domingo, 4 de setembro de 2016

Violência contra homens: "Envergonhados, falam na terceira pessoa"


Em apenas dois anos, entre 2013 e 2015, a APAV registou um total de 1.240 homens vítimas de violência doméstica, o que se traduz num aumento de 14,4%.

A nova campanha de sensibilização da APAV remete para este tema e assenta na ideia de que “não é aceitável que alguém, homem ou mulher, seja vítima de violência doméstica”.

Daniel Cotrim, Assessor Técnico da Direção da APAV, conversou com o Notícias ao Minuto e deixou claro que é preciso “quebrar o tabu” para que os homens deixem de ter “medo e vergonha” de falar.

O número de denúncias feitas por homens vítimas de violência doméstica aumentou. Há mais casos ou menos vergonha de denunciar?

Os números significam que mais homens denunciaram estas situações, o que pode ser entendido como maior informação e mais sensibilização para fazerem a denúncia destes casos. Mas se o fenómeno criminal em si aumentou ou não, não sabemos. Mas de uma coisa temos a certeza: o número de situações não reportadas é muito superior àquele que é reportado.

O que leva uma mulher a agredir, seja física ou psicologicamente, um homem?


O mesmo que leva um homem a agredir uma mulher. O que está subjacente a qualquer forma de violência, seja contra homens ou contra mulheres, é sempre o poder e o controle.

É uma questão de alguém acreditar que exerce sobre o outro um poder que acha que alegadamente tem, porque acha que é mais forte do que o outro que, no seu entender, é mais fraco e pode ser dominado.

Qual é a maior diferença entre as vítimas homens e as vítimas mulheres?


Não sei se há grandes diferenças. O que pode ser mais diferente é que em relação a homens o número de maus-tratos psicológicos é muito superior ao dos físicos. Na violência contra as mulheres acontece o contrário: são as agressões físicas que predominam.

Há uma coisa que é feia de se dizer, mas é preciso dizer: é socialmente aceite que as mulheres sejam vítimas de violência doméstica por isto ou por aquilo, mas não é socialmente aceite que o mesmo aconteça a um homem e isto é uma grande diferença.

O receio de fazer a denúncia, o medo de achar que as pessoas não vão acreditar nele e se vão rir dele é muito forte, porque o homem é criado a acreditar que é mais forte e que estas coisas não lhe acontecem.

E entre os homens agressores e as mulheres agressoras?

A grande questão da violência das mulheres sobre os homens é que é uma violência mais perversa, mais inteligente, mais pensada. O homem, pelo contrário, usa mais a força física, age mais no calor do momento.

Quando os homens fazem o primeiro contacto a pedir ajuda é por telefone ou presencialmente?

É telefónico. Pelo medo, pela vergonha, por acharem que ninguém os vai entender e também por outra questão: nas organizações de apoio trabalham mais mulheres do que homens, portanto a primeira ideia que estes homens têm é que vão ser atendidos por uma mulher e não vão ser levados a sério.

Os primeiros contactos são feitos a medo. Os homens vêm contar a história de um amigo. Falam na terceira pessoa. Falando de uma forma empírica há cerca de dois a três telefonemas que são feitos antes do atendimento presencial.

O acompanhamento telefónico por parte da associação existe sempre?

Depende. Quando as pessoas nos dão autorização para ligar nós telefonamos para fazer um 'follow-up' da situação. Avaliamos o risco e tentamos perceber qual é a gravidade. Quando não nos dão autorização nós não podemos fazer o acompanhamento, mas se acharmos que o risco é muito grave, que há uma situação de perigo iminente, o que fazemos é denunciar o caso às autoridades.

O discurso dos técnicos para com as vítimas homens é muito semelhante ao utilizado com as vítimas mulheres?

É, até porque há um modelo de intervenção. Tentamos perceber a história da vítima e saber, do ponto de vista psicológico, quais são as fragilidades e isto é comum a mulheres e homens. No âmbito individual já há diferenças.

A título de exemplo, os homens não têm, por norma, histórias em que tenham de sair imediatamente de casa e se têm de sair têm forma de ser acolhidos. Conseguem ter uma rede familiar e aí sim, é diferente. Os homens têm uma rede mais presente que lhes dá um grande suporte ao contrário das mulheres que têm de fugir.

Contudo, ao princípio é muito difícil estes familiares e amigos acreditarem no que está a acontecer, porque há aquela velha imagem de ‘tu és homem, nada disto te pode acontecer’.

Houve algum caso em que um homem precisasse de ir para um abrigo?

Já houve essa situação. Não há é casas-abrigo para homens, ainda. Ele ficou alojado numa pensão até conseguir de alguma forma arranjar, em conjunto com a APAV, uma forma de se reorganizar.

Mas o ministro-adjunto, Eduardo Cabrita, já tornou público que, a partir de meados de setembro, vai passar a funcionar em projeto-piloto a primeira casa-abrigo para homens vítimas de violência doméstica.

E há algum caso de uma mulher que esteja com pulseira eletrónica depois de condenada por violência doméstica?

Não conheço nenhum. Sabe porquê? Porque temos de começar a fazer esta sensibilização. Todos nós, os que trabalhamos nesta área, não podemos desconfiar dos homens que dizem ser vítimas de violência domestica. É verdade que há casos de homens que dizem ser vítimas e que na verdade são eles os agressores, mas não são todos.

Quais são as ameaças mais frequentes feitas pelas agressoras?

Sobretudo as de envenenamento. Esta questão da alimentação ainda está muito no domínio das mulheres. ‘Vê la se esta é a última vez que comes esta sopa’, dizem. Depois há as questões de difamação, de dizerem que o homem não é másculo, que não presta, e há ainda a instrumentalização dos próprios filhos contra o pai: ‘o vosso pai anda com outras’, ‘não gosta de vocês’.

Qual foi o pior caso de violência doméstica contra um homem que já teve conhecimento?

Foi o caso de um homem que ofereceu à mulher, com quem já tinha alguns problemas, uns copos de cristais da boémia. Ele tinha por hábito aos fins-de-semana limpar os copos com cuidado e a mulher disse-lhe várias vezes que um dia haveria de dormir com os copos. Um dia ele deitou-se na cama e teve de ir de imediato para as urgências do hospital, pois a mulher havia partido em partículas muito pequenas os copos de cristal, espalhando os cacos pelos lençóis. Ele ficou com milhares de cacos incrustados nas costas.


Fonte: Jornal Notícias ao Minuto (Portugal)

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes