segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Artigo - Consciência negra, consciência humana ou falta de consciência? Onze motivos pra desacreditar no mito da democracia racial


Por: Aline Xavier

Novembro: o mês em que muita gente mal informada, com preguiça de pensar e ausente de empatia vai compartilhar uma enxurrada de conteúdo questionável sobre a consciência negra, ou melhor, humana. Porque somos todos iguais, só que não.

É fato que as pessoas negras, nos últimos anos, estão mais conscientes dos seus direitos. Quem é militante se sente cada vez mais empoderado. E vem, mesmo que não tão rápido quanto deveria, conquistando voz e espaço. E por esse motivo, é inaceitável aceitar a mentira propagada na sociedade de que não existe mais preconceito racial. Como brilhantemente disse Gabriel, o Pensador: o racismo é burrice, mas o mais burro não é o racista. É o que pensa que o racismo não existe.

O dia 20 está próximo. Nada mais apropriado então, do que elencar onze motivos pelos quais sim, é necessário não somente um dia, mas muita conscientização e reflexão a respeito do tema. Pois a escravidão acabou, mas o estigma permanece.

1. A disparidade no mercado de trabalho: quase não vemos negros trabalhando em eventos e lojas de grife. Em contrapartida, em funções de baixa instrução eles são maioria. Por trás de requisitos como boa aparência (no qual os recrutadores estabelecem um tipo de corpo, cabelo e cor dos olhos, por exemplo) existe um preconceito mascarado;

2. As mulheres negras estão mais propícias ao celibato involuntário (vulgo solteirice). Nossa cultura machista as coloca como frutas exóticas para mera apreciação. São objetificadas e animalizadas. Elas são as mulheres pra comer, mas as pra casar são as que possuem traços eurocêntricos. E pra piorar, muitos homens negros, ao ascenderem socialmente, optam por parceiras de pele mais clara. A quantidade de jogadores de futebol casados com mulheres loiras é um bom exemplo disso. É como se a mulher fosse um troféu e uma forma de se afirmar socialmente, principalmente no meio elitizado;

3. A falta de representação na mídia: quase não se vê personagens negros na TV (jornais, novelas, séries e afins). E quando há, geralmente ocupam papéis de empregadas, trabalhadores braçais ou personagens caricatos. Crianças crescem sem nenhum modelo de representatividade que possam admirar, o que afeta diretamente a autoestima delas;

4. Somos minoria nos espaços públicos, principalmente os “elitizados”: a não ser em cargos em que estamos pura e simplesmente servindo os outros, é perceptível a quase ausência de negros em shoppings, restaurantes mais caros e baladas em geral. E as pessoas estão acostumadas com essa invisibilidade. Quase ninguém olha em volta e se questiona: aqui não tem preto, pô! Apesar de sermos mais de 50% da população do país, a maioria de nós não tem condições financeiras e acesso a lazer e entretenimento;

5. Humor opressor e babaca: com a onda do “politicamente incorreto”, todas as minorias passaram a ser alvo de piadas discriminatórias. E claro, os negros não poderiam ficar de fora dessa. Mais de uma vez houve casos de humoristas humilharem e constrangerem negros na Internet. Pior que isso: alguns deles se submetem a um papel ridículo e contam piadas que ofendem seus semelhantes, reforçando estereótipos;

6. As ações afirmativas são motivo de chacota por grande parte da população: algumas dessas ações, como por exemplo, as cotas raciais e sociais em universidades, têm como objetivo reduzir o abismo existente entre o negro pobre e a instituição. O que muita gente não entende é que isso não é privilégio, mas sim uma forma de ampliar o acesso a quem sequer tinha perspectiva de melhoria social. A educação superior ainda é elitista e tem muito a melhorar. Menos de 3% dos formandos em Medicina são negros, e ainda há pessoas que acham que queremos roubar a vaga de alguém;

7. Somos desrespeitados como consumidores: quem aqui é negro e nunca foi maltratado, seguido num shopping ou deixou de ser atendido por vendedores em lojas levante a mão. O negro, lamentavelmente, é associado à pobreza, ao roubo, à falta de condições. Certa vez, fui a uma loja de sapatos mais cara e fui totalmente ignorada pelas vendedoras, enquanto as outras pessoas que chegavam eram prontamente atendidas. Precisei chamar o gerente para que ele pedisse a uma das vendedoras que cumprisse o seu ofício. Nem preciso dizer o quão péssimo foi esse atendimento;

8. Somos as maiores vítimas de violência policial: é perceptível que pessoas negras são abordadas com muito mais freqüência do que as brancas em revistas policiais, e morta duas vezes mais que elas. São os primeiros suspeitos, julgados por suas roupas e por sua cor. A população carcerária negra no Brasil é em torno de 66%, e a maioria dos presos não concluiu o ensino fundamental.

9. Temos inúmeros problemas de autoimagem: desde cedo somos condicionados a achar que existe algo errado conosco, e que temos que corrigir através da automutilação. Nossos cabelos (apelidados de ruins, duros) são submetidos a químicas degradantes e algumas até cancerígenas, nossa pele é “clareada”, as mulheres se maquiam de modo a disfarçar seus traços naturais e torná-los mais “finos” (leia-se: como os de uma pessoa branca), dentre outros muitos exemplos de violência à nossa naturalidade. Tudo para se equiparar a um modelo eurocêntrico de beleza. E muitas vezes essa busca pela perfeição semelhante à da beleza branca traz inúmeros prejuízos emocionais aos negros;

10. Somos 71,6% do número de analfabetos do país: além desse dado, a evasão escolar é muito maior entre crianças e jovens pretos. Por causa da pobreza, grande parte deles precisa trabalhar para ajudar no sustento da casa. Quando o trabalho é excessivamente extenuante, ininterrupto, com carga horária abusiva (normalmente em funções operacionais, como limpeza, jardinagem ou outros serviços pesados), muitos não resistem e abandonam a escola;

11. Religiões de matriz africana são grandes alvos de intolerância religiosa: Esse problema, a meu ver, seria amenizado se houvesse uma melhoria na educação. A lei 10.639/03estabelece que deve ser ensinada nas escolas temas ligados à cultura Afro-Brasileira, incluindo as religiões. Como não prática isso não acontece e a ignorância das pessoas não têm limites, praticantes são demonizados e vistos como perigosos, o que resulta em muitas ações violentas;

Existem inúmeros outros motivos que comprovam o quão presente é o racismo é na nossa sociedade, mas citar todos tornaria o texto muito longo, ou até mesmo um livro. É inconcebível que mesmo sendo a segunda população negra do mundo – o que prova que de“minoria” não temos nada – ainda sejamos tão subjugados como se fôssemos inferiores aos demais.

Enquanto formos estereotipados e associados unicamente a samba, pagode, sexo fácil, bandidagem, ignorância e falta de instrução o cenário não mudará. A luta é longa. E a representatividade e o respeito são imprescindíveis.

Pra encerrar, cito uma frase que li na Internet, de autoria desconhecida, porém muito válida para esse momento: “TODA CONSCIÊNCIA SERÁ NECESSÁRIA, ENQUANTO A CONSCIÊNCIA HUMANA FOR PRECONCEITUOSA E RACISTA”.


Programação especial para o Mês da Consciência Negra no DF:

Divulgação da PED sobre os negros no mercado de trabalho do DF
Em comemoração ao Dia da Consciência Negra, o Dieese divulga estudo sobre a inserção produtiva dos negros no mercado de trabalho, com o objetivo de verificar a discriminação racial prevalecente no mercado de trabalho do DF
Quando? Quinta-feira
A que horas? Às 10h
Onde? Sede da Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos
Entrada franca

Seminário Internacional de Populações em Vulnerabilidade
O evento tem como objetivo conscientizar a comunidade em geral e as populações em vulnerabilidade sobre seus direitos como cidadãos, relativos à própria saúde
Quando? Quarta e quinta-feira
A que horas? Às 9h
Onde? UnB
Entrada franca

Favela Sounds
Primeiro Festival Internacional de Cultura de Periferia realizado no Brasil, que promete agitar a cidade com debates, oficinas e shows, em que sons das comunidades do mundo inteiro se encontrarão na pista
Quando? De amanhã até sábado
Onde? Museu da República e Regiões Administrativas (Mestre d’Armas, Samambaia, São Sebastião e Ceilândia)
Entrada franca

Mostra de pintura
Evento contará com 40 pessoas, que farão as pinturas como forma de refletir sobre o racismo
Quando? De amanhã até sexta-feira
Onde? Museu Vivo da História Candanga
Entrada franca

Documentário Nossos Direitos
Lançamento do documentário produzido pelo videoartista Lucas Rafael, com coprodução de Alisson Lopes
Quando? Quinta-feira
A que horas? Às 20h
Onde? Zahia Café — Quadra 301 do Setor Sudoeste, entre os bloco B e C
Entrada franca

Café da manhã com as Mulheres Negras do Varjão
O evento tem como objetivo ampliar e fortalecer as lutas e valorizar a identidade das mulheres negras, debatendo sua atual condição nas regiões administrativas do Distrito Federal
Quando? Sábado
A que horas? Às 10h
Onde? Casa de Cultura do Varjão
Entrada franca

Dia Nacional da Consciência Negra – OAB
O evento pretende promover discussões sobre as violações aos direitos da população negra, o enfrentamento do racismo, mais oportunidades para ascensão socioeconômica dos afro-brasileiros, entre outros temas
Quando? Próximo domingo
A que horas? Às 10h
Onde? Taguaparque
Entrada franca.

Sernegra
A Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça (Sernegra), com exibição de filmes como Mulheres negras: projetos de mundo e Das raízes às pontas, além de roda de conversa com as diretoras Day Rodrigues e Flora Egécia.
Quando? 20, 21 e 23 de novembro
A que horas? Às 16h (domingo), às 9h30 (segunda-feira) e às 9h30 (quarta-feira)
Onde? Cine Brasília
Entrada franca

Espetáculo Mosoró Dayo — Grupo Obará
Trazendo aos palcos a nossa ancestralidade por meio da corporeidade, o Grupo Cultural Obará realiza uma nova temporada com o espetáculo Mossoró Dayo, no qual apresenta dança, teatro, cantos em iorubá e a música para falar do negro e da cultura afro-brasileira.
Quando? 22 e 23 de novembro
A que horas? Às 15h
Onde? Teatro Unip Ulysses Guimarães, SGAS Quadra 913, s/nº, Conjunto B
Entrada franca

Palestra Racismo Institucional
O evento tem como objetivo a capacitação para servidores do Metrô sobre a promoção da igualdade racial, bem como difusão do conhecimento básico a respeito de normas e leis pertinentes ao combate ao racismo institucional, com o professor Mário Theodoro
Quando? 23 de novembro
A que horas? Às 10h.
Onde? Auditório da Sede do Metrô-DF, na Av. Jequitibá, 155, Águas Claras.
Entrada franca

Desfile Beleza Negra
A iniciativa tem como missão o combate ao racismo e à discriminação no mercado da moda e na mídia de um modo geral
Quando? 23 de novembro.
A que horas? Às 17h
Onde? Estação Central do Metrô
Entrada franca


Fonte: Portal Geledés / Jornal Correio Braziliense 

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