domingo, 30 de outubro de 2016

Avanço da idade deixa mais mulheres sozinhas do que homens


É mais fácil você achar uma mulher mais velha sozinha do que um homem na mesma situação. É o que afirma o relatório "Older Americans 2016", desenvolvido por agências federais dos EUA.

Estar solteiro em idade mais avançada pode ter impactos econômicos e na saúde, mas não necessariamente representa solidão. A pesquisa, que traz dados sobre a situação de idosos em itens como habitação, emprego e lazer, revelou uma diferença grande na situação matrimonial entre os sexos.

A costureira aposentada Penha Cruz, 65, afirma que "aguentou o casamento" por nove anos. Ela se casou em 1969, aos 18 anos, com um homem de 33. Depois, passou por outros "casamentos", como ela chama seus relacionamentos mais sérios, mas está sozinha há algum tempo. "Sozinha em termos, porque eu ainda namoro."

Em todas as faixas etárias, os homens idosos apresentam chance maior do que as mulheres de estarem casados. Cerca de 75% dos homens americanos entre os 65 e os 74 anos são casados, ante 58% das mulheres na mesma faixa etária, segundo a pesquisa. E a proporção de homens casados não cai na faixa etária dos 75 aos 84 anos. Já entre as mulheres ela chega 42%.

Mesmo entre os homens com mais de 85 anos a taxa é alta –quase 60% estão casados. A essa altura da vida, apenas 17% das mulheres ainda estão casadas.

Os dados brasileiros também demonstram maiores chances de homens idosos se casarem. Cerca de uma a cada mil mulheres acima dos 60 anos estava legalmente casada em 2014, de acordo com dados do IBGE. A taxa para os homens era quase quatro vezes superior. Nas idades anteriores também há diferença entre os sexos. Dos 55 aos 59, três mulheres a cada mil estão casadas. O valor é próximo de cinco a cada mil para homens.

As estatísticas de expectativa de vida explicam apenas em parte essa disparidade, diz Deborah Carr, diretora interina do Instituto de Saúde da Universidade Rutgers, que pesquisa casamento e viuvez.

Mulheres tendem a viver mais e a se casar com homens mais velhos do que elas, e por isso a probabilidade de que fiquem viúvas é maior. O outro fator ainda é que "a probabilidade de que um homem volte a se casar é muito maior do que entre as mulheres", diz Deborah.

No Brasil, em 2014, foram 38.723 casamentos de homens acima dos 60 anos e 14.969 para mulheres da mesma idade, menos da metade do valor da realidade masculina, segundo o IBGE. Conforme a idade aumenta, diferenças como essas podem ter repercussões significativas na vida.

Entre as pessoas com mais de 75 anos, diz o estudo americano, 23% dos homens vivem sós. Para as mulheres, a proporção é duas vezes maior. Se você está imaginando uma situação triste de abandono, talvez seja melhor pensar de novo. A realidade de mulheres mais velhas separadas muitas vezes é melhor do que durante a vida de casada.

O caso de Penha é um exemplo disso. Em um dos seus "casamentos", ela chegou a morar com um homem, situação que mudou assim que ele começou a tentar determinar horários para ela.

Situação similar ocorreu com a esteticista Teresa Madureira, 56. Depois de 30 anos como dona de casa, ela começou um curso de estética. Foi o suficiente para o então marido começar a tentar controlar sua vida. "Ele queria me manter dentro de casa."

Hoje, Teresa se sustenta sozinha e se sente bem assim. "Eu tenho que me preocupar em colocar arroz na mesa, mas, mesmo com as dificuldades, eu estou bem."

E muitas mulheres mais velhas e não casadas enfrentam dificuldades econômicas. "As mulheres sofrem baques maiores com a viuvez e o divórcio, em termos econômicos", diz Deborah Umberson, do Centro de Pesquisa da População na Universidade do Texas em Austin.

Por outro lado, estudos apontam maneiras pelas quais as mulheres florescem depois da viuvez e do luto. No estudo de Carr sobre moradores idosos de Detroit, por exemplo, as mulheres que eram mais emocionalmente dependentes de seus maridos quando eles estavam vivos demonstravam os níveis mais elevados de autossuficiência na viuvez.

"Elas tiveram de aprender novas competências", diz Carr. "Em um ano, você já vê avanços em indicadores como o crescimento pessoal". Teresa aposta nos amigos e nos filhos para evitar a solidão, tanto no presente quanto no futuro próximo.

"As mulheres têm mais relacionamentos estreitos e de confiança. Isso é excelente para a saúde, física e mental", diz Carr. "As mulheres também tendem a manter mais contato com os filhos." "Pelo que me conheço, eu prefiro curtir meus netos do que ter um velho babando em cima de mim", diz Teresa.


Tradução: Paulo Migliacci


Fonte: Jornal Folha de São Paulo / Jornal The New York Times (EUA)

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