segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Andrea Bocelli canta com detentos de presídio em Guarulhos


O tenor italiano Andrea Bocelli soltou sua voz neste domingo, 16, com um coral formado por detentos da Penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Ele foi conhecer o projeto de ressocialização desenvolvido no local e acompanhar uma apresentação musical. Mas quebrou o protocolo e cantou com os presos um dos seus grandes sucessos, Con ti Partiro.

O Coral Próximo Encontro conta com 30 detentos que, desde 2014, se aprimoram dentro de um projeto de ressocialização que começou em 2010 no presídio. O publico, formado por jornalistas, familiares de detentos e funcionários, foi surpreendido pela musicalidade do coral. Antes da chegada de Bocelli, eles fizeram um show acústico e tocaram músicas de Kid Abelha, Skank e encerraram com Pescador de Ilusões, do Rappa. Acabaram muito aplaudidos por todos.

Bocelli chegou acompanhado pela mulher e por um intérprete, pontualmente às 14 horas, como combinado com a direção do presídio. O agente de segurança Igor Rocha disse que o projeto é um exemplo de que é possível acreditar na recuperação de um detento. “Desde que entrei no sistema prisional, em 1998, já vi muitas rebeliões, mortes e truculência. Hoje, estou presenciando a vida, o recomeço. Eles (presos) merecem.”

Rocha é um dos professores do projeto – todos agentes penitenciários –, que também dão aulas de teatro e outras atividades culturais para um grupo de 180 presos, desde 2010. O presídio tem capacidade para 1.200 detentos e está com 2.150, segundo os funcionários.

Canja. A última música da apresentação foi Con ti Partiro. Mesmo sentado, Bocelli começou a cantar com o coral. Atendendo ao convite dos presos, ele se levantou e foi à frente cantar com eles. Muitos integrantes se emocionaram e foram às lágrimas. No fim, todos foram aplaudidos de pé.

Bocelli fez questão de cumprimentar e conversar com todos os músicos. “Você canta muito bem, não desista, continue”, disse o tenor para o detento Verlon Moitinho da Silva, de 27 anos, condenado a uma pena de 4 anos por furto. Para Luiz Henrique de Santana, de 30, condenado a 14 anos por roubo a mão armada, Bocelli afirmou “que também toco violão, mas não tão bem quanto você. Parabéns!”.

No fim, o tenor reuniu os presos em um círculo e contou um pouco sobre a sua história e destacou que os presos precisam conscientizar-se de que a sociedade, uma vez que estejam recuperados, precisa deles. “Não há motivo para sair daqui e não erguer a cabeça.”

Mudança de visão. “A minha atitude antes de conhecer o projeto era viver no crime, no assalto e nas drogas. No projeto, eu vi um futuro melhor e quero continuar neste bom caminho lá fora”, disse Verlon. Já Luciano contou que realizou um grande sonho. “Sempre gostei de músicas de qualidade. Tocar para um astro e, no mesmo dia, cantar com ele é muita emoção. Valeu e continua valendo a pena”, afirmou.

A iniciativa de trazer Bocelli, que está em turnê pelo País e é conhecido pelo seu trabalho social, partiu do Instituto PDR/Humanitas 360, que acompanha o trabalho dos presos no Adriano Marrey. “O principal objetivo é mostrar que é possível fazer um trabalho de humanização do cárcere e de reinserção social por meio dessas iniciativas”, disse Patrícia Villela Marino, vice-presidente do instituto.

Agentes de segurança do presídio Adriano Marrey, Mario Jorge Antunes e Domingos Dudlei Menetti iniciaram o projeto de ressocialização com os presos há seis anos. “Em meio a um ambiente típico de cadeia, você ainda consegue perceber quais detentos tem mais afinidade coma cultura: quem gosta de declamar poesia, quem gosta de cantar, de interpretar, enfim. Conseguimos separar e incentivar os presos a seguir um caminho diferente e possível”, disse Menetti.

Um momento marcante para Antunes aconteceu neste ano quando foi realizado o primeiro “Sarau” no presídio. “Os presos cantaram, declamaram poesias e dançaram. Para mim, foi muito importante e histórico.” Segundo os agentes, outro grande momento será no próximo dia 25, quando o coral se apresentará nas Faculdades Integradas de Guarulhos (FIG). “A entrada é um brinquedo, que será doado às crianças carentes”, disse Antunes.


Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

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