domingo, 9 de outubro de 2016

‘Manterrupting’: a prática sexista de interromper uma mulher quando ela está falando

Foto: Rick Wilking (Reuters)
Donald Trump e Hillary Clinton interagem durante primeiro debate entre candidatos à presidência


Não interromper o adversário é uma das regras de qualquer debate moderado, mas o comedimento foi largamente deixado de lado na primeira peleja travada entre os candidatos à presidência americana, nesta segunda-feira (26). Em particular, pelo republicano Donald Trump.

Segundo levantamento do “Quartz”, foram ao todo 51 interrupções feitas pelo candidato ao longo das falas de Hillary Clinton, ante 17 feitas por ela. O “Vox” contabilizou 25 intromissões fora de hora em 26 minutos - ao todo, foram 90 minutos de embate. Em um placar, a “Vice”contabilizou “35” interferências do republicano, contra “4” da democrata.

Os veículos não atribuíram o comportamento do candidato ao seu desconhecimento sobre as regras do jogo - para o qual políticos se preparam por dias - nem a seu fervor retórico, mas sim a uma prática comumente identificada entre homens e que, pela frequência, foi batizada com um neologismo em inglês: “manterrupting”, a interrupção desnecessária feita por um homem quando uma mulher está falando. “O debate presidencial desta noite será mostrado em aulas de gênero por muitos anos”, escreveu o “Quartz”.
“Era esperado que a dinâmica de gênero fosse uma questão no debate de segunda. Não apenas foi o primeiro grande debate presidencial travado entre um homem e uma mulher; mas era este homem e esta mulher em particular - Donald Trump, que tipicamente usa a dominância hipermasculina como arma, e Hillary Clinton, que passou décadas se defendendo de ataques sexistas aos olhos públicos” (Emily Crockett e Sarah Frostenson, Jornalistas do “Vox”, em artigo)

Como funciona o ‘manterrupting’

O termo surgiu com o artigo “Speaking while Female” (falando enquanto mulher), publicado em 2015 no “The New York Times”, escrito por Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook, e Adam Grant, professor da escola de negócios da University of Pennsylvania.

A dupla citou um estudo feito por psicólogos de Yale que mostra como senadoras americanas se pronunciam significamente menos que seus colegas masculinos de posições inferiores.
“Nós dois vimos isso acontecer inúmeras vezes. Quando uma mulher fala num ambiente profissional, ela caminha na corda bamba. Ou ela mal é ouvida ou ela é considerada muito agressiva. Quando um homem diz exatamente a mesma coisa, seus colegas apreciam a boa ideia”
(Sheryl Sandberg e Adam Grant, Pesquisadores, em artigo no “NYT”)

A prática, no entanto, é muito mais antiga que a terminologia. O maior exemplo midiático usado para explicar o conceito não veio da política, mas da indústria da música.

Em 2009, enquanto Taylor Swift recebia o prêmio de melhor vídeo feito na categoria feminina no MTV Video Music Awards, o rapper Kanye West subiu ao palco, arrancou o microfone da mão da cantora e impôs sua opinião em momento inoportuno: “Vou deixar você terminar [o discurso de agradecimento]. Mas Beyoncé fez um dos melhores vídeos de todos os tempos.”
“[O episódio] no VMA pode ter sido contabilizado como entretenimento, mas pergunte a qualquer mulher no mundo do trabalho e todas nós reconhecemos o fenômeno. Falamos numa reunião, apenas para ouvir a voz de um homem soar mais alto. Sugerimos uma ideia, talvez com incerteza - para ver um cara repeti-la com autoridade. Podemos ter a habilidade, mas ele tem as cordas vocais certas - o que significa que nos calamos, perdendo nossa confiança (ou pior, o crédito pelo trabalho)” (Jessica Bennett, Jornalista, em artigo na revista “Time”)

Segundo Bennett, a atitude de inúmeros outros homens no ambiente de trabalho vem de décadas de história em que eles foram ensinados a liderar, enquanto mulheres foram ensinadas a criar os filhos. Então quando elas assumem posições historicamente masculinas, em que tomam decisões e dão ordens, são vistas de forma negativa.

