segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Conheça um pouco sobre feminismo indígena no Brasil e sua importância


Daniela Rosendo claramente explicou que feminismo é uma palavra cheia de significado e para entendermos todas as complexidades e nuances do movimento, que refletem as complexidades e nuances da sociedade, precisamos falar sobre feminismos – no plural. Ao mesmo tempo que todos se conversam e estão relacionados, é importante entender as demandas individuais de cada um.

É por isso que dessa vez vamos rascunhar sobre o feminismo indígena no Brasil. Rascunhar porque realmente não sabemos muito sobre o tema, estamos pesquisando, com desejo de entende-lo e descobri-lo melhor, para alcançar suas vozes mais importantes e suas demandas. Feminismo indígena não é uma pauta frequente, mas é uma pauta importantíssima, principalmente no Brasil atual.

Começamos esse texto deixando claro que o objetivo não é falar pelas mulheres indígenas, mas com elas. Como disse Bia Cardoso em seu texto para o Blogueiras Feministas: “fundamental é conhecer e apoiar as demandas propostas pelas mulheres indígenas, além de lutar por seus direitos e apoiar sua resistência”.


Um pouco da história do feminismo indígena no Brasil

O movimento de mulheres indígenas começou a ser organizado no Brasil na década de 70 e 80. Não era algo institucionalizado, eram mulheres ganhando voz dentro do movimento indígena e levantando questões relacionadas à gênero. Conforme contextualiza a publicação “Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas”:

“As duas primeiras organizações brasileiras exclusivas de mulheres indígenas surgiram na década de 1980. As pioneiras foram a Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) e a Associação de Mulheres Indígenas do Distrito de Taracuá, Rio Uaupés e Tiguié (Amitrut). As demais foram constituídas a partir da década de 1990. Em 2000, na Assembléia Ordinária da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), em Santarém, Pará, foi reivindicada a criação de um espaço específico para as demandas das mulheres indígenas”.

Atualmente, o feminismo indígena está bem mais organizado e articulado do que se comparado às décadas anteriores, e também não é raro vermos mulheres indígenas liderando movimentos que falam não só sobre as questões específicas de gênero, mas sobre questões cruciais do movimento indígena como um todo.

Com o avanço da Internet, mulheres indígenas começaram também a se articular pelas redes, levar as pautas do feminismo indígena a espaços feministas, e atuar por meio do ciberativismo e do etnojornalismo. Há pouco tempo, a Revista AZMina fez uma lista de feministas indígenas para conhecer e acompanhar que vale à pena o clique.


Os enfrentamentos das mulheres indígenas dentro e fora de suas aldeias

O povo indígena é uma minoria social e política e desde 1988 sofre um dos momentos mais violentos de sua história, principalmente pelos frequentes embates com madeireiros e ruralistas na Amazônia. Os dados são de um relatório recente da ONU:

“Para se ter uma ideia, em 2007 o número de índios assassinados chegou a 92. Em 2014, no entanto, esse número havia aumentado para 138. A maior parte das mortes foi registrada em Mato Grosso do Sul. O local é palco de conflitos em razão da disputas de terras, causadas pela lentidão do Governo em demarcar terras ancestrais pertencentes a povos indígenas.

Em decorrência disso, não é incomum que índios sejam despejados, expostos aos riscos de viverem acampados em beiras de estradas ou até mesmo mortos nesses conflitos”. Os índios Guarani-Kaiowá, por exemplo, estão 100% expostos à fome.

Em um relatório mais antigo da ONU, de 2013, o documento destacava como “em todo mundo, povos indígenas sofrem com a exclusão social, a pobreza e a migração, além da discriminação e da invisibilidade social. O estudo mostra que a violência contra as indígenas é intensificada pelo histórico de dominação colonial, exclusão política e econômica e a falta de serviços básicos. Enfrentam ainda negligência, exploração, tráfico humano, trabalho forçado e escravo”.

Além das diversas violências externas, incluindo estupros e exploração sexual, as mulheres e meninas indígenas enfrentam problemas dentro das próprias comunidades, como violência doméstica, e violências resultantes de hábitos externos introduzidos nas aldeias como o abuso do álcool.

“As indígenas reconhecem e denunciam inúmeras práticas discriminatórias que sofrem: casamentos forçados, violência doméstica, estupros, limitações de acesso à terra, limitações para organização e participação política e outras formas de dificuldade enfrentadas em consequência do patriarcalismo presente em suas comunidades. Embora esse seja um campo delicado de tratar, devido ao enfoque específico e multicultural que precisa ser dado, é necessário ouvir o que as organizações de mulheres indígenas estão reivindicando”, explica Mayara Melo em seu texto “Mulheres Indígenas – Opressão, Violência e Resistência”.

São questões que tornam necessário um olhar mais atento para as particularidades da cultura indígena, como um recorte dentro da Lei Maria da Penha para contemplar as diferentes necessidades das mulheres indígenas em relação ao abuso sexual, a proibição de bares dentro das aldeias entre outras ações tomadas de acordo com as especificidades desses grupos.


Ecologia e feminismo indígena: as mulheres indígenas na linha de frente dessa batalha.

São os grupos à margem da sociedade que menos contribuem para as mudanças climáticas e danos ambientais, mas mais são afetados por eles. Dentro desses grupos, são as mulheres que sofrem mais com a devastação ambiental. No Brasil, os índios já sentem os efeitos das mudanças climáticas, mas:

“As mulheres indígenas são as mais gravemente afetadas pelo modelo de desenvolvimento econômico imposto no Brasil. São elas que sofrem de forma mais contundente os impactos provocados sobre o meio ambiente. Quando os indígenas perdem acesso aos recursos ambientais que garantem sua segurança e soberania alimentar, são as mulheres as mais penalizadas, pois geralmente são elas as responsáveis por cuidar da alimentação. Essa é uma característica comum a muitas comunidades tradicionais”, destaca Mayara Melo.

Em contrapartida, são as mulheres indígenas que estão se articulando e enfrentando, diariamente, essas questões. Sônia Guajajara é coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e esteva na Conferência do Clima, a COP 21, em Paris, em 2015.

“Os impactos dos projetos de desenvolvimento têm levado mulheres do mundo inteiro a protagonizar lutas dos mais variados tipos, buscando defender a preservação dos seus ecossistemas, a integridade física de suas famílias e o respeito às suas culturas” – trecho do artigo “Mulheres e lutas socioambientais: as intersecções entre o global e o local”.


Agora é hora de saber mais.

Para que você continue nessa conversa, indicamos alguns sites, matérias e artigos, além dos já citados, para se informar mais sobre o assunto e entender as formas de apoiar o feminismo indígena, e as questões indígenas de forma geral, e já adiantando que um dos pontos mais urgentes para o movimento de mulheres indígenas é avançar nas demarcações de terra – que estão em risco nesse momento com a nova “Proposta de Regulamentação da Demarcação de Terras Indígenas“. Envolva-se em:
  • Kanindé – Associação de Defesa Etnoambiental
  • Racismo Ambiental
  • Radio Yandê
  • Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)
  • Funai
  • Instituto Catitu

Fonte: Portal Geledés

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