segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Homens sexistas têm problemas psicológicos


Psicólogos olhando para 10 anos de dados de cerca de 20.000 homens descobriram que aqueles que valorizam ter poder sobre as mulheres e endossar o comportamento playboy e outras noções tradicionais de masculinidade são mais propensos a sofrer de problemas psicológicos - e menos propensos a procurar ajuda.

Acontece que as normas culturais que prejudicam metade dos membros de uma sociedade não são muito boas para a outra metade também. Quem pensaria nisso?

A nova meta-análise, publicada na segunda-feira no Journal of Counseling Psychology, sintetizou 78 estudos sobre masculinidade e saúde mental reunidos entre 2003 e 2013. Os participantes tinham entre 12 a 65 anos, sendo a grande maioria homens. Um pouco mais da metade dos estudos envolveu homens predominantemente brancos, embora alguns se concentrassem em afro-americanos ou asiáticos-americanos. A maioria dos estudos não perguntou orientação sexual dos entrevistados, mas entre os que fizeram, a maioria dos participantes eram heterossexuais.

Os pesquisadores, então, identificaram 11 normas consideradas "tradicionalmente masculinas" - desejo de ganhar, necessidade de controle emocional, assumir riscos, violência, dominância, promiscuidade sexual ou comportamento playboy, autoconfiança, prioridade do trabalho, poder sobre as mulheres, desprezo por Homossexualidade e busca por status - e olhou para ver se eles foram associados com determinados resultados de saúde mental.

Em geral, os homens que ficaram mais presos a essas normas foram mais propensos a ter problemas como depressão, estresse, problemas de imagem corporal, abuso de substâncias e funcionamento social negativo. Eles também eram menos propensos a recorrer ao aconselhamento para ajudar a lidar com esses problemas. O efeito foi particularmente forte para os homens que enfatizaram o comportamento playboy, o poder sobre as mulheres e a auto-suficiência.

O autor principal, Y. Joel Wong , da Universidade de Indiana não ficou surpreso com os resultados. "Não é ciência de foguetes", disse à revista Popular Science . "É algo que tem sido demonstrado ao longo de 20 anos de pesquisa."

Um grupo crescente de psicólogos está interessado em estudar a "masculinidade tóxica" - a idéia de que algumas idéias tradicionais sobre como os homens devem se comportar são prejudiciais para os homens, as mulheres e a sociedade em geral. O ponto não é demonizar os homens, ou os atributos que alguns deles possuem. É mais para entender como os comportamentos incentivados nos homens pode ser prejudicial para todos os envolvidos.

Por exemplo, um dos estudos citados na análise de Wong olhou para 108 homens que haviam sido submetidos a um programa para cometer violência doméstica. Esses homens eram desproporcionalmente propensos a abraçar as normas de dominância e controle emocional, bem como dizer que os homens não devem compartilhar suas emoções ou pedir ajuda. Os autores desse estudo teorizaram que os homens com esses valores são mais propensos a descarregar a raiva e a frustração em seus parceiros, em vez de aparecer "fraco", procurando apoio emocional.

Michael Addis, um psicólogo de pesquisa na Universidade Clark, em Massachusetts e autor do livro " Homens Invisíveis: das Íntimo Homens e as consequências do silêncio", disse Smithsonian que querer ser auto-suficientes e no controle de suas emoções pode também ser o que torna os homens menos propensos a procurar tratamento para seus problemas de saúde mental.

"Eu acho que isso tem sido um longo tempo", disse Addis sobre a pesquisa. Ele observou que uma das razões por que os efeitos "tóxicos" da masculinidade não são bem conhecidos pode ser que poucos homens procuram tratamento de psicólogos - tornando-os mais difíceis de estudar.

Nem todas as normas tradicionalmente masculinas que Wong estudou estavam ligadas a problemas psicológicos. Por exemplo, colocar o trabalho em primeiro lugar não se correlacionou com resultados de saúde mental positivos ou negativos; Talvez isso seja um reflexo do fato de que investir uma grande quantidade de energia emocional no trabalho pode ser cumprindo, mesmo que os relacionamentos de impostos, disse Wong. E a tomada de risco foi associada com enormes resultados de saúde mental, positivos e negativos, possivelmente porque como você se sente depois de tomar um risco depende se o risco compensa.

Mas valorizar o comportamento e o poder do playboy sobre as mulheres - além de ser explicitamente sexista - estava fortemente correlacionado com problemas psicológicos.

Conversando com a Popular Science, Wong observou que muitas pessoas podem argumentar que ser auto-suficiente e agindo como um playboy são apenas o que significa ser um homem.

Wong disputa essa compreensão: os homens mudaram sua interpretação da masculinidade ao longo da história, e ainda podem.

"Só porque você sempre se comportou de uma maneira particular não significa que você não tem escolha", disse ele.


Fonte: Jornal The Washington Post (EUA)

Psicólogo diz ser importante distinguir o pedófilo do abusador sexual


Em entrevista ao programa Balanço das Notícias, nesta quinta-feira (24), o psicólogo Sylvio Ferreira falou sobre os números assustadores de casos de violência sexual contra crianças e adolescentes. Esta semana, uma operação da Polícia Federal prendeu 15 pessoas por possuírem pornografia infantil.

Os números mostram que uma criança é vítima de abuso sexual a cada 15 segundos no mundo e no Brasil o crime se repete a cada oito minutos. O Brasil é líder no mundo quando o assunto é pornografia infantil. Além disso, 76% dos pedófilos do mundo estão no Brasil.

Geralmente, os casos de abuso sexual são cometidos por pessoas conhecidas pela criança, inclusive, parentes. O psicólogo Sylvio Ferreira disse que é importante diferenciar o pedófilo do abusador sexual. “A pedofilia é um transtorno de personalidade considerado grave. Mas nem todas as pessoas que são consideradas pedófilas, praticam o crime do abuso sexual ou de uma prática pedófila”, disse.

De acordo com o profissional, o tratamento para o transtorno é muito complicado. “É muito difícil de ser tratado”, apontou.

No entanto, segundo Sylvio Ferreira, a maioria dos casos de abuso sexual contra menores é provocado por abusadores sexuais que não tem a condição da pedofilia. “São pessoas que sabem o que estão fazendo, porque estão fazendo, têm plena consciência e que se submetida a qualquer exame clínico não será constatada nenhuma característica do comportamento de um pedófilo”, alertou o psicólogo.

Confira outros detalhes na entrevista:



Fonte: Rádio Jornal Pernambuco

Artigo - Cuba: a exata medida de um imenso fracasso


Por: Gustavo Castañon*

“Vai pra Cuba!”

Coxa

Com a morte de Fidel o leitmotiv predileto da direita vai voltar à carga. Esse é a acusação de que a esquerda quer transformar o Brasil numa Cuba. É uma estratégia tão, mas tão desonesta, que é até difícil explicar o tamanho da desonestidade. Mas vou tentar.
Para começar, Cuba pode realmente ser ruim para mim, que sou de classe média alta, mas é para 100% de seus habitantes melhor do que o Brasil é para 90% dos seus. Esse não é um chute estatístico, mas uma estimativa conservadora. 75,9% dos brasileiros vivem com menos de U$10.000 ao ano enquanto 10% dos brasileiros abocanham 75,4% da renda nacional (1% abocanha 48%) (1). A renda per capita em Cuba ajustada por poder de compra é de 20.611 dólares internacionais (2), enquanto a do Brasil antes da depressão econômica era de 15.893 dólares (3). O povo daquela ilha rochosa bloqueada é mais rico que o povo do continente Brasil. Essa é uma realidade chocante e geralmente desconhecida.

Ainda assim não quero ir pra Cuba, a não ser a turismo. Porque para mim a quantidade de liberdade é mais importante do que o pão. É claro, eu tenho pão. Bem mais do que isso, eu faço parte dos 10% de privilegiados brasileiros. Logo, sou mais livre aqui do que lá. Mas minha diarista certamente não. Que pena que ela não tem ideia do que realmente significa “Vai pra Cuba!”.

E é também por isso que não posso querer para mim uma sociedade moralmente monstruosa como os EUA, aquela plutocracia onde o último traço de democracia é uma relativa liberdade de expressão. Mas o Brasil, meu Deus, o Brasil é uma monstruosidade social tão maior, que querer que ele se transforme em algo parecido com os EUA é querer reformas de esquerda. Sim, na maioria dos aspectos, os EUA estão à esquerda do Brasil. No dia em que o Brasil tiver um salário mínimo como o dos EUA (U$7,25 por hora contra U$1,12) (4), uma distribuição de renda como a dos EUA (gini 40,8 contra 54,7) (5), uma lei de mídia como a dos EUA, a proteção às indústrias e agricultura local como a dos EUA, um estado do tamanho do dos EUA (14,6% da população empregada contra 11,1%) (6), a direita vai poder alertar para o risco de ele virar uma Alemanha. Até lá, em vez de gritar: “A esquerda quer transformar o Brasil numa Cuba!”, deveria gritar: “A esquerda quer transformar o Brasil num EUA!”.
E quando o Brasil ficasse parecido com os EUA, querer um governo de esquerda ia ser querer que o Brasil começasse a ter políticas de salvaguarda social mais parecidas com as da Alemanha (7), sua saúde pública, sua educação pública, suas políticas ambientais estreitas, sua carga tributária (40,6% contra 34,4% do Brasil) (8), seu imposto progressivo (quanto mais rico, mais imposto). E a direita deveria então gritar, se quisesse ser honesta: “Cuidado, a esquerda quer transformar o Brasil numa Alemanha!”
E então, quando o Brasil ficasse parecido com a Alemanha, a direita poderia alertar para o risco de virarmos uma Dinamarca. Aí, querer reformas de esquerda seria querer que mais da metade da renda fosse para os impostos (50,8%) (9), que os filhos da elite fossem obrigados a estudar em escolas públicas, entre as melhores do mundo, que o estado empregasse mais de um terço da população (34,9%) (10), bancasse dois anos de licença para criar um recém-nascido, limitasse fortemente a atuação das grandes corporações, fosse radicalmente democrático.
Finalmente, quando o Brasil ficasse parecido com a Dinamarca, o direitista poderia gritar sem hipocrisia seu terror com a Cuba que se avizinha, a do estado total e economia planificada, e assim disfarçar melhor sua inveja do funcionário público sob a máscara do ódio ao estado. Provavelmente nesse dia, até eu estivesse protestando a seu lado.
Na estratégia do espantalho cubano o reacionário brasileiro finge ser a favor da liberdade e do mérito, enquanto na verdade é contra. Contra a liberdade do povo, seus direitos trabalhistas, o investimento na educação e universidade públicas, o fortalecimento do SUS e a redução dos juros. Contra o aumento da carga tributária, do salário mínimo, do estado, da remuneração do professor básico, da distribuição de renda e das oportunidades para os excluídos.
Um conservador na Inglaterra é só um conservador. Um conservador no Brasil é um monstro. Um monstro que quer conservar as estruturas de um dos países mais desiguais e injustos do mundo.
Não, Cuba não é o paraíso. É só uma ilha rochosa no meio do Caribe sem recursos naturais de qualquer tipo e bloqueada economicamente há cinquenta anos. E, no entanto, garante saúde e educação universal para seu povo e tem um IDH maior que o nosso, nós, que somos um continente, nós, que temos todos os recursos naturais em abundância. Essa é a medida de nosso fracasso. O incrível e gigantesco fracasso do capitalismo brasileiro.

Notas:
(1) Credit Suisse – Research Institute. Markus Stierli. Outubro de 2015. Tabela 6-5, pág. 149, 17-10-2016
(2) http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.PP.CD?locations=CU&order=wbapi_data_value_2014+wbapi_data_value+wbapi_data_value-last&sort=desc
(3) http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.PP.CD?order=wbapi_data_value_2014+wbapi_data_value+wbapi_data_value-last&sort=desc
(4) http://www.infomoney.com.br/carreira/salarios/noticia/4073079/veja-quanto-salario-minimo-pago-paises-australia-campea
(5) World Bank GINI index
(6)OCDEhttp://www.oecd-ilibrary.org/sites/gov_glance-2011-en/05/01/gv-21-02.html?itemId=/content/chapter/gov_glance-2011-27-en&_csp_=6514ff186e872f0ad7b772c5f31fbf2f
(7) http://www.dw.com/pt-br/como-o-estado-alem%C3%A3o-ap%C3%B3ia-as-fam%C3%ADlias/a-2370133
(8) Heritage Foundation (2015).”2015 Macro-economic Data”.and Index of Economic Freedom, Heritage Foundation.
(9)http://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php/File:Total_tax_revenue_by_country,_1995-2014_%28%25_of_GDP%29.png
(10)OCDEhttp://www.oecd-ilibrary.org/sites/gov_glance-2011-en/05/01/gv-21-02.html?itemId=/content/chapter/gov_glance-2011-27-en&_csp_=6514ff186e872f0ad7b772c5f31fbf2f


* Gustavo Castañon é professor de Filosofia e Psicologia e militante político e acadêmico nas horas ocupadas. Hoje trabalha na UFJF e acaba de voltar a seu partido de origem, o PDT. Acha que o mundo tem três grandes males: o capetalismo liberal, o pós modernismo em todas as suas formas e os psicopatas. Anacrônico, acredita em todas essas coisas que a gente chamava de valores, como verdade, beleza, justiça e bem. Acredita em Deus, mas não em religião. Não respeita ideias, só pessoas. Bem, quase todas.


Fonte: Portal Língua de Trapo

O mundo está melhor do que você pensa. Entenda em cinco gráficos


É lugar-comum afirmar que nunca, jamais, o mundo esteve PIOR do que hoje. Aristóteles já reclamava disso. Natural: o cérebro é nostálgico por natureza. Da mesma forma que a grama do vizinho é sempre mais verde, o passado tende a parecer melhor do que o presente. Isso acontece porque o nosso cérebro, ensina a neurociência, é auto-limpante: ele descarta boa parte das memórias ruins. Sim, existem os traumas, mas o balanço geral é de uma massa cinzenta com mais memórias boas do que ruins, mesmo que a sua vida não tenha sido lá um mar de alegria.

Quando se aplica essa lógica interna ao mundo externo, o mundo real, o resultado é uma visão eternamente pessimista, na qual o mundo de hoje sempre parece pior que o de ontem, e o de ontem pior que o de anteontem, o que talvez tenha ajudado a criar um dos mitos mais recorrentes da sociologia (já superado) – o de que a vida em estado selvagem era de uma perfeição platônica. Não. Não era – a não ser que você considere expectativa de vida na casa dos 40 anos, mortalidade infantil rampante e canibalismo ocasional como ideais platônicos.

Filosofia à parte, o fato é que as últimas décadas testemunharam, sim, os maiores progressos da história: nunca estudamos tanto, nunca tanta gente saiu da pobreza, a comida é mais barata hoje do que em qualquer época da história da humanidade. E da pré-história também. Sim, não havia dinheiro na pré-história, mas, como tempo de fato é dinheiro, e gastávamos quase todo o nosso tempo em busca de comida, podemos inferir a alimentação era terrivelmente cara. O mundo, no fim das contas, está até bão, Sebastião.

Veja agora cinco gráficos que deixam isso claro. E entenda.







Fonte: Revista SuperInteressante / Our World in Data, Max Rose / International Labor Organization / UN Interagency Group for Child Mortality

Que consequências uma anistia ao caixa 2 poderia trazer para a Lava Jato?

Deputado Ivan Valente (PSOL-SP) é um dos principais opositores da medida; além dos psolistas, Rede também critica anistia


Uma das propostas prevê a tipificação do crime de caixa 2, e parlamentares de diversos partidos querem aproveitar a oportunidade para aprovar uma anistia para todas as transações desse tipo praticadas até a criação da nova lei.

A iniciativa é vista como uma tentativa de livrar centenas de políticos de eventuais denúncias dentro da Operação Lava Jato. Está em fase de conclusão a assinatura de um acordo de delação com dezenas de executivos da Odebrecht, que deve apontar doações irregulares para diversos candidatos e partidos.

Deputados do PSOL e da Rede dizem que todos os demais partidos estão envolvidos na articulação para aprovar a anistia, o que os principais líderes da Casa negam.

"Isso aí é vontade de vocês de venderem notícia. Não existe essa discussão. Isso é uma confusão de palavras para gerar uma polêmica e um enfraquecimento da Câmara", disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Maia, no entanto, passou parte da madrugada e da manhã desta quinta-feira reunido a portas fechadas com líderes de PMDB, PSDB e PT, além de outros partido. Na noite de quarta-feira, a comissão especial que debateu as propostas aprovou um relatório que não prevê a anistia, mas o texto pode ainda ser alterado no plenário da Câmara.

"Se não houvesse outra intenção do que modificar o texto que já foi aprovado (na comissão especial) não haveria motivo para ficar reunido a noite inteira, a manhã inteira, produzindo algo explícito sobre anistia ao caixa 2", acusou o deputado Ivan Valente (PSOL-SP).


Quais podem ser as consequências de uma anistia?

A criminalização do caixa 2 faz parte de um pacote de medidas proposto pelo MPF que ficou conhecido como "dez medidas contra a corrupção".

A instituição defende a criação de legislação detalhada prevendo as práticas que seriam ilegais e estabelecendo punições mais duras. Uma nova regra necessariamente só vale para crimes futuros, a não ser que ela seja mais leve que regras anteriores.

Atualmente, a movimentação de recursos de campanha sem a correta declaração já pode ser punida pelo artigo 350 do Código Eleitoral, que estabelece de um a cinco aos de prisão para quem omitir documentos da prestação de contas.

Além disso, se a origem do dinheiro movimentado no caixa 2 for ilícita, também há a possibilidade de enquadrar a transação em outros crimes, como lavagem de dinheiro, peculato (desvio de dinheiro público) e corrupção.

O que se discute nos bastidores é aprovar um texto que preveja que a nova lei automaticamente perdoaria crimes anteriores a ela, anulando a aplicação da legislação existente previamente.

A extensão dessa anistia, se ela vai apenas impedir a aplicação do artigo 350 do código eleitoral, ou também perdoar crimes correlatos, como corrupção e lavagem de dinheiro, dependerá do texto final aprovado.

Um das versões que circulou e foi postada no Facebook pelo deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), opositor da proposta, estabelece que "não será punível nas esferas penal, civil e eleitoral a doação contabilizada, não contabilizada, ou não declarada, omitida ou ocultada de bens, valores ou serviços, para financiamento de atividade político-partidária ou eleitoral realizada até a data da publicação dessa lei".

Investigações da Lava Jato apontam que houve diferentes práticas irregulares de campanha em eleições passadas, quando doações de empresas ainda eram permitidas (até 2014). Relatos de delatores indicam que haveria repasses registrados oficialmente originados de propina, repasses de dinheiro lícito não-registrados (caixa 2), e outros recursos de caixa 2 que tinham origem ilícita.

"O que está sendo proposto é uma anistia ampla, para infrações penais e eleitorais, relacionadas com doações contabilizadas, não contabilizadas, ou não declaradas, omitidas ou ocultadas. Isso é um retrocesso, pois alcança todas as condutas anteriores", disse à BBC Brasil, por escrito, o subprocurador-geral da República Nicolao Dino, logo após o adiamento da votação.

Dino é um dos integrantes do grupo de 40 procuradores criado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para pressionar os parlamentares sobre esse e outros pontos do pacote anticorrupção.


Controvérsia jurídica

Quando falam abertamente sobre o tema, parlamentares, inclusive Rodrigo Maia, têm argumentado que não há anistia para um crime que não existe, no caso o caixa 2.

O deputado Carlos Marun (PMDB-RS) sustenta que o texto não precisa prever qualquer anistia explícita, pois a mera tipificação do crime de caixa 2 já automaticamente anularia a aplicação o artigo 350 do código eleitoral (a omissão de documento na declaração).

"Se (o caixa 2) for por corrupção, corrupção é crime. Se for com peculato, peculato é crime. Se foi falsidade ideológica (omissão de documento na declaração) não, porque é óbvio que qualquer caixa 2 tem que haver uma declaração errada de contabilidade, entendeu?", questionou.

"Só que como o Ministério Público, que é autor do projeto, não se predispõe a esclarecer a população sobre isso, está causando uma crise onde não precisa ter crise", argumentou ainda.

Segundo Marun, como "não há esse esclarecimento, fica a vontade de muitos de deixar claro o que devia já estar claro" - ou seja, explicitar no texto a anistia.

"Essa crise acaba fácil. O Ministério Público sentar e dizer: 'esse crime, da forma que nós propusemos, torna inimputável o caixa dois praticado antes da data proposta'", defendeu.

Nicolau Dino discorda da interpretação. Para ele, a mera criminalização do caixa dois não invalida a aplicação do código eleitoral para crimes anteriores à nova lei.

O subprocurador-geral observa que uma nova lei só retroage se for mais benéfica para o acusado do que a legislação em vigor anteriormente. Dessa forma, a punição prevista no código eleitoral só deixaria de ser aplicada se a criminalização do caixa 2 prever pena mais leve. Do contrário, a legislação eleitoral segue valendo para crimes passados e a tipificação penal será aplicada para punir os futuros.

A procuradora e professora de Direito Eleitoral da FGV-Rio Silvana Batini tem a mesma opinião. Para ela, os parlamentares parecem querer "apostar na controvérsia, na ambiguidade de uma nova lei, para ganhar tempo" na Justiça.


A anistia poderia ser derrubada no STF?

Caso a anistia seja aprovada, é possível que a nova lei seja questionada no Supremo Tribunal Federal (STF), observa a professora da FGV.

"Se o Congresso vota uma anistia nessa situação, ele está legislando em causa própria. Então, você poderia questionar a constitucionalidade de lei, se ela fere o princípio da razoabilidade. Mas essa situação é inédita no Brasil, não dá nem para imaginar o que viria disso", disse.

O próprio presidente da Câmara indicou concordar com a possibilidade de questionamentos ao falar com a imprensa após o adiamento da votação.

"Eu nunca ouvi ninguém tratando comigo de nenhuma redação que não fosse objetivamente da tipificação do caixa 2. Essa matéria, primeiro, não teria votos. Segundo, eu tenho dúvidas de sua constitucionalidade".

Maia, porém, manteve sua ambiguidade na sequência, ao frisar que caixa 2 não é crime.

"Então, eu não acho que a Câmara deva, e não irá (aprovar anistia), porque não ouvi de líder nenhum tratar de nenhum desses temas que não seja a tipificação do caixa 2, que não pode ser criminalizado, porque se está se tipificando é porque o crime não existe".


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

Estão abertas as inscrições para o Seminário Autonomia e Direitos para Todos


Em comemoração ao Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, será realizado, no dia 1º de dezembro, o seminário “Autonomia e Direitos para Todos”, a partir das 9h, no auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados. No evento, os participantes debaterão os dez anos da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e a regulamentação da Lei Brasileira de Inclusão, também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência. Os interessados em participar das atividades devem se inscrever até 30 de novembro. Acesse o formulário de inscrição no site www.pessoacomdeficiencia.gov.br.

O seminário contará com a participação da professora de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Izabel Maior, que foi a primeira pessoa com deficiência a comandar a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Ela fará uma apresentação referente aos dez anos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que foi adotada pelas Nações Unidas em 2007 e sancionada no Brasil em 2008. Em seguida, o Ministério da Cultura apresentará projeto de acessibilidade em biblioteca públicas, com o lançamento do livro “O Pequeno Príncipe” em formato acessível.

A programação inclui ainda as palestras do procurador do Tribunal de Contas da União, Sérgio Ricardo Costa Caribé, e da subprocuradora-geral do Ministério Público do Trabalho, Maria Aparecida Gugel. As atividades se encerrarão com uma mesa redonda de debates sobre as políticas públicas implementadas pelo governo federal e o processo de regulamentação da Lei Brasileira de Inclusão.

O evento é uma realização da Secretaria Especial dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Ministério da Justiça e Cidadania; da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Câmara dos Deputados; do Ministério da Cultura, por meio da Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural e da Secretaria de Economia Criativa; e do Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão.

Data: As Nações Unidas instituíram a data 3 de dezembro como o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência em 1992, dez anos após uma assembleia da ONU proclamar a instituição do programa mundial de ações sobre pessoas com deficiência. Segundo dados do IBGE, há 45,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência no Brasil, o que representa 23,9% da população.

Serviço: Seminário Autonomia e Direitos para Todos.

Horário: 9h – 17h30.

Local: Auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados.


Fonte: Portal da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República - SDH/PR

Delegações de 27 países da América Latina e Caribe debatem trabalho infantil em Fortaleza


Na próxima segunda-feira (28), às 9h, cerca de 80 representantes de 27 delegações de países da América Latina e do Caribe se reunirão no Seara Hotel, em Fortaleza (CE), para a abertura de uma reunião anual cujo tema para 2016 é o papel da educação no combate ao trabalho infantil.

Atualmente, existem 12,5 milhões de crianças e adolescentes trabalhadores na região, dos quais 9 milhões trabalham nas piores formas de trabalho infantil, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Entre as autoridades confirmadas para a cerimônia de abertura, estão o diretor da OIT no Brasil, Peter Poschen; a vice-governadora do Ceará, Izolda Cela; a secretária de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, Maria Teresa Pacheco Jensen; e a secretária nacional de Assistência Social do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, Maria do Carmo de Carvalho.

O evento acontecerá entre 28 de novembro e 2 de dezembro, no âmbito da Iniciativa Regional América Latina e Caribe Livres do Trabalho Infantil (IR), com o objetivo de fortalecer a resposta dos países da região contra o trabalho infantil através da identificação de ações conjuntas prioritárias com a área da educação.

A experiência do Programa Estadual Aprendiz na Escola, realizado pela Secretaria de Educação (SEDUC) do Governo do Ceará, será apresentada durante a reunião como um modelo de boa prática a ser replicado por outros países. Além disso, o procurador do Trabalho do Ministério Público do Trabalho do Ceará (MPT/CE), Antonio de Oliveira Lima, falará sobre o papel da escola no combate ao trabalho infantil.

A IR é um mecanismo de cooperação horizontal criado e gerido por governos de 27 países da América Latina e do Caribe, com a participação ativa das organizações de empregadores e de trabalhadores e com a atuação da OIT como Secretaria Técnica.

Durante a reunião, as delegações também discutirão um plano de trabalho para o próximo ano, além de definir um projeto de transição escola-trabalho voltado para países do Caribe e validar um novo marco para acelerar as políticas para a redução do trabalho infantil na região.


Programa Aprendiz na Escola

O Programa Estadual Aprendiz na Escola será apresentada às delegações internacionais na terça-feira (29), a partir das 14h30, pelo secretário de Educação Idilvan Alencar. No fim da tarde, os participantes do evento visitarão a Escola de Ensino Fundamental e Médio Walter de Sá Cavalcante para conhecer a iniciativa.

Criado em 2014, o programa oferece a jovens da 3ª série do Ensino Médio das escolas da rede pública estadual a oportunidade de qualificação e inserção profissional ainda dentro do ambiente escolar. Cerca de 2 mil estudantes em todo o Ceará já foram beneficiados com a qualificação profissional e mais de mil foram inseridos no mercado de trabalho.

“O diferencial do Aprendiz na Escola é que ele alia a aprendizagem à inserção do aluno no mercado de trabalho por meio da educação. O aluno passa três anos construindo saberes, desenvolvendo competências e habilidades para se tornar apto a entrar no mercado de trabalho”, afirma o secretário de Educação, Idilvan Alencar.

O programa é desenvolvido em escolas regulares de nove municípios cearenses. Atualmente, existem 14 turmas para os cursos de Operador de Loja e Varejo e Serviços Administrativos, com uma carga horária de 29 horas semanais. Além das disciplinas obrigatórias, os participantes têm acesso a aulas voltados ao mercado de trabalho e atuam como aprendizes nas empresas durante o contraturno. O contrato de aprendizagem é assinado por um ano e os jovens recebem todos os benefícios previstos pela legislação trabalhista.

“Do ponto de vista da empresa, além do caráter social, ela cumpre a cota prevista pela Lei da Aprendizagem com as contratações”, destaca Alencar. A SEDUC acompanha o desenvolvimento dos alunos durante todo o processo para garantir a formação qualificada dos participantes sem prejudicar a aprendizagem na escola.


Serviço

Abertura da Reunião Anual da Iniciativa Regional América Latina e Caribe Livres de Trabalho Infantil
Data: 28/11/2016, às 9h
Local: Seara Hotel, Av. Beira Mar, 3080 – Meireles, Fortaleza (CE)

Informações para a imprensa
Ana Paula Canestrelli – Oficial de Comunicação da OIT
Tel: (61) 2106-4625
E-mail: canestrelli@ilo.org


Fonte: Portal da ONU

Testes rápidos e distribuição de camisinhas marcam Semana de Luta contra a Aids


Em alusão ao Dia Internacional da Luta Contra a Aids, lembrado na próxima quinta-feira (1º), Brasília recebe a partir de hoje (27) diversas atividades com o objetivo de prevenir e acelerar o diagnóstico da doença. A programação começou às 9h com a ação social Eu abraço, no Parque da Cidade Sarah Kubitschek.

De acordo com coordenador de Diversidade LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais] da Secretaria de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos do Distrito Federal, Flávio Brebis, a proposta é oferecer à população testes rápidos, preservativos e informativos ao longo de todo o dia de hoje. Haverá ainda feira de artesanato com peças produzidas por pessoas que vivem com HIV.

A psicóloga Regina Cohen, 56 anos, fala com orgulho das peças de artesanato expostas no local. Presidente do Grupo Arco-Íris e soropositiva há 20 anos, ela explica que parte do dinheiro arrecadado com a venda do material ficará com os próprios artistas e outra parte será destinada a ajudar a instituição.

Já a artesã Deniz Catarina, 56 anos, é professora voluntária no grupo e supervisionou a produção da maioria das peças. Entre os trabalhos confeccionados por seus alunos estão flores, velas, animais em feltro e bonecas. “É uma forma de tirar essas pessoas do anonimato. Muitas delas estão depressivas e o trabalho, com certeza, ajuda”.

As principais atrações da Semana de Luta contra a Aids em Brasília, de acordo com o governo do Distrito Federal, estão previstas para a próxima quinta-feira, quando haverá debate com youtubers da capital na Fundação Nacional de Artes (Funarte).

No mesmo dia, será intensificada a distribuição de testes rápidos, preservativos e informativos em centros de referência para tratamento. O serviço também será oferecido nas administrações regionais de Brazlândia, Ceilândia, Planaltina, Samambaia e Varjão e nas estações Central e 112 Sul do metrô.

Outro destaque da programação é a solenidade de recepção do grupo de trabalho de certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV e/ou da sífilis no Brasil do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), no Palácio do Buriti, amanhã (28). Os eventos seguem até o próximo sábado (3) em vários espaços da cidade. A agenda completa pode ser conferida pela internet.


Meta brasileira

A meta assumida pelo Brasil junto à Organização das Nações Unidas (ONU) no combate à epidemia de aids é, até 2030, diagnosticar 90% das pessoas com a doença, encaminhar 90% delas para tratamento e tornar a carga viral insignificante em 90% dos pacientes tratados.


Fonte: Portal Agência Brasil

Federação de Futebol abre investigação diante de denúncias de pedofilia em clubes

Jogadores denunciaram escândalos de abuso sexual infantil na Inglaterra


A Associação Inglesa de Futebol (FA) lançou neste domingo uma revisão interna para examinar as denúncias de que crianças estariam sendo abusadas sexualmente em clubes no país. A entidade nomeou um consultora independente para supervisionar sua investigação, a Kate Gallafent QC, depois que ex-jogadores disseram à mídia britânica que foram assediados quando crianças dentro de times ingleses. A polícia britânica, por sua vez, já está investigando diversas acusações de pedofilia, segundo as vítimas, escondidas há décadas.

As acusações do ex-jogador Andy Woodward dizendo que foi molestado quando jogava na base do Crewe Alexandra pelo olheiro Barry Bennell, condenado por pedofilia, motivaram outros ex-jogadores a também tornarem públicas outras acusações.

- Eu só queria jogar futebol e vi o Crewe como o início do meu sonho. Mas eu também era ingênuo, e eram esses garotos ingênuos que o Bennell buscava – disse Woodward.

Quando os casos explodiram, Damian Collins, ministro do comitê de esporte inglês, cobrou um posicionamento da Associação de Futebol (FA, na sigla em inglês).

- A FA precisa olhar para trás e ver se houve erros no passado. As pistas foram esmiuçadas? Foi feito o bastante para investigar um problema que eles poderiam ter percebido? - questionou.


Fonte: Portal G1

Em meio à crise, gastos da Câmara Legislativa do DF crescem 20%


Enquanto os brasilienses cortam gastos para enfrentar a crise, e o governo não tem caixa para investir ou pagar reajustes, a Câmara Legislativa parece funcionar em um universo paralelo. O projeto de lei orçamentária da Casa para 2017 prevê um crescimento de gastos de R$ 400,8 milhões para R$ 481,5 milhões — um salto de 20,1%. A maioria desse montante será usada para quitar salários de servidores, mas boa parte da bolada pagará mordomias dos deputados distritais, como aluguel de carro de luxo, milhares de litros de combustível, além, claro, de muita propaganda das ações de mandato.

Somadas as emendas apresentadas pelos parlamentares, o orçamento da Câmara Legislativa para o próximo ano pode chegar a R$ 525,5 milhões. Esse valor é quatro vezes maior do que o total de recursos orçamentários reservados para a Companhia de Desenvolvimento Habitacional (Codhab), que tem R$ 131 milhões para gastar em 2017. Ou ainda quase 10 vezes superior ao orçamento da Secretaria de Meio Ambiente.

Quase 80% do orçamento da Câmara é usado para pagar a folha de pessoal. O Legislativo local tem 661 servidores efetivos, 208 inativos e 41 pensionistas. Além disso, são, no total, 1.150 cargos em comissão, ocupados por apadrinhados políticos, espalhados pelos gabinetes parlamentares, lideranças de partido e do governo e na estrutura administrativa da Casa.

O restante dos recursos é usado para custeio e manutenção e, principalmente, para pagar contratos terceirizados, como os de segurança e limpeza. Entre as principais fontes de gastos da Câmara está a despesa com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos: a Câmara torrou R$ 3,6 milhões este ano com a postagem de cartas. O pagamento de contas de telefone consumiu quase R$ 680 mil de janeiro a novembro — sem contar as despesas pagas com a cota dos deputados.

Mais informações no jornal citado na fonte.


Fonte: Jornal Correio Braziliense

Bolívia libera documentos sobre ditaduras militares no Cone Sul


A chancelaria da Bolívia tornou públicos documentos oficiais referentes a ações diplomáticas durante as ditaduras militares sul-americanas entre 1966 e 1979. Os arquivos, inclusive referentes ao Brasil, foram colocados à disposição dos interessados, a fim de recuperar a memória histórica, afirmou em comunicado difundido esta terça-feira (22).

"Os documentos aos quais se terá acesso permitirão revelar a verdade sobre as ações diplomáticas e oferecer dados para se poder exercer a justiça", afirma o texto. O chanceler boliviano, David Choquehuanca, assinalou - segundo o documento - que "queremos revelar a verdade das ações dos diplomatas da ocasião".

"Temos a obrigação frente às futuras gerações que a verdade seja conhecida para que saibam como foram estes tempos da ditadura", acrescentou. A decisão de revelar os documentos foi anunciada em junho por Choquehuanca.

No período em questão, de 1966 a 1979, houve uma ativa colaboração entre os governos militares do Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai para combater os movimentos políticos de esquerda e sindicatos opositores, uma operação conhecida como Operação Condor.

Durante esses anos, milhares de opositores foram mortos, desapareceram, presos ou exilados, sem que se tenha um número oficial.


Fonte: Jornal RFI (França)

Casos de estupro representam 80% dos registros de violência contra menores na GV


O ano de 2016 ainda nem terminou, mas um balanço divulgado pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente de Vitória mostra um número alarmante: dos 771 inquéritos instaurados pela DPCA de janeiro a outubro, 617 são referentes a estupros.

No mesmo período 46 pessoas foram presas por envolvimento em crimes de violência sexual envolvendo menores e mais de 1,1 mil termos circunstanciados foram assinados. Em 2015, foram mais mil inquéritos encerrados, 825 termos circunstanciados e 60 prisões.

O titular da Delegacia, Lorenzo Pazolini, frisou a importância de denunciar e que o assunto deve ser debatido em família. “O responsável pela criança ou adolescente deve orientar e, sobretudo, explicar para o jovem que ninguém tem o direito de tocar em seu corpo, nem se aproximar com intuitos sexuais”, disse.

Mais importante do que conscientizar a criança e o adolescente sobre educação sexual, a intimidade entre pais e filhos com o tema cria um canal para que os filhos tenham liberdade para contar atos de violência sexual aos responsáveis.

Esse tipo de violência pode ocorrer em qualquer lugar – na escola, como mostrou o caso do professor na Serra, suspeito de ter abusado sexualmente de uma aluna de 10 anos –, e pode acontecer com qualquer jovem, como a adolescente de 13 anos de Vila Velha que possui problemas mentais e foi assediada por um amigo de sua tia. Os abusos podem, inclusive, acontecer dentro da própria família da vítima: padrastos, tios, avôs e até pais podem ser os agressores.


Fonte: Jornal Folha Vitória

domingo, 27 de novembro de 2016

Por que a violência contra mulheres indígenas é tão difícil de ser combatida no Brasil


"O pai, não indígena, foi acusado de estuprar as cinco filhas. Os abusos aconteciam na casa onde ele morava com as meninas e outros três filhos, após se separar da esposa. A mãe, que é indígena, fez a queixa pois desconfiou do comportamento de uma das meninas."

"Das violências relatadas pelos indígenas, uma das mais chocantes foi o estupro coletivo de uma jovem Guarani e Kaiowá por doze pistoleiros. Eles a pegaram no mato quando ela se perdeu ao tentar fugir do ataque."

