quarta-feira, 18 de outubro de 2017

I Congresso Internacional em Direitos Humanos e Cidadania


O I Congresso Internacional em Direitos Humanos e Cidadania tem por objetivo apresentar as recentes pesquisas e dialogar com a complexidade que é a pesquisa em direitos humanos e cidadania na pós-graduação e realizar diálogos de saberes com as demais pós-graduações em direitos humanos no Brasil e no mundo.

O evento acontece no Auditório Joaquim Nabuco, da Faculdade de Direito

Clique aqui para mais informações.



Fonte: Site da Universidade de Brasília - UnB

Entrevista - "Sociedade brasileira cultua a violência"

Moradores do ES aplaudem chegada de veículos do Exército durante crise de segurança de fevereiro


Uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em conjunto com o Datafolha, mostrou que o medo da violência é uma das principais razões para que o brasileiro tenha propensão a posições autoritárias.

O estudo, divulgado na sexta-feira (06/10), também apontou que o segmento mais rico da população é o que mais rejeita a ampliação dos direitos humanos e civis no país.

Para o sociólogo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP, hoje há espaço no Brasil para posições políticas e ideológicas que reforçam preconceitos, posições reacionárias e atitudes de intolerância.

"A sociedade brasileira é extremamente violenta, e infelizmente essa é uma característica que tem raízes históricas", diz Lima, em entrevista à DW. "Somos uma sociedade que cultua a violência, o individualismo exacerbado e não valoriza a vida."


DW Brasil – Quais são as principais conclusões do estudo?

Renato Sérgio de Lima –
A pesquisa mostra que a sociedade brasileira é extremamente violenta, e infelizmente essa é uma característica que tem raízes históricas. É uma sociedade que entende que a forma de resolver os conflitos é por meio de posturas autoritárias e de violência. Ou seja, violência se resolve com mais violência. No caso de apoio a posições autoritárias, o índice atingiu 8,1 numa escala de 0 a 10 – sendo 10 a mais alta propensão. Segundo a nossa pesquisa, as pessoas mais propensas ao autoritarismo são as mais pobres, com menos escolaridade e moradores da região Nordeste do país.

Outro destaque é que as pessoas mais ricas, que ganham mais de dez salários mínimos, são aquelas que, proporcionalmente, mais rejeitam a ideia de ampliação dos direitos humanos e civis, como por exemplo, da população LGBT, das mulheres e dos negros. Nesse caso, o índice atinge 7,83 numa escala de zero a dez. Ou seja, temos uma combinação tóxica no Brasil onde, de um lado, a população mais pobre tem maior propensão a posições autoritárias e, de outro, a mais elitizada não quer aderir à agenda de direitos da nossa Constituição.


Qual é o motivo para que a população brasileira seja mais propensa ao autoritarismo?

Vemos que o medo da violência tem dominado a população adulta no país e, assim, essa questão assume um papel central no contexto atual, em que vivemos uma profunda crise de legitimidade das instituições democráticas. Essa crise abre espaço para posições políticas e ideológicas que reforçam preconceitos, posições reacionárias e atitudes de intolerância e que podem levar a retrocessos dramáticos no que diz respeito a políticas públicas, em especial as voltadas para a área de segurança pública.

Os resultados apontam para a urgência de o Brasil rever a maneira como tem enfrentado a violência e pautado as políticas de segurança pública. Quer dizer, o medo da violência é o maior motor para posições polarizadas, porque a sociedade brasileira vive, na média, amedrontada. Ou interferimos na interdição moral e política da violência como uma ferramenta de solução de conflitos ou estamos criando um ambiente extremamente complexo, que abre margem para sectarismos e posições perigosas para a democracia brasileira.


Por que os brasileiros mais ricos apresentam uma maior tendência de ser contra a agenda de direitos?

Geralmente, as pessoas associam direitos a privilégios. Uma das perguntas foi se "a lei das domésticas interfere indevidamente nas relações entre patrões e empregados". Muitos brasileiros ricos pensam que, se a população tiver seus direitos ampliados, eles não terão mais condições de pagar uma empregada doméstica todos os dias. Então, associa-se ao risco que a mobilidade social oferece aos privilégios que a classe média e os mais ricos conseguiram construir ao longo dessa estrutura de desigualdade, de não direitos. A população do Brasil, historicamente, é relegada ao salve-se quem puder e, em meio a isso, a perspectiva de ampliação de direitos assusta aqueles que, de algum modo, imaginam que conseguiram mobilidade por mérito ou herança. Somos uma sociedade que cultua a violência, o individualismo exacerbado e não valoriza a vida. Nosso futuro depende de reconhecermos na vida o nosso valor máximo a ser preservado e garantido.


Como você analisa este dado: o apoio maior a posições autoritárias é entre o brasileiro autodeclarado pardo, maior de 45 anos, da classe D/E, menos escolarizado e morador de cidades de até 50 mil habitantes da região Nordeste.
É exatamente esse segmento da população brasileira que tem, reiteradamente ao longo dos últimos séculos, sido vítima tanto da violência como da violação de direitos. E, com a crise econômica atual, esse segmento da população está muito decepcionado com o Estado, com as políticas sociais e com a não garantia da cidadania. As respostas apontam um pedido de socorro das classes mais pobres que nunca tiveram seus direitos assegurados, que tiveram uma mobilidade a partir do crescimento econômico, mas, que agora, com a crise, estão novamente sobre o risco do desemprego, da fome e da miséria. E as formas culturais de solução de conflitos ainda são muito permeadas pela violência. Em comunidades menores – quando o cidadão tem menos acesso à informação e é mais dependente de interações comunitárias cotidianas –, elas tendem ser mais tradicionais e, infelizmente, no Brasil a tradição é fazer uso da violência.


Qual é o cenário caso não se atue frente à violência?

Se não interferirmos nesse processo, posições salvacionistas – como, por exemplo, a plataforma política eleitoral de Jair Bolsonaro – ganham força exatamente ao tentar propor uma solução para o problema. Porém, a solução de Bolsonaro é eliminar os "inimigos”, que, portanto, seriam aqueles que estão amedrontando a população. Isso é muito perverso, porque, no momento em que a população não reconhece direitos, ela vive amedrontada e aceita posições autoritárias. Isso tem a ver com valores tradicionais, que, em associação com medo, legitimam mais violência. Estamos criando um ambiente em que o país está flertando com uma realidade que nos anos 1940 era muito próxima, como o nazismo, fascismo e ditaduras de direita ou esquerda. O ideal de Justiça é substituído pela ideia de vendeta e revanche contra todos aqueles que, em tese, são vistos como responsáveis pelo atual quadro de insegurança e criminalidade que o país vive.


O que as instituições podem fazer para diminuir a propensão ao autoritarismo da população?

Primeiramente, o governo deve garantir os direitos previstos pela Constituição de 1988, começando por garantir a vida. O Brasil tem 60 mil homicídios todos os anos e 50 milhões de brasileiros adultos que conhecem pessoas que foram assassinadas. Se tivermos que fazer algo, é repensar as políticas de segurança para garantir a vida. O segundo é garantir que as pessoas possam ter a liberdade de ir e vir, garantir sua identidade, autonomia, enfim, que a sociedade brasileira possa ser uma sociedade plural, multicultural e onde as diferenças sejam resolvidas numa instância confiável, ou seja, o Estado precisa se tornar mais confiável e as polícias precisam se aproximar da população. Precisamos investir em polícias mais confiáveis e mais capazes de lidar com o problema, e não no padrão violento de enfrentamento do criminoso. Temos que investir no esclarecimento dos crimes e punir seus responsáveis.


Como o Estado está atuando na luta contra a violência e qual seria a melhor forma de fazê-lo?

Na prática, a violência não está sendo interditada moral ou politicamente. Ou seja, os partidos de esquerda reduzem a violência como fruto da desigualdade, então frisam que é importante investir em redução das causas sociais que a provocam. Já os de direita, a violência é fruto do narcotráfico e da maldade dos criminosos, então deve-se perseguir os criminosos e eliminá-los. Mas, na prática, não estamos enfrentando de frente o problema da segurança pública, que é construir um Estado que garanta o monopólio da força legítima, consiga administrar conflitos e fazer isso dentro do Estado democrático de direito. E um Estado que garanta a paz, e não o medo, porque, no fundo, é isso que está provocando o medo na população.


Fonte: Jornal Deutsch Welle (Alemanha)

Artigo - Há mais coisas entre uma AK-47 e a favela do que pode imaginar nossa vã filosofia



Por: Romário Regis


Pensa numa Ak-47.

Agora pensa numa Ak-47 numa favela.

Uma Ak-47 custa 60 mil reais. R$60.000,00.

O Brasil não fabrica Ak-47, mas mesmo as armas fabricadas no Brasil não podem ser compradas numa loja de conveniência.

ou seja,

Pra uma arma chegar numa favela, é preciso uma caminhada bem longa de muitos envolvidos, participantes e sócios. Não se compra um Fuzil ou uma Pistola na OLX.

Para uma AK-47 chegar numa favela, ela precisa ser importada ilegalmente. Precisa ter alguém que traga num transporte aéreo ou pelo mar e sabemos bem que a Favela não domina o mercado náutico e nem aéreo Brasileiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguém da polícia federal ganhe um dinheiro para as cargas entrarem na fronteira brasileira e circule pelas estradas do País para chegar em Estados como Rio de Janeiro e São Paulo.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que as polícias estaduais dos Estados que essa carga passe ganhem algum dinheiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguma parte do Governo do Estado seja conivente com a chegada de armas numa favela.

Pronto. Chegou a AK-47 e jovens que não possuem nenhuma instrução estão armados com uma arma super potente. Levam a culpa por toda uma cadeia produtiva de tráfico de armas que eles nem devem compreender.

E vai além.

Quando tem uma troca de tiro na favela ou na rua, a culpa não é apenas de quem está com a arma na mão, mas sim de TODA A CADEIA PRODUTIVA que fez a arma chegar na mão daquela pessoa. É tanto culpa de quem dá o tiro até a culpa de quem transporta a munição pelo mar ou aceita o arrego na Blitz numa dessas Br’s ai pelo Brasil.

E não tem só o “bandido atirador” não.

Tem Deputado.
Tem Governador.
Tem a Empresa de Armas.

Tem um monte de gente que “não deve ser citado”.

Um tiro é uma Genki Dama de gente envolvida. Seja você a favor do Estatuto do Desarmamento ou não, seja você a favor de Bandido Bom é bandido Morto ou não, é preciso saber que.

UMA
ARMA
NA
RUA
TEM
DEZENAS
DE
ENVOLVIDOS

Se bandido bom é bandido morto, sua lista precisa aumentar inclusive para os donos das empresas fabricantes de armas que lucram milhares de dólares e reais com essas armas vendidas informalmente.

O policial é o menor responsável dessa cadeia produtiva assim como o bandido que troca tiros de havaianas na favela não sabe de 5% daquilo que está envolvido.

Os culpados são outros e a gente insiste em resumir tudo na Wagner Montesrização de o único culpado é quem atira.

Geral é culpado. Entre quem dá o tiro e quem fabrica a arma, existe tanta gente envolvida que nem The Walking Dead daria conta de criar tanto personagem.


Fonte: Página Vamos falar de política? / Facebook

Dove se desculpa e retira um anúncio acusado de racismo


Dove, uma das maiores marcas de produtos de cuidados pessoais do mundo, se desculpou após publicar em sua conta do Facebook uma peça publicitária acusada por usuários da rede social de racismo. Nas fotos, já apagadas, uma mulher negra tirava uma camiseta marrom e se transformava em outra mulher, branca, ruiva e com uma roupa mais clara. Em uma terceira fotografia, esta mulher branca se converte em uma jovem morena. "Lamentamos profundamente a ofensa que o anúncio causou", disse Dove, do grupo Unilever.

Uma maquiadora norte-americana negra, Nay the mua, denunciou na sexta-feira em seu mural: "Estava navegando pelo Facebook e este anúncio da Dove me aparece". Dove respondeu a ela que as imagens pretendiam mostrar os benefícios de um sabonete "para todos os tipos de pele". Dove se desculpou também em seu Twitter: "Uma imagem que publicamos recentemente no Facebook errou ao representar mulheres negras de forma desrespeitosa. Lamentamos profundamente a ofensa que causou [o anúncio]".

A queixa recebeu 1,3 milhão de comentários, mais de 3.700 reações e foi 10.180 vezes partilhada desde a última sexta-feira. Alguns usuários se mostraram igualmente indignados e concordaram que, ao se colocar a mulher negra primeiro, parece se representar "o sujo", que fica "limpo e branco" depois de usar o sabão.

Outros, por sua vez, sustentaram que a campanha não é racista. "Não há nada de errado no anúncio. Tudo parece ser racista hoje em dia. Não analisemos as coisas mais do necessário", foi a resposta de uma das usuárias. "Estamos comprometidos a representar a beleza de todas as idades, etnias, formas e tamanhos", insistiu Dove em sua resposta através da rede social.

Não é a primeira vez que a marca é acusada de difundir campanhas racistas. Em 2011, uma campanha que mostrava três mulheres de diferentes cores de pele também causou polêmica. Segundo algumas pessoas, o anúncio sugeria que após usar um produto Dove a pele de uma mulher negra se tornava mais clara. Também em 2015, um produto da marca anunciava em sua etiqueta que podia ser usado por pessoas com "peles normais e negras".


Fonte: Jornal El País (Espanha)

Mulheres que Fizeram História: Nellie Bly, a jovem que passou 10 dias num manicômio para denunciar maus tratos aos pacientes


Elizabeth Cochran Seaman (Cochran's Mills 5 de maio de 1864 — Nova Iorque, Nova York, 27 de janeiro de 1922) mais conhecida pelo pseudônimo Nellie Bly, foi uma jornalista estadunidense. Foi também escritora, inventora, administradora e voluntária em obras de caridade, mais conhecida por sua viagem de circunavegação do globo em 72 dias, simulando a viagem ficcional de Phileas Fogg, no livro de Júlio Verne. Foi também pioneira nas reportagens investigativas, fingindo insanidades para estudar uma instituição para tratamento de doentes mentais por dentro.


Fonte: Portal Newsner / Facebook / Wikipédia

Mulheres que Fizeram História: Irmela Mensah-Schramm, a idosa que retira propaganda nazista das ruas


Irmela Mensah-Schramm (* 1945 em Stuttgart) é uma ativista dos direitos humanos e um antigo pedagogo curativo em uma escola de Berlim para deficientes mentais. Irmela Mensah-Schramm tornou-se conhecida por sua documentação e remoção de adesivos e graffiti racistas e anti-semitas, que começou desde 1986, em toda a Alemanha.



Fonte: Jornal Deutsch Welle (Alemanha) / Wikipédia

Como lidar com um Trump brasileiro


Quatorze países latino-americanos terão eleições presidenciais em 2018 e 2019. Na maioria deles, há uma ampla rejeição à elite política. No México, por exemplo, apenas 2% dos eleitores confiam em partidos políticos e só 4% acreditam que o país está no rumo certo. Em quase toda a América Latina ocorre algo similar. Devido ao baixo crescimento econômico e à desconfiança na classe política — e na própria democracia —, o próximo ciclo eleitoral na região deverá trazer profundas mudanças. Embora isso não seja negativo per se — de fato, as elites políticas precisam ser renovadas urgentemente —, há um risco enorme de que o atual descontentamento generalizado levo ao surgimento de salvadores da pátria no continente, os quais têm maior tendências autoritárias e menor apreço aos chamados freios e contrapesos, pilares de qualquer sistema democrático.

No Brasil, a confiança dos eleitores na classe política também é baixíssima. Não surpreende, portanto, que recentes pesquisas sobre intenção de voto para a disputa presidencial de 2018 mostrem o deputado Jair Bolsonaro em segundo lugar. O capitão da reserva do Exército apresenta propostas de extrema direita semelhantes às do presidente filipino Rodrigo Duterte, líder de um governo globalmente criticado pela sistemática violação dos direitos humanos. Muitos ainda esperam que o deputado carioca se autodestrua nos próximos meses em virtude de suas polêmicas afirmações. Considerando o resultado da eleição presidencial dos EUA de 2016 e em vários países europeus ao longo dos últimos anos, essa expectativa parece perigosamente ingênua.

Candidatos como Trump adotam a estratégia de escandalizar, de maneira sistemática, para crescer nas pesquisas de opinião e definir a pauta do debate público. Muitas de suas declarações têm como objetivo gerar rejeição e estigmatização pelo establishment político. Como afirma um memorando interno do partido da extrema direita “Alternativa para a Alemanha” (AfD) — que teve seu melhor resultado histórico nas eleições parlamentares no mês passado, "quanto mais eles tentam estigmatizar o AfD por causa de palavras provocativas ou ações, melhor para o perfil do AfD. Ninguém dá ao AfD mais credibilidade do que nossos adversários políticos." Trump e o AfD foram politicamente incorretos de propósito e, tanto nos EUA quanto na Alemanha, a imprensa e a elite política erraram ao fazer da ameaça extremista o tema central da campanha. Como Thorsten Benner, um dos principais analistas alemães, afirma em recente artigo na Foreign Affairs, “esse foco [no AfD] impediu que partidos tradicionais envolvessem os eleitores no debate sobre as demais questões com as quais eles [eleitores] se preocupam profundamente, desde previdência e educação públicas até a crise nos asilos alemães, e apresentassem uma visão para a transformação da Alemanha na era digital.”

Cabe, portanto, criticar afirmações absurdas, mas sem dar destaque a provocações nas manchetes dos jornais. Elas, tampouco, precisam dominar as timelines das redes sociais. Compartilhar um post crítico de um candidato extremista pode, ao contrário do que se espera, beneficiá-lo. Ademais, com isso, pode-se estar reduzindo o espaço para as ideias de outros candidatos.

Nos debates durante a campanha — na TV, em universidades, em comícios etc. —, a presença de candidatos espalhafatosos requer perguntas objetivas sobre propostas concretas, como políticas públicas para economia, educação, saúde e segurança — temas para os quais eles normalmente não têm respostas convincentes. Em vez de rotulá-los e isolá-los, assim dando a esses radicais tratamento especial que desejam, é preciso haver diálogo para demonstrar as fragilidades de suas candidaturas.

Fazer abaixo-assinados de intelectuais contra Bolsonaro, como ocorreu recentemente para tentar impedir a palestra do presidenciável na Universidade George Washington, tem o mesmo efeito que sanções econômicas dos Estados Unidos contra o regime de Maduro na Venezuela: ajudam sua causa e mobilizam sua base. Argumenta Benner, no mesmo artigo, sobre a entrada do partido extremista no parlamento alemão: “Nos próximos meses, partidos políticos, os meios de comunicação e as organizações não governamentais não devem procurar apresentar uma frente unida contra o AfD. Fazê-lo só fortalece o argumento do AfD de que [ele] seja a única alternativa a um establishment monolítico.”

Muitos votaram em Trump, no AfD e em outros partidos extremos não porque acreditam em suas teses, mas porque rejeitaram todas as alternativas. No Brasil, muitos apoiam Bolsonaro porque perderam a esperança no sistema político. No caso da Alemanha, 85% dos eleitores da AfD disseram que o voto no partido era uma expressão de desapontamento com as elites políticas e o único veículo com o qual poderiam expressar seu protesto, de acordo com pesquisa do Infratest Dimap. Em vez de apenas atacar os extremistas por suas bravatas durante toda a campanha — como aconteceu na Alemanha e nos EUA —, é preciso enfrentá-los onde eles mostram suas maiores fraquezas: no campo das ideias e propostas concretas.


Fonte: Jornal El País (Espanha)

Índia determina que sexo com esposa menor de idade é estupro

De acordo com um estudo de 2014 da Unicef, a Índia abriga um terço dos casamentos infantis mundo afora


Manter relações sexuais com uma esposa que tenha menos de 18 anos de idade é ilegal, e o ato será considerado estupro, decretou o Supremo Tribunal da Índia nesta quarta-feira (11/10), em uma decisão histórica que afetará milhões de meninas.

Casamentos para meninas com menos de 18 anos e meninos com menos de 21 anos de idade são proibidos na Índia, mas a prática do casamento infantil é mantida em áreas rurais e atrasadas, em meio à fraca aplicação das leis, à pobreza e às normas sociais patriarcais.

A lei indiana considera estupro o sexo consentido com uma garota com menos de 16 anos, mas uma exceção havia sido feita para a relação sexual entre um homem e sua esposa com idade entre 15 e 18 anos.

E justamente essa exceção foi derrubada pelo Supremo Tribunal nesta quarta-feira, explicou o ativista Vikram Srivastava, fundador do grupo voluntário Independent Thought (Pensamento Independente, em tradução livre), que foca em questões de direitos de mulheres, crianças e comunidades marginalizadas.

"O veredicto diz que, se um homem tiver relações sexuais com uma esposa com menos de 18 anos, trata-se de um crime", disse Srivastava. "Se a esposa menor de idade apresentar queixa contra o marido dentro de um ano após o ato sexual, a pessoa pode ser processada por estupro."

"Estou muito feliz com o veredicto do Supremo Tribunal. O veredicto dá um impulso à campanha nacional intitulada 'Beti bachao e beti padhao'", disse Srivastava, usando a fase em hindi que significa "salve a menina e eduque a garota". O veredicto, no entanto, não será aplicado retrospectivamente.

De acordo com um estudo de 2014 da Unicef, a Índia abriga um terço dos casamentos infantis mundo afora. A última edição do relatório de saúde familiar nacional da Índia mostrou um declínio significativo no número de noivas menores de idade – 27% das meninas indianas se casaram antes dos 18 anos em 2016, contra 47% em 2006.

Apesar dos esforços para capacitar garotas e mulheres e endurecer penas, a Índia segue entre os dez países com as maiores taxas de casamento infantil no mundo, ao lado de Níger, República Centro-Africana, Chade, Mali, Bangladesh, Burkina Faso, Guiné, Sudão do Sul e Moçambique.


Fonte: Jornal Deutsch Welle (Alemanha)

Artigo - Carta à Folha de São Paulo sobre matéria de cirurgia estética vaginal



Por: Letícia Bahia


Queria te contar que não é muito fácil ter uma vagina. Hoje me dou bastante bem com a minha, mas não foi sempre assim. Eu já quis que ela tivesse um cheiro diferente daquele que é o seu natural, e durante anos paguei a uma outra pessoa pra arrancar dela os pêlos em um processo que só pode ser definido como tortura auto infringida (que loucura, não?). Mas eu superei o tabu, e hoje minha vagina pode ser do jeito que é.

Eu queria sugerir, Folha, pra de repente você fazer uma reportagem sobre os homens que não superaram o tabu da vagina. Porque a vagina, você sabe, quase sempre precisa passar por uma série de rituais (como aqueles que eu abandonei) pra que um homem possa gostar dela. É difícil achar um homem que goste de uma vagina com cor de vagina, cheiro de vagina, pelo de vagina, gosto de vagina e todas as outras coisas de vagina que as vaginas têm. Então, Folha, a mim me parece que os homens é que têm um tabu com a vagina. Infelizmente, algumas de nós acabam comprando esse tabu. Você mesma, Folha, deu um exemplo nessa reportagem torta!

"Tinha um volume, mas não me incomodava", falou a Fernanda pra você. Só que a Fernanda emenda: "Até que no início do ano meu marido disse meio brincando: 'nossa, você tem um negócio pendurado'. Isso mexeu com a minha feminilidade". Olha só, Folha: tava tudo bem com a Fernanda, ela estava em paz com a própria vagina. Quem tinha um problema era o marido da Fernanda, mas ao invés de ir o marido da Fernanda sentar em um divã, conversar sobre "eu tenho sentimentos estranhos sobre a vagina da mulher que amo", ficou a Fernanda como a torta. Você fez parecer que é ela quem tem tabu de vagina, só porque, dãr, a vagina dela não é igual a nenhuma outra. Quer dizer, na verdade a vagina da Fernanda era igual à da irmã gêmea dela. E continua sendo, porque o desfecho - você me contou - foi um par de cirurgias vaginais, uma pra cada gêmea.

E, Folha, tem outra coisa, outra coisa bem grave. Você falou bastante sobre as vaginas rosadas serem tidas como as vaginas ideias, do que deriva toda uma sorte de tratamentos para clarear a vulva. Folha, chega aqui: isso é racismo. Você não pode sair falando por aí sobre tratamentos clareadores de pele, sobre peles rosadas serem "as mais bonitas", sem pelo menos colocar algumas perguntinhas sobre como se construiu esse gosto estético. Essa semana mesmo a Dove tomou um baile das redes sociais por conta de uma propaganda que mostrava uma mulher negra se transformando em uma mulher branca. Pegou mal, sabe? Eu sei que você é de outro tempo, mas hoje em dia esse negócio de embranquecer as pessoas, Folha, não pode mais. Não faz mais isso, tá bem? As vaginas das mulheres negras são mesmo mais escuras do que a de mulheres como eu, e tá tudo certo. O que tá errado e precisa ser tratado é uma sociedade que acha que as pessoas precisam mudar de cor pra serem bonitas.

Vamos montar junto um material pra você, Folha? Sei que você é inteligente e um pouco de leitura pode te ajudar a desconstruir esse seu - desculpe, mas está evidente - tabu de vagina. Podemos montar um grupo de estudos, você e alguns dos especialistas (ouch!) que entrevistou. Olha por exemplo o cirurgião plástico José Octávio de Freitas: "mulheres sempre se incomodaram com a aparência dos lábios", disse o doutor. E, no entanto, cá estou eu, feliz com os meus (e não são pequenos, viu?).

Sei que não é fácil pra você falar sobre vaginas, Folha. Mas vem com a gente que a gente te ajuda. A gente te ensina tudo que há pra saber sobre elas. Porque a gente manja de vagina e não é pouco, viu?


Fonte: Facebook

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Artigo - Episiotomia: precisa mesmo?



Por: Andressa Basílio


Uns dizem que é mutilação, desrespeito à mulher. Outros afirmam que o procedimento é simples e, muitas vezes, necessário. Mas não param de surgir histórias escabrosas sobre as consequências que uma episiotomia – corte na área entre a vagina e o ânus chamada de períneo – malfeita pode causar. Foi o caso da cantora de ópera Amy Herbst que, no início do ano, processou o governo dos Estados Unidos por causa dos danos que a cirurgia realizada pelo Hospital Militar de Kentucky trouxe para a sua carreira. De acordo com a cantora, o corte foi feito sem sua autorização e não cicatrizou direito. Como consequência, ela não consegue controlar seus movimentos intestinais enquanto canta e sofre com flatulências e vontade de defecar.

Caso isolado ou não, o fato é que a episiotomia está longe de ser uma unanimidade entre médicos e pacientes. A ideia de intervenção cirúrgica para ampliar o canal vaginal e, assim, facilitar a saída do bebê foi difundida pelo obstetra irlandês Fielding Ould, no século 18. No entanto, foi só na década de 1950, com ampliação das anestesias e novos procedimentos de esterilização, que a técnica, combinada com o uso de fórceps, se popularizou e passou a ser sinônimo de parto bem-sucedido: acreditava-se que evitava tanto uma lesão perineal maior na mãe quanto sofrimento do feto.



Com a explosão dos movimentos feministas e da humanização do parto, nos anos 1970 e 80, alguns profissionais começaram a questionar o procedimento. Em 1996, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recrutou pesquisadores do mundo todo para desenvolver uma orientação sobre as melhores ações na condução do parto normal, baseada em evidências científicas. Pelo documento, o uso liberal e rotineiro de episiotomia foi encaixado na categoria de “práticas frequentemente utilizadas de modo inadequado”. Com isso, a tendência é diminuir os procedimentos.

Aqui no Brasil, porém, a taxa é alta. Dados recentes divulgados pela pesquisa Nascer no Brasil, feita com mais de 23 mil mulheres pela Fundação Oswaldo Cruz em parceria com o Ministério da Saúde, revelaram que, entre as entrevistadas que tiveram parto normal, mais da metade (53,5%) passaram por episiotomia. Em mulheres de baixo risco obstétrico, essa taxa foi ainda maior, 56%. “A desinformação dos médicos é a maior responsável por esse índice. Há uma tendência de continuar a fazer o que se aprendeu na época da formação, mas, na medicina moderna, é preciso ficar de olho em novas evidências científicas e se atualizar constantemente”, defende a professora de epidemiologia da Escola Nacional de Saúde Pública, Maria do Carmo Leal, uma das envolvidas na pesquisa.

Mas, afinal, o corte é realmente necessário? Quais são os riscos da episiotomia? Existem alternativas? Descubra essas e outras respostas a seguir.


Casos indicados

O bebê que nasce de parto normal desce pela parte óssea da mulher (a bacia) e pelas chamadas partes moles (cérvice, vagina e região vulvoperineal), que compõem o canal do parto. Embora não existam recomendações formais, a episiotomia geralmente é indicada para mulheres com rigidez no períneo, parto pélvico (quando o bebê está sentado), sofrimento fetal e macrossomia (excesso de peso do bebê) ou, ainda, em parto de prematuros – já que a cabeça ainda não está completamente formada, a ampliação cirúrgica ajuda a evita hemorragias cranianas. Estes casos representam 10% dos partos normais, de acordo com a OMS.


Complicações

A episiotomia é um pequeno procedimento cirúrgico. Basta um corte na região perineal e, após a passagem do bebê, sutura. Se tudo der certo, a cicatrização leva cerca de seis semanas, período em que a mulher deve evitar esforços e relações sexuais. Quando os pontos não são feitos corretamente, porém, há risco de fibrose, dor prolongada, dificuldade de cicatrização e perda da sensibilidade na região. Alguns estudos da Biblioteca de Cochrane (ONG mundial que revisa publicações da medicina) mostram que a episiotomia pode trazer complicações graves, como laceração e frouxidão na região perineal, que, por sua vez, levam a problemas intestinais (caso de Amy Herbst!) ou, até mesmo, na contenção de órgãos como o intestino. Por outro lado, se a episiotomia não for realizada e houver rompimento extenso, as consequências podem ser as mesmas que as da incisão malfeita.
A informação vem antes

A hora certa de fazer o corte é quando a cabeça do bebê já está aparecendo. Mas os indícios de que a mulher vai precisar passar por uma episiotomia aparecem durante o pré-natal. Por isso, o ideal é que a mãe seja informada pelo médico sobre a necessidade de fazer a incisão. E tem todo o direito de recusar, desde que ciente das consequências.


É possível evitar?

Muitos especialistas já aboliram a prática, como a obstetra Melania Amorim, do Instituto de Medicina Prof. Fernando Figueira (PE), que não realiza episiotomia há 14 anos em nenhum caso. “Não há respaldo científico para as supostas indicações. Há evidências de que a incisão aumenta o risco de lesão perineal sem benefícios.” Existem estratégias para deixar a musculatura mais elástica e facilitar o parto normal, como massagem e pompoarismo. Até exercícios físicos mais leves, como caminhada, ajudam.


* Outras fontes consultadas: Fernando Maia, ginecologista e obstetra da maternidade Perinatal (RJ) e Marcia Maria Costa, coordenadora da maternidade São Luiz (SP).


Fonte: Revista Crescer / Blog Adele Doula

Contraceptivo unissex e à base de plantas dopa espermatozoides


Você, um espermatozoide saudável, resolveu participar da corrida da fertilização. Seus concorrentes são estranhamente parecidos com você – em cada mililitro de sêmen, 20 milhões de células idênticas balançam o rabinho rumo ao óvulo para tentar conquistá-lo. Só uma vai vencer.

Ao milhares, vocês trombam com a parede do óvulo e forçam a passagem, como um fã de música que luta contra a maré da pista para alcançar a frente do palco. Eis que ocorre a mágica – de uma hora para outra, sem explicação, você e seus conterrâneos se sentem fracos. Seus flagelos perdem propulsão, e todos caem em um sono letárgico.

O óvulo pode fazer as malas – não é dessa vez que ele vai virar bebê. Os gametas masculinos estão todos fora de combate, vítimas de um golpe anticoncepcional clássico da medicina tradicional chinesa que acaba de ser descoberto por três biólogas da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

A substância responsável por impedir a fecundação se chama pristimerina, que é encontrada na planta Tripterygium wilfordii. Sua principal qualidade é ter exatamente a mesma forma física da progesterona, um hormônio muito importante para a reprodução humana. São como duas peças de LEGO idênticas, com o mesmo encaixe, mas cores diferentes.

A progesterona é mais famosa por regular, em parceria com o estrogênio, o ciclo menstrual feminino. Mas ela tem outra função, bem menos gloriosa: servir de Red Bull de espermatozoide conforme ele tenta romper a parede do óvulo (acredite, se você tem 0,0002117 centímetro de comprimento, isso cansa um bocado).

É por isso que, da mesma forma que assistentes ficam no canto da pista dando garrafas d’água aos corredores em provas olímpicas, o óvulo mantém um estoque de progesterona em seu entorno para a hora da verdade. Quando as células masculinas dão um “gole”, o hormônio gera uma reação química em cadeia que faz a cauda ir de um balançar gentil a um ritmo frenético em um piscar de olhos, aumentando a aceleração e permitindo a penetração de um deles.

A pristimerina é igual ao Redbull de espermatozoide – mas tem o efeito contrário. Se o gameta masculino dá um gole por engano, cai duro no chão. Aumente a dose o suficiente e bingo: ele servirá como anticoncepcional, um 100% natural, sem efeitos colaterais e, mais importante ainda, unissex. Tanto faz dopar os espermatozóides ainda no corpo do homem ou atrapalhar seu caminho quando já estão no corpo da mulher. Seu bônus é o alívio ético – como ele evita a união das células, evita também as críticas de religiosos que argumentam que a vida começa já na primeira divisão celular.

No artigo científico, as pesquisadores relatam que, além da solução hippie, testaram também o efeito de três hormônios sobre o ânimo das células reprodutivas: testosterona, cortisol e estrogênio. Os dois primeiros atuaram de forma parecida, mas não foram tão eficientes. E, é sempre importante lembrar, se aplicados na prática, viriam com desvantagens parecidas com as das pílulas anticoncepcionais atuais.

“Os compostos presentes em plantas bloqueiam a fertilização em concentrações muito, muito baixas. Eles podem se tornar uma nova geração de contraceptivos de emergência que chamamos de camisinhas moleculares”, afirmaram as autoras do estudo à imprensa. “Se você puder usar uma substância de origem vegetal, que não é tóxica e não é um hormônio, para evitar a fertilização em primeiro lugar, ela será uma opção melhor.”

Em princípio, a pristimerina poderia ser ministrada de várias formas: como um anel vaginal ou adesivo na pele, no caso das mulheres, e por via oral, de forma preventiva, no caso de homens. Como o óvulo não é fecundado logo após a ejaculação, se a mulher tomar uma dose da substância logo após a relação, o truque também fará efeito. Essas soluções, evidentemente, ainda precisarão passar por muitos testes antes de serem aplicadas em seres humanos reais e então chegarem ao mercado, mas é pouco provável que tenham efeitos colaterais semelhantes as técnicas hormonais comuns. Agora, é preciso esperar.



Fonte: Revista Superinteressante / Blog Universo Inteligente

domingo, 8 de outubro de 2017

Lei de combate ao tráfico humano completa um ano


Há um ano, em 6 de outubro, foi sancionada a Lei 13.344/2016 que trata da prevenção e repressão ao tráfico de pessoas e estabelece medidas de atenção às vítimas. Este novo marco legal foi resultado do Projeto de Lei do Senado – PLS 479/2012, que ratificou acordo internacional e teve origem nos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado que investigou o tráfico nacional e internacional de pessoas, da qual fui a relatora, com presidência da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM).

O texto da nova lei ampliou a tipificação do crime de tráfico humano que, antes, limitava-se a ser definido como aquele envolvendo o tráfico de mulheres para exploração sexual ou o tráfico de crianças. A partir da CPI, o tráfico humano igualmente passou a abranger casos para fins de trabalhos forçados ou escravo e transplantes de órgãos. A nova lei igualmente ampliou a pena de quatro para oito anos de prisão, além de aplicação de multa, e passou a prever oferta de seguro-desemprego às vítimas do tráfico submetidas a condição análoga à de escravo ou à exploração sexual.

A aprovação do projeto e sua respectiva transformação em norma jurídica representou a adaptação da lei brasileira ao Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas (Protocolo de Palermo), do qual o Brasil é signatário.

Apesar do avanço da lei, os números do tráfico humano são assustadores e contraditórios, principalmente devido à subnotificação, quer dizer, ausência de registros. Daí a importância da denúncia, para que mais casos possam ser investigados e solucionados.

Um dos relatórios mais recentes, divulgado pela Secretaria de Política para Mulheres (SPM) do Ministério da Justiça e Segurança Pública, aponta a predominância de vítimas mulheres neste tipo de crime. Em 488 casos de tráfico humano com finalidade de exploração sexual registrados pelo Serviço Ligue 180 entre 2014 e 2016, 317 vítimas eram mulheres. Já entre as 257 denúncias de trabalho escravo, 123 casos envolveram mulheres. Crianças e adolescentes igualmente são vítimas potenciais e somaram 216 traficados entre 0 a 17 anos, de um total de 413 denúncias.

Em termos mundiais, a cada três vítimas de tráfico humano, uma é criança, e 70% dos casos envolvem mulheres e meninas. As estimativas globais diferem de acordo com a finalidade do tráfico, chegando a cerca de 21 milhões de vítimas em todo o mundo para os diversos fins, de acordo com o Parlamento Europeu. Já a ONU identificou mais de 2 milhões de vítimas por ano e alerta que a globalização, com seu fluxo intensificado de pessoas, capital e informação, gera riscos e abre espaços para o crime organizado transnacional. Em seminário realizado em setembro, no Rio de Janeiro, representante da ONU afirmou que períodos de crise econômica com desemprego e cortes nos gastos públicos aumentam o risco de tráfico de pessoas.

Somente num período de dois anos – entre 2012 a 2014 –, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) registrou 63,2 mil vítimas de tráfico de pessoas em 106 países e a última estatística, divulgada em março deste ano, reforça o dado de que as mulheres formam o maior contingente de pessoas traficadas desde que a agência da ONU iniciou a coleta de dados sobre esse crime, em 2003. No entanto, essa participação caiu de 84% em 2004 para 71% em 2014, enquanto aumentou o número de homens traficados para fins de trabalhos forçados.
“Apesar do avanço da lei, os números do tráfico humano são assustadores e contraditórios”
Agência Brasil

Uma observação relevante: neste relatório, o Escritório da ONU apontou que as autoridades brasileiras registraram 2.659 casos de tráfico humano no País em 2013, número menor do que o registrado em 2012, de 3.727 casos. Durante 12 anos, a UNODC vem catalogando ocorrências de tráfico humano e chegou ao número estarrecedor de 200 mil vítimas.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o tráfico humano movimenta US$ 32 bilhões em todo o mundo, sem contar o trabalho escravo que envolveria outros US$ 150 bilhões para os criminosos.

No final de setembro, a ONU lançou a Declaração Política sobre a Implementação do Plano de Ação Global para Combater o Tráfico de Pessoas, iniciativa que tem por objetivo reforçar ações tanto de prevenção a este crime, como de proteção às vítimas e de criminalização dos traficantes por todos os estados membros.

A Lei 13.344/2016 obriga a efetivação de campanhas socioeducativas e de conscientização, com mobilização de todos os níveis de governo e participação da sociedade civil, mas ações efetivas além disso são poucas. Governos federal, estaduais e municipais precisam intensificar o combate às organizações criminosas que buscam escravizar seres humanos, principalmente mulheres e crianças, e estar alerta para o crescimento do número de casos de tráfico humano envolvendo pessoas LGBTs. 

Como parlamentar, tenho a convicção de ter contribuído para o aprimoramento da lei. Porém, as campanhas não podem cessar. Ao contrário: têm que ser permanentes e constantes. Elas ajudam a orientar a população a denunciar e, com mais casos notificados, as autoridades competentes terão maiores chances de investigar os casos de tráfico humano – seja para qual finalidade –, chegar aos culpados e puni-los, com o rigor que a nova lei determina.


Fonte: Jornal Boa Informação | http://boainformacao.com.br

Mulheres que Fizeram História: Helley Abreu, a professora que morreu para salvar crianças em MG


O professor, cujo dia será comemorado no próximo dia 15, tem como missão a arte de ensinar. Mas a professora Helley de Abreu Batista, de 43 anos, foi muito além disso: uma verdadeira heroína. Ao tentar salvar os alunos e lutar contra o vigilante Damião Soares dos Santos, de 50, que ateou fogo na creche Gente Inocente, na manhã de quinta-feira, em Janaúba, no Norte de Minas, ela sacrificou a própria vida em defesa das crianças e, com isso, impediu que a tragédia que chocou o Brasil e o mundo fosse ainda maior.

Na tarde de ontem, subiu para 10 o número de vítimas mortas na tragédia: oito crianças e Helley. O autor da agressão também morreu. O corpo de Helley foi enterrado na tarde de sexta-feira, em Janaúba, com o velório sendo acompanhado por centenas de pessoas. O corpo foi trasladado até o cemitério em um carro aberto do Corpo de Bombeiros e enterrado sob aplausos. Ela deixou três filhos: Breno, de 15, Lívia, de 12; e o bebê Olavo, de um ano e três meses.

Uma profissional dedicada, cujo empenho transcendia o salário de cerca de R$ 1,5 mil como professora municipal em Janaúba. Esse é o perfil de Helley Abreu, que, devido à sua bravura e coragem, ganhou o noticiário do Brasil inteiro, pelo esforço que desempenhou na tentativa de salvar as crianças do incêndio na creche, o que acabou levando à perda de sua vida.

Helley foi uma pessoa marcada pela superação. Integrante de uma família de três irmãos, ela nasceu em Montes Claros (cidade polo do Norte de Minas) e, ainda na juventude, mudou-se para Janaúba, onde o pai João Rodrigues da Silva (já falecido) arrumou um emprego numa loja de móveis. Com pouco mais de 20 anos, casou-se com Luiz Carlos Batista. Ainda na juventude, experimentou uma grande tragédia pessoal. Durante uma festa de carnaval, foi com a família para um clube no balneário Bico da Pedra, onde o primeiro filho dela, Pablo, de 5, morreu afogado na piscina do clube. “Foi muito difícil. Todo mundo da família ficou muito chocado. O meu cunhado até pensou em fazer uma besteira, mas a Helley superou”, relembra o serralheiro Paulo Rogério Abreu, irmão da professora heroína.

Com a perda da irmã, Paulo Rogério ficou desconsolado. “Não tem o que falar. Não tenho palavras para dizer, (a morte de Helley) é uma coisa muito trágica. Ninguém esperava que pudesse acontecer. Ela também não merecia uma coisa dessa. Ela era realmente muito dedicada à família e ao trabalho”, disse o serralheiro.


Dedicação

Formada em pedagogia, Helley começou a trabalhar há alguns anos como professora municipal de Nova Porteirinha, separada de Janaúba pelo Rio Gorutuba. Inicialmente, trabalhou na zona rural, numa comunidade chamada Dengoso. Depois, trabalhou na Escola Estadual Luzia Mendes, no Bairro Dente Grande, área de baixa renda de Janaúba. No ano passado, começou o serviço na creche Gente Inocente, no Bairro Rio Novo, em Janaúba, fazendo aquilo de que mais gostava: dedicar-se aos alunos. Morava em Nova Porteirinha e todos os dias atravessava a ponte sobre o Rio Gorutuba para cuidar de “suas crianças”, como as considerava. Não gostava de faltar ao trabalho. Também fez curso de especialização na área educacional, buscando conhecimento na área da inclusão de pessoas com deficiências.

No enterro de Helley, o marido dela fez aumentar a emoção, quando, aos prantos, encontrou forças para mencionar as qualidades da mulher. “Ela se foi por salvar vida de crianças. Acho que a missão dela era esta, salvar vidas. Mesmo sofrendo, eu tenho que aceitar. Foi por obra de Deus. E Deus é justo”, afirmou Luiz Carlos. Ele afirmou que Helley considerava os alunos da creche como verdadeiros filhos, “embora eles não fossem filhos biológicos dela”.

Luiz Carlos também contou que, na véspera da tragédia, uma amiga de Helley disse que ela não deveria ir à creche no dia seguinte, porque estava muito rouca. “Mas ela respondeu: ‘Eu tenho que ir para cuidar dos meus (as crianças). Não posso faltar’”, completou o marido de Helley. Nos últimos dias, a professora também estava muito emotiva por causa das comemorações da Semana da Criança.

As colegas de trabalho da professora Helley na creche Gente Inocente também enalteceram o trabalho e o companheirismo. “Era uma pessoa que tinha muito amor às crianças. Além disso, era muito responsável”, afirmou a pedagoga Eliane Santos, que, na quinta-feira, dia do ataque à creche, estava de folga e não foi ao trabalho.
“Ela se foi por salvar vida das crianças. Acho que a missão dela era esta, salvar vidas. Mesmo sofrendo, eu tenho que aceitar. Foi por obra de Deus”
Luiz Carlos Batista, marido de Helley

Fonte: Jornal Correio Braziliense

Reforma política: saiba o que muda nas eleições de 2018


Após meses de discussão, deputados e senadores aprovaram no fim do prazo a reforma política. As novas regras foram sancionadas pelo presidente Michel Temer e algumas já passarão a valer para as eleições de 2018.

Entre as novidades estão a criação de um fundo com recursos públicos para financiar campanhas para compensar o fim das doações de empresas (proibida pelo Supremo Tribunal Federal), a adoção de uma cláusula de desempenho para os partidos, o fim de coligações partidárias a partir de 2020 e a determinação de um teto de gastos para candidaturas.

Ao sancionar a reforma, o presidente vetou proposta que determinava que os sites suspendessem, em no máximo 24 horas, sem decisão judicial, a publicação de conteúdo denunciado como “discurso de ódio, disseminação de informações falsas ou ofensa em desfavor de partido ou candidato”. A proposta foi alvo de críticas de parlamentares e de várias entidades do setor de comunicação.

Confira o que muda a partir das eleições de 2018:


Cláusula de desempenho

Como era: todos os partidos recebiam uma parcela do fundo partidário, e o tempo de propaganda em emissoras de televisão e de rádio era calculado de acordo com o tamanho da bancada de cada legenda na Câmara dos Deputados.

Agora: os partidos precisam atingir um desempenho eleitoral mínimo para ter direito a tempo de propaganda e acesso ao fundo partidário. Para 2018, os partidos terão que alcançar, pelo menos, 1,5% dos votos válidos, distribuídos em, no mínimo, nove estados, com ao menos 1% dos votos válidos em cada um deles. Como alternativa, as siglas devem eleger pelo menos nove deputados, distribuídos em, no mínimo, um terço das unidades da Federação. As exigências aumentarão gradativamente até 2030.


Fundo eleitoral

Como era: não existia. Partidos e candidatos podiam receber doações somente de pessoas físicas e não havia verba pública destinada diretamente a campanhas eleitorais.

Agora: foi criado um fundo eleitoral com dinheiro público para financiamento de campanhas eleitorais. O fundo, estimado em R$1,7 bilhão, terá a seguinte distribuição: 2% igualmente entre todos os partidos; 35% entre os partidos com ao menos um deputado na Câmara, 48% entre os partidos na proporção do número de deputados na Câmara em 28 de agosto de 2017 e 15% entre os partidos na proporção do número de senadores em 28 de agosto de 2017.


Arrecadação

Como era: os candidatos podiam iniciar a arrecadação apenas em agosto do ano da eleição, mas o acesso ao dinheiro estava condicionado ao registro da candidatura.

Agora: os candidatos podem arrecadar recursos em campanhas online (crowdfunding) a partir de 15 de maio do ano eleitoral. Além disso, os partidos podem vender bens e serviços e promover eventos de arrecadação. Empresas estão proibidas de financiar candidatos.


Limite para doações

Como era: as pessoas físicas poderão doar 10% do rendimento bruto declarado no ano anterior à eleição.

Agora: não mudou. O presidente Michel Temer vetou item que previa um teto de 10 salários mínimos.


Limite para gastos

Como era: sem limite.

Agora: haverá limite de gasto com valores distintos conforme o cargo que o candidato almeja:

Presidente:
R$ 70 milhões no primeiro turno e metade desse valor em caso de segundo turno.

Governador: entre R$ 2,8 milhões e R$ 21 milhões, dependendo do número de eleitores do estado.

Senador: entre R$ 2,5 milhões e R$ 5,6 milhões, dependendo do número de eleitores do estado.

Deputado federal: R$ 2,5 milhões.

Deputado estadual/distrital: R$ 1 milhão.


Debates

Como era: emissoras de televisão e rádio eram obrigadas a convidar candidatos de partidos com mais de nove deputados na Câmara dos Deputados.

Agora:
esse número foi reduzido para cinco.


Voto impresso

Como era: não havia. O voto dos eleitores ficava registrado apenas na urna eletrônica.

Agora: o voto deverá ser impresso a partir da eleição de 2018, mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já comunicou que não terá orçamento para implementar a medida em todo o Brasil no próximo ano.

* O texto foi atualizado às 14h55 de hoje (8) para correção de informação sobre limite de doações


Fonte: Site da Agência Brasil

O que faz a moral e os ‘bons costumes’ tomarem os discursos políticos


Movimentos da sociedade civil têm protestado contra exposições artísticas no Brasil, nas redes sociais e presencialmente. Um quadro chegou a ser apreendido pela polícia em Campo Grande. Em Porto Alegre e São Paulo, expositores e frequentadores de mostras foram coagidos. Houve até agressão contra a funcionária de um museu. As manifestações, porém, não se restringem a grupos da sociedade civil ou religiosos. Os políticos também entraram no debate.


Casos centrais

QUEERMUSEU
A exposição de temática LBGT inaugurada pelo Santander Cultural em Porto Alegre em agosto abordava a diversidade sexual. Grupos organizados, entre eles o MBL (Movimento Brasil Livre), viram em algumas obras apologia à pedofilia e à zoofilia, além de desrespeito a imagens religiosas. A exposição foi encerrada por decisão do banco.

PERFORMANCE NO MAM
Numa referência à obra “Bicho”, de Lygia Clark, Wagner Schwartz realizou no fim de setembro uma performance no Museu de Arte Moderna de São Paulo em que o público podia interagir com seu corpo nu. Acompanhada da mãe, uma criança tocou os pés do artista. Movimentos conservadores viram erotização infantil e apologia à pedofilia.


Lei de incentivo à cultura como pano de fundo

As queixas de apologia à pedofilia e proteção da infância sempre vêm acompanhadas de uma segunda camada de discurso: o uso do dinheiro público nas exposições e manifestações artísticas. O principal alvo de ataque é a Lei Rouanet, dispositivo de incentivo à cultura em que empresas patrocinam determinados projetos e depois podem abater os gastos em impostos.

Não é de agora que o MBL, que nasceu com o discurso do liberalismo econômico protestando contra o governo Dilma Rousseff, levanta a bandeira contra a Lei Rouanet. Quando a petista estava no poder, o movimento mirava em artistas “de esquerda” que usavam o dispositivo de incentivo.

Agora, com o impeachment de Dilma em 2016 e ascensão do vice Michel Temer - cuja agenda de reformas é apoiada pelo MBL - , o alvo passou a ser as obras de arte consideradas impróprias para serem exibidas a crianças.


Os políticos na esteira dos protestos

O MBL tem discursos em comum com alguns políticos. O mais afinado com o movimento é o prefeito de São Paulo (PSDB), João Doria, que busca se candidatar à Presidência da República nas eleições de 2018 com apoio do movimento. Outro tucano próximo do grupo é o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr. Ambos já criticaram publicamente as manifestações artísticas.
“No caso aqui de São Paulo, a exposição realizada no MAM (...) não pode em nome dessa liberdade [de manifestação artística] permitir uma cena libidinosa, que estimula uma relação artificial, condenada e absolutamente imprópria seja colocada para o público. Fere, inclusive, o Estatuto da Criança e do Adolescente, e ao ferir [o ECA], ele está cometendo uma impropriedade, uma ilegalidade, e deve ser imediatamente retirado, além de condenado” João Doria Prefeito de São Paulo, em vídeo divulgado nas redes sociais no dia 1º de outubro. Doria também pediu para que artistas respeitem as famílias, as religiões e a liberdade alheia

Também entraram no debate deputados, entre eles Jair Bolsonaro (PSC-RJ), ex-militar que é pré-candidato ao Palácio do Planalto e está em segundo lugar nas pesquisas de opinião a respeito da disputa marcada para outubro de 2018.

Na sessão de terça-feira (3) na Câmara, o deputado Laerte Bessa (PR-DF) disse que nos “bons tempos de delegacia” o artista teria sido agredido com métodos de tortura, o que resolveria o problema. Em encontro com deputados da bancada evangélica na quarta-feira (4), o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, afirmou o seguinte sobre a performance do MAM: “Houve um claro descumprimento no que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente”.

Bispo da Igreja Universal, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), completa o grupo que faz coro contra as manifestações artíticas.

Os organizadores da exposição Queermuseu conversavam com o conselho do MAR (Museu de Arte do Rio) para que a mostra fosse reaberta na capital fluminense. Crivella se apressou para declarar que não aceitará a exposição na cidade.
“É por isso que aqui no Rio a gente não quer essa exposição. Saiu no jornal que ia ser no MAR. Só se for no fundo do mar, porque no Museu de Arte do Rio, não” Marcelo Crivella Prefeito do Rio de Janeiro em vídeo publicado em 1º de outubro de 2017 no Facebook. Ele sustenta que a exposição promove a pedofilia e a zoofilia

Na terça-feira (3) o conselho do MAR cedeu à pressão da prefeitura e acabou desistindo de levar a mostra ao Rio. Diante do volume de protestos recentes em museus, questões de segurança também teriam contribuído para a decisão do conselho.


Não é a primeira vez que o debate moral emerge

A moral e os “bons costumes” na política não são uma novidade na história recente do Brasil. O tema veio à tona mais de uma vez na última década, quase sempre na tentativa de políticos de agradar a eleitores. Veja abaixo alguns casos:


Moral e política

O ABORTO NA ELEIÇÃO DE 2010
Dilma Rousseff defendeu a descriminalização do aborto em duas ocasiões, 2007 e 2009. A então ministra considerava que a questão tinha de ser vista como um problema de saúde pública. Na campanha presidencial de 2010, quando foi lançada para suceder Lula, seu adversário José Serra (PSDB) usou o tema contra ela. Na época, grupos religiosos chegaram a pedir que os fiéis não votassem na petista, que foi obrigada a dizer que o aborto não seria legalizado em seu governo. Dilma acabou eleita no segundo turno.

O CHAMADO ‘KIT GAY’
Denominado de “Escola sem Homofobia”, um material didático criado em 2011 pelo Ministério da Educação, sob o comando de Fernando Haddad, buscava debater temas da sexualidade nas escolas. A bancada evangélica da Câmara passou a chamá-lo de “kit gay” e conseguiu fazer o projeto ser cancelado. Bolsonaro, que na época era do PP, foi um dos capitães do veto. Deputados como Anthony Garotinho (PR) e grupos católicos também pressionaram o governo Dilma.

A AGENDA SOB EDUARDO CUNHA
A configuração do Congresso a partir de 2015 e ascensão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ao comando da Câmara dos Deputados transformou a atual Legislatura na mais conservadora da história recente do Brasil, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar. Além de vetar iniciativas do governo a fim de melhorar o atendimento de mulheres que realizam aborto legal no Brasil, os grupos organizados, principalmente da bancada evangélica, fizeram avançar projetos que, inclusive, dificultavam o acesso à assistência por essas mulheres. Cunha foi cassado e está preso pela Lava Jato, mas deputados que giravam em sua órbita mantém poder de influência no Congresso e no governo Temer.


Duas visões distintas sobre o debate

Para entender a chegada das questões de moral e bons costumes ao debate político, o Nexo conversou com dois analistas. São eles:
  • Esther Solano: professora da Unifesp, socióloga especialista em movimentos sociais e conflitos urbanos
  • Fernando Schüler: professor do Insper, cientista político especialista em filosofia política

Quais fatores fazem com que questões morais ganhem centralidade no debate político?

ESTHER SOLANO Esse tema é conhecido na sociologia como “guerras culturais” e nasceu nos Estados Unidos. Durante os anos 1970 e 1980 havia muito debate entre esquerda e direita sobre questões econômicas. A partir de meados dos anos 1980 e sobretudo dos 1990 há a virada do que nós chamamos de “moralização da política”, em que temas polêmicos e que envolvem valores morais vão para o centro da agenda política. Além de polêmicos, os debates costumam envolver a questão da sexualidade e pautas sobre direitos da mulher.

Essas discussões aparecem na agenda com um conteúdo moralizante, mas elas também fazem parte da estratégia política. É possível observar hoje em dia que grupos como MBL ou Doria, por exemplo, entraram muito no embate das guerras culturais, utilizam a moralização das causas como estratégias políticas.

Então a ideia não é que essas pautas morais tenham um grande peso programático para eles, mas são debates que eles utilizam estrategicamente porque sabem que causam impacto e tem efeito de publicidade. Eu diria que a abordagem a essas pautas é feita de maneira estratégica, é um posicionamento dentro da lógica de moralização binária do “bem contra o mal”.

FERNANDO SCHÜLER Essas situações me fizeram lembrar o conhecido caso da exposição do fotógrafo Robert Mappletorpe na Corcoran Gallery, em Washington D.C., em 1989. A exposição trazia nus masculinos e foi considerada obscena, a partir da crítica de políticos conservadores, e acabou cancelada. Ela tinha o apoio do NEA, o National Endowment for the Arts, e portanto “dinheiro público”. Tanto lá, como aqui, trata-se de um tipo de “guerra cultural”. A diferença é que, nos anos 80, a guerra era travada basicamente pela imprensa e em debates públicos; hoje ela se dá pela internet. Envolve um número exponencialmente maior de pessoas e tende à mais completa irracionalidade. É a democracia digital. Ansiamos tanto por ela, agora nos cabe desfrutar.

Não penso que o que esteve em jogo, nesses episódios, foi um debate sobre a “obscenidade”. Nesse sentido estamos melhor do que os americanos, no final dos anos 80. Nem acho que o foco foi discutir o sentido da arte ou o uso de incentivos fiscais para a cultura.

A questão central é até que ponto devemos (ou não) envolver crianças em exposições que tem “a sexualidade como temática ou envolviam nudez”.

Essa era a “questão moral” relevante nos dois episódios, para além de toda a excitação política. O Brasil tem uma legislação internacionalmente elogiada para a proteção da infância, o ECA. Seria interessante ler estes episódios à luz do estatuto. Seria interessante ouvir a nossa liderança política, de diferentes espectros, apresentar com clareza sua visão sobre essa questão. Discursos inflamados sobre “conservadorismo” ou “arte degenerada” só servem para disfarçar o problema.


Por que o uso de dinheiro público na arte, como pela Lei Rouanet, virou alvo de movimentos conservadores?

ESTHER SOLANO Nesse ponto há um grande paradoxo nas posições desses grupos. Eles são neoliberais, o programa econômico deles é de Estado mínimo, com o menor intervencionismo possível do Estado. Mas existe um paradoxo importante no discurso deles porque eles atacam o financiamento à arte, por exemplo, mas exigem intervenção do Estado no programa “Escola Sem Partido”, ou na censura aos museus.

Então há um contrassenso se você pensar nas linhas de pensamento que eles defendem. Esses grupos puxam um debate quase obsessivo sobre o uso do dinheiro público na arte, o que acaba distorcendo o debate sobre a Lei Rouanet, porque ela não é exatamente como eles pintam.

Ao mesmo tempo, eles não fazem debate sobre intervenção do Estado quando defendem censura dos museus ou na educação. Na realidade, é uma estratégia política de colocar “o bem contra o mal”.

FERNANDO SCHÜLER Na realidade, a crítica ao uso de recursos públicos para financiar a cultura é essencialmente uma postura liberal, não conservadora. Essa é uma distinção que temos dificuldade de fazer, em nosso debate político: uma posição liberal ou “libertariana” tende a considerar que a arte deva ser financiada pelos indivíduos, de maneira voluntária. Cada qual com seu gosto, sem imposições por parte do governo.

Conservadores culturais tendem a simpatizar com o uso do poder coercitivo do Estado em favor de um certo espectro de valores, ligados à defesa da família e da tradição. Trata-se de uma posição preponderantemente antiliberal. Por óbvio, é apenas um truque retórico acusar alguém de “conservador” por criticar o uso de recursos públicos para a cultura ou o envolvimento de crianças em uma exposição como a realizada no MAM.

Você pode discordar, defender que não há problema, que os pais são “soberanos” para decidir o que for preciso pelos filhos (uma posição habitualmente “conservadora”, aliás), mas é preciso saber distinguir a natureza dos argumentos, algo muito complicado nos tempos de hoje.


Fonte: NEXO Jornal

Como falar sobre abuso sexual com as crianças


A designer Helena Vitali, de 28 anos, sofreu abuso sexual quando tinha cinco anos no condomínio do prédio em que morava, em Santa Catarina.

Ela nunca tinha falado publicamente sobre isso, mas resolveu contar sua história nesta semana, após o assunto voltar à tona com a polêmica envolvendo a presença de uma criança em uma performance artística com um homem nu no MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo.

"Vi que estava se falando muito sobre o assunto e achei que era importante dar um ponto de vista de alguém que passou por um abuso sexual real", explica.

Seu objetivo não foi só relatar a violência sexual, mas contar como foi importante sua mãe já ter conversado com ela sobre o assunto para que, com apenas cinco anos, ela tivesse coragem de contar o que aconteceu - e evitar que o abuso se repetisse.

"O alarme soou porque minha mãe já havia conversado sobre isso comigo. Eu soube na hora que havia alguma coisa errada. Me senti culpada. Detestei meu corpo, me senti suja. Mas contei. Lembrei das conversas que criaram essa confiança entre nós", afirma.

Ela é uma das muitas pessoas que têm compartilhado histórias sobre como os pais conversaram com elas sobre o assunto quando pequenas. Ou como elas têm falado com os próprios filhos sobre o assunto - mesmo que não tenham sofrido nenhum tipo de abuso.

A postagem de Helena Vitali teve quase 4 mil curtidas e mais de 1,6 mil compartilhamentos em poucas horas.

A BBC Brasil ouviu algumas dessas pessoas e especialistas que indicam qual o caminho para abordar o assunto com as crianças.


Alerta vermelho

Vitali conta que sua mãe lia livros sobre educação sexual infantil desde cedo. Ela lembra até hoje de suas palavras:

"Ela disse: filha, ninguém pode te tocar aqui tá? Só você e a mamãe. Nenhum adulto, nenhum homem. Isso é errado e pode ter machucar. Quando você for adulta você pode escolher. Mas quando essa época chegar vamos juntas no médico e você não vai ter medo."

Helena afirma que nunca esqueceu o que a mãe havia dito sobre fugir, gritar e pedir ajuda se algo acontecesse. "Ela disse que sempre iria me ouvir, acreditar em mim e me proteger. Não importando quem fosse, se fosse da família ou alguém que amamos. E que eu nunca poderia mentir sobre isso."

A conversa foi importante para que ela conseguisse contar à mãe sobre o abuso que sofreu.

"Um dos funcionários me convenceu a ir em um cômodo ver algo. Me botou sentada no seu colo e começou a abrir a própria roupa. Enquanto tentava me tocar e eu me esquivava (ou tentava), soou na minha cabeça um alarme, enorme, vermelho e piscante. Uma sirene. Eu sabia o que era aquilo", escreveu ela.

"Depois que eu contei, descobriram que um menino de três anos era sempre abusado pela mesma pessoa, mas a babá e a família não acreditavam."

A designer diz achar importante que as pessoas não subestimem a capacidade de discernimento das crianças.

"Com educação apropriada, elas são muito capazes de entender o que é carinho e o que abuso. Quando se despir é normal, por exemplo, quando a criança está na praia com a família, e quando a pessoa está mal intencionada", diz ela.

"Tenho a clara memória de que eu sabia diferir perfeitamente a nudez comum da menção de nudez para um abuso", escreveu.

"Pedofilia não é uma criança ser exposta à arte ou a nudez em um contexto não sexual. Proibir o acesso de crianças a lugares onde estarão vulneráveis e sem a tutoria de um adulto: claro. Proibir acesso a material de cunho sexual? Perfeito. Mas banir nudez e confundir tudo e qualquer coisa com pedofilia é um desserviço", escreveu ela, em referência à polêmica sobre a performance no museu.


Educação aberta

"Não é uma questão de marcar um dia para falar de abuso sexual. É preciso ter uma educação aberta desde o berço, na qual a criança sempre, a todo momento, se sinta à vontade para falar sobre qualquer assunto. E na qual se ensine a lidar com o corpo e com a questão dos limites", explica a psicopedagoga Neide Barbosa Saisi, professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica).

"Precisa ensinar limites em coisas básicas, como respeitar se ela não quiser beijar as pessoas, por exemplo. Ela tem que aprender que o outro não tem domínio sobre ela. Se ela sabe o que são limites, ela já responde a uma intromissão", afirma.

A pedagoga e mestre em educação sexual Caroline Arcari explica que, ao falar especificamente sobre abuso sexual, é preciso usar a linguagem adequada para cada idade. E ser claro.

"É importante evitar termos muito abstratos. Por exemplo, dizer 'se você se sentir estranho, ou se alguém fizer algo que te deixe triste' etc. Porque quanto mais nova a criança, menos ferramentas ela vai ter para entender o que seria esse sentimento estranho, o que seriam esses atos que poderiam a deixar triste", afirma.

Segundo ela, inicialmente a criança aprende que violência é algo muito concreto, que causa dor física: um beliscão, uma palmada, um puxão de cabelo. Logo, quando se fala de violência sexual, é preciso mostrar concretamente como ela pode acontecer.

"É importante que a criança saiba os que são partes íntimas. Ela precisa saber que ela tem órgãos genitais, que o bumbum e os mamilos são partes íntimas. Tem que ter nome ou apelido para as partes", afirma.

Segundo as especialistas, é preciso dizer que essas partes não devem ser tocadas por outras pessoas. E que uma pessoa que a tocar está fazendo uma coisa errada.

Arcari diz ainda que é importante que os materiais didáticos usados - livros, vídeos - tenham representatividade, para que as crianças se identifiquem.

Ela vê um problema em um dos vídeos que têm sido muito compartilhados recentemente no WhatsApp - há apenas crianças brancas.

"É difícil encontrar materiais que tenham uma quantidade significativa de crianças negras. O material didático precisa refletir a diversidade que existe no Brasil."

Educação e confiança

A gaúcha Ariane Carmo contou no Facebook como seus pais conversavam com ela de forma bastante objetiva - a postagem teve 11 mil curtidas e mais de 7 mil compartilhamentos.

"Uma amiga abriu debate sobre abuso sexual de crianças em seu perfil e muitas mulheres que participaram sofreram abuso na infância. Com tantos perigos e relatos desanimadores começa a parecer impossível proteger as crianças", afirma.

"Uma das moças disse que simplesmente não há muito o que fazer. Nesse ponto, eu pensei: não, calma! Há. Sei que ela queria dizer que não há como garantir plenamente a segurança. Mas eu senti que devia relatar a estratégia da minha família para fazer um contraponto, dar uma esperança."

"Meus pais me ensinaram o que era sexo e abuso sexual juntos. Minha mãe me disse que qualquer homem que tentasse fazer qualquer coisa comigo eu deveria contar pra ela e ela me protegeria, inclusive meu pai - isso na presença dele", escreveu ela.

"Ela apontou pra ele. Na frente dele. Meu pai jamais me fez ou faria mal, e também não se ofendeu. Ele sabia o que eles estavam fazendo, que estavam criando o vínculo para que eu sempre sentisse segura e me ensinando a me proteger", relatou.

"Eles me disseram que nunca seria culpada e não deveria acreditar se me dissessem que minha mãe ficaria brava ou me iria me castigar. Que ela me protegeria e que eu nunca deveria ter nenhum segredo com nenhum adulto, pois adultos não tem segredos com crianças. Que sempre que alguém falasse ou fizesse algo dizendo que eu não podia 'contar pra mamãe', imediatamente eu deveria falar."

Arcari concorda sobre mostrar que não deve haver segredos e que os limites tem que ser respeitados por todos. "O abusador pode ser um estranho, mas raramente é. Normalmente é alguém da família, um amigo ou conhecido", afirma ela.


Amor e carinho

Ariane diz que nunca teve nenhum tipo de trauma por ter tido essa conversa com os pais.

"Não tive uma iniciação sexual precoce por saber o que é sexo, nem tive algum tipo de bloqueio por me avisarem o que é abuso. Só fui protegida de abusadores", escreveu.

A pedagoga Caroline Arcari diz que, para evitar que a criança fique com muito medo ao se falar da possibilidade de alguém machucá-la, é preciso contextualizar a conversa e falar mais sobre os aspectos positivos da interação com adultos e outras crianças.

"Tem mostrar o que é bom na interação com um adulto. A parte positiva da convivência, para ela não achar que todo adulto é ruim. Para que a criança saiba o que é uma demonstração de amor e carinho e o que é abuso", afirma a pedagoga Caroline Arcari.

Ariane Carmo diz que o motivou a escrever sobre sua educação foi notar que os pais "têm receio de falar claramente com seus filhos, como se eles fossem incapazes de entender - não só sobre abuso".

"Quando você senta uma criança e conversa com ela de forma clara, seja sobre o que for, sobre a importância do estudo aos riscos que o mundo oferece, incluindo abuso, ela vai entender."

"Eu sei que muitos pais até conversam com seus filhos, mas o que eu gosto de destacar é que meus pais fizeram isso juntos, e que foram claros em definir que me protegeriam de qualquer um, inclusive um do outro. Nenhuma mãe ou pai espera que seu ou sua companheira(o) seja um abusador. E meus pais, claro, não eram", conta ela.

"Mas se houvesse qualquer risco, a clareza daquela situação me daria confiança. Porque se sua mãe deixa claro que nem seu pai pode te fazer mal, você sabe que ninguém pode. A maioria dos abusadores é parente ou amigo da família que usa da confiança para praticar o crime. É preciso que a criança saiba que está segura - seja de quem for."


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

Novos dados de denúncias apontam consolidação de meios digitais do Disque 100 como canal de informação pública


A Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos recebeu no primeiro semestre de 2017 um total de 67.226 denúncias de violação de direitos humanos. Os dados parciais do ano de 2017 foram divulgados nesta quinta-feira (05), incluindo informações sobre as denúncias nos cinco canais da ouvidoria. A Diretoria, que faz parte do Ministério dos Direitos Humanos, recebeu uma média de 409 denúncias/dia e efetivou 145.652 encaminhamentos aos órgãos da rede de proteção integral de direitos humanos e ao sistema de justiça. Cada denúncia pode ser encaminhada a mais de um órgão de proteção.

A análise dos dados revela dois aspectos sobre a utilização do serviço. Em comparação com o quantitativo do mesmo período do ano anterior, o número de ligações com pedidos de informações conceituais, orientações e esclarecimentos subiu 183%, dado que mostra a consolidação dos canais da Ouvidoria como canal de educação e informação pública. Além disso, os canais digitais também tiveram aumento destacado nos contatos. As solicitações via aplicativo Proteja Brasil, por exemplo, subiram mais de 3.000%.

Sobre os módulos, o segmento de Igualdade Racial teve a maior variação, com uma queda de 37% no número de denúncias. A Ouvidora Nacional de Direitos Humanos, Herta Rolim, relaciona a oscilação à inclusão recente do módulo no serviço. “A quantidade de denúncias está relacionada a uma diversidade de fatores. Como ainda não foi feita uma grande campanha de divulgação do novo módulo, é esperado que haja um número menor de ligações. Os aumentos costumam refletir diretamente a divulgação e conhecimento público dos canais, mas não necessariamente o aumento da violência”, explica a Ouvidora.

A Ouvidoria relaciona a grande quantidade de denúncias em alguns outros módulos também às oscilações dos assuntos na esfera pública. O módulo Privação/Restrição de Liberdade teve aumento de 30,17%, que pode estar relacionado às graves violações de direitos ocorridas no sistema prisional, desencadeadas no inicio de 2017, que afetaram em especial nos estados do Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte. Já o módulo LGBT subiu 18%, que pode ser relacionado à divulgação dos canais de denúncia na campanha “Deixe o seu preconceito de lado, respeite as diferenças”.

Os dados completos do quantitativo de denúncias do Disque 100, com números de todos os módulos entre janeiro de 2011 e junho de 2017, podem ser acessados em http://www.sdh.gov.br/disque100/


Fonte: Site da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República - SDH/PR

Mulheres que Fizeram História: Violeta Parra, a chilena que conquistou o mundo



Por: Cláudia Zalaquett*


Filha de Nicanor Parra, professor de música, e Clarisa Sandoval, costureira, Violeta nasceu no dia 04 de outubro de 1917, em San Carlos, região sul do Chile. Foi criada no campo, junto com mais nove irmãos, onde a situação era de muita dificuldade e pobreza.

Seu pai era alcoólatra e faleceu quando Violeta ainda era nova. A única herança que ele deixou para a filha foi um violão antigo. Sem nunca ter feito aulas, Violeta aprendeu a tocar o instrumento sozinha, apenas observando os adultos.

Mesmo sendo uma boa aluna, Violeta não conseguiu concluir seus estudos no colégio. Para ganhar alguns trocados e ajudar a família em casa, juntou-se com mais três irmãos e formaram então um grupo musical chamado “Los Hermanos Parra”, que se apresentavam pelos bares de Santiago. Mas Violeta, com seu caráter ousado, não parou por aí e se aventurou a viajar por todo o país, tocando e cantando com grupos de teatro e circo.


Violeta era politicamente engajada, se preocupava com a situação do país e principalmente com o povo do campo chileno, sua raiz. Com isso, em 1952, a cantora iniciou uma intensa pesquisa e investigação sobre a música folclórica chilena, com o objetivo de resgatar canções antigas que estavam esquecidas, registrá-las em papel, e posteriormente apresentá-las para o resto do mundo. Viajou por diversas cidades à procura de gente que pudesse ajudá-la nesse processo de busca, e fez novas composições musicais, seguindo os formatos tradicionais do folclore chileno. Violeta tinha a sensibilidade de poeta para escrever canções. Algumas de suas letras retratavam questões políticas e serviam como uma forma de protesto. Outras, não menos importantes, delineavam os sentimentos humanos mais profundos.

Foi então convidada para se apresentar em escolas e universidades do Chile, divulgando suas pesquisas sobre a cultura popular, além de comandar programas de rádio que falavam sobre o assunto. Viajou para Europa, participou de festivais e propagou sua arte em diversos países como Polônia, França e Suíça.

Cheia de aptidões, a artista também se revelou um grande talento nas artes plásticas. Não é para menos que, em 1964, suas obras foram apresentadas no Museu do Louvre, sendo a primeira exposição de uma artista latino-americana no local. No ano seguinte, em Santiago, Violeta fundou um centro cultural chamado “La Carpa de la Reina”, onde aconteciam encontros regados a música, dança, vinho e boa comida.


Obra realizada por Violeta Parra em 1964 - Prisionero Inocente


Obra realizada por Violeta Parra em 1963-1965 - Niños en fiesta

No quesito “relacionamentos”, Violeta foi uma mulher de muitas paixões, mas pessoas próximas à artista afirmam que ela teve apenas um grande amor. Casou-se duas vezes e teve quatro filhos: Isabel, Ánguel, Carmen Luisa e Rosa Clara. Porém, nenhum dos seus dois ex-maridos foi o verdadeiro amor de sua vida. Quem conquistou este posto foi o músico suíço Gilbert Frave, com quem ela morou por algum tempo em Genebra.

Uma de suas músicas mais famosas, reconhecida mundialmente e regravada por diversos artistas, chama-se Gracias a la Vida (Obrigada à vida). Por ironia do destino ou não, Violeta, aos 49 anos, suicidou-se com um tiro dentro do seu centro cultural. Há quem diga que ela estava abalada com a mudança de Gilberto à Bolívia, agravada pelo fato de que “La Carpa de la Reina” já não atraia mais o público.

Independente dos motivos que tenham levado Violeta a cometer suicídio, a artista é imortal. Sua genialidade fez com que sua arte, tão regional, se tornasse referência universal. Diversos países da América Latina e da Europa a homenagearam depois de sua morte. Em 1992, foi criada em Santiago a Fundação Violeta Parra, que reúne obras da artista. Já em 2011, foi lançado o filme "Violeta foi para o Céu", dirigido por Andrés Wood.

Em meio a tantas homenagens, só me resta através desse artigo dizer:

Gracias, Violeta Parra!




* Cláudia Zalaquett é formada em Rádio e TV e pós-graduada em Jornalismo Cultural. Trabalha com produção audiovisual e escreve para internet. Contato: claudiazalaquett@gmail.com.


Fonte: Blog ObviousMag

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