domingo, 18 de junho de 2017

Parada do Orgulho LGBT lota Avenida Paulista e defende Estado laico

Foto: Ravena Rosa (Agência Brasil)

Quase 20 trios elétricos animam o público da 21ª Parada do Orgulho LGBT, na Avenida Paulista



A Avenida Paulista foi tomada na tarde deste domingo (18) por milhares de pessoas que acompanham a 21ª Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Transgêneros). Com o tema “Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todas e todos por um Estado laico” , o evento começou por volta das 13h sob o comando da drag queenTchaka, que do alto do primeiro trio elétrico convidou o público a fazer a contagem regressiva para o início da manifestação.

Em seguida a presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, Claudia Regina dos Santos Garcia, falou sobre a importância do tema da parada deste ano. "Todos vocês têm direito de voltar para casa sem enfrentar a homofobia, sem enfrentar desrespeito e nem agressão. Nada pode afetar o nosso direito de amar, o nosso direito de ser quem somos", disse.

Vestida de branco, a apresentadora e modelo Fernanda Lima, madrinha da parada este ano, disse estar feliz por representar a comunidade LGBT. "O Estado é laico. A religião é uma opção individual de cada cidadão e não tem nada a ver com o direito civil, com o direito da sociedade como um todo. Vamos ser livres, sejam o que quiserem, desde que estejam dentro da lei", disse, entusiasmada.

As cantoras Daniela Mercury, Anitta, Lorena Simpson e Naiara Azevedo estão entre as principais atrações do evento este ano. A parada tem 19 trios elétricos patrocinados por instituições e empresas que apoiam o movimento LGBT.

O percurso, de aproximadamente 3,5 km, segue da Avenida Paulista em direção à Rua da Consolação. O show de encerramento será no Vale do Anhangabaú, com a cantora Tâmara Angel.

Segundo os organizadores, 3 milhões de pessoas participam do evento. Até às 15h, a Polícia Militar não havia divulgado o número de participantes. A PM também informou que ainda não registrou nenhuma ocorrência.


Participação

Jovens, crianças, idosos e famílias que apoiam a causa da diversidade vieram à festa. A jornalista Luiza Barros levou a filha de 2 anos para ver a parada. "É a primeira vez que trago ela e acho importante esse encontro e o entendimento da diversidade e do respeito com as escolhas. E é claro, a alegria e diversão que tem, o clima de festa", disse.

Amigo de Luisa, o professor Roberto Marques veio passar o feriado em São Paulo e não sabia da parada, mas a filha adolescente o convenceu a ficar para a festa. Para ele, a parada é importante para dar um "choque" nas pessoas. "É importante a visibilidade", disse.

Morador de Niterói (RJ), Marco Antônio de Pereira Azevedo Júnior está na parada pela terceira vez. "O tema deste ano é maravilhoso. É um tema que se dirige a uma bancada religiosa que é reacionária, por isso a importância de se falar disso".

Acompanhada do marido, a farmacêutica Elissa Beneguine esteve hoje pela primeira na parada. Ela disse que foi ao evento porque apoia a comunidade LGBT. "Sou uma pessoa que trabalha contra todo o tipo de discriminação, é preciso liberdade e respeito às diferenças", defendeu.

Além da causa da diversidade, a parada também aquece a economia paulistana. Segundo levantamento feito pelo Observatório do Turismo durante a edição de 2016, o gasto médio individual na cidade dos entrevistados foi de R$ 1.502,91, considerando despesas com hospedagem, alimentação, transporte e lazer. Já os paulistanos gastaram, em média, R$ 73,82 na Avenida Paulista durante a parada.


Fonte: Portal Agência Brasil

Entrevista - Perda de confiança em política cria vazio preenchido por consumismo, diz filósofo francês

Foto: Greg Salibian (Fronteiras do Pensamento)
Gilles veio ao Brasil participar do evento Fronteiras do Pensamento


Tido como um dos mais importantes pensadores do mundo atual, o francês Gilles Lipovetsky defende que a falta de confiança na política é uma das principais características da nossa época e que o consumo se transformou em uma espécie de engajamento.

"Há algo de estranho nessa sociedade em que tudo deve ser atrativo e a política não é mais atrativa: ela é repulsiva", disse ele em entrevista à BBC Brasil.

Autor de best-sellers como Era do Vazio e O Império do Efêmero, em que reflete sobre a estrutura da sociedade em que vivemos, o professor da Universidade de Grenoble e teórico da "hipermodernidade" afirma que as pessoas se orientam hoje pelo consumo. Lipovetsky concentra seus estudos no período a partir da segunda metade do século 20.

"A direita, a esquerda, a igreja - são conceitos mais desfocados. E o sentimento geral das pessoas é de estarem um pouco desnorteadas. Mas justamente através do consumo as pessoas readquirem um certo poder porque disso elas entendem".

Elke esteve recentemente em Porto Alegre para participar do seminário Fronteiras do Pensamento. Veja abaixo, trechos da entrevista dada à BBC Brasil.

BBC Brasil - Sua obra fala muito do consumismo, das relações com o universo das marcas, que buscam nos seduzir, mas também nos representar. O que representa o consumo hoje para as pessoas?

Gilles Lipovetsky-
Há as duas coisas. Há quem a gente chama de 'fashion addicts' (viciados em moda) que compram porque estão fascinados por esta ou aquela marca. Eles vão às lojas da Apple com se fossem templos, igrejas. São fanáticos. Mas há outra face também: há hoje quem, através do consumo, exerce alguma forma de engajamento pessoal. Por exemplo, "não compro produtos desta empresa porque não gosto da visão de mundo deles".

Acho que o consumo hoje em dia tomou um significado diferente do passado. As pessoas hoje estão perdidas no universo da globalização porque as referências tradicionais estão mortas: a direita, a esquerda, a igreja - são conceitos mais desfocados. E o sentimento geral das pessoas é de estarem um pouco desnorteadas. Mas justamente através do consumo as pessoas readquirem um certo poder porque disso elas entendem. Então, eu acho que se o consumo se tornou algo tão importante é porque de uma maneira elas exercem uma autonomia.


BBC Brasil - Seu livro mais recente lançado no Brasil fala sobre a leveza (Da Leveza - Rumo a uma Civilização sem Peso). O mundo em geral, no entanto, anda pesado - da política à economia. A leveza hoje seria mais uma evasão, utopia ou ainda é algo possível?

Lipovetsky -
Desde o começo dos tempos, os momentos de leveza são de fato momentos de fuga, uma maneira de se desconectar. Então, por muito tempo, os homens descreviam leveza como um sonho, uma utopia.

Mas no livro que escrevi eu mostro que a questão da leveza mudou de status desde meados do século 20. A leveza não é mais apenas do imaginário: o mundo inteiro se reconstruiu através do princípio da leveza. Observe a evolução da tecnologia. No passado a potência era pesada: as grandes estradas de ferro, as usinas… hoje em dia as empresas que mais crescem como Google - não vendem nada. É tudo virtual. É a época da desmaterialização. É mais leve do que o leve. O virtual é hoje o vetor do crescimento. A leveza se tornou o princípio da realidade do mundo.

Um segundo aspecto: no corpo se vê a marca da revolução da leveza. Pense na evolução da medicina, veja a obsessão com a magreza e também a evolução do esporte: surf, windsurf, asa delta…


BBC Brasil - E o poder, especialmente o político? Há leveza nele ou ainda é um elemento "pesado" na nossa sociedade?

Lipovetsky -
Sim, vou chegar nisso. De fato em relação à política há uma outra questão. Mas vou terminar (o ponto anterior) rapidamente porque há uma conexão…

O terceiro exemplo que me parece essencial. Já disse o primeiro - os objetos -, o segundo - o corpo -, e o terceiro é o capitalismo. Porque, o capitalismo moderno, a partir da revolução industrial do século 19, repousa sobre o peso. São os equipamentos de estrada de ferro, as grandes máquinas e ferramentas, tudo é pesado. Hoje estamos num capitalismo de sedução. Nós apenas celebramos os prazeres, o lazer, a distração. Por todos os lados vemos a lógica da fuga.


BBC Brasil - É o consumo "das experiências"...

Lipovetsky -
As experiências de viagem, de prazer… Tudo isso é muito leve. São as promessas de felicidade. O que eu digo é que o capitalismo hoje em dia não é mais um capitalismo que é severo. Ele é severo para o trabalhador, mas não para o consumidor. É um sistema que funciona como a moda. Ele se baseia em coisas superficiais. Observe por exemplo os videogames, as séries de televisão…Tudo isso é extraordinariamente leve. Não há mensagem profunda, tudo é lúdico.

Agora, a questão é: todas as esferas obedecem este princípio de leveza? A política, ela tenta pegar esse bonde andando. Claramente, por exemplo, no desenvolvimento do marketing político. Antes, os políticos tinham aparência austera, em comícios, para fascinar as massas. Não temos mais políticos como antes. Eles aprendem a falar em cursos de comunicação, aprendem como ser legais, como agradar as pessoas. Fazem promessas sem parar.


BBC Brasil - Tentam ficar "leves" se distanciando da política, e se apresentando, por exemplo, como gestores?

Lipovetsky -
Sim, exatamente. Mas aí é um aspecto interessante. O capitalismo de fato é bem sucedido em seduzir os consumidores. Eles adoram! Eles criticam, mas eles adoram! A política não é assim: quanto mais os políticos querem seduzir, menos conseguem fazê-lo.

Porque há hoje um imenso desapontamento dos cidadãos em relação à política, eles não confiam mais na classe política. A grande característica da nossa época é a perda da confiança na classe política. A política não é leve.

Todos os dias a gente vê na imprensa que pegaram dinheiro, que há corrupção… Então há algo de estranho nessa sociedade em que tudo deve ser atrativo e a política não é mais atrativa: ela é repulsiva.


BBC Brasil - Mas repulsiva no sentido de que as pessoas abandonaram o engajamento político e estão mais individualistas?

Lipovetsky -
Sim, mas o individualismo não significa necessariamente um desengajamento. Observe as pessoas que se engajam em associações: há muitas, até mais do que antes. O que mudou é a maneira de se engajar.

Antes, o engajamento na vida política era um pouco como uma religião, e hoje em dia não é assim. As pessoas não querem sacrificar nada, mas isso não quer dizer que elas não tenham mais interesse pelos assuntos da política. Hoje em dia, as pessoas ouvem, refletem, mas no fim pensam "bom, vou fazer o que eu quiser". Isso é o individualismo, não é o egoísmo. É a autonomia das pessoas que não são mais controladas de uma maneira pesada pelos aparelhos.

Mas, ao mesmo tempo, vemos que os cidadãos se mobilizam quando há algo que eles julgam importantes, mas em ações mais pontuais, não mais em grandes ideologias gerais. Por exemplo, se você é ecologista, você vai se engajar neste campo, ou no campo do feminismo, do casamento gay, e as pessoas vão se engajar nestes temas. Antes era direita e esquerda, capitalismo ou socialismo. Nas grandes ideologias, as pessoas não acreditam muito mais. Elas querem coisas mais pragmáticas.

Então, isso criou um novo tipo de relação com a política e que, acho, deve nos levar a repensar os meios para melhorar o mundo. Porque se não é mais a política que tem a força de mudar o mundo, então o que seria? E eu acho que uma das grandes forças que deve fazê-lo é a educação.


BBC Brasil - Queria falar sobre a mídia e as "fake news", as notícias mentirosas. A grande mídia parece conviver com essas novidades, e também com formas independentes de jornalismo. Que papel tem a mídia na nossa sociedade hoje?

Lipovetsky -
Fake news é um termo que entrou muito na moda este ano, mas não é nada novo. Desde o século 19 há denúncias de manipulação e notícias falsas na mídia. A novidade é que 'fake news' agora podem ser difundidas por órgãos de comunicação que não são como os jornais e a televisão. Normalmente isso passa pelas redes sociais. Então, não é (uma ação) centralizada.

Na minha opinião, há uma ameaça, com os novos meios de comunicação, de se minar a força da mídia tradicional. E acho que isso é perigoso. Acho que precisamos de mediadores.


BBC Brasil - Por quê?

Lipovetsky -
É perigoso para aqueles que não têm as ferramentas se orientar nesse magma de informação. Se você é alguém com educação, se você consegue distinguir informações, não está perdido. Mas muita gente não tem isso. Nós precisamos de mediadores porque não somos especialistas em tudo e é por isso que eu acho que é preciso defender a imprensa e ter uma ambição maior nas escolas, na educação. Não haverá solução sem isso, você será manipulado.

A exigência absoluta de sociedades desenvolvidas do século 21 será a educação. E não se trata de lançar palavras ao vento! É necessário investir. É uma responsabilidade do Estado. E não se pode pagar salários miseráveis a professores - como frequentemente acontece na América Latina. Professores não são uma despesa inútil, são uma obrigação para que se faça uma sociedade digna.


BBC Brasil - Mas em uma sociedade com tanta desigualdade como a brasileira, essa realidade é ainda mais complicada, não?

Lipovetsky -
As desigualdades não devem ser todas rejeitadas. Não se trata de demonizar as desigualdades, mas há desigualdades que são insuportáveis. É necessário que a desigualdade não arruíne o ideal democrático. Por exemplo, quando há apenas estabelecimentos de educação privados em condições de receber alunos enquanto outros não têm dinheiro para estudar, isso é muito grave. A desigualdade impede a democratização da sociedade porque tira a oportunidade de muita gente de se desenvolver.

Vocês têm um país muito rico. O Brasil é um continente em que há de tudo. E ao mesmo tempo, os resultados escolares aqui não são bons. Pegue como exemplo países pequenos como a Finlândia, a Dinamarca, Cingapura, a Coréia do Sul… o que eles têm como riqueza material? Nada.

São países que prosperam com nível de vida muito superior ao brasileiro, com resultados escolares excelentes, que têm mais capacidade de se adaptar à globalização, que são competitivos, que têm redes de proteção social. E não têm petróleo, não têm gás, não têm ouro… não têm nada! Eles têm a inteligência.


BBC Brasil - Mas eles não têm nossos índices de corrupção...

Lipovetsky -
Exatamente. E muito menos corrupção.


BBC Brasil - Da forma como o senhor coloca, parece como se dois mundos coexistissem. Um tradicional, antigo, pesado. E outro leve, mais coletivo, mais fluido, inclusive em relação a identidades. É um momento de transição?

Lipovetsky -
Eu acredito que é o prolongamento de algo que vai se perpetuar. Essa lógica é estrutural. Mas o que eu digo também no livro é que essa fluidez para os indivíduos acaba pesando. No livro eu mostro que não estamos no Nirvana. É o paradoxo: tudo é leve, mas você não está leve.


BBC Brasil - Pelo contrário, muita gente se cobra essa "leveza".

Lipovetsky -
Sim, e não somos (leves). Então, isso nos deixa ansiosos. Porque eu não sou feliz? Bom, antes as tradições e as religiões davam as respostas. As pessoas não ficavam se interrogando. Neste mundo fluido as pessoas mudam de profissão quando querem, mas aí ficam ansiosas em relação ao futuro. Então, o mundo da leveza se tornou pesado para os indivíduos.

A fluidez é tão pesada para algumas pessoas que elas buscam soluções para escapar a este vazio. Dou um exemplo fácil de entender: o caso dos "jihadistas". São em geral jovens, nascidos na Europa - eles não vêm do Oriente Médio, são nascidos na França ou na Inglaterra. Eles escutaram rock, viram séries americanas, usavam jeans, iam a boates.

Eles conheceram esta vida leve, mas não encontraram seu lugar nela. E, em geral, têm uma imagem deles mesmos muito deteriorada. Em resumo: eles não amam as próprias vidas e estão em conflito interior. E é esta ansiedade em relação a eles mesmos que os faz buscar causas absolutas porque isso lhes devolve a dignidade. Isso lhes dá um peso pessoal, os ancora.

Então aí, você vê o paradoxo da leveza que se transforma em seu contrário. No terrorismo, na violência terrível em que se atemoriza toda uma população. E isso eu não acho que seja transitório. Acho que vai continuar.


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

Entrevista - "Brasil ainda faz política com afeto, não com a cabeça"

Protesto contra corrupção em Brasília


Há pouco mais de 80 anos do lançamento do clássico Raízes do Brasil, o "homem cordial" de Sérgio Buarque de Holanda, que não distingue o público do privado, parece ainda presente na sociedade brasileira, apesar das previsões do intelectual que a cordialidade desapareceria com a industrialização.

Em 1936, Sérgio Buarque de Holanda apresentou pela primeira vez o conceito, resultado de uma sociedade rural autoritária caracterizada pela família patriarcal. Segundo o intelectual, esse homem cordial dominou as estruturas públicas do país, usando-as em benefício próprio.

No entanto, não foi exatamente isso o que ocorreu. Para o historiador João Cezar de Castro Rocha, a cordialidade é uma característica de sociedades hierárquicas e desiguais. Em entrevista à DW Brasil, o autor dos livros Literatura e cordialidade: O público e o privado na cultura brasileira e Cordialidade à brasileira: mito ou realidade? debate o conceito de homem cordial e sua ligação com a corrupção.

"O problema da corrupção endêmica no Brasil só terá solução quando efetivamente constituirmos uma nação, quando em lugar de homem cordiais e elites que se consideram superior aos outros, nós formos de fato todos cidadãos", destaca Castro Rocha.


DW Brasil: O conceito de "homem cordial" parece mais atual do nunca. Mas Sérgio Buarque de Holanda previa que ele desapareceria com a industrialização e o fim da sociedade rural. Na sua opinião, por que ele não desapareceu?

João Cezar de Castro Rocha:
Eu proponho que, na verdade, o homem cordial não é apenas fruto de uma sociedade agrária, mas característico de uma sociedade hierárquica e desigual, como a sociedade brasileira, que foi fundada sobre o trabalho escravo e que ainda hoje mantém a consequência do longo período de escravidão. Então, o homem e a mulher cordiais não apenas permaneceram, como pelo contrário, cresceram e estão muito fortes.


E isso é visível também na política?

A atual política brasileira, marcada por uma polaridade radical, por intransigência inédita e por uma intolerância completa é absolutamente cordial no sentido próprio do termo, ou seja, é uma política que se faz com afetos, com estômago e não com a cabeça.


A corrupção seria característica própria do "homem cordial"?

Seria ingenuidade imaginar que o homem cordial é por vocação mais corrupto do que a seriedade alemã ou puritanismo anglo-saxão. A corrupção faz parte de toda e qualquer estrutura de poder, mas a questão central de uma corrupção que pode ser caracterizada como cordial é a sua associação com a ideia da hierarquia e da desigualdade.

No Brasil, historicamente, há uma elite que se considera realmente superior ao restante da população e que, por isso, considera ter direito a saquear a coisa pública. Nós não temos um Estado no sentido próprio do termo, temos é um aparato estatal apropriado pelas elites.


O senhor fala da corrupção nas elites, mas é possível afirmar que ela ocorre também nas camadas mais baixas, que é algo generalizado?

É preciso diferenciar a corrupção de uma sociedade que tem um cotidiano esquizofrênico. Em 1808, quando a família real veio para o Brasil, não havia casas suficientes, e o rei mandou pintar nas portas de algumas a inscrição "Propriedade Real”, PR, obrigando os donos a deixá-las para os nobres portugueses. O povo traduziu PR como "ponha-se na rua”. A história da cultura brasileira é uma oscilação constante entre propriedade real e ponha-se na rua.

Existe uma lei e sabemos que ela não é cumprida porque não há as condições práticas para cumpri-la, ao mesmo tempo, não podemos verbalizar o caráter vazio da lei, então, desenvolvemos uma sociedade profundamente esquizofrênica no sentido próprio do termo. Dizemos A sabendo que precisamos fazer B. Eu faria uma diferença entre o princípio esquizofrênico e a corrupção.


Qual seria essa diferença?

Há um princípio de maleabilidade que pode levar a uma corrupção, mas eu diria que corrupção hoje no Brasil é a apropriação privada dos recursos públicos. Não dá para comparar o senhor Emilio Odebrecht, roubando bilhões de dólares, com o pobrezinho do brasileiro que no serviço público oferece um cafezinho para o atendente. Se dissermos que tudo é a mesma corrupção é mais um meio que a elite tem de se desculpar.


Mas o jeitinho, esse desvio do cotidiano, não legitimaria de alguma forma a corrupção nas grandes esferas?

Acho isso é um equívoco, pois o que está à disposição da elite brasileira, das empreiteiras, dos partidos políticos e de políticos não é um jeitinho, é um tremendo jeitão, não tem comparação. Além disso, a sociedade foi organizada de uma forma esquizofrênica, o Estado sempre impôs ao povo inúmeros PR e o jeitinho é uma estratégia, em alguns casos, para driblar a impossibilidade de cumprir o PR.

Mas se simplesmente legitimarmos o jeitinho, nós estaremos favorecendo a corrupção. Acho importante que, no cotidiano, o brasileiro comece, por exemplo, a apenas atravessar o sinal quando ele estiver aberto para pedestres. É muito importante uma mudança de cultura.


Como seria possível acabar com esse ciclo desta corrupção generalizada?

Do ponto de vista do Estado brasileiro é preciso acabar com esse discurso tolo de que tem muito Estado no Brasil, pois não tem. O Brasil tem Estado de menos para o que de fato importa. É preciso ainda implementar mecanismos eficientes de controle que tenham como base a transparência. Do ponto de vista da sociedade é começar uma discussão a longo prazo que necessariamente deve passar pela educação e, sobretudo, por uma consciência crescente para mudarmos nossa forma de agir no trato diário. Por exemplo, não posso defender a universidade pública e não dar minhas aulas.

O problema da corrupção endêmica no Brasil só terá solução quando efetivamente constituirmos uma nação, quando em lugar de homem cordiais e elites que se consideram superior aos outros, nós formos de fato todos cidadãos.


O que é preciso combater?

É preciso combater uma sociabilidade que se baseia em tratar o público como o privado, e isso são o homem ou a mulher cordial. A sociabilidade cordial é movida pelo coração, tanto ama quanto odeia, tanto pode ser autoritária quanto afetiva, mas impõe fundamentalmente a ordem pública a lógica do privado.

Sem dúvida para superar esse tipo de corrupção precisamos fazer que o Estado brasileiro finalmente seja público e deixe de ser um parque de diversões para que as elites econômicas, políticas e financeiras deste país continuem tirando os recursos públicos como se fossem privados.


Fonte: Jornal Deutsche Welle (Alemanha)

Dez coisas que você jamais poderia votar a favor enquanto segue a Jesus



Por: Abraluiz


Ser cristão significa “ser um pequeno Cristo”, sermos pequenos Cristos é o que chamamos de “seguir a Cristo”. Entretanto, seguir a Cristo implica certas coisas, motivações, sentimentos, ações e princípios.

Pode alguém que faça todas as coisas citadas por esta lista, chamar a si mesmo de “cristão”? pode, infelizmente isso acontece sempre. Isso ocorre com tanta frequência que uma grande parte da sociedade possui uma imagem obscura e negativa do cristianismo e da cristandade.

Você está seguindo a Jesus e sendo um cristão enquanto vota a favor destas coisas ? NÃO!


1- Leis anti-LGBT’s

Pergunte a si mesmo: “Quem Jesus discriminou?”.

Enquanto pensa na resposta, tenha em mente que enquanto os fariseus encorajavam a discriminação de mulheres, cobradores de impostos, pobres e samaritanos (que eram odiados pelos judeus), Jesus escolheu incluir radicalmente a todos estes grupos. Cristo nunca disse “proíba gays de serem quem são” ou ” nunca permita que LGBT’s e pessoas de outras religiões tenham os mesmos direitos que os teus”. Pelo contrário, Cristo nos encorajou a amar nossos irmãos como nós amamos a nós mesmos. Ao vermos alguém, antes de ver um LGBT ou um hétero, precisamos ver uma pessoa, que possui uma dignidade humana que merece ser respeitada. Num viés mais cristão, antes de vermos alguém como LGBT ou hétero, precisamos ver alguém como uma filha ou um filho de Deus, merecedora de amor, respeito, liberdade e dignidade.

Cristo agiu assim, agora cabe a nós seguir seus passos.


2- Leis anti-imigrantes

O cristianismo possui uma herança judaica. Ambas as religiões possuem como patriarcas, Abraão e Sara.

Nossos antepassados espirituais foram guiados por Deus para levar tudo o que tinham e viajar. Moisés levou os hebreus do Egito para o deserto e depois para outras terras (onde já haviam habitantes). Até Jesus, Nosso Senhor, passou parte de sua infância como estrangeiro. Como está descrito em Êxodos, sabemos como é se sentir forasteiro em terras estrangeiras. Nossa fé e ancestralidade espiritual surgiu como forasteira, mas se você ainda não acredita que “se sentir estrangeiro em terra estrangeira” não faz parte da nossa história, pergunte aos índios, eles saberão te responder com toda certeza. Na melhor das hipóteses, ser cristão e votar a favor de afastar imigrantes nos faz hipócritas; na pior das hipóteses nos torna traidores de nossos antepassados e de nosso Deus.


3- Políticas que vulnerabilizam os mais pobres à fome

Uma certa vez, um homem sábio chamado Gandhi disse que existem pessoas no mundo com tanta fome, que Deus não poderia aparecer para elas, exceto na forma de pão.

A fome é denunciada na bíblia pelos profetas e livros poéticos como algo grave para a sociedade. Uma sociedade atacada pela fome, terá problemas com a educação,produção e comportamento civil, todos fatores determinantes para uma sociedade bem sucedida. A pessoa que quer seguir a Cristo, precisa ter em mente que Jesus disse que quando alimentamos os mais necessitados, estamos alimentando a Deus.


4- Políticas que fazem opção pelos mais ricos ao invés dos mais pobres

Políticos ou apenas eleitores, que fazem opção pelos mais ricos dão um tapa na cara de Jesus, sua vida, seu ministério e seus ensinamentos. Amós, Isaías e outros profetas igualmente denunciavam o comportamento dos ricos que se esbanjavam em riqueza advindas de exploração, enquanto os pobres passavam por fome e nudez.

Em termos de cristianismo, é ruim quando permitimos que pobres sejam explorados por ricos. Entretanto, terrivelmente pior é a criação de leis que estimulam e protejam este comportamento. Isso fica claramente irônico, quando imprimimos “Deus seja louvado” em nosso dinheiro.


5- Estimular guerra, confrontos, ditaduras e torturas

Há algum motivo para Cristo ser chamado de “Príncipe da Paz”. Isso está ligado diretamente a sua natureza, ao seu ministério, aos seus ensinamentos e ao seu evangelho.Como refutação você poderia citar de forma descontextualizada a frase que fiz “Eu não vim para trazer paz, mas espada”, de forma que poderia justificar massacres, cruzadas, assassinatos e guerras em nome de Deus. É óbvio que este verso não gera nem uma faísca de luz diante dos 50 e outros versos onde Cristo fala sobre a paz e a pacificação.

Uma das maneiras de não amar o seu próximo (muito menos como a ti mesmo) é matando ele. Existe uma razão para as escrituras chamarem de “Deus é amor” e o nosso desafio como cristãos é viver como ele, e ser como ele (praticarmos o amor ao próximo). As guerras e os confrontos com certeza fogem do conceito de irmandade universal, de amor, da paz e do Reino de Deus. Somos desafiados por Cristo a buscarmos o seu Reino e a sua Justiça, assim entendemos que se no Reino de Deus não há fome, nem guerra, nem perseguição, nem preconceito, buscar seu Reino e justiça implica a buscar todas essas coisas.

No final o amor vence!


6- Limitar o acesso gratuito a saúde

Como seguidores de Cristo, devemos seguir também seus passos (cf. 1° Pedro 2:21). Isso significa que devemos imita-lo o máximo possível que conseguirmos, sendo que Jesus nos diz que somos capazes de fazer obras maiores do que as que ele realizou na terra (João 14:12). Sabemos que o estado não consegue repetir os milagres de Jesus, mas a medicina moderna consegue chegar bem próximo das maravilhas que vemos nos evangelhos e erradicar doenças e epidemias. Há uma pesquisa norte-americana que diz que de 45000 pessoas que morrem nos EUA, 20000 morrem por falta de acesso a saúde.

Nós cristãos falamos muito sobre “salvar pessoas”. Muitas pessoas verdadeiramente seriam salvas no mundo através do acesso gratuito a saúde, principalmente aquelas sem condições financeiras.


7- Desvalorização da educação/limitar o acesso gratuito e de qualidade para todos

Nós aprendemos em Provérbios, assim como em outros livros sapienciais, de que a sabedoria é algo que Deus se deleita noite e dia. A Sabedoria é por Deus tão valorizada, que alguns teólogos costumam interpretá-la, através dos livros sapienciais, como uma face feminina de Deus (Sophia). Segundo as escrituras, melhor é a Sabedoria do que o ouro (cf. Provérbios 8:11)

Em nossos dias, principalmente no Brasil, vemos como a educação pública sofre maus índices. Os professores, que são os ministradores do conhecimento e sabedoria são desvalorizados e muitas vezes desrespeitados pelo governo. As escolas públicas do país possuem sérios problemas com infra-estrutura. Não se investe em educação o quanto é necessário e o rendimento ainda é baixo. Infelizmente se deliciar em sabedoria é algo que o nosso governo não faz mais. A educação é um fator importantíssimo para o desenvolvimento do país e o seu acesso deve ser destinado a todos (independente de sua nacionalidade, cor, gênero, ou classe social). Limitar o acesso a educação é privar alguns de um direito essencial para a vida em sociedade.

Para seguirmos a Jesus, devemos tornar a educação uma prioridade, afinal de contas ele era um Rabi (professor).


8- Pena de morte

Jesus Cristo morreu por pena de morte.

Jesus foi condenado a execução pois era visto como uma ameaça ao sistema religioso da época, um agitador que estava desestabilizando a ordem pública.

Jesus era inocente. Seu movimento carismático e profético irritava as autoridades conservadoras e fundamentalistas da época.Todos os anos pessoas inocentes morrem por execução realizada pelo estado. Não há nenhuma prova de que a punição extrema e desumana da pena de morte reduza ou combata a criminalidade. Outro fato importante é que a pena de morte é discriminatória, sendo aplicada desproporcionalmente contra pobres, minorias, alguns grupos étnicos e raciais, grupos religiosos e etc.


9- Forçar através de políticas, pessoas a seguirem sua religião e princípios morais.

Uma das coisas mais marcantes no evangelho de Cristo e seu ministério, foi sobre sua mansidão. Cristo respeitava a liberdade dos outros, pois uma das consequências do amor é a liberdade, se há coerção não há amor, não há liberdade.

Se alguém ama outrem, aquele irá permitir que as pessoas andem com suas próprias pernas, façam suas decisões e pratiquem seu livre-arbítrio . Cristo era o “Príncipe da Paz” mas estava longe de ser um rei com governo físico e o mais importante é notar que Cristo não era um ditador. Impor sua religião pessoal, crenças ou princípios morais/religiosos sobre outras pessoas, não tem nada a ver com a maneira que Cristo praticou sua fé e seus ensinamentos. Se você impõe sua fé sobre outros, apoia a oração obrigatória do Pai Nosso em escolas e ambientes públicos, se você apoia a imposição de regras morais sobre a vida de pessoas através do estado, você não é um Cristão.


10- Jair Bolsonaro

Ver 1-9.


Fonte: Blog O Evangelho Social

A nova cara da sífilis

Ilustração: Zansky
Foto: Dulla (Superinteressante)

Começa com um machucado. Indolor, costuma não ser bonito, mas também não é o fim do mundo. Quando aparece na área genital, fica evidente nos homens, mas pode acabar escondido dentro da vagina sem chamar qualquer atenção. Há ainda outros casos discretos, como na garganta ou no ânus. Aí, quando você está começando a se preocupar, Bam! Desaparece. Parabéns! Seu sistema imunológico é mesmo incrível, né? Na verdade, não. Você só passou para a próxima etapa de uma doença que, a curto ou longo prazo, pode atacar seu cérebro, mudar a estrutura dos seus ossos, deformar seu rosto e matar seus filhos. Você tem sífilis.

Essa história está se repetindo mais do que o esperado no Brasil. Em outubro, o Ministério da Saúde reconheceu que a situação estava fugindo do controle e decretou a epidemia. Não é exagero, nossos números são assustadores. Desde 2010, quando os hospitais passaram a ser obrigados a repassar seus dados sobre a doença para o ministério, foram notificados quase 228 mil novos casos; só entre 2014 e 2015 houve um aumento de 32% nos casos de sífilis entre adultos – e mais de 20% em mulheres grávidas. A maior parte dos casos está na região Sudeste (56%), a mais urbanizada e desenvolvida do País. Só para ter uma ideia do desastre, em 2015 tivemos 6,5 casos de bebês infectados a cada mil nascidos vivos; o valor é 13 vezes maior do que a Organização Mundial da Saúde considera aceitável.

Agora, se você não prestava realmente muita atenção nas aulas de educação sexual, é bem capaz que não saiba o que é, de fato, essa doença. Sífilis é o nome dado à infecção decorrente da bactéria Treponema pallidum. Ela invade o corpo em quatro fases. Cada etapa determina o quão dominado ele está pelos micro-organismos. A primeira, já citada no começo desse texto, é rápida (dura no mínimo quatro e no máximo oito semanas) e se manifesta como uma ferida indolor que desaparece sozinha, sem deixar rastros. O fato de o machucado não doer está longe de ser bondade. É estratégia de sobrevivência das bactérias. Se não dói, dá para transar – e disseminá-las. A segunda fase é ainda mais favorável para os micróbios. A doença volta a dar as caras entre seis semanas e seis meses após os machucados genitais sumirem. O infectado pode apresentar feridas pelo corpo, manchas vermelhas e, sobretudo, lesões na palma das mãos ou dos pés – sintomas que podem ser facilmente confundidos com uma alergia cutânea. E adivinha só: se você tomar um antialérgico, é provável que as feridas sumam. O que é péssimo. As reações afinal são tentativas do corpo de sinalizar a doença, e uma medicação equivocada para abafar os sintomas mascara o pedido de socorro. Uma vez que os sinais se vão mais uma vez – mesmo sem medicação isso acontece -, passe livre para voltar a transar e multiplicar a espécie – da bactéria. E começa a terceira fase da doença: a sífilis latente. O nome não é à toa. Nesse período (que pode durar até 40 anos), a sífilis fica reclusa. Na verdade, ela perde até seu caráter infeccioso; ou seja, o portador não passa mais a bactéria para frente. Fica tudo bem até explodir a sífilis terciária, fase aguda da moléstia. As úlceras que começam a brotar pelo corpo são tão agressivas que, em regiões de contato direto da pele com ossos, como no crânio, o esqueleto começa a ser corroído. Na tíbia, principal osso da canela, o corpo até tenta combater a degeneração: conforme a erosão óssea aparece, o estrago vai sendo calcificado. A região afetada começa a engrossar e, com o avanço do desgaste, a canela vai ficando curvada. Em alguns casos, a bacia também é afetada e o doente perde a capacidade de andar em linha reta. Uma das maneiras mais antigas de identificar portadores de sífilis, inclusive, é ver se a pessoa caminha como um pato, rebolando por causa da bacia deteriorada. Implacável, a infecção ainda ataca os sistemas vascular e nervoso – o que pode acontecer precocemente entre a primeira e a segunda fase. Quando a bactéria finalmente ocupa o cérebro, o infectado começa a sentir alterações de humor e pode desenvolver demência. É a chamada neurosífilis. Nesta última fase, finalmente, transar não ameaça mais aos outros. A sífilis deixa de ser infecciosa e quer acabar somente com o portador.


Barato saindo caro


Nessa violenta investida pelos nossos corpos, as bactérias não perdoam ninguém. E um dos alvos mais frágeis é um grupo que tem sofrido particularmente com epidemias recentes no Brasil: as grávidas. Assim como o zika, a sífilis não poupa os bebês. Se uma gestante está infectada, em qualquer fase da doença, a criança pode nascer com sífilis congênita. 59% das crianças nascidas de mães com sífilis também apresentaram sinais da bactéria. A condição pode ocasionar más formações neurológicas e ósseas, além do óbito – em 2015, 1,4% das crianças nascidas com sífilis congênita não sobreviveu. Não dá para dizer que é um número pequeno. Quando olhamos para o panorama geral, isso significa que, a cada 100 mil nascimentos, sete crianças não vivem nem um ano, por causa da bactéria.

Mesmo diante desse cenário de guerra, a sífilis está longe de ser uma sentença de morte. A infecção pode ser curada com um tratamento barato e ridículo de simples: algumas doses de penicilina. Se a doença for diagnosticada no primeiro ano, a cura se resume a apenas duas injeções de benzetacil, uma em cada glúteo. Sim aquela mesma que você encontra na farmácia – e pode ser administrada, inclusive, para grávidas. Se o diagnóstico só aparecer mais tarde, sem problemas: penicilina cristalina (uma versão mais poderosa do antibiótico) nela, dessa vez por um pouco mais de tempo, duas injeções por glúteo em três doses semanais. Esse procedimento consegue até mesmo impedir a passagem da bactéria da grávida para seu filho. O tratamento na mãe também cura a criança. Quanto mais cedo o tratamento nela, menores os danos no bebê. Mas, caso a mãe dê à luz sem eliminar a bactéria do corpo, o bebê é automaticamente medicado. Recebe cristalina na veia por 10 a 14 dias – isso não recupera problemas neurológicos ou ósseos já causados pela doença, mas evita que a sífilis continue atacando o recém-nascido.

Mas como é que o Brasil conseguiu virar palco de uma epidemia tão facilmente curável? Umas das justificativas utilizadas pelo Ministério da Saúde é a queda no uso das camisinhas. Ela, de fato, é real – mas fica difícil jogar toda a responsabilidade em cima disso, porque os números da queda não são tão expressivos assim: em 2004, 58,4% dos jovens de 15 a 24 anos usavam o preservativo em relações casuais; em 2013 (ano da pesquisa ministerial mais recente sobre o assunto), o número baixou para 56,6%. No uso dentro de relações estáveis a proporção é parecida: em 2004 eram 38,8%; em 2013, 34,2%. O mais provável é que a acessibilidade da penicilina tenha passado de nossa maior aliada para nossa maior inimiga. O preço modesto, que deveria facilitar o acesso da população à droga, desestimula a indústria farmacêutica a fabricá-la. Resultado: em 2015, faltou penicilina nas prateleiras do Brasil. E mesmo quando havia remédio aparecia um problema: ninguém na rede pública queria aplicá-lo. Até julho de 2015 era proibida a aplicação do medicamento pela equipe de enfermagem de locais que não estivessem equipados para evitar um choque anafilático. Na prática, se o posto de saúde não tivesse material para uma entubação, por exemplo, não poderia medicar portadores de sífilis. Pior ainda, se um enfermeiro do local resolvesse administrar penicilina, poderia ser responsabilizado por isso. O resultado foi o medo: segundo o Ministério da Saúde, 50% das equipes médicas evitavam aplicar penicilina por causa desse receio. Há também uma culpa paterna pela disseminação da doença: 62% dos parceiros de mulheres grávidas com sífilis não tomam os medicamentos, dando continuidade ao ciclo da bactéria. Além disso, estamos ajudando as estatísticas contabilizando com mais precisão o número de casos nacionais de sífilis. Desde 2010, o diagnóstico é atrelado a uma notificação compulsória, ou seja, sempre que ela é detectada, esses dados têm se ser enviados ao ministério, para que o órgão entenda o tamanho do surto pelo qual o País está passando. Vale ressaltar, porém, que isso não deveria aumentar o número de sífilis em crianças e grávidas. Desde 1986 o repasse de informações ao ministério é obrigatório para casos de sífilis congênita, e desde 2005 para os diagnósticos em gestantes. Mas a lógica segue: quanto mais preciso e amplo vai ficando o sistema, mais os números crescem. Isso dá margem para pensar que a epidemia pode estar acontecendo há mais tempo do que imaginamos.


Você é de onde?

Não se sabe exatamente quando, onde e como a sífilis surgiu. Uma das teses mais aceitas é de que a infecção seja uma doença das Américas que chegou à Europa quase que junto com a notícia do descobrimento do continente. Os pioneiros das grandes navegações teriam contraído a bactéria, que foi espalhada pela Europa quando eles retornavam para casa. Uma das evidências nessa direção é que a bactéria realmente existia por aqui antes de Cabral aportar. “Encontramos ossadas com mais de 4 mil anos de índios que tiveram sífilis”, afirma José Filippini, professor do Instituto de Biociências da USP. Para detectar a infecção, Filippini se aproveitava do estrago que a doença faz no corpo. “A sífilis tem marcas muito claras. Se eu pego uma tíbia (osso da canela) em formato de sabre, por exemplo, sei que as chances de ser um sifilítico são altas”, conta. Outra teoria é a de que a sífilis sempre existiu na Europa, mas era diagnosticada equivocadamente. “Ela pode ser confundida com a lepra, por exemplo. Os que concordam com a teoria da sífilis pré-colombiana afirmam que ela talvez seja tão antiga quanto a humanidade. Diversas pesquisas afirmam que a bactéria surgiu na África e foi se espalhando pelo mundo junto com nossos ancestrais.


De volta para o futuro


O Ministério da Saúde, por meio da diretora Adele Benzaken, do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, explicou à SUPER como está tentando controlar a doença. “A sífilis nunca foi vista como prioridade aqui no Brasil. Declará-la oficialmente como epidemia, construir uma agenda sólida para o controle dela e pedir ajuda da população a respeito é importante para reverter o quadro”, expõe Adele. “Você tem que examinar a situação. Analisar os grupos mais vulneráveis (prostitutas e usuários de drogas, por exemplo) e o restante da população. Se há um aumento repentino no número de infectados, e onde eles estão aparecendo. A sífilis é uma doença que precisa ser analisada por um tempo para entendermos se é um surto ou uma epidemia”, afirma Adele. Declarada a epidemia, os holofotes da mídia se voltam para o assunto, o que ajuda na conscientização popular. “Desde outubro eu não paro de dar entrevista sobre isso. Acho que deu certo”, diz.

Mas expor a situação ao público é só uma das frentes de batalha. Outras medidas urgentes estão em curso. Com a declaração da epidemia, o governo está articulando para liberar o preço da penicilina, para que fique mais cara. E isso é bom para o combate à sífilis. Apesar de soar contraintuitivo, a realidade é que a indústria farmacêutica não tinha interesse em produzir um medicamento que não lhe desse uma margem de lucro alta – mesmo que curasse centenas de milhares de pessoas. Negócio é negócio. Agora, a ideia é estimular um aumento na produção do remédio. Em 2016, como medida paliativa, mais de 1 milhão de doses do antibiótico foram importadas; outras 700 mil foram compradas aqui dentro. O plano é que o estoque atual dure até o fim de 2017, e que já em 2018 a produção atenda à demanda nacional.

Um parecer do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) também liberou a aplicação em postos de atendimento. “A restrição era absurda, a cada 100 mil são menos de três casos em que ocorre choque anafilático. É mais fácil ter uma reação dessa comendo algo em um restaurante – e lá não tem desfibrilador”, afirma Vencelau Pantoja, do Cofen.

Há também um cuidado progressivo com os diagnósticos. Entre 2001 e 2015 os testes rápidos entregues pelo SUS passaram de 1 milhão para 6 milhões; o Ministério da Saúde afirma que está instruindo médicos a falar sobre DSTs e a distribuir o exame na primeira consulta de pré-natal. Nesses casos, o resultado sai na hora, e a mãe já pode iniciar o tratamento. Outra promessa é uma parceria com o Ministério da Educação para que a sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis,sejam apresentadas em sala de aula.

Dificilmente essas boas práticas resolverão o problema da sífilis no Brasil, mas podem amenizar o cenário. Ainda que, sem sentir dor, muitos brasileiros infectados não estejam nas preocupantes estatísticas só porque não foram ao médico perguntar sobre aquela feridinha que, olha só, já passou…


Do nível 1 ao game over

A sífilis funciona em fases. Os diferentes sintomas (ou a falta deles) ajudam a determinar a gravidade da infecção

1. Primária – Duração: 4 a 8 semanas
Na início, o único sintoma é uma ferida, indolor, na área infectada (pênis, vagina, ânus ou garganta). O machucado some no fim dessa fase.

2. Secundária – De 2 a 6 meses
Os principais sinais são machucados pelo corpo. Eles aparecem espalhados, mas se concentram na palma das mãos e nos pés.

3. Latente – De 2 a 40 anos
As feridas e os sintomas desaparecem. A partir desse estágio, ela não é mais contagiosa.

4. Terciária – Até a morte
A sífilis reaparece potente: deforma as pernas e ataca o rosto e o cérebro.


Fonte: Revista SuperInteressante

Crise, falência estatal e desemprego levam a explosão no número de moradores de rua no Rio

Quantidade de moradores de rua praticamente triplicou no Rio nos últimos anos


Jorge Luiz de Souza já foi pedreiro na construção civil, operador de caldeira na indústria cervejeira, operário na indústria química, dirige caminhões. Mas sua rotina hoje, aos 37 anos, se resume a passar as noites na rua e os dias procurando emprego no Rio.

"Experiência eu tenho muita, só não faço dinheiro", diz com uma risada amarga, levando nas costas a mochila acumulando seus principais pertences.

"O terrível é que hoje não tem nada. Todas as portas estão fechadas. Eu sei fazer, é só ter oportunidade. Mas ninguém está contratando, independentemente da minha experiência."

Jorge acabara de receber um pão com presunto e um café quente servido num copo de plástico no Largo da Glória, onde cerca de 300 moradores de rua se juntam bem cedo nas quintas-feiras à espera do café da manhã oferecido pelo Projeto Voar.

O grupo de voluntários repete a ação três vezes por semana, em três pontos diferentes no Rio. O número de moradores de rua teve um aumento vertiginoso nos últimos anos, tendo praticamente triplicado de 2013 para cá.

Em abril deste ano, o número de pessoas vivendo nas ruas da cidade chegou a 14.150, de acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos - contra 5.580 em 2013.

Para a secretária da pasta, Maria Teresa Bergher, a conjunção de dificuldades do momento atual ajuda a explicar o aumento.

"Vivemos uma crise econômica muito séria no país e o Estado do Rio está falido. O desemprego agora apresentou queda em todas as regiões do Brasil, menos no Estado do Rio", afirma Bergher. "Tudo isso faz com que tenhamos uma situação bastante séria."

É o avesso do otimismo despertado com o ciclo dos megaeventos dos últimos anos, diante da Copa do Mundo e dos Jogos Rio 2016.

"Muitas pessoas vieram para o Rio nos últimos anos porque a cidade foi vendida com uma imagem de beleza e de promessa. Mas muitas pessoas que vieram com esperança de emprego e de uma vida melhor acabaram ficando nas ruas", diz a secretária municipal.


Primeira vez na rua

Jorge já tinha ficado desempregado antes, mas a diferença é que sempre aparecia alguma coisa em pouco tempo. Agora não. Desde a demissão coletiva da empresa da área química onde teve carteira assinada por sete anos, não consegue nada.

Nunca tinha se imaginado dormindo na rua. Mas foi o que restou. Atualmente, quando não consegue vaga em um abrigo da prefeitura, se encolhe para dormir nas calçadas do Centro ou da Glória, e rapidamente aprende para onde não deve voltar.

É o caso do Aterro do Flamengo, onde tentara passar a noite anterior ao café da manhã, ao lado de sua mulher. Até que presenciaram três assaltos violentos em sequência. "A polícia fica no Aterro até as 22h e depois é um Deus nos acuda. Não dá para dormir lá", conclui Jorge.

O casal então buscou refúgio no monumento ao IV Centenário do Descobrimento do Brasil, na Glória. Inaugurada em 1900, a obra é pontuada por uma imponente estátua de Pedro Álvares Cabral, erguendo uma bandeira em postura de vitória e com inscrições louvando a descoberta da "terra bendicta". À noite, o pedestal de granito fica cercado de moradores de rua.

Efeito dominó

Silvia Aparecida de Souza, parceira de Jorge, está na mesma situação que ele. Perdeu o emprego de babá há um ano e meio. A patroa também foi mandada embora do trabalho e, ato contínuo, teve que demiti-la.

"Foi efeito dominó, caiu uma e depois a outra", resume Silvia, que tem 46 anos. "Foi muito difícil." De lá para cá, ela não conseguiu mais nada. "E não estou escolhendo não, faço faxina, o que pintar."

Os dois são de Petrópolis, na região serrana do Rio. Moravam juntos, mas tiveram que abandonar o endereço há dois meses, e agora passam a maior parte do tempo separados. Jorge dorme na rua ou em abrigos da prefeitura; Silvia geralmente dorme na casa da avó em Caxias, na zona oeste do Rio.

"Ficar na rua é muito perigoso para mulher. Se durmo com ele na rua, ele não consegue dormir, preocupado comigo", diz Silvia. "Mas quando estou na casa da minha avó e ele na rua, eu também não consigo dormir, preocupada com ele."

No Dia dos Namorados, no começo da semana, eles passaram o dia juntos, mas tiveram que se separar novamente à noite. "A gente fica com muita saudade", lamenta Silvia.


100 mil na rua

A assistente social Vanda Amorim coordena os cafés da manhã na Glória há quase 11 anos. Ela diz que, do começo do ano passado para cá, o número de frequentadores dobrou. O projeto passou a receber uma média de 150 moradores de rua em um dia para, atualmente, mais de 300 pessoas por edição.

"Temos visto pessoas que não fazem parte daquele contexto normal de moradores de rua, que já vivem há muitos anos de catar material reciclado ou, por causa de drogas, já se acomodaram nessa vida de sobrevivência na rua", explica Vanda.

"Têm outro perfil, estão mais arrumadinhas, têm uma linguagem boa. Esses aí não querem perder tempo. Geralmente tomam café para suprir a fome e vão logo embora", descreve. "Estão correndo atrás."

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil tem pouco mais de 100 mil pessoas vivendo nas ruas. A estimativa se baseia em dados 2015, já que não há estatísticas nacionais para medir a população de rua. Assim, é difícil acompanhar o avanço desses números e o impacto da recessão.

"O tamanho da população em situação de rua no Brasil sempre tem relação com pobreza, desigualdade social, infraestrutura urbana", afirma o pesquisador do Ipea Marco Antonio Carvalho Natalino, autor do estudo.

"A redução da atividade econômica e o desemprego não são os únicos fatores que levam as pessoas para as ruas. Mas com o aumento desses índices, estamos vendo isso com mais força agora. É visível. Há um aumento da população em situação de rua em todas as grandes metrópoles no Brasil", afirma Natalino, especialista em política pública e gestão governamental.

Natalino critica a falta de dados nacionais e atualizados para acompanhar a situação real no país, que seriam essenciais para formular políticas públicas adequadas para atender às demandas de moradores de rua.

"Populações de rua já costumam ser invisibilizadas. O Estado as torna ainda mais invisíveis por não produzir informações. Ele para de olhar para esse público como alvo de políticas sociais e de serviços públicos", considera.

Em São Paulo, cidade que concentra a maior população e o maior número de moradores de rua no país, os números estão defasados.

O último censo foi realizado em 2015, não havendo ainda uma atualização na gestão do prefeito João Doria (PSDB). De acordo com os dados disponíveis, a população de rua na cidade aumentou de 14.478 em 2011 para 15.905, em 2015.


Peregrinação por emprego de barriga vazia

Entre os pertences acumulados na mochila preta de Jorge está uma pasta com cópias de seu currículo, que já submeteu a empresas do Rio, de Petrópolis e de Minas Gerais.

O documento lista suas experiências profissionais, ensino médio incompleto e destaca, entre suas principais características, "excelente relacionamento interpessoal e capacidade de liderança".

Após o café da manhã, ele entrega uma cópia para voluntários do Projeto Voar, pedindo que lhe avisassem sobre oportunidades.

Sua rotina tem sido essa. "Amanheceu, saio à procura de emprego, vou batendo em portas para ver o que consigo. Só não consigo ir muito longe porque não tenho dinheiro para a passagem (de ônibus)", diz. "Você vai gastar uma energia e não tem um alimento no estômago. É duro".

Mas ele enfatiza que só está na rua por causa do desemprego.

"Não sou dependente químico, não consumo bebida nenhuma, tenho exames toxicológicos. Estou em busca de emprego para poder trazer sustento para mim e para a minha família."


Berço partido

Jorge teria nascido em uma família com boas condições financeiras. Mas seu pai foi assassinado quando ele ainda estava na barriga da mãe. "Mataram meu pai para roubar os caminhões que ele tinha. A minha mãe me botou no mundo e me largou. Com 15 dias de vida, meu padrinho me pegou para criar."

Ele viveu com o padrinho até os 7 anos, e depois ficou de casa em casa, "que nem cigano". Só conhece as histórias de como as coisas eram antes. "Meu pai tinha uma vida boa, uma família boa, ele transportava boi para corte, cortava lenha e transportava toras."

Da infância quebrada vieram dois sonhos. O primeiro era constituir uma família, que fez com que se casasse já aos 16 anos. Virou pai aos 22 anos, e hoje tem três filhos do primeiro casamento.

Com idades de 7, 12 e 14 anos, as crianças moram em Petrópolis com a mãe. Jorge diz que, com o desemprego, não tem conseguido enviar ajuda financeira.

"A minha filha vai fazer 13 anos neste mês e pela primeira vez estou com receio de não poder dar nada. Todo ano eu dou um bolinho, fazemos uma festinha, mas esse ano eu não tenho o que fazer", lamenta.

"Não sou nenhum político igual a esses aí... Vivo do trabalho mesmo", diz ele.

O segundo sonho era dirigir um caminhão e trilhar o caminho do pai que não conheceu. Recentemente, conseguiu trocar sua carteira de habilitação para dirigir carretas - "uma grande conquista". Mas os empregos na área minguaram.

"Deixei currículo em várias transportadoras, mas não está tendo vaga. Tem empresa com 30 carretas paradas. Imagina. Isso são 30 pais de família! Está tudo parado, o país está parado, não tem o que transportar."

Jorge passou no teste para trabalhar como motorista de ônibus no Rio - mas também não apareceram vagas por enquanto.

"Tenho que ficar no aguardo. O problema é que as contas, a barriga, a fome não esperam."


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

Artigo - Se tudo der certo, o Brasil será da molecada que trabalha



Por: Alexandre Versignassi*


A história bombou ontem: alunos do último ano do ensino médio num colégio gaúcho organizaram uma festa a fantasia com o tema “se tudo der errado”. E foram para a escola vestidos de atendente do McDonald’s, vendedor de sorvete, diarista.

A coisa serviu para ilustrar uma queixa antiga: a de que brasileiro despreza trabalhos produtivos. E despreza mesmo. Nos andares mais altos da nossa pirâmide social, o único trabalho aceitável é estágio de faculdade. Funções “de entrada” do mercado de trabalho (garçom, operador de telemarketing, vendedor de sapato) são tarefas a ser desempenhadas por escravos – no caso, pelo equivalente moderno a escravo: quem faz trabalhos braçais em troca de R$ 4o, R$ 5o por dia.

Nisso, temos um conflito com o que acontece nos países menos desiguais e mais ricos que o nosso. Nas nações que deram certo, você sabe, estudante trabalha de garçom, de vendedor de sapato, de chapeiro do McDonald’s. E não importa se o sujeito tem dinheiro na conta para comprar a loja do McDonald’s onde passa o dia fritando batata, ou ou se o cidadão é da família real – o rei da Holanda passou décadas de sua vida de príncipe trabalhando anonimamente como piloto da KLM (não que isso seja exatamente um “emprego de entrada”, mas vamos dar um desconto).

Mesmo assim, o fato é que os colégios de classe média alta não representam o Brasil real. Quase metade (44%) dos estudantes brasileiros de 15 anos trabalham antes ou depois das aulas, segundo um estudo do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Isso coloca a o Brasil bem à frente da média dos países ricos, que é de 23%. Nos EUA, onde até as filhas de Barack Obama trabalham de vez em quando, só 32% dos estudantes pegaram no batente no último ano. Ou seja: no Brasil de verdade, aquele fora do centro expandido de SP, da zona sul do Rio e das nossas outras bolhas sociais, a molecada trabalha, sim. E bem mais do que o senso comum leva a crer. Só pena que o nosso PIB não esteja nas mãos de quem precisa se virar desde cedo. Mas um dia vai estar. Se tudo der certo.


* Alexandre Versignassi é diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", finalista do Prêmio Jabuti.


Fonte: Revista Superinteressante

Pessoas em situação de rua



No Olhar da Cidadania do dia 31 de maio, abordamos a realidade de quem vive nas ruas da capital paulista.

Para isso, conversamos com a psicóloga e professora universitária Emília Estivalet Broide, uma das idealizadoras da Pesquisa Social Participativa Pop Rua, desenvolvida em partes pela própria população em situação de rua.

O programa também contou com a participação do nosso colunista Marcos Perez, da Faculdade de Direito da USP, falando sobre a atual crise política do País e suas consequências jurídicas.

Olhar da Cidadania na Rádio USP
Todas as quartas-feiras, às 17h
São Paulo: 93,7 FM
Ribeirão Preto: 107,9 FM
Site com transmissão do programa: http://jornal.usp.br/RADIO


Fonte: Portal do Observatório do Terceiro Setor

Estudo revela que um em cada seis idosos sofre alguma forma de abuso no mundo

Um em cada seis idosos sofre alguma forma de abuso, afirma novo estudo apoiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)


Um em cada seis idosos sofre alguma forma de abuso, afirma novo estudo apoiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e publicado na Lancet Global Health. Esse número é maior do que o estimado anteriormente, e a previsão é de que aumente à medida que as populações envelhecerem em todo o mundo.

O novo estudo descobriu que quase 16% das pessoas com 60 anos ou mais foram submetidas a abusos psicológicos (11,6%), abusos financeiros (6,8%), negligência (4,2%), abusos físicos (2,6%) ou abusos sexuais (0,9%).

A pesquisa se baseia nas melhores evidências disponíveis de 52 estudos em 28 países de diferentes regiões, incluindo 12 países de baixa e média renda.

“O abuso de pessoas mais velhas está aumentando. Para 141 milhões de pessoas idosas em todo o mundo, ele tem sérios custos individuais e sociais”, disse Alana Officer, assessora de saúde sênior do Departamento de Envelhecimento e Curso de Vida da OMS. “Nós devemos fazer muito mais para prevenir e responder à crescente frequência de diferentes formas de abuso”.


Abuso de idosos e saúde

A consciência sobre o abuso de idosos, ainda em grande parte um tabu, começou a aumentar em todo o mundo. Esses abusos são definidos como ações ou a falta de ação apropriada, o que pode causar danos ou angústia a uma pessoa idosa.

Isso pode ocorrer em qualquer relacionamento onde exista uma expectativa de confiança. Todos os tipos de abuso de idosos podem ter um impacto em sua saúde e bem-estar.

O abuso psicológico é o mais sutil e inclui comportamentos que prejudicam a autoestima ou o bem-estar do idoso, entre eles xingamentos, sustos, constrangimento, destruição de propriedades ou impedimento de que vejam amigos e familiares.

O abuso financeiro inclui o uso ilegal de dinheiro, propriedade ou ativos de uma pessoa idosa. A negligência envolve a falha no atendimento de suas necessidades básicas – como alimentação, habitação, vestimentas e cuidados médicos.

Entre os efeitos do abuso à saúde estão lesões traumáticas e dor, assim como depressão, estresse e ansiedade. O abuso de pessoas idosas pode levar a um risco aumentado de colocação em casa de idosos, uso de serviços de emergência, hospitalização e morte.

“Apesar da frequência e das graves consequências para a saúde, o abuso de idosos continua a ser um dos tipos de violência menos investigados em pesquisas nacionais e um dos menos abordados nos planos nacionais para prevenir a violência”, acrescentou Alana.

Em 2050, o número de pessoas com idade igual ou superior a 60 irá dobrar, chegando a 2 bilhões em todo o mundo, com a grande maioria das pessoas idosas em países de baixa e média renda.

Se a proporção de vítimas de abuso permanecer constante, o número de pessoas afetadas crescerá rapidamente devido ao envelhecimento da população, aumentando para 320 milhões de vítimas até 2050.

“O abuso de idosos raramente é discutido em círculos políticos, é menos priorizado em pesquisas e abordado apenas por algumas organizações”, observou Etienne Krug, diretor de Prevenção da Violência, Lesões e Incapacitações da OMS.

“Os governos devem proteger todas as pessoas contra a violência. Devemos trabalhar para esclarecer esse importante desafio social, entender a melhor forma de prevenir e ajudar a implementar as medidas necessárias.”

Estratégia global e plano de ação

Em maio de 2016, ministros da Saúde adotaram a Estratégia Global e Plano de Ação da OMS sobre envelhecimento e saúde na Assembleia Mundial da Saúde. A estratégia fornece orientação para ações coordenadas em países que se alinham com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Entre as ações prioritárias da estratégia, está aperfeiçoar os estudos sobre a frequência do abuso de idosos, em particular nos países de baixa e média renda do Sudeste Asiático, Oriente Médio e África, para os quais há poucos dados.

O plano também indica coletar evidências e desenvolver orientação sobre o que funciona para efetivamente prevenir e responder ao abuso de idosos. Como primeiro passo, os governos precisam avaliar os esforços existentes, como treinamento para cuidadores e uso de linhas telefônicas, e publicar esses achados. Outra frente de atuação é apoiar os países a prevenir e responder ao abuso de idosos.


Fonte: Portal da ONU

ONU: o plástico está cobrindo e destruindo nosso planeta


Plástico é uma invenção maravilhosa porque dura bastante – e uma invenção terrível pelo mesmo motivo. Mais de 300 milhões de toneladas serão produzidas este ano. A maioria nunca é reciclada e permanece em nossa terra e nos nossos mares para sempre. Os detalhes nesse documentário.


No início de junho de 2017, a ONU realizou a Conferência sobre os Oceanos com o objetivo de apoiar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14: conservar e utilizar de forma sustentável os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável; saiba como foi e acompanhe o tema em http://nacoesunidas.org/tema/ods14, #SaveOurOcean e #MaresLimpos.


Fonte: Portal da ONU

Harvard veta aprovação de alunos que fizeram postagens obscenas e racistas no Facebook


Uma das mais prestigiadas universidades do mundo, Harvard cancelou a aprovação de pelo menos 10 alunos após tomar conhecimento de postagens obscenas e racistas em um grupo interno de futuros estudantes de lá. O caso foi revelado pelo jornal The Harvard Crimson, especializado em assuntos da universidade localizada em Massachusetts, nos Estados Unidos.

De acordo com o jornal, os estudantes fariam parte de um grupo do Facebook com cerca de 100 membros criado depois que a universidade começou a comunicar os concorrentes sobre as aprovações. Esses alunos teriam se reunido a partir de um outro grupo do Facebook, oficial, administrado pela própria universidade, onde interagem os alunos da "classe 2021" – ou seja: os que entrarão em Harvard no próximo verão.

Nesse novo grupo, que em determinado momento teria sido intitulado "Memes de Harvard para adolescentes burgueses", eles trocavam mensagens de incentivo ao estupro e ironizavam minorias, como os latinos, os negros e os judeus. O The Harvard Crimson diz que teve acesso a reproduções dessas conversas, que também chegaram ao comitê de aprovação da universidade.

Em e-mail ao jornal, a porta-voz de Harvard, Rachael Dane, disse que a universidade não comenta publicamente sobre a aprovação ou não de alunos. Mas o Crimson conta que a universidade chegou a alertar os estudantes em abril para que retirassem as postagens.

No grupo oficial no Facebook, há um alerta da faculdade no qual ela lembra que pode revogar a admissão em diversas condições, incluindo se o aluno se engajar em situações que coloquem em dúvida sua honestidade, maturidade ou caráter. Teria sido esse o caso com os 10 alunos em questão.

A Universidade de Harvard recebeu cerca de 40 mil pedidos de interessados em fazer parte da classe 2021, aceitando 2.056 deles (uma taxa de 5,2% de aceitação, apenas). Desses alunos, cerca de 84% se matricularam, numa taxa recorde na história recente de universidade.


Fonte: Portal UOL Notícias

Em três meses, mais de 3,6 mil mulheres sofreram violência doméstica no DF


“Não use essa roupa”, “Não quero você de conversa com homem”, “Não vá a esse lugar”, “Depois das 22h, não saia de casa”, “Se você não é minha, não vai ser de mais ninguém”. Essas são algumas frases comuns na rotina de casais que mantêm um relacionamento abusivo.

As mulheres são o principal alvo das ofensas. Só nos três primeiros meses deste ano, das 4.085 vítimas de violência doméstica, apenas 410 foram homens. Já as mulheres, são 3.675, o que representa 90% do total. Dos autores identificados, 3.360 são do sexo masculino e 347, do feminino, segundo levantamento da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social.

O lado mais perigoso desse conflito leva ao feminicídio. Até se chegar a esse ponto, no entanto, começam a surgir alguns sinais. O sentimento de posse sobre o outro leva a pequenas agressões que, mais tarde, podem culminar em violência física.

Imposições, xingamentos, gritos e exigências são atitudes cíclicas dentro desse tipo de relação. As agressões seguem um ciclo. A fase inicial é a de tensão, onde situações que não deveriam ocorrer começam, como o desejo de controlar o cotidiano do outro.

A segunda fase é a da agressão — psicológica, sexual ou física. Logo depois, quando há uma esperança de que essa mulher vá sair da relação abusiva, chega a fase da reconciliação.

“É onde surgem promessas, juras de que as coisas vão mudar e de tudo será diferente. E é isso que segura a mulher, a expectativa de mudança. Às vezes, as relações chegam a um ponto em que essa fase nem existe mais, só existe a etapa da agressão”, observa o psicólogo Hugo Guimarães, especialista em casais.

A juíza Thereza Karina Barbosa, gestora do atendimento a vítimas de violência doméstica do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), afirma que o melhor forma de evitar os abusos é se prevenir desses relacionamentos e aprender a respeitar os próprios sentimentos.

“Se aquilo magoa, acolha amorosamente o que sente, e não desqualifique. A vítima tem que trabalhar essa percepção para se defender”, explica. O medo, para ela, impulsiona esse tipo de relação. “(Medo) de ficar só, de não conseguir caminhar com as próprias pernas, do futuro, de encontrar alguém pior”, enumera a magistrada.

De acordo com ela, o abusador costuma escolher parceiras que cresceram em uma estrutura familiar fragilizada. “Essa moça não consegue mensurar o risco desse relacionamento, porque já teve uma relação traumática anteriormente, até dentro da própria casa. Então ela não sabe até onde é seguro. Confunde amor e ódio. Cresce em um ambiente onde tem amor, ódio e maus-tratos e tudo se mistura”, esclarece Thereza Karina.


Duplo abandono

Clara* entrou em um caminho do qual não vê volta. Quando criança, os pais tinham profissões que exigiam plantões e, por isso, passavam muito tempo fora de casa. Então, a independência veio muito cedo e o afeto, ficou de lado. “Eu cresci sem me sentir amada. Quando aparece uma pessoa especial, ela vira uma referência daquilo que você nunca teve e preenche uma lacuna”, revela. Mãe aos 15 anos, o primeiro namorado já dizia que ela não poderia sair se não fosse de calça jeans e com uma camiseta que cobrisse totalmente o quadril. A situação mais traumática, no entanto, veio com o pai do segundo filho. Ficaram juntos durante cinco anos.

Quando Clara, moradora do Park Way, montou a própria empresa, o ex-companheiro, sempre que podia, sabotava o trabalho, pois ela não podia ganhar mais do que ele. Uma das humilhações ocorreu quando ela saía para o escritório. “Estava com uma blusa branca e ele alegou que era transparente. Ee respondi que não e que, inclusive, já havia usado várias vezes aquela peça. Foi a hora que ele me deu um beliscão do bico do peito. Aquilo foi mais do que uma dor física, doeu na minha alma. É uma coisa extremamente humilhante, ele já tinha me agredido de outras formas, mas essa me marcou.”

Logo no início do namoro, o ex a acordou no meio da noite. “Simplesmente, porque queria transar comigo. E eu falei que não queria, pois não estava com vontade. Ele levantou e foi embora. Parece que eles não se importam se você está com vontade, se sente prazer”, diz.

Na gravidez, ela também passou por um dos piores momentos da vida. Sempre teve o sonho de ter parto normal. E, com 39 semanas, teve uma consulta e a médica relatou que havia dilatação e era necessário fazer uma cesária. “Liguei para contar e ele surtou. Pediu para que eu mudasse de obstetra, apenas porque sabia que, se o parto acontecesse desse jeito, ele teria que ficar no hospital para cuidar de mim, e não queria”, comenta. A partir desse momento, toda vez que ela via uma grávida na rua, chorava.

Ela conta que precisou chegar ao fundo do poço para sair do relacionamento. Traída, humilhada e traumatizada. Cansou de escutar do ex-parceiro que ninguém ia querê-la com dois filhos, um de um pai. Hoje, a empresária vive uma união estável com outro homem e se diz muito feliz. “Eu não aceito mais coisas inadmissíveis, como a agressão física. Porém, o vejo fazer as coisas erradas comigo e fico com medo de me impor. Tenho medo de ele não me querer mais”, confessa. Clara acredita que esse seja um dos motivos pelo qual as mulheres ainda temem denunciar. “Se registrar queixa, não vai poder estar com ele, e você quer essa presença, porque gosta da pessoa. Não é o desejo de que ele seja preso, mas que pare de te bater”, constata.


Processo de anulação

“Eu era vítima da mente dele. Não importava o que era verdade”, conta Fabiana*, que mora no Lago Sul. Assim como outras mulheres vítimas de violência doméstica, ela se anulou como mulher para atender às exigências do companheiro ao longo de seis anos. Esse foi o tempo necessário antes de ela perceber que não precisava continuar no relacionamento abusivo. Os dois namoraram, se casaram e tiveram um filho. Ela nunca sofreu violência física, mas ficou marcada pelo que foi obrigada a ouvir e a fazer.

No começo do relacionamento, a viagem que tinha tudo para ser uma lua de mel antecipada, tornou-se o início de uma fase que hoje ela quer esquecer. “No primeiro dia de praia, ele mudou comigo. O tempo passou e eu não entendia o porquê de tudo. Foi então que ele disse que, quando chegamos, eu tirei o short e fui andar na praia de biquíni, como se quisesse mexer com os homens. No outro dia, para não chateá-lo, eu fui com um vestido por cima. Esse foi o primeiro passo”, relata Fabiana.

Daí em diante, a situação só piorou. Amante da prática de lutas desde a adolescência, teve que se policiar para não usar roupas ou fazer movimentos “inadequados”. “Por mais que eu fizesse tudo para agradá-lo, nunca era o suficiente. Chegou ao ponto de ele criar um diário para anotar as coisas que achava que aconteciam. Escrevia que tinha certeza que, depois de malhar, eu saía com outros caras”, relembra.

Fabiana percebeu que não havia mais amor quando engravidou. Era um momento em que estava fragilizada e precisava de cuidados, mas o marido fazia piadas sobre seu corpo e nem mesmo encostava na barriga da mulher. “Eu passei um Natal sozinha. Pensei em me separar diversas vezes durante a gravidez, mas tinha medo de criar um filho. Às vezes, ia pra casa da minha mãe e ele ia atrás. Eu tinha o sonho de ter minha família, ele prometia que ia ser tudo diferente, e eu voltava.”

Hoje, após meses separada, Fabiana consegue ver como a relação a fazia mal. “É uma coisa que você percebe só quando sai. Depois que eu me separei, vi que não é normal uma pessoa que ama a outra fazer o que ele fazia. Eu falava alguma coisa, mas parecia que era nada. A vontade dele estava sempre em primeiro plano. E isso vira uma doença”, acredita.


O fim da ilusão

No início do relacionamento, Cristina*, moradora de Planaltina, era tratada como uma “princesa” por uma pessoa que ela achava que conhecia. Ele contava a história de vida difícil, de uma família que o abandonou. Com três meses de namoro, o companheiro já morava com ela, com a mãe e com os irmãos. “Enquanto isso, a família dele tentava contato comigo, mas ele mandava que eu bloqueasse. Eu acreditei no que ele me dizia. Hoje, percebo que estavam tentando me alertar”, conta. Lutador de artes marciais, com 1,80m de altura, o homem regulava as roupas que ela usava e, quando saía para trabalhar, levava até a chave para que Cristina não saísse de casa, com o discurso de que era apenas zelo. Ela, desempregada e apaixonada, acreditava que estava tudo dentro do normal.

Quando chegaram aos cinco meses de namoro, ele não conseguiu mais sustentar o personagem. “Ele tinha comportamentos explosivos do nada. Quebrou a porta do guarda-roupa com um murro durante uma discussão. E eu perguntei se o próximo seria na minha cara”, relata. Depois disso, pediu ao parceiro que fosse embora. Mas, no dia seguinte, ele pediu perdão. Mesmo cheia de receio, Cristina o aceitou de volta.

Aos seis meses de relacionamento, outra decepção. “No horário do almoço, a gente tinha tido uma discussão e eu parecia uma bomba-relógio. Sentei no sofá e pedi parar ele parar de me tratar mal e de gritar comigo. Daí, comecei a chorar”, relembra. O companheiro veio atrás para dizer que tudo aquilo acontecia por culpa dela. A puxou pelo braço, encostou o nariz no dela e berrou: “Eu não te trato mal”. Naquele momento, ela perdeu as forças, conseguiu pedir que ele a soltasse e saiu em direção ao quarto.

“Se eu soubesse que dar as costas para acabar com uma briga faria eu ver a morte passar pela minha frente, teria continuado a discussão.” Logo após, vieram socos na nuca, nariz e boca, chutes no rosto e no corpo. Cristina perdeu os sentidos e acordou ensanguentada. É com voz ofegante que as recordações vêm à mente. As marcas do corpo sobraram na alma. “Meu rosto ficou completamente desfigurado. Eu me olhava no espelho e me achava um monstro. Mas a minha recuperação física foi tranquila, demorou duas semanas. Agora, psicologicamente, tenho o mesmo sentimento do dia seguinte da agressão”, lamenta.


Mudança na lei

A Lei do Feminicídio completou dois anos em março. Ela altera o artigo 121 do Código Penal e passa a ser circunstância qualificadora do homicídio. A morte de uma mulher é, segundo a lei, considerada um homicídio qualificado quando a razão do crime é o gênero da vítima ou questões associadas, como violência doméstica e familiar, menosprezo à condição de mulher ou discriminação à condição de mulher. Prevê reclusão de 12 a 30 anos e determina aumento de pena em algumas circunstâncias, como quando o crime ocorre durante a gestação.


Palavra de especialista

Como se defender e identificar a agressão

“Aprenda a identificar uma situação de agressão. E se defender não é bater na pessoa. É parar a ação e não alimentá-la. Por exemplo, se o seu namorado começa a te agredir verbalmente em uma mesa de bar, levante, pague a conta e vá embora. Não entre em uma relação querendo um homem que pague tudo para você, que seja o seu provedor, que resolva os seus problemas. Caminhe com as próprias pernas. É ótimo poder contar com alguém, o que eu não posso é depender dessa pessoa.”
Thereza Karina Barbosa, juíza responsável pelo atendimento a vítimas de violência doméstica no TJDFT

Para saber mais

Conheça a lei e denuncieDe acordo com a Lei Maria da Penha (nº 11.340, de 2006), são formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: a violência física, a violência psicológica, a violência sexual, a violência patrimonial, a violência moral, entre outras. A Central de Atendimento à Mulher é um serviço do Governo Federal que auxilia e orienta as mulheres vítimas de violência pelo número 180. As ligações podem ser feitas gratuitamente. O número foi criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres em 2005.


Fonte: Jornal Correio Braziliense

Mulheres que Fizeram História - A história esquecida das “radium girls”, cujas mortes salvaram as vidas de milhares de trabalhadores


Em 10 de abril de 1917, uma mulher de 18 anos chamada Grace Fryer começou a trabalhar como pintora de mostradores de relógios na United States Radiation Corporation (USRC), na cidade de Orange, Nova Jersey. Quatro dias antes, os Estados Unidos haviam entrado na Primeira Guerra Mundial. Com dois irmãos em fronts de batalha, Grace queria fazer tudo o que estava ao seu alcance para ajudar o esforço de guerra do país. Mas ela não imaginava que seu novo emprego mudaria sua vida — e os direitos dos trabalhadores dos EUA — para sempre.


As meninas-fantasma

Com a guerra declarada, centenas de norte-americanas da classe trabalhadora correram para a fábrica onde pintariam relógios e seletores militares com o elemento químico rádio, que tinha sido descoberto por Marie Curie pouco menos de 20 anos antes.

Esse tipo de ocupação era um “trabalho de elite para as pobres meninas trabalhadoras”, já que pagava mais que três vezes o salário médio de uma fábrica — proporcionando independência financeira para as mulheres numa época em que começava a surgir o empoderamento feminino. Muitas eram adolescentes, com mãos pequenas, perfeitas para o trabalho artístico. A oportunidade era tão boa que as meninas divulgavam o seu trabalho para suas redes de amigas e familiares. Muitas vezes, irmãs trabalhavam lado a lado na fábrica.

A luminosidade do elemento rádio também fazia parte do fascínio, e as pintoras de mostradores logo ficaram conhecidas como as “meninas-fantasma” — quando seus turnos terminavam, elas estavam brilhando no escuro. Elas aproveitavam esse “privilégio”, usando vestidos de festa durante o trabalho para que eles brilhassem à noite, nos salões de baile. As meninas chegavam a pintar os dentes com rádio, para ficar com um sorriso capaz de nocautear seus pretendentes.

Grace e suas colegas seguiam obedientemente a técnica que tinham aprendido para pintar os minúsculos mostradores, alguns dos quais com apenas 3,5 centímetros de diâmetro. Elas eram instruídas a passar os pincéis entre os lábios para fazer uma ponta fina — “passar o pincel no lábio, na tinta e pintar”, era como se chamava o movimento —, como descreveria mais tarde a dramaturga Melanie Marnich. Cada vez que as meninas levavam os pincéis à boca, engoliam um pouco da tinta verde brilhante.


Verdade e mentiras

Charlotte Purcell demonstra a técnica de fazer uma ponta fina no pincel usando os lábios.
Fonte: Chicago Daily Times / Sun-Times Media


“A primeira coisa que perguntamos foi: ‘Isso faz mal?’”, lembrou mais tarde Mae Cubberley, que ensinou a técnica a Grace. “Obviamente, você não quer colocar na boca algo que faça mal. O Sr. Savoy [o gerente] disse que não era perigoso, que não precisávamos ter medo.”

Mas não era verdade. Desde que o elemento brilhante fora descoberto, seus efeitos nocivos eram conhecidos; a própria Marie Curie tinha sofrido queimaduras por radiação. Havia registros de morte por contaminação de rádio antes de a primeira pintora de mostradores pegar num pincel. Por isso, os homens das empresas de rádio usavam aventais de chumbo em seus laboratórios e manipulavam o rádio com pinças de marfim. No entanto, as pintoras de mostradores não receberam a mesma proteção nem sequer foram avisadas de que ela era necessária.

Isso aconteceu porque, naquela época, acreditava-se que uma pequena quantidade de rádio — como a manuseada pelas meninas pintoras — fosse benéfica para a saúde: as pessoas bebiam água de rádio como um tônico e era possível comprar cosméticos, manteiga, leite e pasta de dente com o maravilhoso novo elemento. Os jornais diziam que o rádio “acrescentaria anos às nossas vidas”.

No entanto, essa crença se baseava em pesquisas conduzidas pelas mesmas empresas que lucravam com um negócio nascente — e que ignoravam todos os sinais de perigo.



A primeira morte

Em 1922, uma das colegas de Grace, Mollie Maggia, teve que sair do emprego porque estava doente. Ela não sabia o que tinha de errado com ela. Seu problema começou com uma dor de dente. O dente fora arrancado por um dentista, mas então o dente ao lado também começou a doer e teve de ser extraído. No lugar dos dentes perdidos, brotaram feridas, que cresciam vermelhas e amarelas com sangue e pus. Depois, as feridas supuravam deixando Mollie com um hálito terrível. Mais tarde, a jovem passou a sofrer dores tão fortes no corpo que não conseguia mais caminhar. O médico achou que era um caso de reumatismo e a mandou para casa com aspirina.

Em maio de 1922, Mollie estava desesperada. Àquela altura, ela já tinha perdido a maior parte dos seus dentes e a misteriosa infecção se espalhara: toda sua mandíbula, seu céu da boca e até mesmo alguns dos ossos de suas orelhas tinham virado “um grande abscesso”. No entanto, o pior ainda estava por vir. Quando seu dentista cutucou delicadamente sua mandíbula, para seu horror e choque, o osso quebrou contra seus dedos. Ele o removeu, “não com uma operação, mas apenas tirando-o com os dedos”. Dias depois, a mandíbula inteira de Mollie foi removida da mesma maneira.

Mollie estava literalmente caindo aos pedaços. E ela não era a única; Grace Fryer também estava tendo problemas com sua mandíbula e sentindo dores nos pés, assim como outras “radium girls” [meninas do rádio].

Em 12 de setembro de 1922, a estranha infecção que atormentava Mollie Maggia havia menos de um ano se espalhou para os tecidos de sua garganta. A doença lentamente comeu sua jugular. Às 17h daquele dia, sua boca estava inundada de sangue; a hemorragia era tão forte que os enfermeiros não conseguiram controlá-la. Mollie morreu aos 24 anos. Com os médicos desconcertados sobre a causa da morte, seu certificado de óbito, erroneamente, disse que ela tinha morrido de sífilis, o que depois seria usado contra ela por sua antiga empresa.

Uma por uma, as ex-colegas de Mollie a seguiriam até o túmulo.


O acobertamento

Durante quase dois anos, a USRC, a empresa em que as meninas trabalhavam, negou qualquer responsabilidade pelas mortes. Depois de observar uma desaceleração em seus negócios graças ao que chamava de “boatos”, em 1924 a empresa finalmente pediu que um especialista investigasse a ligação entre o trabalho de pintar os mostradores e as mortes das mulheres.

Ao contrário das pesquisas da própria empresa sobre os supostos benefícios do rádio, o estudo foi independente. Quando o especialista confirmou a ligação entre o rádio e as doenças das mulheres, o presidente da empresa ficou indignado. Em vez de aceitar os resultados, pagou novos estudos, que chegaram a conclusões opostas. Além disso, ele também mentiu para o governo americano — que tinha aberto uma investigação — sobre o veredicto do relatório original. Publicamente, o presidente da empresa afirmou que as mulheres estavam tentando “tirar vantagem” de suas doenças e as condenou por buscarem ajuda financeira da companhia para suas despesas médicas.


A luz que não mente

Com o relatório silenciado, o maior desafio das mulheres passou a ser provar a ligação entre suas doenças misteriosas e o rádio que elas estavam ingerindo centenas de vezes ao dia. Embora suspeitassem que a culpa residia no tipo de trabalho que realizavam, elas lutavam contra a crença generalizada de que o rádio era seguro. Na verdade, foi só depois da morte do primeiro funcionário homem da USRC que os especialistas finalmente admitiram a verdade. Em 1925, um médico chamado Harrison Martland criou testes que provaram de uma vez por todas que o rádio tinha envenenado as mulheres.

Martland também explicou o que estava acontecendo dentro dos corpos das garotas. Já em 1901, era evidente que o rádio poderia ser prejudicial aos seres humanos quando aplicado externamente. Certa vez, Pierre Curie comentou que não gostaria de estar no mesmo recinto que um quilo de rádio puro, pois acreditava que ele queimaria toda a pele de seu corpo, destruiria sua visão e “provavelmente o mataria”. Martland descobriu que, quando o rádio era ingerido, mesmo em pequenas quantidades, o dano era milhares de vezes maior.

O rádio, quando ingerido, se instalava nos corpos das mulheres e emitia uma radiação constante e destrutiva, que “alvejava” seus ossos. A radiação do elemento químico estava literalmente furando as meninas vivas. Todo o corpo era atacado: a espinha dorsal de Grace Fryer foi “esmagada”, e ela teve de usar um suporte de coluna de aço para sustentá-la; a mandíbula de outra menina foi devorada e virou um “mero toco”. As pernas das mulheres encurtavam e apresentavam fraturas espontâneas.

Uma pintora com câncer no joelho, causado pelo elemento químico rádio


Sinistramente, os ossos danificados também começaram a brilhar. Às vezes, as mulheres percebiam que tinham sido envenenadas pelo rádio quando se miravam no espelho à noite — e viam refletidas garotas-fantasma, brilhando com uma luminosidade não-natural que selaria seus destinos.

Isso porque Martland também percebera que o envenenamento era fatal. Não havia maneira de remover o rádio do corpo das meninas.

Vista frontal e lateral de uma pintora de mostradores com um sarcoma induzido pelo rádio


A luta

Apesar das tentativas da indústria do rádio de desacreditar o trabalho pioneiro de Martland, a empresa não contava com a coragem e a tenacidade das próprias meninas. Elas começaram a se unir para lutar por justiça. A batalha tinha um senso de urgência — afinal de contas, pintoras de mostradores de relógio ainda trabalhavam em todos os Estados Unidos. “Não estou pensando em mim”, comentou Grace Fryer. “Estou pensando nas centenas de garotas para quem isso pode servir de exemplo.”

Foi Grace quem liderou a luta, determinada a encontrar um advogado, mesmo depois de ouvir várias negativas — seja porque os advogados não acreditavam nas reivindicações das mulheres, seja porque eles temiam as poderosas corporações de rádio ou simplesmente por eles estarem despreparados para uma batalha legal que exigiria a revogação da legislação existente.

Naquela época, o envenenamento por rádio não era uma doença indenizável — ela não tinha sido descoberta até que as meninas ficaram doentes —, e as mulheres também tinham problemas com os prazos legais: as vítimas de intoxicação ocupacional tinham de dar início aos processos judiciais em até dois anos. A intoxicação pelo rádio era insidiosa: a maioria das meninas não começou a apresentar sintomas até pelo menos cinco anos depois de começarem a trabalhar. Em suma, elas estavam presas em um círculo vicioso jurídico aparentemente sem solução. No entanto, Grace era a filha de um representante sindical e estava determinada.

Finalmente, em 1927, um advogado chamado Raymond Berry aceitou o caso. Grace (junto a quatro colegas) viu-se então no centro de um drama judicial que ficaria internacionalmente famoso. No entanto, o tempo estava se esgotando: as mulheres tinham apenas quatro meses de vida, e a empresa parecia empenhada em arrastar o processo. Como conseqüência, Grace e suas amigas foram forçadas a fazer um acordo. Apesar disso, elas conseguiram chamar a atenção para a intoxicação por rádio, exatamente como Grace planejara.

Grace Fryer


O caso das “radium girls” de Nova Jersey foi manchete nos jornais e provocou mudanças em todos os Estados Unidos. Em Ottawa, Illinois, uma pintora de mostradores de relógio chamada Catherine Wolfe leu a cobertura horrorizada. “Houve reuniões na [nossa] fábrica que quase acabaram em tumulto”, lembrou ela. “O medo era tão forte que mal podíamos trabalhar.”

No entanto, a empresa de Illinois, a Radium Dial, fez o mesmo que a USRC e negou sua responsabilidade. Embora os testes médicos da empresa provassem que as mulheres de Illinois estavam mostrando sintomas claros de envenenamento por rádio, a companhia mentiu sobre os resultados. A empresa chegou a publicar um anúncio de página inteira no jornal local: “Se tivéssemos qualquer razão para acreditar que as condições de trabalho estão pondo em risco a saúde de nossos funcionários, teríamos imediatamente suspendido as operações”. Para abafar o escândalo, a empresa chegou a interferir nas autópsias das meninas mortas: funcionários da companhia roubaram ossos na tentativa de encobrir o problema.



Fazendo história

As mulheres que não foram mortas pelos mesmos problemas de mandíbula que acometeram Mollie Maggia acabaram tendo sarcomas — grandes tumores ósseos cancerígenos que apareciam em qualquer lugar de seus corpos. Uma das pintoras, Irene La Porte, morreu de um tumor pélvico massivo “maior que duas bolas de futebol americano”.

Em 1938, Catherine Wolfe (Donohue após seu casamento) desenvolveu um tumor de tamanho de uma toranja no quadril. Como Mollie Maggia, ela perdeu os dentes e teve que tirar pedaços da mandíbula; além disso, ela tinha de segurar permanentemente um lenço para absorver da boca. Catherine também tinha visto suas amigas morrendo, e isso aumentou sua determinação.

Catherine começou sua luta por justiça em meados da década de 1930: os EUA estavam então na Grande Depressão. Ela e suas amigas foram criticadas por suas comunidades por processar uma das poucas empresas que tinham ficado de pé após a crise. Embora prestes a morrer quando seu caso foi à corte, em 1938, Catherine ignorou o conselho dos médicos e prestou seu testemunho em seu leito de morte. Ao fazê-lo, e com a ajuda de seu advogado, Leonard Grossman (que trabalhou sem receber remuneração), ela finalmente obteve justiça: não só para si mesma, mas também para todas as outras trabalhadoras afetadas.

Em seu leito de morte, Catherine Donohue presta depoimento


O legado

O caso das “radium girls” foi um dos primeiros em que uma empresa foi responsabilizada pela saúde de seus funcionários. Isso levou a regulamentações que salvaram vidas e, em última análise, ao estabelecimento da Occupational Safety and Health Administration (OSHA), órgão do governo federal americano que regula as condições de segurança do trabalho. Antes da criação da OSHA, 14 mil pessoas morriam no trabalho todos os anos; hoje, são pouco mais de 4.500. As mulheres também deixaram um legado para a ciência que é chamado de “inestimável”.

No entanto, você provavelmente não vai encontrar os nomes delas nos livros de história, porque hoje elas foram esquecidas.

Com base nas palavras dessas mulheres — em seus diários, em suas cartas e em seus testemunhos —, meu novo livro, “The Radium Girls” [sem edição em português], tenta recuperar essa história — porque foi graças à força dessas garotas, seu sofrimento e seu sacrifício que os direitos dos trabalhadores foram conquistados nos EUA. Todos nós nos beneficiamos da coragem delas.

Greer Fryer e Catherine Donohue — para citar apenas dois nomes — são mulheres que precisamos honrar e saudar como heroínas. Elas brilham através da história com tudo o que conquistaram em suas curtas vidas. E elas também brilham de outras maneiras. Porque o elemento rádio tem uma meia-vida de 1.600 anos… e ainda está impregnado em seus ossos. Por um bom tempo, as meninas-fantasma continuarão brilhando em seus túmulos.


Fonte: Portal Buzz Feed

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