"A vítima foi pegar frutas no pomar da aldeia quando foi atacada por um integrante da comunidade. A criança foi encontrada com ferimentos e encaminhada para o hospital. O autor do crime já cumpre pena em regime de prisão domiciliar. Depois do crime, ele fugiu."


Mulheres e indígenas. Violentadas e indígenas. Anônimas e indígenas. Esquecidas e indígenas. Em comum, a violência presente e velada.

As mulheres são as principais vítimas das violências praticadas contra as comunidades indígenas no mundo, de acordo com relatório da ONU.

Os dados da organização mostram que mais de 1 em cada 3 mulheres indígenas são estupradas ao longo da vida - e a violência faz parte de uma estratégia para desmoralizar a comunidade ou como "limpeza étnica".

No Brasil não é diferente.

No Mato Grosso do Sul, estado com a segunda maior população indígena do País, com 72 mil pessoas, os casos de violência contra a mulher indígena aumentaram em aproximadamente 495%. Em 2010, o número era de 104 agressões físicas. Já em 2014, foram relatadas 619 agressões.

Só neste ano, o levantamento da Secretaria de Segurança Pública do mesmo estado mostrou que o número de denúncias de violência contra a mulher na região cresceu 23,1% no primeiro semestre de 2016 em relação ao mesmo período no ano passado.

Uma violência invisível

Os relatos que abrem este texto são verídicos e foram registrados pelo relatório de Violência Contra o Indígena de 2015 do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

O levantamento do Cimi mostra que, só em 2015, 137 casos de assassinatos de índios foram contabilizados no País. Outros dados obtidos junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e às equipes regionais do Conselho revelam a ocorrência de 87 suicídios entre os povos indígenas no último ano. Ainda, 9 casos de violência sexual contra várias mulheres foram contabilizados em comunidades espalhadas pelo Brasil.

Porém, estes dados não podem ser lidos ingenuamente. O próprio Conselho chama a atenção para a fragilidade dos números:
"Os dados ainda carecem de melhor qualificação. Eles não permitem uma análise mais aprofundada, visto que não foram apresentadas informações detalhadas das ocorrências, tais como faixa etária das vítimas, localidade, povo, etc. A fragilidade destes dados dificulta uma clara percepção da autoria das violências, se eles tiveram como pano de fundo a disputa pela terra ou, nesse sentido, se são consequência do fato dos indígenas não estarem vivendo em seus territórios tradicionais."

Em março de 2016, a relatora especial da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, também foi clara em sua recomendação: é preciso ter uma maior documentação dos problemas enfrentados pelas mulheres indígenas no País.

Durante a sua visita, ela destacou os casos de violência não só doméstica, mas também os estupros consequentes das invasões e reforçou a importância de documentar essas questões para que sejam incluídas na pauta política, a fim de serem solucionadas.


Por que a violência acontece?


Marcia Wayna Kambeba é geógrafa e ativista dos direitos indígenas. Ela pertence ao povo Omaguá Kambemba que no início da colonização se dividia entre os territórios do atual Equador e no norte do Rio Amazonas.

Para além dos números, ela sabe que a violência é real.

"A mulher indígena sofre vários tipos de violência. Primeiro ela sofre por ver seu povo sendo afetado, marginalizado, discriminado. Depois, ela sofre como mulher e essa violência não é só física, ela é psicológica e social também. O estupro é presente e é uma forma de desmoralizar a aldeia. Ano passado tivemos só em uma aldeia 3 casos de violencia sexual", compartilhou em entrevista ai HuffPost Brasil.

Hoje, mestre em geografia pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), ela transformou sua origem em arte, como compositora de músicas em Tupi Guarani, e em luta, como militante e educadora sobre os direitos indígenas. Ela explica:

"Mulheres indígenas sofreram esterilização forçada. Mulheres e crianças são violentadas e assassinadas por pistoleiros como forma de intimidar o povo a deixar a aldeia. Os responsáveis não são punidos. Na aldeia Tururucari-Uka, do povo Kambeba, as casas foram derrubadas várias vezes. A cacique de lá é uma mulher.Ela lutou bravamente e a aldeia hoje continua no mesmo lugar. Uma comunidade não indígena invadiu a aldeia na tentativa de expulsa-los. O líder da invasão disse aos Kambeba: pra que índio quer tanta terra?"

Diante do aumento expressivo de denúncias de violências, o Núcleo de Proteção e Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso do Sul (Nudem) resolveu distribuir cartilhas sobre a Lei Maria da Penha nas comunidades indígenas. Serão 1500 documentos divididos entre as Terenas e as Guaranis com as especificidades da Lei traduzidas nas línguas maternas.

Edmeiry Silara Broch Festi é coordenadora do Núcleo e atuou diretamente no projeto. Ela conta que a defensoria faz projetos ao longo do ano em defesa da vida das mulheres e durante um dos eventos surgiu a demanda para que a Lei Maria da Penha fosse traduzida:

"Em setembro fizemos o lançamento oficial da cartilha com as lideranças locais. Agora, começamos a visitar as aldeias para fazer a entrega do documento junto com as palestras. Contamos com ajuda de interpretes para fazer a apresentação nas línguas Guarani e Terena. Além do trabalho com as mulheres, essa cartilha vai servir para as escolas das comunidades desenvolverem as leituras nas aulas, não só com as meninas mas também com os meninos", explica em entrevista ao HuffPost Brasil.


Durante a exposição dos seminários, o objetivo da coordenadora é explicar o atendimento da Defensoria Pública para as mulheres, bem como conscientiza-las de que a Lei Maria da Penha é um instrumento do Estado para ser usado em defesa delas.

"Quando entramos em contato com as comunidades percebemos que o Estado não tem números que retratem a realidade em relação aos indígenas. Outro desafio é a influência da cultura branca. A maioria dos casos que a gente escuta está associada ao consumo de álcool, além dos conflitos por demarcações de terras. Ainda, é comum ouvir das lideranças locais que o povo indígena é menos machista. A nossa grande dificuldade é fazer com que elas próprias se reconheçam como vítimas, de tão enraizada que a cultura do homem é. O público da defensoria já é vulnerável, e dentro dos vulneráveis temos ainda uma situação mais delicada, que é a das mulheres indígenas."


Os limites da Lei Maria da Penha para as indígenas


Apesar dos esforços de projetos como o do Nudem, a aplicação da lei que tipifica a violência doméstica como crime ainda está longe de atender às necessidades das indígenas.

Seja pela falta de acesso à informação; pela dificuldade, inclusive, geográfica - já que a maioria das aldeias estão distantes dos locais que recebem as denúncias; ou ainda pela complexidade que existe quando se trata de uma sociedade que tem organização própria e diferente das cidades, a Lei Maria da Penha não se aplica a realidade de grande parte das mulheres indígenas.

Lívia Gimenes é advogada e autora da pesquisa A construção Intercultural do Direito das Mulheres Indígenas a uma vida sem violência: A experiência brasileira, em que analisou documentos da Funai sobre oficinas realizadas pelo órgão com mulheres das aldeias para discutir a violência doméstica.

Para Lívia, a lei 11.340/2006 foi pensada para um contexto urbano e mesmo nas cidades enfrenta dificuldades no momento de sua aplicação. Quando levada ao contexto das aldeias, ela é ainda mais ineficiente e chega a ser problemática.

"Quando a gente fala de política de enfrentamento da violência, a gente não tem uma mulher universal. A gente tem dificuldade de lidar com os vários perfis de mulheres em suas várias realidades diferentes. E quando se fala de mulheres indígenas a diversidade é ainda maior. Ouvi das indígenas que elas têm medo de o quanto a aplicação da lei poderia desestruturar a realidade em que elas vivem e isso sempre gera muita angústia. Elas não são contra a lei, mas também não se reconhecem nela", explica a advogada.

Em sua pesquisa, a advogada teve acesso as atas dos seminários promovidos pela Funai entre 2008 e 2010, que eram norteados por três perguntas:

Quais e como tem sido tratada a violência em sua comunidade?
Como as leis podem ajudar no combate à violência contra as indígenas?
Como poderia ser tratada a violência contra as mulheres indígenas?


Como resposta, destaca-se pelo menos três pontos que preocupam as indígenas:
  1. O futuro das jovens da comunidade, e para aquelas que residem em aldeias próximas às cidades a situação do subemprego e desemprego precisa ser modificada;
  2. A capacitação de agentes estatais que se relacionam com os povos à respeito da violência doméstica e dos regimentos internos das aldeias;
  3. Instrumentos estatais de acolhimento psicológico das vítimas de violência e de agressores que precisam estar adaptados à realidade indígena;

A demanda pela prisão dos agressores apareceu como resposta de um único dos grupos ouvidos.

Já a maioria sugere a aplicação conjunta da Lei Maria da Penha e do regimento interno, mas com a prioridade para as regras da aldeia e, inclusive, há uma proposta especificando como funcionaria:
"Colocar o agressor na presença do cacique, lideranças e representantes da FUNAI, lembrando que terá duas oportunidades para resolver a questão dentro da comunidade, na terceira oportunidade será levado a lei do branco."

Segundo a pesquisadora, a resistência diante de qualquer intervenção estatal e o motivo pelo qual essas mulheres não se sentem reconhecidas na Lei Maria da Penha pode ser associada a uma desconfiança em relação à atuação das "leis brancas" que podem aprofundar ainda mais a desestruturação interna promovida pelo contato com mundo não indígena.

"É muito presente a demanda por autonomia decisória dos povos indígenas e que a criação de políticas públicas perpassem por consultas diretas e, preferencialmente, coletivas junto a estes povos. A construção de um Estado que seja realmente democrático deve ser capaz de representar ou de permitir coexistir grupos distintos, porém com a mesma dignidade de ter neles sujeitos de direitos. Aqui direito compreendido não como um equivalente a sistemas legais, mas como expressão de uma superação de condições de opressão por meio da ação organizada legitima por quem a sofre", explica a pesquisa de Gimenes.

Ainda, a pesquisadora traz a questão da demarcação das terras indígenas para o centro do debate. No levantamento do Cimi, a média anual do número de homologações entre 2011 e 2015 foi de 3,6%, totalizando 18 territórios reconhecidos oficialmente. O número é muito abaixo da média de períodos anteriores. Entre 2003 e 2010, por exemplo, a média anual foi de 10%, com 79 territórios reconhecidos; já entre 1995 e 2002, a porcentagem foi de 18%, resultando em 145 terras homologadas.

"O Estado tem que entender que a demarcação de terras é uma pauta de enfrentamento a violência contra as mulheres, porque é a terra que garante uma reestruturação das comunidades indígenas. Sem terras reconhecidas, o que acontece é um efeito cascata de violência e a parte mais vulnerável é a mulher. A demarcação é uma pauta de gênero e de defesa das mulheres indígenas.", constata Gimenes.


Como a questão de gênero é tratada nas aldeias?


Falar de violência contra a mulher é falar também sobre a desigualdade de gênero. Mas novamente, o tema ganha diferentes nuances quando se trata das comunidades indígenas.

De acordo com Iza Tapuia, consultora da UNESCO e uma das lideranças do povo Tapuia, para interpretar os papeis que mulheres e homens assumem nas aldeias é preciso se desnudar do olhar da cidade:

"No contexto das comunidades o mundo dos homens e das mulheres está muito bem definido. Se você pega um roçado, por exemplo, os homens vão limpar, derrubar as árvores, abrir o espaço. Já o plantio é por nossa conta. A gente tem essa relação mais próxima com a terra e tudo tem a ver com a reprodução. A terra reproduz a semente né? E a gente produz os outros membros do grupo para não deixar nosso povo acabar."

E completa:

"Essa questão de gênero é muito complicada para a gente. No mundo não-indígena ela está ligada ao poder e a submissão. Mas no mundo indígena é mais complexo. Os homens não tomam a decisão sozinhos. Apesar de estarem no terreno, ou conversando na casa dos homens, eles não saem de lá sem levar em conta a orientação das mães, das irmãs, das esposas. É muito difícil que um homem tome uma decisão que não seja compartilhada com as mulheres. Dá a impressão para quem chega de fora que eles são os todos poderosos, são o centro da aldeia. Mas isso não significa que nós não temos nosso poder. Se você conviver em uma aldeia você vai perceber isso. Essas normas são feitas muito antes da gente nascer. Já está definido ali o meu papel, a minha responsabilidade."

Ela ainda afirma que os casos de estupros se tornaram realidade nas comunidades e argumenta que as motivações externas, como o uso excessivo de álcool, precisam ser freadas.

"O estupro não é uma prática natural nas aldeias. É uma distorção moral e cultural. As mulheres indígenas começam a ser preparadas para a reprodução física e cultural do povo a partir da primeira menstruação. No olhar não-indígena isso vai ter distorções. Nós já temos muitos problemas causados pelos brancos. E quando estes problemas, como o estupro e o consumo de álcool, chegam nas aldeias eles são muito mais graves, pois afetam a organização social tradicional dos povos. Por isso que tudo tem que ser analisado caso por caso."


Como o ritual da passagem da infância para a vida adulta é entendido em aldeias

Povo: Karajá

"Na primeira menstruação, a moça passa a ser vigiada pela avó materna, ficando isolada. A sua aparição pública, quando está bem enfeitada com pinturas corporais e enfeites plumários para dançar com os Aruanãs, é muito prestigiada pelos homens. O casamento ideal é aquele arranjado pelas avós dos nubentes, preferencialmente da mesma aldeia, quando os jovens estão aptos a ter relações sexuais. O casamento mais comum é a simples ida do rapaz para a casa da moça, o que pode ser precipitado se algum parente masculino, da parte dela, surpreende algum encontro do casal às escondidas. O homem, uma vez casado, passa a morar na casa da mãe da esposa, seguindo a regra matrilocal. Quando a família se torna numerosa, o casal faz uma casa própria, mas anexa àquela de onde saiu, caracterizando espacialmente a família extensa."

Povo: Kambeba

"Os Kambeba se organizam em famílias patriarcais. Ao casar, o casal faz sua própria casa, mas mantêm estreita ligação e obediência aos pais e sogros até que estes morram. As mulheres cuidam especialmente das atividades domésticas, dos filhos pequenos, da casa, da alimentação diária; zelam pelos pertences do marido, pela educação das meninas nas normas e nas regras do grupo; mas realizam também outras atividades, como plantio e limpeza do roçado, coleta de frutos e descascam mandioca para fazer a farinha. Os Kambeba não proíbem o casamento para fora do grupo. Pelo contrário, observa-se que as alianças matrimoniais com outros grupos indígenas e com outros ribeirinhos têm sido um recurso constante do grupo para manter um equilíbrio populacional, mas também para realizar alianças políticas interétnicas."

Povo: Nambikwara

"Logo que tem a sua primeira menstruação, a menina púbere (wa’yontãdu, “menina menstruada”) deve permanecer em reclusão em uma casa construída pelos seus pais especialmente para este fim. Os Mamaindê se referem a essa pequena maloca feita com folhas de buriti como wa’yontã’ã sihdu (“casa da menina menstruada”). Lá a menina deverá permanecer de um a três meses, ao fim dos quais uma grande festa será feita e os convidados de outras aldeias nambiquara virão para retirá-la da reclusão. A menina (wekwaindu, “menina”, “moça”) passa, então, a ser considerada uma mulher “formada”, conforme explicam os Mamaindê."

Povo: Tupi-Guarani

"Os homens casam-se entre 16 e 18 anos, enquanto as mulheres podem casar-se a partir da segunda ou terceira menstruação, em geral entre 14 e 17 anos. Na primeira menstruação as meninas têm seu cabelo cortado e mantêm resguardo dentro de suas casas, onde recebem alimentos e de onde raramente saem por algumas semanas. Não há ritual específico nos casamentos, cabendo aos pais do rapaz, na pauta tradicional guarani, a iniciativa de falar com os pais da moça sobre o matrimônio. Espera-se, contudo, que os noivos estejam aptos a construir e manter casa e filhos."


Marcia Kambeba chama a atenção, ainda, para outro tipo de violência que também está relacionada ao gênero: a criação de estereótipos da mulher indígena:

"A violência contra a mulher indígena não é só estupro. Nós passamos por constrangimentos de todas as formas. Por exemplo, quantas vezes já ouvi 'você não tem cara de índia!'. Se a mulher não fala mais a língua materna é brutalmente criticada. Se usa roupa também é criticada ou chamada de 'aculturada'. E o casamento sem que ela sinta vontade de se casar? E ainda quando a natureza é agredida, a mulher indígena também sente. A terra, a água e a mata são femininas"


O perfil do agressor

Em nota pública divulgada em abril deste ano, a ONU Mulheres alertou para as disputas de terras em estados como Mato Grosso do Sul, Bahia e Ceará.

"Num contexto de defesa de territórios e exclusões sociais, as mulheres indígenas têm sido alvo de violências perversas baseadas em gênero, a exemplo de feminicídios, exploração sexual, tráfico de pessoas e agressões de outras naturezas que se acentuam na medida em que elas afirmam o seu protagonismo político em defesa dos seus povos e seus direitos."

Além disso, é comum o relato do uso abusivo de álcool ou outras drogas por aqueles que cometem o crime. Ainda, faz parte dos abusos outras violências consideradas mais sutis, como a privação das mulheres indígenas de ocuparem espaços públicos.


Por muito tempo foi considerado que os indígenas eram imagens de um passado "atrasado". O exemplo de uma sociedade a ser "salva" por um colonizador "moderno". À eles, e principalmente à elas, foi designada a nudez, as pinturas, os colares, como algo exótico a ser exibido.

Antes, eles eram cerca de 3 a 4 milhões. Segundo o Censo do IBGE de 2010, agora são 817 963 mil, entre os mais de 240 povos. Sobreviveram a extinção, mas continuam sendo violentados.

“É preciso considerar que a Lei Maria da Penha também é polêmica fora do “mundo aldeia”. Como não seria entre as indígenas? Essa questão é mais complexa ainda entre as indígenas, pois elas pensam na lógica do conjunto dos problemas que afetam o seu povo e as questões de solidariedade interna são mais complexas”, constata a antropóloga Arneide Bandeira Cemin, da UFR (Universidade Federal de Rondônia).

É mulher, mas é indígena. Foi estuprada, mas é indígena. Não tem voz, mas é indígena. Esse "mas", aqui, é a resistência presente. E eternizada.

"Precisamos descolonizar o nosso imaginário sobre esses povos. Não temos que falar pelas mulheres indígenas, mas aprender com elas", finaliza Cemin.


Fonte: Povos Indígenas no Brasil / Jornal HuffPost Brasil - The Huffington Post (EUA)

Fim de ano: população de rua cresce e dá uma dimensão do abismo social no DF


As paredes são de madeira fina, e o teto, de lona. Dentro do barraco, um colchão de casal, uma cama menor improvisada, poucos móveis usados, um ventilador e uma luz de gambiarra. Esta é a casa que Tatiana Araújo, 29 anos, divide com os quatro filhos — um de 11, outro de 10, o do meio, de 7, e o caçula de 3 anos — em uma invasão próxima ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Ela veio da Bahia ainda pequena. Na cabeça, acreditava que Brasília seria uma cidade de realizações e oportunidades. “Vim pensando que era uma coisa e é outra. A vida aqui se tornou mais cara e mais difícil”, relembra.

