) que estudou nas Holanda, mora nas Europa e essas parada tudo, resolveu ””””resignificar”””” o pixo. A artista padroniza as letras que considera típicas da cultura do pixo paulista e ilustra peças de porcelana com frases das ruas, como “Toda criação é antes de tudo um ato de destruição”, “Temos a arte para não morrer da verdade”, “Revolte-se ainda hoje” e “O vazio me incomoda”.

Pixo padronizadinho, bonitinho, posto na locinha que pode agora ser vendida por centeninhas de reais enquanto os pixadores de verdade continuam apanhando na rua.


A discussão aqui nem é se as porcelanas são bonitas ou não, ou se pichação é ou não arte. Para resumir a questão, reproduzo aqui o comentário feito pelo Plinio Zunica na publicação original no Facebook (aliás, sigam esse cara, recomendo muito):
Uma artista plastica que não tem nenhuma ligação (ou respeito, aparentemente) com o pixo utilizar uma grafia semelhante ao pixo em peças de louça e paninhos, mais do que apenas uma “apropriação”, é uma deturpação grotesca e patética. O pixo não é tipografia e definitivamente não é enfeite. Deslocado de seu sentido de transgressão, de sua conotação política e estética (que vai bem além de imprimir uma versão tosquera do pixo paulistano dos anos 90 em jogo de chá) ele se torna só rabisco. 
Não sei dizer (e nem é realmente muito importante) se o pixo é arte ou não, mas posso garantir que essa porcaria aí é a exata mesma coisa que qualquer bugiganga ilustrada com Romero Brito, ou qualquer caderno de adolescente com foto de artista global impressa na capa.

A simetria feita entre as peças de louça, a obra de Romero Brito e os cadernos para adolescentes tenta mostrar como, desprovida de seu sentido primordial, a obra de louça “pixada” não passa de um produto seriado sem o seu sentido transgressor. Pode ser, pode não ser. Entretanto, quando escolhem mostrar a obra em uma tentativa de “alfinetar o prefeito” é dado automaticamente um julgamento de valor: Pixo pode ser arte, viu, Dória? Mas só feito do modo certo, no lugar certo, pelas pessoas certas. Enquanto isso, os mesmos que comentam o tal post dizendo que adoraram a criatividade da artista, que acharam lindo a aproximação da tipografia do pixo com runas nórdicas e que “tudo pode ser arte, né meo”, voltam pra casa e continuam reproduzindo o discurso de que pichador é tudo vagabundo e que tem é que apanhar mesmo.

Essa reação é o que se considera um caso clássico e típico de apropriação.

Desde que comecei a escrever por aí, sempre aparecem pessoas me perguntando qual a minha opinião sobre apropriação cultural.

Normal não saberem qual é minha opinião, principalmente porque considero essa uma das questões mais banalmente discutidas nas redes sociais e dos modos mais lesados possíveis, então tenho: preguiça.

Mas uma coisa que me intriga é a pergunta feita:
“qual sua opinião sobre apropriação cultural?”

Ué, isso é questão de opinião?
O termo “apropriação” já tem conotação negativa por si só. Dialoga com “roubo” e “invasão”.
Existem diversos termos e conceitos usados para falar do assunto de um modo positivo: “empréstimo cultural”, “assimilação cultural”, “aculturação”, “sincretismo”, etc.
Todos esses termos existem para falar das mudanças que acontecem em uma sociedade diante de sua fusão com elementos culturais externos. São conceitos para se pensar esses processos de globalização, de cruzamento de culturas e até mesmo de dominação de uma cultura por outra quanto ao lugar que a cultura dominada ganha na sociedade dominadora por meio da assimilação de costumes.
Essa troca é considerada uma parte integrante das dinâmicas sociais e o resultado óbvio do contato entre diferentes tradições e culturas, sendo muitas vezes benéfica e cheirosa.

Se o caso é de “apropriação” não tem muito como emitir opinião do tipo
NOSSA, ACHO DAORA, APROPRIA MESMO, ACHO DEZ, MELHOR QUE LASANHA

Mas enfim

APROPRIAÇÃO cultural tem a ver com hegemonia cultural, dominação, poder, etnocentrismo e capitalismo.

As sociedades modernas, essas onde povos de origens diferentes convivem, são formadas por uma cultura maioritária (aquela que dita as regras gerais — a língua, o padrão socialmente aceito de vestir, de comer, de falar, de se relacionar etc) e por culturas minoritárias (aquelas que tem que se submeter às práticas da cultura maioritária pra viver na paz). Se quiserem passar isso pro caso da louça “pixada”, podem considerar que a cultura maioritária seria a da elite paulista (onde estão inseridas as galerias de arte, a classe média universitária e as pessoas “de bom gosto” que fazem cursos de design na Europa) e que a cultura minoritária é a praticada nas periferias. Não tem a ver com número de membros pertencentes, mas sim com qual dessas culturas é mais valorizada e bem vista no meio em que vivemos.
Entre essas culturas que convivem em um estado não segregado, existem trocas e assimilações porque seria impossível não o ser.

O que é alvo de críticas quando falamos de apropriação cultural é justamente a ignorância e desconhecimento ao tratar uma cultura diferente e a colocação de seus ícones como elementos e produtos postos à venda de um modo que perpetue as relações desiguais de poder entre a cultura dominada e a cultura dominante.

Isso basicamente acontece quando rolam esses passos aqui ó:

1- a cultura maioritária desdenha de elementos de uma cultura minoritária dando a eles ares de exotismo, criminalizando-os, destratando e ligando-os ao indesejado porque só a cultura deles é pra ser daora, tesuda e civilizada;

2 - aí todo mundo que está inserido nessa sociedade passa a ver esses elementos minoritários como nocivos e inferiores;

3 -  a cultura minoritária passa a abandonar seus elementos para se adaptar aos elementos dados pela cultura maioritária e, os que permanecem resistindo, são excluídos ou destratados por essa sociedade;*

4 -  aí, quando esses elementos ligados àquela cultura minoritária já estão com carga negativa suficiente e quando a sociedade toda tá curtindo a onda posta pela cultura maioritária BOOOOOOM! resolvem resignificar elementos minoritários para serem consumidos pela maioria entediada;

5 -  então aqueles elementos antes destratados são colocados como objetos que deveriam ser desejados pelos que vivem a cultura maioritária em sua plenitude — são capitalizados, comercializados e propagandeados para que a cultura maioritária os achem interessante, veja ali beleza pela primeira vez e os consuma.

*Por isso esse argumento de “aim, as negras alisam e pintam o cabelo de loiro mas ninguém diz que é apropriação” é um argumento burro porque, olha só: imposição estética não é apropriação, seja bem vindo ao mundo real.

Basicamente toda criação cultural é boa pro capital porque ele pode ter a chance de lucrar em cima, simples. MAS ele só vai lucrar de fato com isso de um modo pleno se convencer a parte da sociedade que consome que aquilo é dez, ao mesmo tempo que consegue manter uma outra parte na subalternidade — porque né, sem desigualdade não existe capitalismo.

Tem uma simetria que rola na internet que eu particularmente acho boa:
é quando você, sendo minoria cultural, faz um trabalho, tira um F e seu professor e a banca avaliadora dizem pra você mandar currículo pro McDonalds porque tu nunca vai ter futuro na área
MAS AÍ
tu empresta seu trabalho pra alguém da cultura maioritária, ele cópia teu trabalho inteiro, tira A e ainda ganha convite pra ir no Faustão falar pro Brasil inteiro sobre como ele é foda e original.

O problema é que, o professor, a banca que julga teu trabalho e os produtores do Faustão nessa simetria são o sistema, sabe?
São eles que dão peso diferente pras duas produções.
Não é como se o maluco que copiou teu trabalho fosse um cara malvadão que tá lá rindo dizendo que vai foder você porque sim.
Então é meio babaca tu ir na página do Facebook desse maluco postar meme e fazer campanha pra ridicularizar o parça, sendo que é todo o sistema que tá errado em julgar os dois de modo diferente e de não ter reprovado o sujeito também — afinal, não pode copiar trabalho, né? Então…

Ok
vocês provavelmente dirão que eu tô fazendo “defesa de apropriador”, “passando pano” ou sei lá o que.
Mas porra, o cara não vai sozinho “””””se apropriar e destratar toda uma cultura””””” o desgramado precisa sim de todo um aval sistêmico pra isso.
Sem esse aval ele seria expulso por copiar trabalho do amiguinho, caspita!
*vemos aqui eu me apropriar de um termo da cultura italiana, risos *

No caso da designer “pixadora”, a mina pode ser mó ser humano de boa, ter gatinhos, ajudar crianças carentes e ter tido de fato a intenção de fazer pensar com sua obra — esse não é um julgamento de valor sobre a pessoa pois, isoladamente, ela não teria o poder de fazer sua obra receber tanta atenção se já não existisse uma estrutura fazendo esse trabalho. Ela poderia ser escrotizada a vida toda por usar algo “tão baixo” em seu trabalho, porém ali, dotado de termos “conceituais” e posto como um trabalho de alguém que “homenageia a estrutura urbana da cidade de São Paulo”, é vista como genial, o mercado acha lindo, a elite acha impactante, as pessoas realmente acreditam que ela é capaz de mandar “um recado pro prefeito” bem mais relevante do que os recados dados por todos os grafiteiros e pichadores que se reuniram em atos de resistência desde que iniciaram no meio… Aí eu pergunto, se formos todos à página pessoal dessa designer em uma rede social qualquer e montarmos uma força tarefa para ofende-la, xingar, expôr e essas parada tudo — estaremos resolvendo o problema ou transformando a mulher em uma “mártir do bom gosto” que se encaixará perfeitamente naquele discurso forçado que tentará nos colocar como “intolerantes”?

Eu vejo gente indo perguntar em grupo se pode dar um turbante de presente pra mãe branca idosa que entrou em depressão após perder o cabelo por causa de quimioterapia — e a galera caí em cima como se a senhorinha com câncer fosse o problema.

O problema não tá no fulano do Jardim Europa comendo acarajé, velho, segura ae

Ao mesmo tempo tem uns maldito FOLGADO PRA CACETA que cola no meu inbox dizendo que estudam e amam a cultura negra ou mandando foto da família toda pra dizer que a tetravó era “escurinha” e usando isso pra ME PERDIR PERMISSÃO pra colocar dread no cabelo.
Nessas horas eu só penso:
porra, muleque, eu não sou sua mãe não, ow!
Que diabo de permissão eu tenho que dar pra pessoas cujo a sociedade toda já permite que façam o que quiserem da vida?
- e até parece que os cara desiste se eu falo que não é uma ideia legal, eles só continuam argumentado até eu mandar um (Y) e ir lavar minhas panela, aí quando vou ver, tá lá os dread ganhando like no instagram -

Recentemente alunos de um curso de extensão em publicidade — todos comunicadores e publicitários formados — me perguntaram sobre isso durante uma aula que dei por lá.
E eu respondi que a publicidade também é culpada sim. Ela tem papel nisso. Ela também é um braço do sistema e um dos maiores meios de divulgação dos ideais do capitalismo. Ela que ajuda a vender o negro de dread como drogado sujo e o branco de dread como o alternativo amigo da natureza. Ela que divulga o trabalho da pichadora de porcelana como inovador, mas continua colaborando com o discurso que criminaliza os que inspiraram a idéia. Por que ela resolve colocar uma mulher loira padrão europeu usando turbante em uma capa de revista, comercial ou propaganda, mas jamais usaria uma mulher negra ou uma mulher de origem árabe de turbante para a mesma peça? Fazendo isso, a publicidade está sim colaborando pra que certos elementos só sejam bem vistos e valorizados se antes passarem por uma “limpeza étnica” e está sim colaborando também para que os que não passaram por essa “limpeza” continuem sofrendo preconceito por aí, se mantendo a margem do sistema.

Em sociedades que passaram por segregação isso é ainda pior e mais descarado.
Por isso que a Iggy sei lá o que azaléia lá causa tanto questionamento quando ganha prêmio cantando rap.

Então, minha opinião é que vocês focam no inimigo errado, insistem em colocar uma questão sistêmica como problema individual e em pôr as coisas na linha do “quem pode” e do “quem não pode”.
A permissão a sociedade já deu.

Capitalizados e com seu significado cultural original alterado ou esquecido os elementos já estão.
A gente tem é que aprender a atacar quando vemos os discursos oficiais endossando isso, a reclamar quando a banalização disso permanece sendo vendida nos bailes da Vogue.

Ou continuem aí postando meme e xingando em foto de perfil de branco com trança.
Ceis que sabem.
Não sou mãe de vocês também — e muito menos dos brancos que querem fazer dread, então por favor, encaminhem seus formulários de permissão para mudança de penteado para outro setor.

Agradecida.


** Suzane Jardim é historiadora.


Fonte: Portam Medium

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes