segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Artigo - É preciso ter a confiança de um homem branco medíocre

Marcelo Verde Masterchef


Por: Stephanie Ribeiro

Kimberly Foster escritora, blogueira e fundadora do site For Harriet em seu texto “10 New Year’s Resolution for every grown ass black woman” lista como tópico 4 o seguinte conselho:
Siga sua vida com a confiança de homem branco medíocre:
Em algum momento da sua vida, você terá ouvido aquela máxima “seja duas vezes melhor em tudo”. Nós simplesmente não temos a opção de ser medíocres e, mesmo assim, prosperar. Mas quando você passa a vida nadando contra a corrente, a incerteza emerge intuitivamente. Você passa a duvidar de si mesma, pois sabe que provavelmente haverá alguém para puxar seu tapete. Isto não é paranoia. Esta é a realidade de navegar o mundo em um corpo de mulher negra. Mas duvidar de si mesma pode esmagar a sua alma. Não deixe isso te abalar. Confie no que você fez e no que você sabe.

Desde terça quando foi a final do Masterchef fiquei incomodada com a forma como Dayse disse que não acreditava ter chego até ali e como outros participantes inclusive seu concorrente Marcelo Verde nunca aceitaram o fato dela continuar na competição. Marcelo, mesmo após a derrota, continua dizendo como ele era incrível: Eu era o mais criativo, o que mais trouxe novidades gastronômicas para os espectadores do país. Porém, quem sempre foi elogiada ao longo da competição foi Dayse, que por sinal sempre esteve entre os melhores pratos, então qual era a surpresa em ser ela a vencedora? Humildade não é sobre não reconhecer que você é boa no que faz. O Marcelo que foi para a “berlinda” no primeiro episódio demonstrou ao longo da competição, nos seus altos e baixos, como homens brancos tem uma confiança muito maior que qualquer mulher que demonstra um desempenho superior ao deles.

Precisamos confiar mais em nós mesmas e confiar no trabalho de outras mulheres; é comum mulheres passarem pelo que pesquisadores chamam de “Síndrome do Impostor”. Isso nada mais é do que acreditar que não devemos nos apropriar dos espaços que ocupamos pois não somos capazes, afinal nos vemos como verdadeiras fraudes e não aceitamos o nosso próprio sucesso e destaque. Ao invés de confirmamos no nosso próprio esforço e dedicação advindos do fato que geralmente precisamos ser duas vezes melhor para receber destaque, é muito corriqueiro que pessoas que pertencem a grupos sociais oprimidos entendam que tudo que conseguem é simplesmente sorte.

Segundo uma pesquisa da psicóloga Gail Matthews, da Universidade Dominicana da Califórnia, nos Estados Unidos, a Síndrome do Impostor atinge 70% dos profissionais bem-sucedidos. As mais impactadas nesse grupo tendem a ser as mulheres. Estamos fadadas a não confiar em nós mesmas, e consequentemente no nosso próprio poder.

Eu tenho as minhas visões sobre o que seria a mediocridade. Tem pessoas que nascem em berço de ouro gozando todos os seus privilégios e mesmo assim são aclamadas por não terem uma “vida de merda”, como se elas não estivessem a todo momento nadando a favor da corrente. É muito comum ver homens brancos sendo aplaudidos pela sua mediocridade: criam empresas com o dinheiro da família, fazem carreira na empresa ou no emprego que os pais conseguiram, estudam nas universidades que os pais pagam, ganham carros de aniversário e fumam um com direito a postar fotos nas redes sociais pois se sentem realmente transgressores. São intelectuais na sua obviedade e geradores de opinião que nem precisam se esforçar. Alguns têm tanta ousadia e alegria que chegam a dar declarações dizendo que o MÉRITO de uma mulher é consequência da existência deles:

Então, o que é MÉRITO?

Mérito não é sobre ter todas as condições favoráveis e seguir elas.
Mérito também não deveria ser imposto para ninguém como prova de que você se esforça por algo, afinal não podemos e deveríamos falar de mérito numa sociedade tão desigual, muito menos romantizar as histórias tristes de quem passou fome, sofreu e mesmo assim supostamente venceu por mérito.

Eu não quero uma história sofrida com final feliz. Eu quero uma história estável e medíocre que homens brancos têm com tanta facilidade nesse país.

A questão é que, ainda hoje, nós mulheres em geral, nos boicotamos. Isso não é negar que a estrutura toda é contra nós, mas que além das questões físicas temos as psicológicas que nos afetam. Muitas vezes é por conta delas que estagnamos nossos feitos tentando paralisar os nossas ações, sonhos e o que nos faz sobressair em relação aos demais. Nos cobramos tanto que podemos também achar que precisamos estar sempre sendo perfeitas, que nunca podemos falhar e acabamos nos tornando compulsivas, detalhistas que fazem de tudo pelo nosso trabalho e carreira, mesmo que nem sejamos reconhecidas e ainda tenhamos os menores salários.

O mundo todo incentiva e diz de forma constante e indiretamente que somos menos capazes, ignorantes e que não deveríamos querer ser as protagonistas/lideranças dos nossos ramos, trabalhos e de nossas próprias vidas. Revistas, filmes, novelas, conversas, dicas de amigos e familiares reafirmam um papel de gênero onde mulheres são tidas como inaptas e ignorantes. E ao mesmo tempo quando somos focadas em nossos trabalhos, carreiras e vidas somos tidas como frias e amargas.

