domingo, 27 de novembro de 2016

Artigo - Por que Meninas de 12 Anos Ficam Parecendo Adultas em Ensaios Fotográficos?


Por: Lara Vascouto*

Há algumas semanas, Millie Bobby Brown – a atriz que interpretou a inesquecível Eleven em Stranger Things – fez um ensaio fotográfico para a revista Interview que deixou todo mundo enlouquecido.

Bem, quase todo mundo. Algumas pessoas (oi!) acharam bem esquisita a forma como a revista retratou Millie, essencialmente porque a atriz de 12 anos poderia ser facilmente confundida com uma adulta de 20 em boa parte das fotos.

Agora, é verdade que nem todas as fotos do ensaio são esquisitas. A Interview até trouxe algumas em que Millie aparenta a sua idade. O problema é que ela alternou essas fotos com outras que ou não são lá muito naturais para uma criança de 12 anos, ou são inegavelmente inapropriadas mesmo.


Olhos semicerrados, lábios abertos (ou mordendo alguma coisa), dedos nos lábios. É possível que o que eu vou dizer seja novidade pra muita gente, considerando-se o quanto é naturalizada a imagem do corpo feminino erotizado ou objetificado na mídia, mas aí vai: tudo isso denota sensualidade. A expressão de Millie na capa da revista é inclusive uma das coisas que a quadrinista Renae De Liz diz ser necessário eliminar ao se desenhar personagens femininas a fim de não sexualizá-las. Que justo uma foto em que a jovem atriz está com essa expressão tenha ido para a capa da revista, como chamariz, diz muito sobre a nossa mídia (e sobre nós).

De Liz publicou no seu Facebook em julho desse ano um comparativo de como heroínas de quadrinhos são desenhadas vs como deveriam ser desenhadas.


“Ai Lara, acho que você está exagerando!” – alguém aí certamente está dizendo.

E talvez eu até concordasse, não fosse o longo histórico da mídia de testar o limite do que é apropriado ou não ao retratar jovens atrizes e modelos.

Em 1980, uma Brooke Shields de quinze anos de idade se viu no meio de uma polêmica ao estrear em uma propaganda da Calvin Klein em que diz que “não tem nada entre eu e meus jeans”, ao mesmo tempo em que sustenta uma pose absurda. Duas emissoras de televisão de Nova York chegaram a banir a propaganda por suas insinuações sexuais na figura de uma menor. Kate Moss, por sua, vez, foi fotografada de topless quando tinha apenas dezesseis anos para a revista The Face. Aos 38 anos de idade, Moss contou que durante o ensaio ela se trancava no banheiro para chorar.“Nunca me senti à vontade sobre isso”.


Mais recentemente, tivemos o exemplo de Emma Watson, que interpretou Hermione Granger na saga Harry Potter dos 11 aos 20 anos de idade. Com apenas 14 anos, a atriz já posava para ensaios completamente inapropriados para a sua idade.

Emma entre os 14 e 16 anos.


O caso de Emma, aliás, é emblemático da diferença de tratamento dado a homens e mulheres. Mulheres de todas as idades são objetificadas sexualmente na mídia, enquanto que, se acontece de um homem ser objetificado, é sempre um homem adulto. Daniel Radcliffe, que interpretou Harry Potter, chamou a atenção para esse fato recentemente em uma entrevista.


– Entrevistador: Você está meio que se tornando um sex symbol. O que, para alguns dos seus fãs, é meio esquisito porque nós vimos você crescendo nas telas e, agora, aqui está você.
– Daniel: Na época do lançamento do What if, muita gente estava dizendo ‘você é protagonista romântico não convencional’. Eventualmente eu me cansei de ouvir isso e meio que parei alguém e perguntei: ‘O que eu tenho de não-convencional? Tipo, me fala’. E ela disse ‘Bem, acho que é provavelmente o fato de que, você sabe, nós associamos você com o Harry, o jovem menino bruxo’. Minha resposta imediata foi ‘Bem, a população masculina não teve problema nenhum em sexualizar a Emma Watson logo de cara.’

Agora, vamos lá. Sei o que você está pensando. “Mas elas toparam fazer essas propagandas e ensaios, ué! São elas que posaram e fizeram essas caras!”.

Por incrível que pareça, eu vi muito esse argumento sobre a Millie Bobby Brown. Muitas pessoas falando que meninas de 12 anos são assim mesmo, que querem mesmo parecer mais adultas, etc e tal. E que elas “toparam fazer”, então tudo bem. Pois bem, então se Millie tivesse abaixado as calças e mostrado a bunda em uma das fotos seria ok publicá-la? Quem é o adulto, com poder de decisão sobre o que será veiculado, e quem é a criança?

Falar que “elas toparam e fizeram assim, então tudo bem” é, mais uma vez, culpar a vítima. Será que a gente não cansa de fazer isso nunca? Crianças e adolescentes são vulneráveis e fortemente influenciáveis. É esse fato, aliás, que faz com que consentimento não interfira em caso de estupro de vulnerável. No caso, mesmo que a vítima jure de pés juntos que quer transar, sexo entre adultos e menores de 14 anos é crime, sem exceções.

Precisamos parar com essa história de “elas sabem muito bem o que fazem” (frase especialmente usada contra menores que engravidam). Meninas não amadurecem mais cedo, como dizem por aí. Meninas são simplesmente mais cobradas a se comportar de forma mais madura para serem aceitas, e se adaptam como podem. Se meninos parecem mais imaturos e infantis que meninas, temos de nos perguntar se eles são assim irremediavelmente ou se simplesmente permitimos que eles sejam assim.

Vou só deixar isso aqui.


Millie (e Emma, Brooke, Kate e muitas outras, em suas épocas) faz o que é esperado dela. Por mais madura que pareça (e esse é um comentário que eu tenho visto muito sobre a atriz), ela ainda assim é uma criança. E como toda criança, Millie aprende rápido. Arrisco dizer que não seria nem preciso alguém dizer a ela para semicerrar os olhos e abrir a boca em um ensaio de moda. Não quando absolutamente todos os ensaios de moda retratam mulheres dessa forma.

A mídia, não canso de dizer, cria e reforça uma visão de mundo que se entranha na nossa percepção de como as coisas são. Sexualizar ou mesmo “adultizar” meninas contribui diretamente para uma cultura que vive passando pano pra pedofilia. Nada menos que 70% dos estupros no Brasil tem crianças ou adolescentes como vítimas. E quando não são estupradas, a maioria das meninas ainda precisa lidar com assédio sexual desde muito novas. Ano passado, depois que uma participante de 12 anos do programa culinário Masterchef Junior foi alvo de inúmeros comentários pedófilos na internet, mais de 80 mil mulheres usaram a hashtag #meuprimeiroassédio, lançada pela ONG Think Olga, para contar sobre a primeira vez que foram assediadas. O resultado? Depois de analisar todos os relatos, a ONG constatou que a idade média do primeiro assédio é de 9,6 anos.


Por esse motivo, precisamos ter o olhar crítico para as mídias que consumimos. E precisamos cobrar conscientização e mudança. Devemos isso, tanto às Millies e Emmas, como a nós mesmas.


* Lara Vascouto é criadora, redatora e editora do Nó de Oito. Internacionalista. Viciada em desconstrução. Optou por ser pobre e feliz na praia ao invés de rica e triste em São Paulo.


Fonte: Portal Nó de Oito

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