Mudando de terreno em terreno, Tatiana leva a vida como catadora de material reciclável. O quintal da casa dela é o próprio local de trabalho. Depois de buscar o lixo na rua, faz a separação perto da moradia e espera até uma pessoa vir recolher. Pelo serviço, ganha, em média, R$ 250 por mês. O valor não é suficiente para o sustento da família. Além dele, Tatiana conta com o Bolsa Família dos filhos. “É uma vida triste. Você mora perto da lama, tem rato, mato, mosquito. Fica exposto a tudo quanto é doença. Você mora mais fora do barraco que dentro”, descreve.

Enquanto conversa e conta um pouco da triste história, o filho mais novo de Tatiana corre pelado e descalço pelo chão de terra batida. O pequeno se diverte com uma bolha de sabão que sai voando, anda de bicicleta em meio ao lixo e percorre o local com naturalidade e domínio. Inscrita no programa habitacional da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab), Tatiana aguarda há quatro anos a chance de realizar o maior sonho: ter uma casa. “Quero sair daqui, ganhar uma moradia, ter estabilidade e um serviço. Não quero trabalhar com reciclagem”, complementa. “Tem dias que não consigo trabalhar por conta das crianças. Como deixo eles aqui sozinhos?”, questiona.

Mais informações no jornal citado na fonte.


Fonte: Jornal Correio Braziliense

Programas sociais protegeram população brasileira da crise no período 2011-2014, diz PNUD

Para PNUD, programas sociais protegeram população da crise e ajudaram em dimensões como saúde, educação e renda. IDH avançou no período 2011-2014


O desenvolvimento humano no Brasil não deixou de avançar no período de 2011 a 2014, quando os indicadores econômicos deram os primeiros sinais de desaceleração e estagnação. Nesses anos, a renda aumentou em proporção mais alta do que no intervalo 2000-2010. Já a expectativa de vida e a educação, apesar do saldo positivo, registraram avanços menores na comparação com a década anterior.

Os dados são do Radar IDHM, estudo lançado na terça-feira (22) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Fundação João Pinheiro e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O documento analisa as tendências dos componentes do Índice de Desenvolvimento Humano nos anos intercensitários.

Segundo a avaliação, de 2011 a 2014, a média dos IDHs municipais do país passou de 0,738 a 0,761. Esse valor é mais alto do que o de países como México, China, Peru e Ucrânia, mas inferior ao de nações como Cuba, Rússia, Venezuela e Irã, segundo dados do PNUD.

Monitorando as variações da renda domiciliar per capita, o documento revela que a renda no Brasil aumentou 1,1% no início da década de 2010. O crescimento foi mais alto do que nos dez anos anteriores, durante os quais o avanço verificado para o indicador foi calculado em 0,7%. Em 2014, a renda atingiu o índice de 0,741.

No período analisado, o número de pessoas vulneráveis — com renda domiciliar per capita inferior a 255 reais — decresceu a uma taxa média anual de 9,3% — contra 3,9% no último intervalo intercensitário. Já a proporção dos extremamente pobres — com renda domiciliar per capita inferior a 70 reais — teve decréscimo médio anual de 14%, em comparação a 6,5% também no intervalo intercensitário.

Já a educação e a longevidade, embora também tenham avançado no período 2011-2014, registraram alta menor do que na década de 2000.

O componente educação é a síntese de dois outros subíndices — escolaridade e frequência escolar. Para o primeiro, o Radar IDHM considera a escolaridade da população adulta, medida pela proporção de pessoas de 18 anos ou mais com o ensino fundamental completo. No período avaliado, o crescimento anual dessa taxa foi de 0,5%. De 2000 a 2010, o valor foi de 3,3%. Em 2014, 39% dos brasileiros acima de 18 anos não possuíam o ensino fundamental completo.

Em 2014, mais de 90% das crianças de 5 a 6 anos estavam frequentando a escola e o mesmo índice foi encontrado entre jovens de 11 a 13 anos, que frequentavam o 2º ciclo do ensino fundamental.

Entre níveis de escolaridade, porém, a taxa variava significativamente: apenas 65,5% dos adolescentes de 15 a 17 anos tinham concluído o fundamental e 52,0% dos jovens de 18 a 20 anos tinham o ensino médio completo.

De 2011 a 2014, a taxa de crescimento do componente educação foi de 1,5%, ao passou que, de 2000 a 2010, o aumento foi de 3,4%. A expectativa de vida passou de 74,2 anos para 75,1 nos primeiros anos da década de 2010, com um crescimento de 0,6% — metade da alta registrada em 2000-2010.
Programas sociais robustos protegeram população

Para o PNUD, o leve avanço do IDHM no início da década de 2010 pode estar relacionado com a natureza dos dados considerados — que propositadamente têm sensibilidade diferente ao desempenho da economia — e com a rede de proteção social existente no país.

Segundo o organismo, a população brasileira não teria sofrido grandes impactos no período 2011-2014 devido à robustez dos programas sociais, que ofereceram apoio em dimensões básicas da vida humana, como saúde, educação e renda.

O PNUD tem entre seus principais objetivos contribuir para o combate à pobreza e à desigualdade, além de avançar o desenvolvimento humano inclusivo e sustentável.

“Para lograr esses objetivos, adotamos a abordagem do desenvolvimento humano, que tem como ideia central o enfoque nas pessoas e na melhoria do bem-estar delas”, explicou o representante-residente da agência da ONU e coordenador do Sistema das Nações Unidas no Brasil, Niky Fabiancic. “Apesar dos avanços, temos um longo caminho a percorrer para atingir os objetivos da Agenda 2030”, acrescentou durante o lançamento do novo Radar IDHM.

O Radar IDHM também apresenta análises de 60 indicadores para o Distrito Federal e nove Regiões Metropolitanas — Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Todas tiveram tendência de aumento do desenvolvimento humano entre 2011 e 2014, sendo que os melhores desempenhos foram observados nas RMs de Curitiba (0,035), Recife (0,025) e Rio de Janeiro (0,025).

Acesse o Rada IDHM aqui.


Fonte: Portal da ONU

Em três meses, 945 brasileiros foram barrados na União Europeia


Nos três meses que compuseram o segundo trimestre de 2016, 945 brasileiros foram barrados na Europa: 10 por dia. Isso significou um aumento de 11% com relação ao trimestre anterior, de acordo com o levantamento mais recente da Agência de Fronteiras da União Europeia (Frontex).

Dentre essas pessoas, 269 não possuíam documentos necessários para justificar “propósito e condições de permanência”, escreveu o relatório. O segundo motivo principal foi a falta de visto de trabalho, em 140 dos casos. Outras 21 pessoas foram recusadas por questões de segurança.

É o segundo aumento seguido em número de brasileiros impedidos de entrar na região. No primeiro trimestre, 883 brasileiros foram recusados, o que significou o nível mais alto desde 2011. Agora, a brasileira é a oitava nacionalidade mais barrada nas fronteiras analisadas.

Entre os latino-americanos, o número total teve um recorde de 4 anos, chegando a mais de 3.000 recusas. A maioria das pessoas barradas tentavam entrar na UE pela Espanha ou por Portugal, sendo que Brasil e Colômbia foram responsáveis pela maior participação dentro dessa gama.

No geral, as recusas da região tiveram recorde de 6 anos, chegando a 33.792. A nacionalidade mais reportada foi a ucraniana, com 6.649 pessoas barradas no período. Por outro lado, a Hungria apresentou a maior queda no número de casos reportados, chegando a 358 casos – 39% a menos que o trimestre anterior.


Fonte: Revista Infomoney

Brasileiras combatem violência de gênero com nudes criptografadas e apps de táxi


Com os inúmeros relatos que pipocam na internet sobre assédio e abuso sexual em táxis e Ubers, três amigas apaixonadas por tecnologia se juntaram para elaborar o Delas, aplicativo que permite apenas motoristas e passageiras mulheres. “Uma de nós trabalhava numa casa de eventos e, ao sair do local de madrugada, passava por sufocos”, relata a designer Marina Kashiwagi, de 24 anos.

Com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2017, o app rodará em Android e iOS, mas ainda precisa de investimentos para arcar com custos de produção. Enquanto isso, as três criadoras – todas com menos de 25 anos – disponibilizam um número de WhatsApp para quem quiser os serviços na cidade de São Paulo. “Temos um grupo de motoristas mulheres que recebem as solicitações de corrida. Assim podemos provar que a ideia funciona na prática”, diz Marina.

Nas últimas décadas, 4.500 mulheres foram assassinadas anualmente no Brasil, de acordo com o Mapa da Violência. Os dados assustam ainda mais quando a violência sexual entra em pauta: a cada 11 minutos uma brasileira é estuprada, aponta o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2015, mais de 50 mil sofreram estupros, segundo o 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Os números aterrorizantes são corroborados hoje por depoimentos publicados nas redes sociais. No ano passado, a hashtag #meuamigosecreto foi utilizada por mulheres de todo o país para relatar casos chocantes de assédios e abusos.

É pela internet que a organização experimental de tecnologia Coding Rights lançou o Safer Nudes – Guia Sensual de Segurança Digital, fanzine online que ensina técnicas e macetes para enviar fotos sem correr o risco de cair na net. “Fazer e mandar nudes é um direito e também pode ser uma prática de resistência prazerosa contra o machismo”, detalha a publicação. Nela, aplicativos que pixelizam o rosto, editam metadados de localização, enviam arquivos criptografados e que avisam se alguém fez um print da nude enviada são esmiuçados para que até mesmo a mais incauta das usuárias entenda e possa se sentir mais segura.

Se escafandrar as possibilidades tecnológicas foi por muito tempo um acesso proibido para boa parte das meninas e mulheres, iniciativas feministas têm chegado com os dois pés na porta para mudar esse cenário. É o caso do MariaLab, espaço hacker em São Paulo cujo objetivo é “encorajar, empoderar e unir mulheres através do interesse pela cultura hacker”, conforme descrição no Facebook. Em 2015, inclusive, o Motherboard entrevistou suas criadoras. Além da segurança, o foco do projeto é fazer com que as mulheres sintam-se confortáveis para fazer ajustes e melhorias em suas próprias máquinas, sem depender de técnicos estranhos em suas residências – que, geralmente, são homens.

No próximo mês, também na capital paulista, o projeto CriptoSampa irá ministrar uma oficina de segurança na comunicação para mulheres que surgiu “da necessidade de debater temas de interesse específicos, assim como de criar um ambiente acolhedor para apresentar conceitos de tecnologia da informação básicos e avançados”, informam a cientista social Fernanda Becker, 27, e a jornalista e ativista Patricia Cornils, 49.

Para elas, as construções sociais ainda afastam as mulheres das áreas de tecnologia da informação e engenharia. “E criam, muitas vezes, ambientes hostis à participação feminina”, relatam.


A cada 11 minutos uma brasileira é estuprada, aponta o Fórum Brasileiro de Segurança Pública


A preocupação no combate à violência é também prevenção. Enquanto o ativismo protagonizado para e por mulheres acontece dentro e fora das redes, a colaboração ainda se faz necessária.

Depoimentos de agressões, hostilidade e dificuldade por parte de empresas e estabelecimentos em lidar com casos de abuso impulsionou garotas paulistanas a fazer uma planilha colaborativa denunciando bares e baladas machistas. O documento traz mais de 90 estabelecimentos seguidos por relatos de assédio e abuso por parte de clientes e funcionários.

Iniciativas tecnológicas partem também das esferas governamentais. Recentemente, a Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SSP-PI) anunciou que irá lançar o aplicativo Salve Maria para denunciar casos de violência contra a mulher. “Queremos que ele tenha uma linguagem simples, que registre áudio, fotos, vídeos e que a denúncia possa ser feita de forma totalmente anônima”, declarou a delegada Eugênia Villa, diretora de gestão interna da pasta.

A data de lançamento do aplicativo é simbólica: 8 de março do próximo ano, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher.


Fonte: Portal Motherboard

Artigo - Por que Meninas de 12 Anos Ficam Parecendo Adultas em Ensaios Fotográficos?


Por: Lara Vascouto*

Há algumas semanas, Millie Bobby Brown – a atriz que interpretou a inesquecível Eleven em Stranger Things – fez um ensaio fotográfico para a revista Interview que deixou todo mundo enlouquecido.

Bem, quase todo mundo. Algumas pessoas (oi!) acharam bem esquisita a forma como a revista retratou Millie, essencialmente porque a atriz de 12 anos poderia ser facilmente confundida com uma adulta de 20 em boa parte das fotos.

Agora, é verdade que nem todas as fotos do ensaio são esquisitas. A Interview até trouxe algumas em que Millie aparenta a sua idade. O problema é que ela alternou essas fotos com outras que ou não são lá muito naturais para uma criança de 12 anos, ou são inegavelmente inapropriadas mesmo.


Olhos semicerrados, lábios abertos (ou mordendo alguma coisa), dedos nos lábios. É possível que o que eu vou dizer seja novidade pra muita gente, considerando-se o quanto é naturalizada a imagem do corpo feminino erotizado ou objetificado na mídia, mas aí vai: tudo isso denota sensualidade. A expressão de Millie na capa da revista é inclusive uma das coisas que a quadrinista Renae De Liz diz ser necessário eliminar ao se desenhar personagens femininas a fim de não sexualizá-las. Que justo uma foto em que a jovem atriz está com essa expressão tenha ido para a capa da revista, como chamariz, diz muito sobre a nossa mídia (e sobre nós).

De Liz publicou no seu Facebook em julho desse ano um comparativo de como heroínas de quadrinhos são desenhadas vs como deveriam ser desenhadas.


“Ai Lara, acho que você está exagerando!” – alguém aí certamente está dizendo.

E talvez eu até concordasse, não fosse o longo histórico da mídia de testar o limite do que é apropriado ou não ao retratar jovens atrizes e modelos.

Em 1980, uma Brooke Shields de quinze anos de idade se viu no meio de uma polêmica ao estrear em uma propaganda da Calvin Klein em que diz que “não tem nada entre eu e meus jeans”, ao mesmo tempo em que sustenta uma pose absurda. Duas emissoras de televisão de Nova York chegaram a banir a propaganda por suas insinuações sexuais na figura de uma menor. Kate Moss, por sua, vez, foi fotografada de topless quando tinha apenas dezesseis anos para a revista The Face. Aos 38 anos de idade, Moss contou que durante o ensaio ela se trancava no banheiro para chorar.“Nunca me senti à vontade sobre isso”.


Mais recentemente, tivemos o exemplo de Emma Watson, que interpretou Hermione Granger na saga Harry Potter dos 11 aos 20 anos de idade. Com apenas 14 anos, a atriz já posava para ensaios completamente inapropriados para a sua idade.

Emma entre os 14 e 16 anos.


O caso de Emma, aliás, é emblemático da diferença de tratamento dado a homens e mulheres. Mulheres de todas as idades são objetificadas sexualmente na mídia, enquanto que, se acontece de um homem ser objetificado, é sempre um homem adulto. Daniel Radcliffe, que interpretou Harry Potter, chamou a atenção para esse fato recentemente em uma entrevista.


– Entrevistador: Você está meio que se tornando um sex symbol. O que, para alguns dos seus fãs, é meio esquisito porque nós vimos você crescendo nas telas e, agora, aqui está você.
– Daniel: Na época do lançamento do What if, muita gente estava dizendo ‘você é protagonista romântico não convencional’. Eventualmente eu me cansei de ouvir isso e meio que parei alguém e perguntei: ‘O que eu tenho de não-convencional? Tipo, me fala’. E ela disse ‘Bem, acho que é provavelmente o fato de que, você sabe, nós associamos você com o Harry, o jovem menino bruxo’. Minha resposta imediata foi ‘Bem, a população masculina não teve problema nenhum em sexualizar a Emma Watson logo de cara.’

Agora, vamos lá. Sei o que você está pensando. “Mas elas toparam fazer essas propagandas e ensaios, ué! São elas que posaram e fizeram essas caras!”.

Por incrível que pareça, eu vi muito esse argumento sobre a Millie Bobby Brown. Muitas pessoas falando que meninas de 12 anos são assim mesmo, que querem mesmo parecer mais adultas, etc e tal. E que elas “toparam fazer”, então tudo bem. Pois bem, então se Millie tivesse abaixado as calças e mostrado a bunda em uma das fotos seria ok publicá-la? Quem é o adulto, com poder de decisão sobre o que será veiculado, e quem é a criança?

Falar que “elas toparam e fizeram assim, então tudo bem” é, mais uma vez, culpar a vítima. Será que a gente não cansa de fazer isso nunca? Crianças e adolescentes são vulneráveis e fortemente influenciáveis. É esse fato, aliás, que faz com que consentimento não interfira em caso de estupro de vulnerável. No caso, mesmo que a vítima jure de pés juntos que quer transar, sexo entre adultos e menores de 14 anos é crime, sem exceções.

Precisamos parar com essa história de “elas sabem muito bem o que fazem” (frase especialmente usada contra menores que engravidam). Meninas não amadurecem mais cedo, como dizem por aí. Meninas são simplesmente mais cobradas a se comportar de forma mais madura para serem aceitas, e se adaptam como podem. Se meninos parecem mais imaturos e infantis que meninas, temos de nos perguntar se eles são assim irremediavelmente ou se simplesmente permitimos que eles sejam assim.

Vou só deixar isso aqui.


Millie (e Emma, Brooke, Kate e muitas outras, em suas épocas) faz o que é esperado dela. Por mais madura que pareça (e esse é um comentário que eu tenho visto muito sobre a atriz), ela ainda assim é uma criança. E como toda criança, Millie aprende rápido. Arrisco dizer que não seria nem preciso alguém dizer a ela para semicerrar os olhos e abrir a boca em um ensaio de moda. Não quando absolutamente todos os ensaios de moda retratam mulheres dessa forma.

A mídia, não canso de dizer, cria e reforça uma visão de mundo que se entranha na nossa percepção de como as coisas são. Sexualizar ou mesmo “adultizar” meninas contribui diretamente para uma cultura que vive passando pano pra pedofilia. Nada menos que 70% dos estupros no Brasil tem crianças ou adolescentes como vítimas. E quando não são estupradas, a maioria das meninas ainda precisa lidar com assédio sexual desde muito novas. Ano passado, depois que uma participante de 12 anos do programa culinário Masterchef Junior foi alvo de inúmeros comentários pedófilos na internet, mais de 80 mil mulheres usaram a hashtag #meuprimeiroassédio, lançada pela ONG Think Olga, para contar sobre a primeira vez que foram assediadas. O resultado? Depois de analisar todos os relatos, a ONG constatou que a idade média do primeiro assédio é de 9,6 anos.


Por esse motivo, precisamos ter o olhar crítico para as mídias que consumimos. E precisamos cobrar conscientização e mudança. Devemos isso, tanto às Millies e Emmas, como a nós mesmas.


* Lara Vascouto é criadora, redatora e editora do Nó de Oito. Internacionalista. Viciada em desconstrução. Optou por ser pobre e feliz na praia ao invés de rica e triste em São Paulo.


Fonte: Portal Nó de Oito

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