segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Artigo - Abuso não é amor: porque a cultura pop deve parar de romantizar relacionamentos tóxicos


Por: Thay

Reflita por um momento: nos últimos anos, quantos relacionamentos abusivos travestidos de romance você acompanhou na cultura pop? De músicas a filmes e livros, a maior parte das produções que consumimos contam histórias sobre belos relacionamentos românticos – até não serem mais.

Lembro-me como se fosse hoje do excitamento causado pela saga Crepúsculo. Eu mesma, ao ler o primeiro livro, fiquei empolgada por um momento até perceber que a história não era tão boa assim e que, o pior de tudo, Edward Cullen, o mocinho, o cavaleiro de armadura brilhante e com presas de vampiro, era um perseguidor. Acho difícil alguém não estar familiarizado com a trama dos livros de Stephenie Meyer mas, por via das dúvidas, vou te refrescar a memória: Bella, nos filmes interpretada por Kristen Stewart, é uma adolescente sem grande ambições ou características marcantes mas que cai no radar do vampiro Edward, Robert Pattinson nos filmes, dando início ao relacionamento bizarro entre uma humana adolescente e um ser sobrenatural com mais de cem anos de idade.

Utilizando-se do amor como desculpa para seu comportamento inadequado, Edward passa a entrar no quarto de Bella enquanto ela dorme apenas para observá-la (creepy), a segue pela cidade e aparece sem ser convidado nos lugares que Bella frequenta apenas para ter certeza de que está tudo bem com ela. Seu comportamento é obsessivo e possessivo, sem contar a quantidade de vezes em que Edward diz, sem meias palavras, que sente um desejo incontrolável pelo sangue da garota.

Outro exemplo de relacionamento abusivo fantasiado de romance – e que não poderia ter surgido de outra inspiração senão Crepúsculo – é a trilogia 50 Tons de Cinza. Inspirando-se nos personagens de Stephenie Meyer, E.L. James criou a “história de amor” entre a jovem, virgem e inexperiente Anastasia Steele, Dakota Johson nos filmes, e o rico, maduro e experiente Christian Grey, vivido por Jamie Dornan nos cinemas. Assim como ocorre em Crepúsculo, Christian sente uma fascinação inexplicável por Anastasia e passa a persegui-la e assediá-la até que a moça ceda e inicie um relacionamento com ele. Também vendido como um romance, só que desta vez erótico e com toda a mitologia do bondage para atiçar a curiosidade do grande público, o que acompanhamos em 50 Tons de Cinza é, novamente, um relacionamento abusivo. Utilizando-se de sua experiência, Christian manipula psicologicamente, agride e, surpresa, estupra Anastasia enquanto os leitores ao redor do mundo acreditam estar acompanhando nada mais do que uma bela história de amor.

Os exemplos não param. Sabe A Incrível História de Adaline, que tem tudo para ser um romance fofinho de esquentar corações? Pense de novo: o relacionamento entre Adaline (Blake Lively) e Ellis (Michiel Huisman) é abusivo e está tão bem maquiado que, por um momento, é difícil notar – e isso serve para mostrar o quanto o mito do amor romântico mascara abusos, não somente na cultura pop mas também nos relacionamentos da vida real. No caso de A Incrível História de Adaline, logo que conhece a protagonista, Ellis a segue para fora da festa em que estão, mesmo com Adaline não demonstrando interesse, e a força a ficar sozinha em sua companhia dentro de um elevador. Durante o filme ainda podemos ver Ellis a perseguindo no trabalho, a coagindo a se encontrar com ele e ainda aparecendo na casa de Adaline sem ser convidado. O filme vende todas as atitudes de Ellis como apaixonadas e românticas, mas sabemos que isso tem outro nome: a romantização de um relacionamento abusivo.

Ainda precisa de mais exemplos? Tudo bem, podemos ir para um recente filme de heróis de um grande estúdio, Esquadrão Suicida. Por mais que esteja bastante evidente durante o longa que Arlequina (Margot Robbie) foi torturada por Coringa (Jared Leto) e que toda sua loucura teve origem nos abusos que sofreu nas mãos do vilão, o longa de David Ayer teima em retratar o relacionamento dos dois como algo romântico. Durante todo o filme, Coringa é mostrado como alguém que se preocupa com a Arlequina e quer tê-la ao seu lado, passando o tempo todo de exibição do longa tentando salvá-la da A.R.G.U.S. Mas o ápice da retratação romantizada desse relacionamento ocorre quando o Coringa pede uma prova do amor que Arlequina sente por ele, o que termina com a moça mergulhando em um tonel de ácido. Embora a cena seja esteticamente bonita, o conteúdo é terrivelmente problemático: Arlequina se joga no tonel por vontade própria, sim, mas somente por conta da grande influência que o Coringa exerce sobre ela. Manipulação, a quem ainda possa duvidar, é uma característica intrínseca aos relacionamentos abusivos.

Os idealizadores de Esquadrão Suicida perderam uma grande oportunidade de lidar com o tema do relacionamento abusivo com as cores e dores reais que algo assim trás para a vida de uma pessoa – bastante diferente do que ocorreu em Jessica Jones, por exemplo. Arlequina, antes do relacionamento com o Coringa, era uma respeitada psiquiatra que terminou jogando fora toda sua vida e carreira em nome de um amor inexistente. Além de ser usada e dominada psicologicamente pelo Coringa, Arlequina é incapaz de enxergar que está presa em um relacionamento nada saudável e muito perigoso – basicamente o que ocorre na vida real com mulheres vítimas de abuso. É comum que relacionamentos abusivos sejam retratados como “apaixonados” na mídia quando, na realidade, são perigosos.

Em Esquadrão Suicida, o relacionamento entre Coringa e Arlequina é escrito para que a gente aceite que os dois formam uma dupla de iguais em busca de poder, mas o que David Ayer e sua equipe não parecem entender é que dentro do relacionamento Coringa e Arlequina estão longe de ocuparem a mesma posição, visto que o palhaço se utiliza de diversos métodos abusivos como meio de manter seu controle sobre Arlequina e seu relacionamento, tais como a já citada manipulação psicológica, abuso físico e a ideia de que Arlequina é uma posse sua, um objeto, e não uma mulher com vontade própria.
A lista de relacionamentos abusivos glorificados pela cultura pop é gigantesca: Chuck Bass (Ed Westwick) e Blair Waldorf (Leighton Meester), em Gossip Girl, foram um dos OTP mais amados por aqueles que acompanharam o seriado, porém, assim como os exemplos já citados nesse mesmo texto, o relacionamento que o casal desenvolve é abusivo e tóxico. Em Diário de Uma Paixão, originalmente um livro de Nicholas Sparks, Noah Calhoun (Ryan Gosling) coage Allie Hamilton (Rachel McAdams) a sair com ele, caso contrário ele se mataria. Danny Zuko (John Travolta) se preocupa mais com sua reputação do que com a garota que “ama”, o que termina com Sandy Olsson (Olivia Newton-John) mudando completamente sua maneira de ser em nome do relacionamento dos dois em Grease – Nos Tempos da Brilhantina.

Todos esses exemplos vieram de histórias fictícias, de livros e filmes, de personagens inventados, porém a mensagem que recebemos dessas mídias influencia a maneira como pensamos e sentimos em nossos próprios relacionamentos. Romantizar relações tóxicas onde abuso é vendido como amor impacta diretamente na vida e entendimento de quem consome cultura pop. Pode soar exagerado dizer que aquilo que consumimos em nossos momentos de diversão pode repercutir diretamente em nossas escolhas pessoais, mas somos muito influenciados por aquilo que assistimos ou lemos, por aquilo que é popular nas mídias sociais.

Não é de hoje que a cultura pop trata relacionamentos abusivos como romance e isso apenas perpetua a ideia de que é normal e corriqueiro se ver em uma relação desse tipo. Embora seja impossível controlar a forma como a qual as pessoas interpretam aquilo que consomem, a indústria do entretenimento segue, sim, responsável por aquilo que nos vende. Não tomar o cuidado necessário ao repetir certos estereótipos em seus personagens ou se utilizar de plot device rasos e sem sentido enquanto reproduzem a ideia de que relacionamento abusivo é romântico serve apenas para fixar a ideia errada na mente das pessoas. A cultura pop tem a habilidade não apenas de mudar sua preferência pessoal por música ou moda, mas nosso entendimento do que é normal ou aceitável em nossas vidas.

Abuso – de qualquer tipo – não é algo a ser romantizado ou fetichizado. De acordo com a ONG Livre de Abuso os números deixam claro que as mulheres, principalmente jovens entre 16 e 24, são as maiores vítimas dos relacionamentos abusivos. Ainda com dados da ONG, no Brasil, mais da metade dos homens de todas as classes sociais já cometeu algum tipo de agressão contra uma parceira – o que explica o fato de que 84% das jovens mulheres brasileiras já tenham sofrido agressão verbal de um homem. E os números não nos deixam mentir: 57% das jovens já tiveram um parceiro que quis controlar suas amizades ou os lugares em que elas iam; 55% delas já tiveram um parceiro que quis acessar ou que acessou seus celulares/e-mail/redes sociais; 47% já foram forçadas a ter relações sexuais com o parceiro; 41% já sofreram agressão física de um homem.; 39% das jovens já tiveram um parceiro que quis que elas trocassem de roupa para sair.

Mas como podemos nos surpreender por tais estatísticas quando livros, filmes e seriados de sucesso continuam a glorificar relacionamentos abusivos? Sinais de relacionamentos abusivos – que incluem violência sexual, física, verbal e psicológica, entre outros – são difíceis de serem detectados em situações reais, principalmente quando seus personagens favoritos experienciam as mesmas coisas, que são encaradas como normais. A realidade é que, diferente do que muitos filmes e livros tentam nos vender, abusadores não se transformam em príncipes encantados por meio da força do amor. Está nas mãos dos produtores, diretores e roteiristas mudarem a maneira como tais relacionamentos são retratados, transformando-os em amostras do que é realidade.

Da mesma maneira que dizemos que representatividade importa, um retrato fiel de relacionamentos abusivos também pode ajudar pessoas que se encontram em tal situação, mas não se dão conta disso, a perceberem que estão presas em um convívio tóxico. Para saber mais, acesse:
  • Relacionamentos Abusivos, na Capitolina – com sinais de abuso em relacionamentos e os motivos pelos quais tantas mulheres sentes dificuldade para saírem desse ciclo de abusos;
  • Mas… isso também é abuso? no Não Me Kahlo – um texto bem explicado a respeito dos tipos de abuso e a importância de se debater sobre o tema;
  • Relacionamentos Jovens, na ONG Livre de Abuso – as estatísticas alarmantes da violência contra jovens mulheres em relacionamentos abusivos.

Sites envolvidos nessa campanha:
Durante os 16 dias de ativismo, sites envoltos pelo #feminismonerd, se propuseram a discutir as problemáticas em torno da representação de mulheres como uma matriz que reitera os discursos de violência e ódio, quanto veículos que visibilizam a discussão. Sabemos que, apenas a exposição e discussões possibilitam o combate direto, a resolução e identificação do problema. Como reitera a escritora e teórica feminista Audre Lorde: “é preciso transformar o silêncio em linguagem e ação.”

Fonte: Portal Valkirias

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