domingo, 9 de outubro de 2016

Artigo - O Sul não é meu país


Por: Viegas Fernandes da Costa

A xenofobia, esta aversão ao outro, é sentimento que muitos guardam no peito e que, a cada oportunidade, cai como um fruto podre sobre nossa mesa. Não dá para achar que ela desaparece simplesmente porque as pessoas deixaram de manifestá-la abertamente. Não é uma bobagem. Os mutilados, espancados e ofendidos pela xenofobia testemunham diuturnamente suas cicatrizes. Muitas das suas vítimas, entretanto, tiveram seus gritos silenciados, seus corpos espancados e sepultados, a dignidade destruída.

Tão logo revelado o resultado da eleição presidencial na noite do domingo, uma tempestade de manifestações preconceituosas tomou conta das redes sociais e das conversas de esquina, tendo como alvo especialmente o povo nordestino. E não demorou para que velhos cadáveres despertassem a fim de espalhar o hálito pútrido dos seus discursos.

Dentre estes cadáveres insepultos está o do separatismo sulista. Pessoas que durante todo processo eleitoral enrolaram-se na bandeira brasileira e cantaram o Hino Nacional, não titubearam em vestir as cores do movimento “O Sul é meu país” e a defender a tese da independência desta porção do Brasil. 

O argumento é o da pretensa superioridade laboriosa e intelectual. Do alto do seu preconceito, afirmam sustentar o restante do país e apelam ao princípio da autodeterminação dos povos para justificar um crime contra a Constituição Federal, que estabelece a união indissolúvel dos estados e municípios como formadores da nossa Federação.

O princípio da autodeterminação dos povos não serve para justificar os desejos de alguns em separar a região Sul do restante da nação. Primeiramente, porque sulistas não são uma unidade étnica, ou seja, não somos um povo diferente do povo brasileiro. Resultamos de uma mesma formação histórica, partilhamos de uma mesma identidade miscigenada, como o restante do Brasil. Se há povos que teriam legitimidade para recorrer ao princípio da autodeterminação, estes seriam os xokleng, kaingang e guaranis, por exemplo, mas não é o caso.

Em segundo lugar, o princípio da autodeterminação é evocado, no mundo, por populações vitimadas pela xenofobia, e não o contrário. No Sul, deturpam a lógica. O que alimenta o discurso separatista é o preconceito vitaminado pela frustração eleitoral. Afinal, os discriminados não são sulitas, mas justamente nordestinos.

Enquanto o século XX derrubou um muro para unir os alemães, no século XXI a ignorância levanta muros para tentar dividir o Brasil. O Sul não é a Europa brasileira, mas os separatistas ainda vivem na Alemanha da década de 1930.



Fonte: Blog Viegas da Costa

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