terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Por que é bom deixar seus filhos se entediarem


As férias de verão e as festas de final de ano já estão aí. A iluminação e a decoração de prédios e avenidas, a falsa neve das vitrines e a agitação nas ruas anunciam a proximidade de uma época de celebração que muitas famílias vivem com ansiedade, sob a premissa de que o tédio deve ser erradicado da rotina de seus filhos. Esta circunstância gera situações de estresse nos lares, num esforço dos pais para preencher com múltiplas atividades cada uma das horas que os pequenos passam em casa. Trata-se, na medida do possível, de evitar ouvir: “Papai, mamãe, estou entediado”.

Essa ânsia por manter nossos filhos continuamente entretidos é vista com crescente restrição pelos especialistas. Na opinião de algum deles, o tédio é uma sensação positiva que todos, crianças e adultos, podemos e devemos experimentar. E defendem-no como uma situação que nossos filhos precisam enfrentar e resolver por si próprios.

Consuelo Coloma, psicóloga educacional e coordenadora da Universidade dos Pais, uma instituição educacional espanhola, se diz partidária de que os pais deixem os filhos experimentarem esse tédio. Na opinião dela, “os momentos de não saber o que fazer são positivos, desse que surjam de maneira natural, sem fomentá-los artificialmente”.

“De algumas gerações para cá, os pais procuraram um papel mais ativo na vida de seus filhos. Talvez por isso, perdemos um pouco a capacidade de saber diferenciar em que momentos é necessário que estejamos presentes como pais e em quais não é, para favorecer que eles mesmos o experimentem”, afirma Coloma. “Hoje em dia, as crianças não dispõem de ocasiões para desfrutar de brincadeiras livres, ou seja, de um tempo em que ninguém as organiza. Assim, quando acontece uma situação como o tédio, ocorrem duas coisas: a criança não sabe resolvê-la, porque não está acostumada, e os pais tampouco sabem como administrá-lo.”

Se olharmos para trás, as gerações precedentes viviam as férias como sinônimo de descanso e de profundos momentos de tédio. Momentos nos quais se entediar era natural e quase obrigatório. Nessa linha, já em 1930 o filósofo Bertrand Russell dedicou um capítulo de seu livro A Conquista da Felicidade à importância do tédio. Nele, dizia que “uma criança se desenvolve melhor quando, assim como uma jovem planta, deixa-se repousar na terra. Muitas mudanças de lugar e muita variedade de impressões não são boas para os jovens, e eles aprenderão à medida que cresçam a serem incapazes de suportar a frutífera monotonia”. E prosseguia observando que “uma geração que não suporta o tédio será uma geração de pouco valor”.

Sabina del Río Ripoll, psicóloga perinatal, diretora do Centro de Psicologia e Especialistas em Maternidade, de Madri, diz: “Isaac Asimov afirmou que o tédio seria uma das grandes doenças da nossa época, com as respectivas consequências em nível emocional, mental e sociológico. É necessário para o desenvolvimento de uma sociedade que seus integrantes sejam pessoas com capacidade de criar, inovar e solucionar, e isto só é possível se permitirmos que as crianças e adolescentes tenham tempo livre para ir evoluindo na sua capacidade de pensamento criativo”. Do mesmo modo, Del Río relata que “Ken Robison, descrito como um dos melhores docentes do mundo por sua visão do mundo educacional, nos transmite que a imaginação é a fonte de toda realização humana, e insiste em que a criatividade não é algo inato, e sim que se aprende, assim como aprendemos a ler ou a multiplicar. Quanto mais criativo for uma criança na sua infância, mais possibilidades terá no dia de amanhã de se autorrealizar e de obter sucesso nos diferentes âmbitos de sua vida. Uma criança entediada e com tempo para poder conectar consigo mesma poderá ir descobrindo quais são: suas aptidões, suas paixões, suas atitudes e suas oportunidades – os quatro pilares básicos sobre os quais este autor sustentaria o adequado crescimento pessoal dos indivíduos”.

Uma opinião compartilhada por Consuelo Coloma, segundo quem “a criatividade é a capacidade do ser humano de criar algo onde não há nada ou procurar soluções para problemas, basicamente”. E afirma que, “para que a criatividade surja, são necessárias duas circunstâncias ou uma das duas: que a criança não esteja fazendo necessariamente outra coisa, ou seja, que não tenha sua mente ocupada com outros trabalhos; ou que, tendo-a ocupada, tenha que resolver problemas ou enfrentar diferentes situações que lhe propiciem resolver conflitos. Justamente estas duas situações não se dão hoje, ou porque a criança ocupa a maior parte do seu tempo em realizar trabalhos ou atividades, normalmente sob supervisão, ou porque, se existir algum conflito ou problema, sempre há algum adulto disposto a lhe solucionar a vida para que a criança não precise se esforçar minimamente para dar asas à sua criatividade a fim de encontrar soluções para o problema”.

Então como devemos enfrentar os momentos de tédio dos nossos filhos? Sabina del Río afirma que “o tédio infantil deve ser um problema que a criança precisa perceber e do qual deve aprender a sair por si mesma”. A psicóloga afirma que “a melhor maneira de ajudar uma criança diante do seu tédio é lhe oferecer um espaço e um tempo com materiais os menos estruturados possíveis (melhor ao ar livre e em companhia de mais crianças da sua idade), e deixando que sejam elas mesmas que procurem e implementem seus recursos, tanto internos como externos, para se distrair e se desfrutar do seu tempo”.


Fonte: Jornal El País (Espanha)

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