E não apenas por homens, mas por outras mulheres também. Uma pesquisa de 2014, da George Washington University, mostrou que os dois gêneros tendem a interromper mais seu interlocutor quando a pessoa com quem conversam é uma mulher.

Para contornar a questão, mulheres integrantes da equipe de Barack Obama - gestão considerada progressista na inclusão de mulheres em altos cargos - elaboraram uma estratégia para serem ouvidas durante as reuniões. Chamada de “amplificação”, ela consistia em ouvir os argumentos de uma colega e depois repeti-los, dando o crédito devido, forçando os homens na sala a ouvi-las e impedindo-os de se apropriarem de ideias alheias.

Glossário

Vários termos têm sido criados para sinalizar machismo nas relações sociais e qualificar o comportamento masculino em relação a uma mulher em diferentes situações. Conheça alguns deles:

MANTERRUPTING
Quando um homem interrompe uma mulher de forma desnecessária, conscientemente ou não.

BROPROPRIATING
Apropriar-se da ideia de uma mulher e levar o crédito por ela.

MANSPLAINING
Uma explicação pormenorizada de um assunto óbvio, dado pelo homem por acreditar que a mulher não entende.

GASLIGHTING
Uma espécie de manipulação psicológica que leva a mulher a achar que está louca ou equivocada sobre determinado assunto, sendo que está originalmente certa.


O histórico de Donald Trump

O candidato republicano foi também agressivo ao longo das primárias americanas, quando disputava a candidatura com seus colegas de partidos - todos homens. No debate de segunda (26), ele tampouco se intimidou em interromper o moderador, Lester Holt.

Quando se tratando de “manterrupting”, é difícil estabelecer as fronteiras entre o machismo e a hostilidade generalizada. No caso de Trump, particularmente, seu histórico depõe para os dois lados.

Mas sua postura em relação às mulheres é amplamente reconhecida e, inclusive, explorada pela campanha de Hillary Clinton na tentativa de garantir essa parcela do eleitorado. Ao longo do debate, ela expôs algumas das contradições do adversário, que nega depoimentos controversos, enquanto rebate com argumentos tão pouco afeitos ao gênero oposto.

Durante o debate, por exemplo, disse que Hillary tinha pouca “estamina” para ser presidente, deixando a entender que mulheres são mais fracas para o cargo. Também criticou o “temperamento” da candidata, reforçando a interpretação distorcida de que mulheres em posição de poder são agressivas ou bravas. Desde o início de sua carreira política, a personalidade de Hillary Clinton é posta contra ela, como um contraponto a sua competência.

Quando questionado sobre ofensas que teria feito a Alicia Machado, eleita Miss Universo da década de 1990 - a venezuelana afirma que foi chamada por ele de Miss Empregada Doméstica e Miss Piggy -, ele se defendeu com mais uma afronta: “Ela foi a pior [Miss Universo] que já tivemos. Ela foi a vencedora e, sabe, ganhou muito peso e isso era um problema.”

Boa parte das acusações de misoginias feitas a ele vêm de mulheres participantes do concurso de beleza do qual ele já foi dono.

Em outras ocasiões, Trump chamou a comediante Rosie O'Donnell de gorda e disse que todas as participantes de seu reality show “O Aprendiz” flertaram com ele (mesmo que inconscientemente).

O jornal “The New York Times” publicou, em maio, um especial com esses e outros relatos da relação de Trump com as mulheres. Ex-editor do site “New Republic”, Frank Foer descreveu a misoginia de Trump como “o âmago de suas crenças”.


ESTAVA ERRADO: A versão inicial deste texto afirmava que Trump é dono do concurso de beleza Miss Universo. Na verdade, ele se desfez do negócio em 2015. A informação foi corrigida às 20h de 28 de setembro de 2016.


Fonte: Jornal NEXO

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