terça-feira, 20 de setembro de 2016

As meninas estão mudando a escola


No Rio de Janeiro, os meninos não deixam suas colegas de classe jogarem futebol com eles. Também na capital fluminense, meninas são assediadas nas ruas por usarem saia e meias três-quartos como uniforme. No interior da Bahia, um professor afirma que: “A Matemática sai naturalmente dos poros dos meninos, assim como a Saúde e a Educação são escolhas óbvias para as meninas”. Em São Paulo, as próprias meninas se xingam e se desrespeitam ao sinal do menor desentendimento. E há quem se pergunte se a escola ainda precisa do feminismo...

Enquanto alguns se questionam, muitas jovens – suas alunas – se mobilizam. Ao lado das ocupações secundaristas, as iniciativas feministas, sejam as organizadas em coletivos ou as espontâneas e individuais, são a grande novidade no hoje efervescente cenário da juventude estudantil. São casos nascidos com base em uma ocorrência concreta ou da simples necessidade de discutir o papel da mulher na escola, de proibições veladas ou interdições explícitas, de garotas prestes a entrar na faculdade ou de meninas de apenas 10 anos, o que diz muito sobre as gerações que vêm por aí (conheça essas histórias nos quadros que acompanham esta reportagem).

O feminismo, você sabe, não é de hoje. O movimento está presente de maneira organizada pelo menos desde o século 19, quando aconteceu sua primeira grande onda, que lutava pelo sufrágio, o direito ao voto, na Inglaterra. A segunda ocorreu nas décadas de 1960 e 1970 com a invenção da pílula anticoncepcional e a chamada revolução sexual nos Estados Unidos. Esse período ficou marcado pelas manifestações de rua, em que mulheres chegaram a queimar seus diplomas de Ensino Superior, revoltadas, por não terem aprendido nada sobre a história do gênero na universidade. Ao mesmo tempo, também reivindicavam maior liberdade sobre seus corpos, sua sexualidade e suas escolhas de vida.

“Hoje já dá para falar na existência de uma terceira onda, com um feminismo mais plural do que nunca”, afirma Maria Helena Vilela, educadora sexual e diretora executiva do Instituto Kaplan. O barulho dos movimentos no século 21 é considerável. O que chama a atenção é a grande aderência de jovens meninas tanto nas ruas, em protestos e marchas, quanto no ativismo virtual, em grupos de discussão e blogs. Nos dois casos, a capacidade de organização via redes sociais é um fator de impulso e novidade. “A internet trouxe a possibilidade de as pessoas falarem em primeira pessoa e conhecer ações em todo o mundo, o que unificou muitas lutas”, diz Maíra Kubík Mano, professora do departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA).


O poder feminino de usar a quadra

Dez anos de idade é cedo demais para ser feminista? Não na Escola Edem, na capital fluminense. Por lá, os meninos ocupavam quadra e não gostavam quando as meninas pediam para jogar futebol – queriam que elas ficassem como chefes de torcida.

A situação revoltou a turma do 5º ano. “Um dia, invadimos a quadra e os meninos tentaram nos expulsar. Começamos a gritar ‘Poder feminino!’ e esse virou o nome do nosso time”, diz Gabriela Faria Machado Garcia, 10 anos. Foram além: resolveram desafiar os meninos para jogar!

Depois de muito treino, foram para o desafio... e perderam por 8 a 1. O que poderia ser um balde de água fria só serviu para que elas dedicassem mais. Na segunda partida, mais equilibrada, a desvantagem foi de apenas um gol. “Os meninos ganham só porque treinam mais do que a gente”, diz Gabriela. A amiga Catarina Goerdert Massari, 10 anos (no meio, na foto acima) se diverte: “Eles jogam futebol desde sempre. Mas, na queimada, quem ganha mais vezes é a gente.”

Essas jovens são as mesmas que estão na sua sala de aula. E os problemas começam quando elas não se reconhecem na escola em que são obrigadas a frequentar (leia texto sobre como discutir os padrões de beleza vigentes com a turma). Apesar de ser liderada majoritariamente por mulheres, é importante que se diga que a escola é um dos ambientes mais machistas da sociedade.

O roteiro de um currículo oculto, mas sempre reforçado nas trocas informais com colegas e educadores, é conhecido. “As meninas são incentivadas a ser quietas e reservadas, enquanto os rapazes devem ter mais iniciativa. As profissões de exatas são coisa de homem, e as voltadas para o cuidado, das mulheres. O tempo de quadra é maior para os meninos, que se movimentam mais, e assim por diante”, afirma Maria Helena. As mulheres sentem o peso desse enquadramento: 77% delas dizem que o machismo impacta diretamente em seu desenvolvimento, segundo pesquisa da agência e escola de jornalismo ÉNois com mais de 2 mil jovens de 14 a 24 anos, a maioria estudantes da Educação Básica ou Superior.


Dominação que parece natural

De tão reforçadas ao longo do tempo, as pequenas atitudes exemplificadas por Maria Helena dão a impressão de ser lógicas e aceitáveis, quase inevitáveis e parte do instinto de homens e mulheres. Esse processo – a naturalização – é justamente um dos mecanismos centrais das construções sociais mais poderosas. É por isso que é tão difícil acabar com o machismo. A ideia de que os homens podem fazer o que quiserem com as mulheres está tão enraizada que muitos até se sentem encorajados a encarnar esse padrão.

Talvez você reconheça na sua escola episódios como o do colégio Pentágono, escola de elite na capital paulista. No intervalo, os meninos do Ensino Médio costumavam fazer piadas e mexer com as meninas, que se sentiam ofendidas, mas não reagiam. Até que um dos rapazes deu um tapa na bunda de uma colega. “Aquela foi a gota d’água de um desconforto que vinha de muito tempo. Estávamos cansadas de sermos desrespeitadas. Por isso, decidimos criar um movimento feminista na escola”, conta Mirella Nucci Zanetti, estudante do 1º ano (a quarta da esquerda para a direita na foto que abre esta reportagem). A primeira ação foi na quadra, quando todas as meninas vestiram preto para reivindicar a necessidade de debater o ocorrido. Deu certo – e a discussão já envolveu a gestão, ampliando-se para outros temas polêmicos como o uso de short.


Contra o assédio por causa de meias e saias

No Pedro II, um dos mais tradicionais colégios do Rio de Janeiro, o coletivo Feminismo de ¾ faz referência às meias três-quartos no uniforme feminino – marca da escola e, também, motivo de assédio na rua.

O grupo ganhou força em 2015, na denúncia de um episódio de abuso sexual. A escola expulsou três garotos envolvidos e divulgou uma nota responsabilizando os pais pela educação de seus filhos.

O coletivo protestou. “A escola não tentou discutir esses episódios, eles apenas abafaram. Os meninos foram expulsos, mas o problema foi transferido de um lugar para outro. O machismo não é um caso isolado. É uma coisa estrutural, que atinge todos os homens”, reclama Morgana Côrtes, 18 anos (na foto acima, a terceira da esquerda para a direita).

A atitude da direção não mudou, mas o ativismo ajudou a colocar a pauta feminista na escola. Dividido em vários campi, o Pedro II conta hoje com frentes de alunas que se organizam para levar discussões feministas à escola, incluindo o questionamento ao uniforme. “Para a gente, valeu ter conquistado o espaço para fazer esse debate”, diz Morgana.

Casos como esses são uma excelente oportunidade para a escola. “O machismo se manifesta sobretudo nos comportamentos cotidianos. Quando essas situações ocorrem, a chance concreta para discutir está diante de todos”, afirma Maria Helena. Outro exemplo cada vez mais recorrente está no mundo virtual, com o vazamento de imagens íntimas via redes sociais. Em 2015, na capital paulista, vídeos denominados Top 10 do WhatsApp acabaram viralizando. “As vítimas da vez são sempre de uma mesma escola. Ao som de um funk pornográfico, os vídeos mostram fotos do Facebook de dez meninas, indicando por escrito características físicas ou comportamento sexual”, explica Tatiana Rodrigues, educadora social do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) de Interlagos, zona sul da cidade de São Paulo. Ela e sua equipe precisaram entrar em ação para ajudar meninas expostas na periferia de São Paulo, pois as instituições não deram conta de dar uma resposta às queixas nem de fazer o debate sobre o tema.

A ação pedagógica, nesse tipo de caso, envolve discussões sobre padrões de beleza. É preciso explorar a contradição entre um ideal de mulher sexualmente desejada e uma pressão em sentido contrário, para que uma “moça de valor” seja recatada. “A cultura nos chama a tratar o corpo como objeto e, quando as meninas se comportam dessa maneira, são expostas e ridicularizadas. É algo enlouquecedor para as mulheres”, afirma Valeska Zanello, coordenadora do Grupo de Estudos sobre Saúde Mental e Gênero da Universidade de Brasília (UnB).

De fato, os efeitos psicológicos causados por essa exposição são violentos – vão do abandono escolar ao suicídio e podem afetar também meninos. “Há garotos gays expostos e intensamente discriminados por não corresponderem ao comportamento considerado padrão de masculinidade. Isso também é machismo”, diz Vanessa Cândida, comunicadora do Cedeca e membro do coletivo feminista Mulheres na Luta.


Quando é preciso convencer as meninas sobre o feminismo

As ocupações das escolas de Ensino Médio, em 2015, ampliaram o horizonte de muitas garotas. Na EE Fernão Dias Paes, na capital paulista, o debate sobre gênero era comum durante os protestos.

Com a volta às aulas, as meninas sentiram necessidade de prosseguir o diálogo e criaram um grupo feminista, o Minas de Luta. “Muitas meninas implicavam umas com as outras por causa de garotos e outros assuntos pessoais. O grupo foi criado para diminuir os comentários e promover a união”, diz Nathalia Rossi Roldan, 15 anos (a segunda da esquerda para a direita).

A primeira grande ação foi um jogral no dia das mulheres, 8 de março. “Usamos batom vermelho, demos as mãos no pátio e gritamos palavras de ordem. Algumas que nem sabiam o que era feminismo se interessaram pelo debate e participaram”, conta Lizandra Lima, 16 anos. O coletivo passa agora por um período de hibernação – algo relativamente comum entre os movimentos estudantis –, mas os impactos da discussão são comemorados. “É visível que a convivência entre nós melhorou e os xingamentos diminuíram”, diz Lizandra.


Mulher não serve para exatas?

Outro aspecto do sexismo diz respeito às expectativas de aprendizagem de garotos e garotas – e como isso se reflete em suas escolhas futuras. “Na Educação, permanecem desigualdades mais sutis, como a ausência de mulheres na área de exatas”, explica Kaká Verdade, coordenadora do Fundo Elas de Desenvolvimento Social. Novamente, não se trata de dado natural ou fruto do acaso. Ao longo da escolaridade, as meninas são estimuladas a desenvolver a afetividade, o cuidado e a sensibilidade. Enquanto os garotos desenvolvem habilidades de raciocínio lógico e precisão.

Paulo Blikstein, professor da Universidade de Stanford, uma das melhores do mundo, explica que todos são igualmente capazes de aprender, mas as mulheres acabam desestimuladas a seguir a área de exatas. Começa na família, que em geral compra a ideia de que há papéis sociais e profissões típicas de homens e de mulheres. Segue ao longo da escolarização, com as opções do currículo e as ações do dia a dia. “As meninas passam a acreditar em sua fictícia falta de capacidade por não verem exemplos de sucesso na área que estão estudando e por ouvirem afirmações aparentemente inocentes, como ‘Tudo bem, esse exercício estava muito difícil para você’.”


Elas querem, podem e sabem programar

No Colégio Estadual da Cachoeira, na Bahia, a ideia do projeto #NativasDigitais era oferecer oficinas sobre programação e webdesign apenas para meninas. Mas o interesse foi pífio: apenas três alunas se matricularam. “Havia tanto uma resistência das meninas, por não acharem que o curso seria de seu interesse, quanto preconceito dos meninos, que falavam mal de quem entrasse no curso”, conta Eva Bahia, educadora do projeto e ex-aluna da escola.

Foi preciso discutir a participação das mulheres nas profissões de exatas e uma palestra de uma técnica em robótica para vencer a barreira: as inscrições saltaram para 57 interessadas. “Sempre gostei de Matemática e Física, adorei conhecer o universo da programação. Quero trabalhar com isso no futuro”, afirma Naiana Lima de Oliveira Sampaio da Silva, 16 anos (a terceira da esquerda para a direita). Ela ecoa o propósito do curso: mostrar que, se as garotas quiserem, podem ter a possibilidade de cursar uma faculdade na área de exatas.

Com o passar dos anos, as garotas que no início do Fundamental amavam Matemática saem da escola tendo a certeza de que a área não é para elas. Para Paulo, isso só reforça a importância de trabalhar, na escola, as referências e possibilidades que as meninas podem não encontrar nem na mídia nem na família. Bons exemplos ainda são raros, mas já aparecem em trabalhos pioneiros como o da professora Gina Vieira Ponte, que traz biografias de mulheres de sucesso para o currículo (veja quadro abaixo), ou o edital Elas nas Exatas, que selecionou dez projetos, como o #NativasDigitais, que estimulam alunas de escolas públicas a conhecerem conteúdos e profissões da área de tecnologia.


Mudança que a lei não pode conter

Ao mesmo tempo que a escola é uma instituição que historicamente tem colaborado para que o machismo sobreviva, ela também tem o potencial de desconstruir essa cultura. “É um dos ambientes mais eficazes para promover o respeito e a valorização mútuos”, defende Maria Helena.

A solução sempre vai passar, de alguma maneira, pela coragem de debater gênero e sexualidade. “Terá falhado a escola que consegue ensinar a ler e escrever, mas que não estimula a reflexão sobre as relações entre homens e mulheres. Se a escola corrige quando se trata de ensinar a norma culta da escrita, por exemplo, também deve corrigir quando há algum ataque à igualdade e à democracia”, defende Daniela Auad, professora do departamento de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autora do livro Feminismo: Que História É Essa?

O trabalho se torna mais necessário num momento em que a legislação se coloca na direção oposta ao avanço da sociedade. “Na votação do Plano Nacional de Educação (PNE), a palavra ‘gênero’ saiu das diretrizes. A mobilização das meninas mostra como essa decisão foi equivocada. A escola está mudando de uma maneira que a legislação não consegue conter”, diz Maíra, da UFBA. As meninas respondem – e de muitas maneiras. No Rio de Janeiro, criam times de futebol feminino e desafiam os garotos. Ou exigem uma discussão sobre os uniformes. No interior da Bahia, participam de um curso de Matemática e programação só para garotas. E, em São Paulo, aprendem que a união pode superar as desavenças. Elas mantêm a braveza das feministas clássicas, mas apenas quando têm direitos negados ou reduzidos pelo fato de serem mulheres. Bem-vinda e bem-vindo ao feminismo do século 21.

Por um currículo com mulheres incríveis

O feminismo vem cheio de estereótipos. Gina Vieira Ponte mostra que existem vários jeitos de ser feminista. Evangélica e militante negra, a professora de Língua Portuguesa da rede pública do Distrito Federal apresentou dez biografias de mulheres às turma do 9º ano. “Busquei mais novas, como Anne Frank e Malala, idosas, como Madre Teresa, da academia, das artes, com pouca escolaridade, brancas e negras. Quis montar um time diverso”, conta a educadora.

Os alunos também conheceram a história de mulheres da própria comunidade de Ceilândia. Gina pediu que cada aluno escrevesse uma redação sobre a mulher inspiradora de sua vida. O que recebeu foi uma série de relatos emocionantes. Mulheres que tiveram seus direitos violados, que foram expulsas de casa porque engravidaram, que tinham uma vida de liderança na comunidade, representando algum grupo. “Vejo que essa atividade gerou duas consequências igualmente proveitosas. De um lado, as próprias mulheres que foram tema das redações se sentiram valorizadas. Muitas ficaram surpresas ao descobrir que serviam de inspiração. De outro, os alunos viram desafios que as mulheres enfrentam pelo simples fato de serem mulheres”, reflete.


Fonte: Portal Nova Escola

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