domingo, 6 de novembro de 2016

Por que só o esforço individual não garante o sucesso

Extensa pesquisa mostra como as consequências da baixa escolaridade, por exemplo, são muito maiores entre pobres e pretos nos EUA do que entre os ricos


O debate sobre mobilidade social e meritocracia tem se tornado mais acalorado no Brasil nos últimos anos, com a polarização política e a crise. Nos EUA não é diferente.

A crise econômica norte-americana e o ressurgimento dos movimentos anti-racismo nos Estados Unidos trouxeram ao foco do debate público no país a discussão sobre a desigualdade de oportunidades e chances de mobilidade entre indivíduos de diferentes faixas de renda e etnias.

Em 2014, dois economistas do Federal Reserve Bank of Boston publicaram um extenso estudo sobre o tema. Richard Reeves e Elizabeth Sawhill compararam a evolução dos dados de renda de pessoas de diferentes classes sociais com os dados sobre sua educação, estrutura familiar e também cor de pele.

Eles observaram que desvantagens e vantagens sociais tendem a se manter de uma geração para a outra, com lento avanço no tempo. Um exemplo: mesmo que um indivíduo de origem humilde se esforce mais do que a média e termine a faculdade, ele tem quase as mesmas chances de sucesso e de fracasso financeiro que tem um jovem rico que sequer terminou o ensino médio.


Por que crianças ricas saem na frente

Reeves e Sawhill analisaram uma extensa lista de variáveis ao longo da vida de uma criança e a compararam com sua classe social (determinada pela renda familiar) à data do nascimento e, depois, aos 40 anos de idade.

Assim, foram capazes de estimar de que maneira a cor da pele, renda familiar no nascimento, escolaridade e estabilidade familiar influenciam na probabilidade de determinado indivíduo ter sucesso financeiro e mobilidade social, isto é, passar de uma faixa de renda mais baixa para uma mais alta.

As descobertas indicam que há uma série de fatores que limitam a mobilidade social nos EUA - e alguns grupos são mais vulneráveis à carência de oportunidades sociais.

A série de gráficos abaixo compara, no eixo vertical, a faixa de renda dos indivíduos quando nascem e depois, no eixo horizontal, a porcentagem deles em cada faixa de renda aos 40 anos de idade.

Os recortes mostram como as possibilidades são diferentes para pretos e brancos, por exemplo, e como os ricos são pouco afetados pela baixa escolaridade em comparação com os pobres. Quanto mais pobre o indivíduo à época de seu nascimento, maior é a chance de que ele chegue aos 40 anos na mesma classe social.

A pirâmide social da população negra, nos EUA, é muito menos flexível do que a da população branca. Crianças pobres e negras, por exemplo, têm 51% de chances de permanecer na mesma classe social em que estavam quando nasceram, enquanto a chance para crianças brancas da mesma classe social é de apenas 23%.

Os gráficos abaixo mostram que um indivíduo que nasce em uma família no nível mais baixo de renda e completa faculdade não tem desempenho, sucesso profissional ou financeiro muito melhor do que alguém muito rico que sequer completa o ensino médio, por exemplo.

Outra constatação é que o impacto do baixo nível educacional é muito menor entre a parcela mais rica da população, enquanto nas outras é um fator determinante para fazer com que o indivíduo caia no nível de renda ou permaneça na mesma faixa.

Pesquisas detectaram que, à medida em que a renda aumenta, os pais têm mais tempo para dedicar ao contato com os filhos em uma fase crucial da formação, entre 0 e 2 anos. Déficits nessa fase podem provocar problemas de aprendizado no futuro, e isso já coloca as crianças de menor renda em desvantagem desde muito cedo.


O sonho americano

Nos EUA, o debate sobre mobilidade social ganha outra dimensão. É que a noção de que é possível ascender socialmente e conquistar sucesso financeiro independentemente da origem social é um dos conceitos básicos do chamado “sonho americano”.

Sonho americano é o nome que se dá a um conjunto de ideais definido em 1931 pelo historiador James Truslow Adams e que inclui a ideia de que os EUA, como uma sociedade livre e com oportunidades iguais para todos, permite que qualquer indivíduo - de qualquer cor, origem social ou etnia - seja capaz de melhorar de vida e atingir o topo da pirâmide social se trabalhar e se esforçar o suficiente para isso.

A constatação de que diferentes indivíduos possam ter chances diferentes de alcançar sucesso e prosperidade devido a cor de pele, renda e configuração familiar, por exemplo, é uma contestação do ideal principal sobre o qual a sociedade norte-americana contemporânea é calcada - e que atraiu milhões de imigrantes do mundo todo para o país no século 20.

Dados da mobilidade social no Brasil

Na análise feita por Reeves e Sawhill, há uma lista de estatísticas de mobilidade social de 16 países. Esses dados, embora coletados por diferentes pesquisadores, colocam o Brasil como o país com menos mobilidade social da lista, que inclui vários países europeus, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Japão, EUA e Canadá.

Um dos fatores que colaboram para isso é a falta de mobilidade educacional, conforme mostra um estudo dos economistas Sergio Guimarães Ferreira e Fernando A. Veloso.

O gráfico abaixo é parte de um material já publicado pelo Nexo comparando medidas de desigualdade e mobilidade social em diferentes países a partir de dados do pesquisador Miles Corak.

Países e mobilidade social

A mobilidade intergeracional no Brasil é baixa, já que a renda dos filhos é bastante influenciada pela renda dos pais em relação a outros países.


Fonte: Portal NEXO

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