quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

“Nós, homens, pensamos que as mulheres são nossas”


Nestas sessões só entram homens denunciados à polícia. Muitos foram até condenados a pena de prisão. Crime: violência doméstica. O que muda na vida destes homens — e das mulheres deles?

Eusébio, 54 anos, regressa à sala onde durante quase cinco meses passou os finais de tarde, uma por semana, num programa para agressores conjugais. Tem pose de militar — ombros largos, cabeça rapada, uma atitude confiante —, mas foi na indústria farmacêutica, como delegado de propaganda médica e gestor, que fez carreira. Actualmente, é sócio de uma empresa que vende medicamentos.

Há, nesta sala, numa cave de um prédio de Cascais, várias cadeiras encostadas à parede, alinhadas em semicírculo. É aqui que funciona uma das componentes do chamado Programa Contigo: as sessões de grupo. Eusébio fez as 18 previstas. E ainda elas decorriam quando se reconciliou com a mulher, que apresentara queixa contra ele por violência doméstica.

— Como é que veio aqui parar?— Foi uma imposição, como acontece com a maioria das pessoas que para aqui vêm. Não fui a julgamento. Foi o Ministério Público que me disse: “Se aceitar isto, fica com o cadastro limpo. Mas só se acabar o curso... quer dizer, o programa.” E eu ponderei e achei que era a melhor solução para a situação em que me encontrava. Estava casado havia muitos anos...

— E houve uma queixa contra si...— Ela fez queixa de mim por violência verbal e psicológica.

— Física também?— Não. Nunca cheguei a esse ponto. Mas o passo é muito pequeno... Não vou falar das circunstâncias, ninguém tem nada a ver com isso. Nós, homens, pensamos que as mulheres são nossas. Que casamos e que as mulheres são nossas. Eu achava isso e nem me passava pela cabeça outra coisa. A minha mulher interessar-se por outra pessoa? Nunca.

— Até que ela pediu o divórcio...— Não, eu é que a pus fora de casa. Porque ela assumiu... [silêncio]. Ela não assumiu nada. Houve uma altura em que aquilo rebentou e eu percebi que havia...

— Outra pessoa?— Foi um turbilhão de emoções. O limiar da loucura é muito... é uma linha tão ténue. É perda, raiva, traição. O que você quiser chamar. As pessoas descontrolam-se. Esses homicidas que matam... pronto, não vou dar razão a ninguém. Mas o limiar é muito pequeno. E as pessoas não estão preparadas. Eu considerava-me uma pessoa normal. Eu tinha um casamento normal... As pessoas ficam num estado de... Não, não é de loucura. É de estar sempre a pensar na mesma coisa. Sempre na mesma coisa. Querem vingança, sei lá! Eu tive a sorte, depois daquele episódio em que me passei, de ter pessoas da minha família que me levaram a um psiquiatra, que me medicou.

— Quando chegou a este programa achava que precisava de estar aqui?— É muito difícil. O homem sente-se sempre injustiçado. Alguns estão cá porque bateram nas mulheres, outros porque tiveram... bom, todos tivemos uma atitude violenta. Os homens sentem-se injustiçados porque acham sempre que a mulher os traiu, ou porque não os deixa ver os filhos, ou... Você está divorciado: no dia x a mãe tem de dar o filho, muitas vezes as mães não dão filho nenhum. O pessoal passa-se e parte a porta. Parte a porta, ela chama a polícia... Mas à medida que o programa avança, as pessoas começam a acalmar. Você agora pode perguntar: “Hoje faria o mesmo?” Ora, não! E posso dizer que sou uma pessoa diferente. Mas na altura... Eu digo-lhe uma coisa, estive no limiar de... Ah, digo-lhe, se tivesse uma caçadeira tinha ido tudo à frente. Por acaso não tinha. E se tivesse? E se fosse caçador? A melhor coisa que há é a gente não ter.

O Programa Contigo Cascais é um “programa psicoeducacional” que procura junto dos agressores conjugais “promover uma mudança de atitudes e percepções face aos seus comportamentos violentos, apostando desta forma na prevenção do crime de violência doméstica”. É a definição oficial que consta das brochuras.

Existe desde Setembro de 2010. Funciona no âmbito do Fórum Municipal de Cascais contra a Violência Doméstica e resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal de Cascais, a Direcção-Geral de Reinserção Social e Prisional (DGRSP) e a Fundação Portuguesa Para o Estudo, Prevenção e Tratamento da Toxicodependência. Tem como base a metodologia seguida num outro programa, nascido nos Açores, que também se chama Contigo.

Em Cascais, abrangeu, até agora, 70 homens. Mas só há estatísticas trabalhadas para 62, já que o último grupo de 8 acabou as sessões há poucas semanas. Alguns dados: 27 foram condenados a prisão por um crime de violência doméstica, mas o juiz entendeu que podia suspender a execução da pena se cumprissem certas obrigações, como a frequência do Contigo.

Outros 30, como Eusébio — nome fictício, escolhido pelo próprio, que é benfiquista —, não chegaram a ser julgados. Houve uma queixa, o Ministério Público avaliou e propôs — e um juiz homologou —, uma suspensão provisória do processo, sob condição de cumprimento de certas regras, entre as quais, também, a frequência do Contigo. “Se ao fim do tempo da suspensão provisória do processo, geralmente dois anos, ele cumpriu o programa, não reincidiu e há informações positivas da Direcção-Geral de Reinserção, o processo é arquivado. Com a vantagem de não haver registo criminal”, explica Margarida Batista, coordenadora da Equipa Lisboa Penal 4, da DGRSP.

Homens a voluntariar-se para frequentar também há, mas poucos, alguns dos quais encaminhados pelas comissões de protecção de crianças — em cada dez casos de agressões, há seis em que os filhos estão presentes.

Mais de metade dos agressores conjugais do Contigo, dizem ainda as estatísticas, têm no máximo 39 anos. E Margarida Batista diz que são cada vez mais novos: “Porque são mais novos? Nestas coisas nunca há só uma explicação. Mas a violência está generalizadíssima, as crianças começam a comer violência desde o berço, na televisão, na Internet, nos jogos...”

Alguns cresceram em famílias onde já havia violência doméstica, “culturalmente aceite”, como diz Sofia Costa, psicóloga da Fundação Portuguesa Para o Estudo, Prevenção e Tratamento da Toxicodependência. E há quem chore na sessão onde é pedido que alguém leia uma carta fictícia de um filho a um pai violento: “Identificam-se simultaneamente como filhos-vítimas e pais-agressores.”

Mas ninguém está aqui para justificar coisa nenhuma, ou para “branquear”, fazem questão de sublinhar. Margarida e Sofia acreditam tão-só que é possível reabilitar.

Mais alguns dados: a esmagadora maioria (85%) dos utentes do Contigo agrediram verbal e fisicamente as companheiras. Uma minoria, 12%, foram alvo também de uma medida de proibição de contacto com elas. Nas sessões de grupo, contudo, muitos nunca chegam a contar o que fizeram às mulheres, apesar das fortes ligações que segundo Sofia Costa se vão estabelecendo entre utentes. Vergonha?

Até o comunicativo Eusébio não entra em detalhes sobre aquilo a que ele chama “o episódio em que me passei” e que esteve na base da queixa à polícia que a mulher apresentou contra ele.
"O limiar da loucura é muito... é uma linha tão ténue. É perda, raiva, traição. O que você quiser chamar. As pessoas descontrolam-se", Eusébio

Apenas mais um indicador: há dez homens que já terminaram o programa há pelo menos dois anos. É esse o período previsto, dois anos após o fim da frequência, para que se possa fazer uma avaliação do seu sucesso. A coordenadora da DGRSP fala de uma taxa de 80% de não reincidência: ou seja, em oito casos não voltou a haver registo nos órgãos de polícia criminal de novas queixas por violência doméstica.

A responsável gostava de poder fazer também a avaliação junto das companheiras destes ex-“clientes” do Contigo, mas não há meios humanos nem tempo para tal, diz. A taxa de não reincidência apurada é entendida, contudo, como muito positiva.

Jorge, 32 anos, não se considera um agressor. E Marta, a mulher dele, com 28 anos, mas um rosto que parece mais jovem do que isso, diz-nos que nunca devia ter apresentado queixa à polícia contra ele — uma primeira e única queixa de que se arrepende. Ou seja, Marta não se considera uma vítima.

Aliás, diz ela, o que ele fez — na verdade, ela não diz o que ele lhe fez, nem ele quer contar o que lhe fez a ela — “não foi violência doméstica”. Foi o quê?

“Foi o quê?”, pergunta ela, repetindo a sorrir a pergunta, enquanto olha para ele. E ele responde: “Um desentendimento nosso. É a vida. Falta de comunicação.” Marta acena afirmativamente.

Trabalham ambos como empregados de balcão, estão juntos há sete anos (só houve aquela interrupção, “daquela” vez, quando “aquilo” aconteceu). Têm dois filhos. Chegam juntos para a entrevista com a Revista 2, na mesma sala onde dias antes estivemos com Eusébio, nas instalações da Fundação Para o Estudo, Prevenção e Tratamento da Toxicodependência. É uma tarde fria de Fevereiro e passaram apenas alguns dias desde que o Parlamento aprovou na generalidade uma proposta do PSD e do CDS-PP onde, entre outras, se reforça a ideia de que os arguidos com suspensão de execução de pena devem ser necessariamente abrangidos por um “plano de reinserção”.

Quando Jorge foi chamado pelo Ministério Público, há pouco mais de um ano, já estava outra vez com Marta, e já ela se tinha arrependido da queixa como, aliás, acontece tantas vezes noutros casos — ainda recentemente a procuradora da República Maria Fernanda Alves, que coordena a Unidade contra o Crime de Violência Doméstica do DIAP de Lisboa, lamentava em declarações ao PÚBLICO que muitas vítimas que até fazem queixa acabassem posteriormente por remeter-se ao silêncio, o que dificulta a obtenção de prova. O ciclo está amplamente estudado e por vezes termina mal: agressões, reconciliações, agressões, por vezes cada vez mais graves... Em 2014, morreram 35 mulheres às mãos de maridos ou ex-maridos, companheiros ou ex-companheiros, namorados ou ex-namorados, segundo o Observatório das Mulheres Assassinadas da organização UMAR.

Marta insiste: não foi vítima de crime nenhum.

O tribunal decidiu então suspender o processo de Jorge, com a concordância de Marta e a condição de ele frequentar o Contigo. E quando já se tinham iniciado as sessões de grupo, foram pais pela segunda vez — a bebé tem agora quatro meses.

É ele quem responde à maioria das perguntas.

— Quando lhe disseram para vir fazer o programa, o que é que lhe explicaram?— Explicaram-me o que era, mas eu não percebi bem. Já sabia que ia estar mais gente e que tínhamos de falar da parte mais íntima. Por isso, as pessoas entram aqui um bocado com o pé atrás, com medo de falar algumas coisas. Eu era o mais novo. Um colega meu que estava na sala disse: “Estou cá de férias.” Até nos rimos, porque ele também já estava com a esposa quando veio fazer isto. As pessoas achavam que não era preciso estar aqui e eu ao início também dizia isso. Mas hoje em dia... continuo a achar que não fiz nada... nada, entre aspas. Em termos de agressão física, nunca houve, foi muito mais verbal. Nossa. Discussão familiar. Há discussões em todos os casais, mas ali... Era o bate-boca, mutuamente, nunca foi nada de deixar marcas. É por isso que eu digo, em parte, não valia a pena estar cá. Mas hoje em dia estou agradecido por ter estado, porque me ajudou muito a pensar numa série de coisas.

— Por exemplo?— Aprendi a parar antes de falar. Parar, pensar e falar. Se não paramos e pensamos, sai tudo o que não queremos. O programa ajuda a autocontrolarmo-nos. Muito, mesmo. No final de cada sessão, davam-nos umas cartas [semelhantes a cartas de jogo] com frases, uma espécie de dicas... Por exemplo, “um elogio por dia nem sabe o bem que fazia”. E depois davam-nos TPC e na outra semana tínhamos de falar sobre o que tínhamos feito com a dica durante a semana. Não é só na vida familiar, na vida profissional também. Por exemplo, no trânsito, sou uma pessoa muito mais calma hoje, consigo controlar-me muito mais.

— O que é que foi mais marcante?— Houve um dia que nos pediram para escrever uma carta à nossa companheira, escrita cá, em grupo, e depois lida. Temos de ser o mais sinceros possíveis. E só fui buscar as coisas boas. Até me estou a comover de falar disso. Tenho o dossiêzinho todo lá em casa, as cartas, os textos, os desenhos, o que fiz aqui. Acho que este programa é bom para toda a gente. Para os arguidos e para os não arguidos. Se calhar até era uma coisa para se começar a falar nas escolas, a partir do 7.º ano ou assim... Acho que já há escolas que falam um bocado da violência doméstica, da violência no casal, da violência no namoro... há uns anos ninguém falava disso.

Marta ouve-o e sorri. Toma a palavra.

— Quando ele veio para o programa, eu até estava um bocadinho com o pé atrás. Mas por que é que tem de ir todas as quartas-feiras? Não bastava apresentar-se e pronto? Depois, ele chegava a casa e contava-me o que faziam. Percebi que lhe fazia bem, até para eles desabafarem, verem os casos uns dos outros. Não é que o caso dele fosse grave, porque não foi. Mas ele vinha para casa mais calmo. Ele está muito mais calmo. Por exemplo, qualquer coisa e ele não explode logo. Isso faz toda a diferença. Os dois, já não explodimos tão rápido quando estamos a falar de alguma coisa.

A intervenção do Contigo é estruturada da seguinte forma: há uma fase de avaliação, em que a DGRSP analisa se os arguidos encaminhados pela Justiça cumprem os requisitos de frequência (não ter uma doença psiquiátrica grave é um deles).

Segue-se o módulo psicoeducativo — constituído pelas 18 sessões semanais onde os agressores estão em grupos de oito, dez no máximo.

Há uma monitorização continuada, ao longo de dois, três anos, por vezes mais, conforme a duração da pena que foi suspensa. “Estamos sempre a monitorizar os indivíduos”, prossegue Margarida Batista. “Há um trabalho de motivação, de prevenção da recaída, vamos tendo contacto com a vítima, para ir percebendo o que está a acontecer. Na maior parte das vezes, a vítima está a viver com o agressor e, mesmo quando estão separados, há frequentemente filhos, têm de interagir.”

Se o agressor tem um problema de adicção

dependência (álcool, drogas, por exemplo), pode também ser encaminhado para terapia específica. E só depois de estar minimamente estabilizado integra as sessões de grupo.

Pode ainda haver lugar a terapia familiar, no fim do módulo psicoeducativo, se os dois membros do casal aceitarem.
"Aprendi a parar antes de falar. Parar, pensar e falar. Se não paramos e pensamos, sai tudo o que não queremos", Jorge

Qualquer coisa e ele não explode logo. Isso faz toda a diferença. Os dois, já não explodimos tão rápido quando estamos a falar de alguma coisaMarta

Um dos pressupostos do Contigo é o de que “a violência existe numa relação”, prossegue Margarida. “Não acontece sozinha. Há um agressor e há uma vítima. Por isso, quando foi concebido, nos Açores, era para ser aplicado a agressores e a vítimas. Contudo, não tem sido possível, para já. Primeiro, porque as vítimas não aderem. Depois, porque isso implicaria alguma mudança na forma de trabalhar e ainda não chegámos lá — era preciso que existissem instituições que acompanhassem as vítimas ombro a ombro, desde que é feita a participação, e ao longo de todo o processo.”

Talvez com acompanhamento acrescido, diz, diminuísse o número das que desistem de falar quando são chamadas ao tribunal (pelo menos as que o fazem por medo de ficarem sem rede se ficarem sem marido).

Ainda assim, sublinha, as mulheres dos agressores do Contigo têm sempre à sua disposição o Espaço V, um serviço de atendimento e acompanhamento de vítimas de violência doméstica, que integra o Fórum Municipal de Cascais contra a Violência Doméstica. Mas a maior parte das mulheres não quer: “Um dos critérios para a integração no Programa Contigo é os agressores não terem cometido antes crimes de violência doméstica. Serem primários. Talvez por isso, muitas das nossas vítimas não se sentem em risco de vida, por exemplo. E dizem: ‘Eu não preciso de ajuda nenhuma, ele é que tem de se tratar, ele é que tem de resolver a vida dele. É um problema dele’.”

Eusébio diz que sabia ao que ia. Na multinacional onde trabalhara 20 anos, tinha frequentado acções de formação empresarial destinadas a comunicar melhor com os clientes. Achou as sessões de grupo do programa para agressores conjugais parecidas com isso.

— Há bocado disse que não foi o programa que o fez chegar a ponto de ter a convicção de que não vai voltar a ser violento...— Não foi o programa, mas ajudou.

— No quê?— As pessoas falam, libertam emoções e saem daqui com uma sensação de alívio, é o que me parece. Mas eu compreendo perfeitamente o que é que os psicólogos querem, percebo perfeitamente o que estão a fazer nas sessões e o que pretendem...

— E o que é que pretendem?— Ajudar e mudar comportamentos, é lógico. Eu percebia as perguntas que eles faziam, os jogos que eles faziam, as atitudes que eles tinham porque já tinha feito outros cursos. Tive uma experiência de vida muito rica.

— Portanto, é um cliente mais difícil.— Não, eu adorei estar cá.

— Quando é que voltou a estar com a sua mulher?— Ainda estava no programa. Eu já tinha outra relação e a minha mulher tinha outra relação. A minha filha estava a viver com a minha mulher — agora já acabou a faculdade. Neste processo, eu também não me portei bem com a minha filha. Passei-lhe um bocado as culpas e isso não se faz. Na altura [da queixa por violência doméstica], eu queria que a minha filha fosse solidária comigo. Mas era a mãe dela, não é? O que é que ela havia de fazer? Sofreu duas vezes: os pais separados e o pai maluco. Estive quase um ano sem falar com ela. E estava proibido pelo tribunal de falar com a mãe. Mas depois... na relação que a minha mulher tinha com outra pessoa, as coisas não correram bem. Eu também não era feliz. E um dia, pronto, decidimos dar uma chance. Recomeçámos a vida.

Em cada sessão de grupo, há sempre dois técnicos a conduzir os trabalhos: um homem e uma mulher. Sofia Costa está presente em muitas. Nas primeiras, explica, debatem-se as crenças e os estereótipos. Para que “os senhores tomem consciência de que a violência não é aceite, que é um crime”. Trabalha-se depois “a raiva, a zanga e como expressá-las”. Encenam-se situações-tipo — discussões, por exemplo — que depois são debatidas pelo grupo.

Um dos papéis que é pedido aos agressores para vestirem é o de vítimas. “Conseguir verbalizar o que ocorre quando sou vítima de uma situação de violência, colocar-me na situação do outro, não só o ‘outro-companheira’, mas também dos filhos, por exemplo, é qualquer coisa que a grande maioria nunca trabalhou até chegar aqui”, continua Sofia Costa.

Aprendem-se técnicas para saber o que fazer quando se está à beira de perder o controlo — “E algumas destas pessoas têm elevados graus de conflitualidade em diferentes contextos sociais, no trabalho, por exemplo.”

No final de cada sessão, os técnicos fazem uma avaliação de cada agressor. E no fim das 18 sessões, há uma avaliação global. Nem todos chegam ao mesmo ponto, admite a psicóloga: “Depende de muitos factores, da estrutura da personalidade da pessoa, da sua capacidade cognitiva, da capacidade de reflexão.”

Eusébio resumirá assim a questão: “Há pessoas que se vê que estão aqui a fazer um grande frete. Não tiram nada de positivo. É como tudo na vida, como gerir uma equipa: tens os bons, os maus... O que é que eu lhe posso dizer? Há pessoas que é escusado.”

Rui, 34 anos, já foi jogador de futebol, mas uma lesão grave fê-lo abandonar os relvados quando ainda não tinha 20 anos. Hoje é um motorista particular com um corpo de desportista, que faz questão de manter musculado. Frequentou o último grupo do Contigo Cascais como voluntário. Explicar porquê é uma longa história que custa contar — engole em seco, prossegue, pára, avança. Diz que teve uma vida difícil: a lesão quando estava à beira de ir trabalhar para Espanha; a morte do pai; a morte de um irmão... Um dia apaixonou-se pela companheira actual, “linda, uma deusa”. Foi há dez anos. Tiveram uma filha, que tem agora seis anos, e vivem “numa casa com três pisos”, ele que sublinha que nasceu numa barraca.

Mas a mulher começou a consumir cocaína, conta, depois começou a beber. Os conflitos tornaram-se cada vez mais frequentes. Até que um dia...

— O que é que aconteceu?— Um dia houve uma festa lá em casa, ela fazia anos. Levou umas pessoas para lá. Drogaram-se lá em casa. Foi a minha gota de água. Começámos a entender, a entender, a entender, e ela veio para cima de mim agressiva e eu, naquele momento, naquele momento perdi a cabeça, virei-me para ela... [silêncio] Depois, saí dali de cabeça perdida. Fui ao Hospital São Francisco Xavier falar com um psicólogo, no mesmo dia, porque estava mesmo... [silêncio] Bati-lhe. Ela ficou com hematomas... Já tinha havido agressões de parte a parte... mas nunca tinha sido daquela maneira. A GNR foi lá a casa, ela não apresentou queixa. Mas aquilo foi para a comissão de protecção de menores.

— E depois?— Na protecção de menores, disseram-me: “Há um programa que achamos que era bom tu ires.” E sim senhora, eu vim. Posso dizer que se não fosse este programa se calhar já tinha acontecido outra vez. Ela não bebe todos os dias, mas quando bebe não consegue parar. Neste momento, quando ela começa, e me agride, vou treinar. Antigamente, não conseguia fazer isso. Agora, consigo controlar-me e foi este programa que me ajudou a aprender a fazer isso. A gente vem para aqui com as cabeças duras e as pessoas aqui ajudam-nos a pensar. Fazemos teatros, e isso, parecendo que não... Um faz de homem, outro de mulher... Ajuda.

— É um homem agressivo?— Não acho que seja. As coisas que a vida me fez tornaram-me, se calhar, impulsivo. Apesar daquilo que eu fiz, acho que um homem bater numa mulher é horrendo. Eu olhei para ela... tentei suicidar-me e tudo, depois daquilo que fiz. Sei que naquele dia só tinha de ter pensado, respirado fundo, e pensado “não posso, não posso”, sou muito mais forte do que ela, não posso. Hoje consigo fazer isso. Por isso é que acho que este programa não pode acabar. Vi pessoas que chegaram aqui pareciam pedras e saíram daqui pareciam manteiga. Havia pessoas que eu notava mesmo que eram daquelas que chegavam a casa e diziam “quero isto feito, e aquilo, e não sei que mais”, tipo ditadores. E quando saíram, acho que se tornaram melhores maridos. As pessoas não mudam de uma vez. Mas podem mudar aos poucos.

Em 2009, a Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais lançou o Programa para Agressores de Violência Doméstica (PAVD). Começou no Norte e tem vindo a ser gradualmente alargado ao resto do país. “Visa promover a consciência e assumpção da responsabilidade do comportamento violento e a utilização de estratégias alternativas ao mesmo”, lê-se numa avaliação de Janeiro de 2015.

De 2009 a 2014, estiveram integrados no PAVD 832 agressores, a maioria condenados, segundo os dados oficiais. Só em 2014, foram 652, 19,5% dos arguidos ou condenados pelo crime de violência doméstica passíveis de integrar um programa deste tipo. Destes, 224 participaram nas sessões de grupo — no PAVD, estão previstas 20.

“Na sua estrutura, o PAVD é idêntico ao Contigo”, explica Margarida Batista. “Mas não tem uma lógica tão vincada de parceria e não recebe voluntários, como nós.” Por que razão co-existem os dois programas? “Mantivemos o Contigo Cascais porque há muitas vantagens em receber voluntários, que são elementos com um papel importante nos grupos, têm uma forma de estar diferente, têm uma capacidade de elaboração sobre aquilo que fizeram”, diz Margarida Batista. “E porque há muitas vantagens na parceria: termos diferentes sensibilidades e uma rede de apoio das instituições que estão no fórum [municipal contra a violência], com serviços às vítimas e respostas para as crianças que vivem naquele contexto familiar.”
"Sei que naquele dia só tinha de ter pensado, respirado fundo, e pensado “não posso, não posso”, sou muito mais forte do que ela, não posso", Rui

Alguns dos desafios que se colocam ao Contigo, são igualmente sentidos no PAVD. Segundo o relatório de avaliação deste último, feito pela própria DGRSP, é preciso reforçar os recursos humanos do programa e encontrar “formas de compensação” aos técnicos nos casos em que os grupos de psicoeducacional decorrem em horário pós-laboral.

No Contigo Cascais, o mesmo. Até ao ano passado, as sessões eram asseguradas por três técnicos, um dos quais, precisamente, da DGRSP que não recebia por essa tarefa. Acontece que ele reformou-se. E foi preciso pagar o tempo que ele colocava no programa a quem o substituiu. O Contigo Cascais encareceu. Dantes, as 18 sessões de cada grupo custavam 4890 euros

ano. Agora custam 6150 euros — só salários dos técnicos, integralmente suportados pela câmara municipal, já que as instalações são cedidas pela Fundação e o restante do programa é feito com meios da DGRSP.

Entre os utentes, passou então a ideia de que o programa ia acabar. E há mesmo uma lista de espera de agressores, porque não avançou ainda o novo grupo, diz Margarida Batista. O presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, garante contudo que não haverá desinvestimento e que continuará a financiar o Contigo, garantindo o funcionamento de dois grupos em 2015, aos novos valores (12.300 euros no total).

“Somos uma câmara com boas práticas no combate à violência doméstica, com prémios até, mas o que sentimos é que o que fazemos ainda é uma pequena parte do que é necessário fazer”, explica o autarca. Exemplifica: o município tem o Fórum Municipal contra a Violência Doméstica, tem campanhas de comunicação a apelar à denúncia — “é um crime público, quem não denuncia é cúmplice”, sublinha —, apoia medidas nas escolas para que se fale da violência no namoro. “Mas mesmo com as denúncias a aumentar, temos noção de que é a ponta do icebergue.”

O programa para os agressores, frisa Carlos Carreiras, é só parte da estratégia. “O que os especialistas nos dizem é que nos devemos focar nas vítimas, sim. Mas que também devemos trabalhar com os agressores, com o objectivo de que não voltem a fazer vítimas.”?Os três homens que se disponibilizaram para falar com a Revista 2 estão a viver com as companheiras — tal como 47% dos utentes do Contigo Cascais.

Perguntamos a Jorge e a Marta:

— Discutem menos?

Marta volta a rir. Devolve ao companheiro, pela segunda vez na conversa, a pergunta que lhe fazemos a ela.

— Discutimos menos?

Ele ri-se também.

Perguntamos a Rui:

— Há momentos de felicidade?— Não tem havido muitos... às vezes dou por mim e estou a chorar sozinho. Ela não aceita que tem um problema com álcool. Se me separar dela, tenho a certeza de que vai perder-se. E a minha filha?

Perguntamos a Eusébio:

— O que é que pensa quando vê as notícias da violência doméstica?— É o que eu já disse: aprendi que as pessoas quando casam não são propriedade uma da outra e que têm de cultivar o casamento.

— Houve algum episódio de violência desde que se reconciliaram?— Não. Só as chamadas “mochilas com pedras” que a gente traz.

— O que é isso?— É mandar assim umas bocas. Eu, sobre a pessoa que ela teve, e ela também. Isto não mata, mas mói. Mas pronto! Acho que somos mais felizes, mais solidários, partilhamos mais a vida, temos, se calhar, mais respeito um pelo outro. Às vezes penso: “Será que isto tudo tinha de acontecer?” Quando eu estava no programa, entrou um senhor, muito revoltado. O homem, a qualquer coisa que se dizia, não reagia bem. Eu olhava e pensava: “Será que quando cheguei aqui também estava assim?”


Fonte: Portal Público (Portugal)

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