domingo, 30 de outubro de 2016

Artigo - Por que o poliamor e as relações livres podem ser privilégios para os homens?


Por: Gabrielle Beira*

Você já ouviu falar de poliamor e/ou relações livres? Se não, explico: de maneira geral, as relações livres (RLi) consistem em relacionamentos abertos, não-monogâmicos e não-hierarquizados, nos quais as pessoas envolvidas estão livres para estabelecer outros relacionamentos afetivo-sexuais, a partir, é claro, do consenso de todas as partes envolvidas. Pessoalmente, nutro verdadeira admiração por toda a teoria por trás das relações livres, afinal, elas estão baseadas no amor sem posse, no que eu acredito muito. No entanto, é preciso desenvolver algumas críticas sobre a prática concreta das relações livres, em especial as heterossexuais, sobretudo em um mundo ainda muito machista. Não me surpreende que ainda sobrem resquícios de relações assimétricas entre os gêneros mesmo no prometido paraíso das RLis.


Tipos de poliamor




Paraíso para quem?

Em um mundo onde as mulheres são ensinadas a serem completamente inseguras em relação a tudo – aparência, capacidades, inteligência, sentimentos, etc. -, onde somos ensinadas a competir com outras mulheres porque vemos todas elas como nossas inimigas, e mais, em um mundo onde os homens são condicionados a manterem várias parcerias sexuais e incentivados a ter sentimento de posse sobre elas, o discurso perfeito do poliamor acaba sendo apropriado pelo patriarcado, gerando mais um privilégio masculino.

Primeiro porque é muito fácil para os homens reivindicarem relações livres, já que isso não representa nada de novo em suas vidas, pois estão acostumados a se envolver com inúmeras parceiras e muitas vezes isso já ocorre simultaneamente. O poliamor nesse caso torna-se discurso floreado para justificar a posição sexual privilegiada dos homens em relação à poligamia. Segundo porque decorre disso uma enorme pressão sobre a liberalização da conduta sexual das mulheres, mesmo quando elas não estão confortáveis com isso. A mulher que não topar entrar em uma relação aberta logo será taxada de possessiva, careta e moralista, quando, na verdade, trata-se muito mais de uma questão de que o empoderamento sexual das mulheres não deve servir às necessidades masculinas. Isso deveria ser óbvio, mas, e sobretudo, em discursos progressistas como este, o incentivo à liberação sexual das mulheres serve ao propósito de eximir os homens de repensarem sua própria conduta sexual.

Ora, se as mulheres não apresentarem mais nenhuma resistência ao sexo sem compromisso, à poligamia praticada pelos homens, tanto melhor para… eles. Com isso não quero dizer que a libertação sexual feminina não seja desejável, pelo contrário. Apenas precisamos ressaltar que ela deve ser um processo natural e empoderador que nos diz respeito, única e exclusivamente a nós, mulheres. Não há problema nenhum se uma mulher se sente segura em topar um relacionamento aberto ou exercer sua sexualidade livremente, mas, por outro lado, não deveria haver problema algum se uma mulher não se sentir confortável com nenhuma dessas condutas. O privilégio sexual masculino e a consequente submissão feminina devem ser desconstruídos, e não ressignificados tomando formas libertárias igualmente opressoras.

Uma outra faceta das relações livres que precisa ser problematizada é o fato de que, postas em prática, não há problema somente até que o livre exercício da sexualidade seja adotado pelas mulheres. Quero dizer, em muitos casos, a relação livre dura só até o momento em que a mulher não a coloca em prática. Basta em um relacionamento aberto uma mulher começar a se relacionar com outras pessoas para que seu parceiro comece a questionar e colocar em xeque a relação e o próprio sentimento. Isso, como resultado do sentimento de posse incentivado pela cultura patriarcal, é sinal evidente de que as relações livres são mais um instrumento do privilégio masculino.

Nesse sentido, não quero combater as relações livres como forma legítima de relacionamento, mesmo porque acredito que toda forma de relação que fuja dos padrões engessados de relacionamento heterosexual são bastante válidas na luta contra o patriarcado, mas é importante problematizar estes aspectos, porque, mesmo que se pretendam libertadoras, as práticas das RLis ainda estão muito submersas na cultura machista em que vivemos, como qualquer outra conduta que adotamos hoje em dia. O nosso esforço deve estar na desconstrução dos paradigmas machistas e dos privilégios masculinos e não em sua transformação em outras formas de opressão com ares de liberdade. Liberdade mesmo só quando todas as pessoas reconhecem seus privilégios e tentam desconstruí-los no discurso e, mais importante, na prática, em suas relações pessoais.


* Gabriella Beira nasceu em São Paulo, no dia 10 de abril de 1994. Reside em Guarulhos, mas estuda Relações Internacionais na longe-de-casa Universidade de São Paulo. Seus hobbies são estudar línguas, ler, assistir a filmes e séries, sair, dançar e tagarelar. Como qualquer internacionalista (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Sua maior frustração é não ter feito ballet (ainda!) e sua segunda maior frustração é ser alérgica a gatinhos, razão pela qual nunca pôde ter um. Mas nada a impede de ter, atualmente, dois cachorros. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha, aluna mediana.


Fonte: Revista Capitolina

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