domingo, 29 de janeiro de 2017

Projeto cria "fortalezas" para preservar alimentos em risco de extinção


A variedade de produtos nas prateleiras do supermercado escondem uma realidade irônica: há, sim, muitas opções, mas quase sempre de um só tipo de alimento. Isso quer dizer que uma pessoa encontrará sem muita dificuldade várias marcas diferentes de arroz branco, por exemplo, mas provavelmente ficará desapontada se procurar arroz vermelho. Talvez você também se lembre de frutas, verduras e legumes comuns na sua infância, mas que, de repente, parecem ter desaparecido. Isso acontece porque alguns alimentos estão, literalmente, entrando em extinção.

Pensando nisso, o projeto Arca do Gosto — idealizado pelo movimento Slow Food e feito em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina e com a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (Sead) — quer catalogar as iguarias que correm risco de sumir de vez. O projeto é o primeiro passo da iniciativa Alimentos Bons, Limpos e Justos, que visa incentivar o olhar sustentável e voltado para a saúde quando o assunto é o que colocamos em nosso prato. O projeto é mundial e conta com a participação popular para a indicação de produtos que devem entrar no catálogo.

Atualmente, a Arca conta com mais de 4 mil produtos, sendo 136 brasileiros. A meta, de acordo com Nadiella Monteiro, consultora para Slow Food da Sead, é chegar a 27 “fortalezas” (veja quadro), que serão levadas a mercados e feiras para que o público tome conhecimento dos produtos. “Afinal, o consumidor é quem define se o alimento vai ser extinto ou não. Se ele não sabe que existe, vai sempre comprar a mesma coisa”, ressalta. Além de identificar os alimentos quase extintos, o projeto tem como base valorizar quem o produz. O incentivo à agricultura familiar e ao encurtamento da distância entre o produtor e o consumidor tem grande impacto não só no meio ambiente, mas no valor final do alimento, que fica mais barato, já que não precisa de intermediários, como um supermercado.

Esses são, justamente, os alimentos considerados bons, limpos e justos: produtos produzidos a partir de técnicas sustentáveis e sem agrotóxicos, que respeitam o meio ambiente e geram valorização ao trabalho dos agricultores. De quebra, esses alimentos têm gosto e aroma em geral muito superiores aos daqueles expostos nas gôndolas convencionais.

Renê Birochi, professor de administração na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e um dos coordenadores do projeto, explica que a ideia também é facilitar o diálogo entre pequenos produtores, feiras/mercados e consumidores. “Pequenos mercados que trabalham com orgânicos e restaurantes com essa demanda têm dificuldade de encontrar produtos com garantia de origem”, justifica. A credibilidade do produto, portanto, é uma consequência do projeto, já que ele mapeia quem são e onde estão os agricultores.


Balaio de sabores

Entenda como funciona o projeto e saiba como fazer parte dele:

- O primeiro passo do projeto Alimentos Bons, Limpos e Justos é a Arca do Gosto — a partir de indicações, o catálogo mundial vai sendo montado.

- Qualquer pessoa pode indicar um alimento para a arca. Basta acessar http://slowfoodbrasil.com/arca-do-gosto/indique-um-produto e preencher um formulário.

- Além de matérias-primas, podem ser indicadas espécies e variedades vegetais, bem como raças de animais domesticados.

- Em seguida, o item passa por uma análise em que os especialistas avaliam critérios, como a tradicionalidade e a dificuldade de o produto ser encontrado em mercados.

- Uma vez catalogados, os produtos são agrupados a partir do local em que se encontram. Começa a segunda etapa do processo, chamado Comunidades do Alimento, uma reunião de dados de todos os atores da cadeia produtiva, do agricultor ao consumidor.

- A etapa seguinte é a formação das chamadas fortalezas, uma força-tarefa para fortalecer os produtos que estão prestes a serem extintos. Aqui, são feitas pesquisas para pensar em estratégias para incluir os produtos no mercado.

- Ao mesmo tempo em que acontece a categorização dos alimentos, as instituições parceiras oferecem capacitação em ecogastronomia a jovens rurais. Há também o trabalho de divulgação dos produtos aos consumidores.


É dia de feira

O pequeno agricultor cultiva sua produção respeitando o tempo que o alimento precisa para amadurecer. O escoamento dos produtos é feito de forma muito mais modesta que os grandes planos logísticos adotados por grandes redes de varejo: muitas vezes, as verduras, frutas e legumes são levados às feiras e restaurantes pelos próprios agricultores. Como os alimentos não têm nenhuma química, duram o tempo que têm que durar, ou seja, não aguentam longos períodos de viagem ou muito tempo parados nas prateleiras. Tudo isso dificulta a vida do agricultor familiar, como explica Renê Birochi, um dos coordenadores da Arca do Gosto: “É preciso garantir que sejam construídos canais sustentáveis para que o agricultor familiar consiga estimar quanto vai produzir e quanto disso será vendido”.

O agricultor familiar precisa estimar um preço justo, suficiente para sustentá-lo até a próxima safra. Atualmente, ainda de acordo com Birochi, o que acaba acontecendo é que as grandes redes de varejo abocanham quase todo o mercado de alimentos. Por isso, o projeto exalta a criação de espaços próprios para a venda de orgânicos, em extinção ou não. Mas e as feirinhas orgânicas, que hoje brotam mais que chuchu na cerca? “Hoje em dia, o mercado de orgânicos está em franco crescimento, mas está reproduzindo a mesma lógica de concentração de poder econômico para grandes varejistas”, analisa Renê Birochi. “Continua a mesma relação assimétrica de desequilíbrio em relação ao agricultor familiar. Não adianta ter um produto livre de agrotóxicos, mas que continua remunerando mal o agricultor.”

Nesse sentido, as CSAs (comunidades que sustentam o agricultor) são muito importantes. A ideia delas é estabelecer uma relação de confiança entre os agricultores e os coagricultores, termo usado para definir quem faz parte da iniciativa. Funciona assim: o agricultor apresenta todas as informações sobre seus custos de produção. O valor é dividido em cotas mensais, pagas pelos coagricultores, que passam a ser financiadores daquele agricultor. Em troca, os participantes recebem uma cesta com os itens produzidos. Assim, tudo o que for colhido já estará pago e vendido, descartando a necessidade de atravessadores.

Daniela Ângelo Miranda, 42 anos, é uma das organizadoras da CSA que funciona em uma escola da Asa Norte. A psicóloga revela que a iniciativa conta com mais de 20 coagricultores. Além de ajudar a financiar a produção de alimentos comprovadamente sem agrotóxicos, Daniela acredita que a CSA é uma maneira de sensibilizar as crianças para a questão ambiental. “Fazemos visitas aos locais de produção com as crianças, que têm a oportunidade de ver como é o plantio, colher e entender a sazonalidade dos alimentos”, descreve.

Para participar, é preciso ser indicado por um membro da CSA. O interessado assina um termo de compromisso e recebe uma cesta semanal, com dez a 12 itens, entre folhagens, verduras, legumes e frutas. “O legal é que você começa a consumir alimentos que antes não conhecia”, completa. Daniela diz que começou a se aprofundar no assunto com o objetivo de esclarecer as filhas, de 4 e 8 anos de idade. Informar-se sobre a origem do alimento, o valor do orgânico e entender sobre economia circular e colaborativa foram os passos seguintes. “Na nossa comunidade, além de nos preocuparmos em saber que os agricultores estão bem para fornecer um alimento bom, também ficamos preocupados com as trocas”, comenta. As trocas funcionam entre os membros de maneira simples: se há algo sobrando na sua cesta e faltando na do outro, os participantes fazem o escambo.

A interação entre os coagricultores e agricultores é outra vantagem do processo. Todos se chamam de família. “Esse movimento social colaborativo integra as pessoas. Isso foi o que me encantou desde o começo”, descreve Daniela. “A preocupação começa dentro de casa, mas quando você vê o alcance disso, acha que o seu é muito pouco. Sua vida muda, porque você começa a se alimentar melhor, mas você passa a ver a vida dos seus amigos mudar, dos agricultores e também a do planeta.”

O músico Antoine Espagno, 57 anos, é um dos coagricultores da CSA. O interesse por produção de comida vem de anos, assim como a noção das vantagens dos circuitos curtos de produção e distribuição de alimentos. A taxa de R$ 298,08 também é satisfatória: antes, Antoine gastava cerca de R$ 400 por mês em alimentos orgânicos para ele, a esposa e a filha. “Se for comprar orgânicos no supermercado, você vai pagar mais que o dobro disso”, compara.

Além da distância física entre agricultores e consumidores, Antoine ressalta que o CSA ajudou a diminuir a distância emocional entre as pessoas. “Conheci os agricultores, fui à casa deles, conheci o processo inteiro”, comenta. Mas é preciso ter em mente que a natureza tem seu próprio tempo: a cesta só vem com o que está na época. Esse detalhe, contudo, não incomoda nem um pouco Antoine. “Tem períodos que não tem tomate, mas sei que eles virão em dois, três meses. Acho que a pessoa tem que se virar para comer bem e o melhor jeito é esse, não tenho dúvidas.”


Alguns alimentos em risco extinção

Abiu
Alfenim
Aluá
Ananás
Araçá-vermelho
Araruta
Araticum
Aratu
Arroz nativo do Pantanal
Arroz vermelho
Arubé
Assa peixe
Avium
Babaçu
Bacaba
Batata da serra
Baunilha do cerrado
Beiju sica
Berbigão
Bergamota montenegrina
Bijajica
Bocaiúva
Buriti
Butiá
Cacau cabruca do sul da Bahia
Cacauí
Cagaita
Cajuí
Camapu
Cambucá
Cambuci
Cari
Castanha de Baru
Crem
Farinha de batata-doce Krahô
Farinha de mandioca de copioba
Feijão-canapu
Feijão-macuco
Goiabada cascão
Grumixama
Guabiroba-rugosa
Guaraná nativo Sateré-Mawé
Jambú
Jaracatiá
Jatobá
Jenipapo
Jerivá
Kochkäse
Licuri
Mangaba
Mapati
Maracujá da caatinga
Marmelada de Santa Luzia
Mático
Mel de abelha canudo dos Sateré-Mawé


Fonte: Portal Slow Food Brasil / Portal da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (Sead) / Jornal Correio Braziliense

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