domingo, 27 de novembro de 2016

Entenda o que é a deep web, onde a polícia descobriu uma rede de pedofilia nesta semana


Longe de sites buscadores e repleta de pessoas que se escondem no anonimato, a chamada deep web voltou a ganhar os holofotes nesta semana com a deflagração da segunda fase da Operação Darknet da Polícia Federal. A investigação apura a participação de 67 pessoas na troca e distribuição de fotos e vídeos com conteúdo pornográfico de crianças e adolescentes em 16 Estados, incluindo Santa Catarina.

A parte mais profunda da internet nasceu com o intuito legal de dar privacidade ao cidadão, mas acabou se tornando também sinônimo de mercados ilegais, que incluem casos de tráfico de drogas ilícitas, armas, pedofilia e assassinatos por encomenda. A utilização para fins ilegais gerou ainda outro termo: a dark web.

O que se vê quando se faz uma busca na “internet comum” é somente a ponta do iceberg de tudo que existe no mundo virtual, ou seja, apenas o que há na superfície. De acordo com o engenheiro de produção e sistemas Sandro Wiggers, o acesso à deep web não deixa rastros e os sites não são indexados pelos buscadores intencionalmente. Por isso, para acessar a deep web é necessário um navegar específio (o TOR), que permite ao usuário ficar “invisível” na internet e sua localização pareça vir de diferentes lugares simultaneamente.

Segundo o professor de ciência da computação da Univali, Fabrício Bortoluzzi, a privacidade é um direito do cidadão, por isso a deep web foi criada legalmente com o intuito de proteger informações. Governos, empresas, jornalistas ou cidadãos comuns que querem privacidade podem acessar à deep web com este propósito. “Na deep web, o tráfego passa por aparelhos de vários locais do mundo, e a origem muda o tempo inteiro, por isso fica difícil de rastrear qualquer pessoa. Dessa forma, muita gente mal intencionada usa a deep web para coisas ilícitas”, afirma.


“Vontades humanas são potencializadas na deep web”

Por ser um ambiente em que nem todos têm acesso e, de certa forma, de difícil ingresso, muitos mitos e fatos não comprovados se criaram em torno da deep web. Uma busca na internet pode revelar histórias bizarras como supostos casos de tráfico de pessoas e de órgãos, experimentos científicos com humanos sequestrados, grupos de canibalismo, entre outros.

Para o professor Fabrício Bortoluzzi, é possível dizer que tudo aquilo que conseguimos comprovar fora da internet pode ser potencializado na deep web. “Se é verdade que existe tráfico de órgãos, na internet é mais fácil de se encontrar meios para isso. As vontades humanas são potencializadas ali”, afirma.

Os casos verdadeiros mais comuns descobertos pelas polícias mundo afora incluem principalmente pornografia infantil, vendas de produtos ilícitos, como drogas e armas, além de vídeos snuffs (filmagens de assassinatos reais, geralmente com muita brutalidade e violência).


Polícia desenvolveu metodologia para identificar usuários

A segunda fase da Operação Darknet, deflagrada na última terça pela Polícia Federal, mobilizou cerca de 300 policias para cumprir 70 mandados de busca e apreensão e de prisões em 16 Estados. Duas pessoas foram presas em flagrante em Joinville e Navegantes, além de um mandado de busca e apreensão realizado em São João Batista com fotos e vídeos pornográficos de crianças e adolescentes.

De acordo com a Polícia Federal, desde a primeira fase da operação, em 2014, foi desenvolvido um método de investigação e ferramentas para identificar usuários da dark web. “A arquitetura desse ambiente impossibilidade a identificação do ponto de acesso [IP], ocultando o real usuário que acessa a rede. Poucas polícias no mundo obtiveram êxito em investigações na dark web, como o FBI, a Scotland Yard e a Polícia Federal Australiana”, afirma a nota divulgada à imprensa. Durante as investigações, a Polícia Federal antecipou o cumprimento de sete ordens judiciais no Paraná, Distrito Federal e Rio de Janeiro para evitar o possível abuso sexual de crianças nestes Estados.


Alguns casos descobertos na deep web
  • No início do mês, várias pessoas foram presas na China por fazerem parte de uma rede de troca de vídeos e fotos de crianças nuas. Foram identificadas mais de 30 garotas que apareciam nos vídeos sendo molestadas e estupradas. Em alguns casos, os vídeos tinham mais de 20 mil acessos. A polícia chinesa prendeu um universitário de 19 anos acusado de ser o criador da rede.
  • Em 8 de novembro, o norte-americano Daren Moshe foi sentenciado a seis anos de prisão por contrabando de produtos e tráfico de drogas. Na deep web, ele fazia todas as transações da China para os Estados Unidos por meio das bitcoins – forma de pagamento eletrônico sem taxas e bancos envolvidos.
  • Em novembro de 2014, a Operação Onymous, envolvendo autoridades norte-americanas e europeias em 17 países prendeu 17 pessoas e tirou do ar 414 serviços anônimos protegidos pela rede de anonimato TOR. Entre os serviços tirados do ar estavam também comercialização de armas, serviço de matadores de aluguel, venda de notas falsas de dólares, euros, além de cartões de crédito e passaportes falsificados.
  • Em outubro de 2014, após um ano de investigações, a primeira fase da Operação Darknet prendeu 51 homens suspeitos de integrar uma rede internacional de pedofilia por meio da deep web. As investigações foram no Brasil e em outros sete países. Na época, esta foi a primeira vez que uma investigação feita na América Latina chegou à deep web.

Fonte: Jornal Notícias do Dia

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