Filmes e novelas colocam mulheres bem sucedidas e que focaram na sua carreira como “megeras”, um exemplo é a Miranda Priestly em o Diabo Veste Prada. Ela é taxada como péssima mãe, trapaceira, traidora, amarga, sem possibilidades de ter uma relação e frustrada. Enquanto mulheres que privilegiam suas carreiras e vidas forem constituídas como mulheres más, será difícil mudar no imaginário popular que nosso lugar não é só o da “dona de casa”. Afinal, o LUGAR que queremos estar depende das nossas ESCOLHAS e não das IMPOSIÇÕES que colocam em cima de nós. Portanto, para se falar em mérito é preciso fazer o recorte de gênero nas nossas análises.

Em contrapartida, homens (principalmente os brancos) são educados para serem lideranças, lutarem para se destacar e são os verdadeiros “heróis”. Por isso, homens confiam mais em si, homens brancos mais ainda pois não sofrem nenhuma consequência do racismo em suas vidas. Volte a pensar nas novelas, filmes e livros. Quais personagens masculinas eram vilãs por serem homens de sucesso e focados em suas carreiras? Geralmente, homens que seguem a descrição que fiz são os mocinhos, aqueles que todo mundo disputa atenção e afeto. Aqueles homens que SALVAM a megera da vida infeliz que ela tem sendo bem sucedida e sem um “amor verdadeiro”.

Nessa construção de papéis de gênero tão distintas, as mulheres saem prejudicadas pois a nós nos cabe um papel muito limitado, que é o de ser dedicada a alguém, um alguém que nunca nós. A mulher que se dedica APENAS a ela é tida como EGOÍSTA e LOUCA. Homens muitas vezes são realmente medíocres quando comparados às mulheres, porém, constantemente aplaudidos até por nós mulheres tidas como empoderadas. Muitos homens, inclusive em relacionamentos afetivos conosco, desenvolvem comportamento extremamente abusivos, por não conseguirem lidar com o seu desempenho abaixo do nosso e por isso nos punem. As ofensas, piadas, agressões físicas e psicológicas surgem muitas vezes como forma de nos diminuir para que eles se sintam melhores.

Conheço várias mulheres incríveis que foram afundadas por homens medíocres. Nossos problemas muitas vezes têm nome, sobrenome e endereço. E mesmo assim homens são facilmente defendidos, facilmente protegidos, facilmente idolatrados. Por isso cada vez mais é preciso empoderar nossas mentes e para isso não precisa ser feminista, se a Dayse não quer ser símbolo feminista eu realmente entendo. Até porque o feminismo é uma luta social muito ampla e séria, nunca entendi que feminismo era sobre transformar mulheres que estão na mídia em símbolos. Mas tenho certeza que o feminismo existe em todos os espaços quando mulheres podem não só ganhar uma competição, como receber um salário digno pelo trabalho que muita gente ainda acha que é nossa obrigação, afinal para muitos lugar de mulher é SÓ e APENAS na cozinha sendo a “esposa” de alguém. Somos dignas de termos nossas ideias reconhecidas e não usurpadas. O maior apoio que se pode dar a uma mulher é não negar sua capacidade e impor obstáculos a nós. Isso não é sobre ser gentil citando mulheres, é sobre aceitar que muitos espaços que você está ocupando deveriam ser nossos, mas não são dados pois ainda somos mulheres num mundo que odeia mulheres.

Faz parte da manutenção do machismo bater palma para qualquer homem medíocre.
  • Apenas 14% dos CEOs no Brasil são mulheres (International Business Report 2013);
  • Só 23% dos cargos de liderança em negócios são ocupados por mulheres (International Business Report 2013);
  • Apenas 4% das 500 maiores bilheterias de hollywood em 2012 foram dirigidas por mulheres (Univ of Southern California, 2013);
  • Das 40 cadeiras da academia brasileira de letras, apenas 5 são ocupadas por mulheres (ABL/2015);
  • Dos 27 eleitos ao Senado em 2014, apenas 5 são mulheres (TSE/2014);
  • Dos jovens de 15 a 29 anos que não estudam nem trabalham são 70% mulheres (PNDA/2012);
  • 26,6% das brasileiras entre 18 e 24 anos abandonam a escolha antes de concluir o ensino médio (PNDA 2011);
  • No Brasil existem 35,5 milhões de mulheres com 11 anos ou mais, em comparação a 28,7 milhões de homens (IBGE 2014)
  • 40% dos homens com mais de 60 anos possuem ocupação, em comparação a apenas 17% das mulheres da mesma idade (IBGE 2014);
  • 58% das pessoas que completaram o ensino superior são mulheres (IBGE Censo Demográfico 2010);
  • Apenas 10,6% dos milionários brasileiros são mulheres (Speart’s and wealthinsight 2013);
  • 49% dos homens de 15 e 29 anos estão empregados, contra apenas 35% das mulheres de mesma idade (SNJ-Agencia Nacional da Juventude 2013).

Se quiser saber mais informações de como realmente as mulheres continuam sendo vítimas reais de uma estrutura misógina acesse: Central de Mulheres.


Fonte: Portal Trendr

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes