segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Infecções por Aids aumentam entre jovens do DF


Aos 21 anos, Sandra (nome fictício) mantinha relações sexuais com o primeiro namorado sem preservativo. Logo, a mistura de fatores perigosos colocou a moradora do Recanto das Emas na lista de soropositivos da capital federal. A Secretaria de Saúde estima que são, ao todo, 11 mil pessoas na mesma condição da moça. E, somente nos últimos seis anos, somaram-se 3,1 mil novos casos.

O diagnóstico, o tratamento e a sobrevida com a Aids ainda são temas mergulhados em preconceito e desinformação. Apesar de não avaliarem o aumento de casos da doença como preocupante, as autoridades sanitárias alertam para a mudança de perfil: jovens entre 20 e 34 anos são responsáveis pela maioria das infecções recentes.

O impacto do diagnóstico e a vergonha levaram a estudante de direito a refazer o exame para HIV duas vezes. “Era algo inacreditável para a minha realidade. Até aquele momento, nunca havia pensado na possibilidade de ser soropositiva. E a pior parte foi a reação dos meus pais, eles ficaram arrasados”, conta. À época, a única preocupação de Sandra era ficar grávida. Hoje, com 23 anos, remédios e acompanhamento médico fazem parte da rotina dela.

No começo da semana passada, o Correio adiantou, com exclusividade, os números do Boletim Epidemiológico Anual de Doenças Sexualmente Transmissíveis. As informações do documento revelam um cenário sombrio. Nos últimos seis anos, 77% dos diagnosticados foram de homens, 47% tinham entre 20 e 34 anos e 18%, com ensino superior completo. E, mesmo com o avanço do tratamento da doença, no mesmo período, 710 pessoas morreram no Distrito Federal por consequência da Aids. Entre 2009 e 2015, o número de jovens de até 19 anos diagnosticados com HIV subiu de seis para 89.

Há 35 anos, eram diagnosticados os primeiros casos de Aids no mundo. As campanhas para uso de preservativos ganharam força. As vendas anuais de camisinhas saltaram de 70 milhões para 350 milhões. No entanto, o uso ainda não é uma constante, sobretudo entre a população jovem, de acordo com monitoramento da Secretaria de Saúde. Um rapaz de 21 anos tem vergonha de ter a identidade publicada, mas admite: transa sem se prevenir. “Sei que é algo inconsequente. Depois do ato, eu me desespero e corro para fazer o exame. Na hora da relação, porém, eu acabo preferindo não usar preservativo”, conta. O jovem não sabe, mas está entre os mais expostos ao mal. Do total de casos registrados em seis anos, 47,2% são na faixa etária dele.


Cuidados

Na quinta-feira, durante o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, especialistas e ativistas debateram sobre novos métodos de tratamento — um laço vermelho foi colocado na Torre de TV para simbolizar a campanha. Há muitos avanços, mas, até o momento, a doença permanece sem cura. Uma das novidades é a Profilaxia Pré-exposição (PrEp). Ao contrário da Profilaxia Pós-Exposição ao HIV (PEP), tratamento atual, a medicação é ingerida antes do contato com um soropositivo e diminui em até 80% as chances de contaminação. Desde maio de 2014, o modelo é comercializado nos Estados Unidos pelo nome de Truvada. No Brasil, ainda não foi liberado pelo Ministério da Saúde, mas, atualmente, cerca de 100 pessoas fazem tratamentos experimentais com o remédio.



Desafio do uso da camisinha

João Geraldo Netto, consultor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, é otimista, mas destaca que a produção de informação não significa aumento de educação. “Temos um bom tratamento, que é universal e gratuito. O grande problema é que muita gente tem HIV, não sabe e continua transmitindo”, explica. “Com o crescimento do conservadorismo na sociedade, a Aids vai ser mais uma vez estigmatizada como doença de pobre, negro e gay. Temos que combater o preconceito para continuarmos o trabalho de prevenção”, avalia.

Menos da metade das regiões administrativas contam com serviço especializado para o diagnóstico e o tratamento de DSTs. Em apenas 14 das 31 cidades do DF, equipes estão aptas a receber pacientes com Aids, por exemplo. A Gerência de Doenças Sexualmente Transmissíveis admite falhas, como desabastecimento de insumos — na sexta-feira, não havia, por exemplo, fórmula alimentícia para bebês que não podem ser amamentados por mães soropositivas — e de reagentes para testes. A falta de pagamento do fornecedor piorou a situação.

O grande desafio para as autoridades de saúde pública, segundo o gerente de DSTs da Secretaria de Saúde, Sérgio D’Ávila, é restabelecer o protagonismo do uso do preservativo, sobretudo na população jovem. “Temos que nos comunicar melhor com toda a diversidade da sociedade. Precisamos retomar as campanhas nas escolas”, adverte. Sérgio avalia que as estratégias governamentais não acompanharam o avanço das contaminações. “A busca por direitos básicos colocou muitas questões explícitas que antes eram jogadas para debaixo do tapete”, critica. Ele concorda que o conservadorismo pode prejudicar o controle da doença.

O infectologista e professor do UniCeub Tarquino Sánchez conta que a atitude do jovem não é exceção. “Nós, mais velhos, que vivemos os anos 1980 e 1990, presenciamos o pandemônio causado pelo HIV. Mas esta nova geração, não. Se antes a expectativa de vida de soropositivos era de dois ou três anos, hoje, com um tratamento regular, passa dos 30 anos. Assim, os jovens não enxergam a doença como as antigas gerações viam”, explica.


Medicação

Após o diagnóstico positivo, o paciente inicia a ingestão de medicamento antirretrovirais, fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os remédios não eliminam o vírus, mas o combatem e fortalecem o sistema imunológico. Outro avanço foi o Profilaxia Pós-Exposição ao HIV (PEP), método utilizado após contato com o vírus da Aids, em que o usuário consome medicação por 28 dias para impedir a sobrevivência e a multiplicação do HIV no organismo.


Fonte: Jornal Correio Braziliense

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