terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Artigo - Bruxas, parteiras e abortistas: o medo dos “saberes” femininos


Por: Mary del Priore

No universo de curas informais pelas quais se venciam ‘queixas insuperáveis’, a recorrente presença da mulher curandeira prenunciava o estereótipo da bruxa, havia muito perseguido pela Inquisição. Mas explicitava também a importância que tinha a mulher como detentora do conhecimento sobre as ervas e medicamentos caseiros, tão capazes de curar como de enfeitiçar. No caso do corpo feminino, sendo a ‘madre’ (útero) o critério de bom funcionamento da saúde da mulher, tornava-se alvo preferido de bruxedos que pudessem subverter a sua regularidade. Tendo seus corpos sujeitos a sortilégios e encantamentos, as mulheres preferiam tratar-se no interior de um universo feminino de saberes, onde a troca de solidariedades era corrente, o que instigava os doutores a caricaturar não só a sua necessidade de tratamentos como também a figura das mulheres-que-curavam:

[…] entra uma beata ou uma feiticeira, e assim que vão subindo a escada já vão fazendo o 
sinal da cruz, melhor fora que o doente se benzera destes médicos. Deus seja nesta casa, 
as almas santas nos guiem, a Virgem Maria nos ajude, o anjo são Rafael nos encaminhe; 
que tem meu senhor (diz a beata) pegue-se muito com minha senhora Sant’Ana que 
logo terá saúde, […] não se fie nos médicos humanos; confie somente nas orações das 
devotas, que só estas chegam ao céu. Aqui lhe trago uns pés de flores de minha senhora 
Sant’Ana. […] Hão de matar a Vossa Mercê com purgas e xaropes; mande deitar esta 
botica na rua, não apareça aqui senão água benta e ervas-de-são-joão. As benditas almas 
do Purgatório, a bem-aventurada santa Quitéria, santa Catarina, são Damião e são Cosme 
assista nesta casa; […] mal tenha quem tanto mal lhe fez; […] está enfeitiçado até os olhos. 
[…] Tome umas ajudas de marcela e da flor de hipericão; dependure ao pescoço uma 
raiz de aipo cortada na noite de são João, faça uns lavatórios de erva-bicha, de arruda e 
de funcho; tudo cozido na água benta da pia de três freguesias. […] Mande dizer uma missa às almas. […]

Não tome medicina alguma que lhe receite o médico, porque ele vai a matá-lo e eu a sará-lo. […] Que guardem suas medicinas para as maleitas, porque o mal que Vossa Mercê tem eu conheço.

O ataque a beatas e feiticeiras não era fortuito. Desde tempos imemoriais as mulheres foram curandeiras, e antes do aparecimento de doutores e anatomistas, praticavam enfermagem e abortos, davam conselhos sobre enfermidades, eram farmacêuticas, cultivavam ervas medicinais, trocavam fórmulas e faziam partos. Foram por séculos doutores sem título. Além dos médicos mostrarem-se em seus relatos absolutamente insensíveis à dor das parturientes, as mulheres pareciam também atingidas pelo tabu de mostrar seus genitais, preferindo, por razões psicológicas e humanitárias, a companhia das parteiras. Com práticas tomadas de empréstimo à medicina antiga, os recursos fitoterápicos extraídos do quintal e gestos transmitidos pela família, as mulheres se desincumbiam dos partos não tanto pelo saber, mas pelo ‘saber-fazer’.

Familiarizadas com as manobras externas para facilitar o parto, as parteiras ou comadres encarregavam-se da lubrificação das partes genitais, e tudo indica que eram eficazes na ajuda mecânica da prensa abdominal, fricções e pressões exercidas no baixo-ventre com a finalidade de favorecer a expulsão do feto. Gozando de enorme prestígio nas sociedades tradicionais, eram mulheres que pela sua idade já não podiam conceber, mas que conheciam a gravidez e o puerpério por experiência própria e constituíam-se em zeladoras dos costumes femininos que se agrupavam em tomo da ideia de proteção da mãe e da criança.

Na comunidade feminina, detentora de ritos quase imóveis, parteiras, mais além do ‘aparar crianças’ nos partos que realizavam, eram benzedeiras e recitavam palavras mágicas para auxiliar a mãe, faziam abortos, eram cúmplices de infanticídios, facilitavam o abandono de crianças ou as encaminhavam para famílias que as absorviam, vivendo portanto na fronteira ambígua entre a vida e a morte.

No projeto de construção da maternidade ideal, o aborto aparecia como uma mancha capaz de oxidar o belo retrato que se queria fazer das mães. Se o enfoque era o da multiplicação das ‘gentes’, se o esforço era o de tomar útil a sexualidade dentro do casamento, o aborto mostrava-se como uma forma de controle malthusiano, desaprovado tanto pela Igreja quanto pelo Estado.

Via de regra praticado por mulheres em estado desesperador diante de uma gravidez indesejada, de um fruto que representava mais dificuldade ou miséria, o aborto voluntário significou nos tempos modernos – como também na Antiguidade e Idade Média – a arma de controle dos casais legítimos. Diz Jean-Louis Flandrin que, tal como o infanticídio e a contracepção, ele era utilizado sobretudo no quadro das relações extraconjugais.

Incorporando essa hipótese, podemos pensar que a pregação sistemática da Igreja em colônias contra o aborto teria uma especificidade: mais do que perseguir o homicídio terrível que privava uma inocente alma do batismo e da salvação eterna, a verborragia eclesiástica representava a caça aos desdobramento condenáveis nas ligações fora do matrimônio. E tais ligações, em forma de concubina e mancebias, espaço, portanto, para filhos ilegítimos e abortos, eram correntes, como já demonstrado, e provocavam indizível horror frente aos esforços do projeto tridentino.


Fonte: Portal História de Hoje / Livro "Ao Sul do Corpo", Editora José Olympio/Edunb, 1993.

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes